Vivo
meu instante final e é como
se vivesse há muitos anos
antes e depois de hoje,
uma contínua vida irrefrável,
onde não houvesse pausas, sonos,
tão macia na noite é esta máquina e tão facilmente ela corta
blocos cade vaz maiores de ar.
Sou vinte na máquina
que suavemente respira,
entre placas estelares e remotos sopros de terra,
sinto-me natural a milhares de metro de altura,
nem ave nem mito,
guardo consciência de meus poderes,
e sem mistificação eu vôo,
sou um corpo voante e conservo bolsos, relógios, unhas,
ligado à terra pela memória e pelo costume dos músculos,
carne em breve explodindo.
Ó brancura, serenidade sob a violência
da morte sem aviso prévio,
cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico
golpe vibrado no ar, lâmina de ventono pescoço, raio
choque estrondo fulguração
rolamos pulverizados
caio verticalmente e me transformo em notícia.
(Morte no Avião - Carlos Drummond de Andrade)
quarta-feira, julho 18, 2007
quarta-feira, julho 11, 2007
CONCÍLIO VATICANO
Por decreto papal fica assim determinado
que Cristo não pode jamais se transformar em elefante
visitar a Índia e se compadecer das castas
não poderá adotar o nome de Shiva
Por decreto de Sua Santidade, o Papa
fica Cristo proibido de festejar nos terreiros
de aparecer vestido de branco e comer pipoca
com seus pares. Que ele não se chama Oxalá
e Oxalá é coisa dos negros
Que esteja ressaltado, nos termos dessa norma
que estão fora do benefício da piedade
proibidos de comungar da face concedida
apartados do sacrifício final
os protestantes, porque protestam
E assim determinou o Papa, nesse Concílio ensimesmado
que Cristo ande na linha
que seja fiel com seus ministros
nada de sorrir para quem não vai à missa
ou ensinar filosofia nas universidades
Cristo tem que ficar
pendurado no seu lugar por direito
crucificado eternamente
eternamente dolorido
lá na igreja católica, o monopólio do menino
que achava que tinha vindo ao mundo para todos
que Cristo não pode jamais se transformar em elefante
visitar a Índia e se compadecer das castas
não poderá adotar o nome de Shiva
Por decreto de Sua Santidade, o Papa
fica Cristo proibido de festejar nos terreiros
de aparecer vestido de branco e comer pipoca
com seus pares. Que ele não se chama Oxalá
e Oxalá é coisa dos negros
Que esteja ressaltado, nos termos dessa norma
que estão fora do benefício da piedade
proibidos de comungar da face concedida
apartados do sacrifício final
os protestantes, porque protestam
E assim determinou o Papa, nesse Concílio ensimesmado
que Cristo ande na linha
que seja fiel com seus ministros
nada de sorrir para quem não vai à missa
ou ensinar filosofia nas universidades
Cristo tem que ficar
pendurado no seu lugar por direito
crucificado eternamente
eternamente dolorido
lá na igreja católica, o monopólio do menino
que achava que tinha vindo ao mundo para todos
segunda-feira, julho 09, 2007
quarta-feira, julho 04, 2007
O CÍCLOPE
Lanço-me ao mundo como quem
por nada se abate no meio do caminho
mas refaço (na mente, ora sozinho)
a alegria de ser bandeirante
dessa estrada normal, fronte e perene,
como se fosse eu navegante
do navio do mundo, esse rente.
Mas antes de cruzar a minha rua
que é porto desse mar inexistente
bem no ápice da glória de ser
homem livre, imortal, transcendente
um gigante me pára e me estanca
com uma carranca de olho-só reluzente
E me olha com o olho bem vermelho
e me diz que o mundo a ser descoberto
é para quem, em si circunspecto,
detém a passividade do que sonha
e não do que se lança ao mar (sob glória)
com velocidade na alma sempre risonha
“Eis que me chamam semáforo ou farol
e eu sou a lembrança sempre presente
de que até mesmo o sol (em seu conseqüente
caminho), ao fim do dia simplesmente
cessa; interrompe-se azul no fim do horizonte
para que se possa dele dizer ‘de si, recomeça’
pare, por isso, e se contenha
espere que o tempo do mundo sobrevenha
e só assim, parado, poderás partir”
Eu, que ao meio do caminho não me abatia
nem por nada parava e prosseguia
com a imensa sede de domar essa nau
o navio do mundo, proa de pau
e gente, vou desfazendo essa alegoria
da velocidade inconseqüente e valentia
Então sob o olho vermelho pude entender
que no meio do caminho haverá sempre
uma parada. Que para poder se lançar
em uma nova nau ou na mesma estrada
a parada é escada nesse mar inexistente
lar do navio que sente essa imensa sede
E o olho do ciclope ficou verde
por nada se abate no meio do caminho
mas refaço (na mente, ora sozinho)
a alegria de ser bandeirante
dessa estrada normal, fronte e perene,
como se fosse eu navegante
do navio do mundo, esse rente.
Mas antes de cruzar a minha rua
que é porto desse mar inexistente
bem no ápice da glória de ser
homem livre, imortal, transcendente
um gigante me pára e me estanca
com uma carranca de olho-só reluzente
E me olha com o olho bem vermelho
e me diz que o mundo a ser descoberto
é para quem, em si circunspecto,
detém a passividade do que sonha
e não do que se lança ao mar (sob glória)
com velocidade na alma sempre risonha
“Eis que me chamam semáforo ou farol
e eu sou a lembrança sempre presente
de que até mesmo o sol (em seu conseqüente
caminho), ao fim do dia simplesmente
cessa; interrompe-se azul no fim do horizonte
para que se possa dele dizer ‘de si, recomeça’
pare, por isso, e se contenha
espere que o tempo do mundo sobrevenha
e só assim, parado, poderás partir”
Eu, que ao meio do caminho não me abatia
nem por nada parava e prosseguia
com a imensa sede de domar essa nau
o navio do mundo, proa de pau
e gente, vou desfazendo essa alegoria
da velocidade inconseqüente e valentia
Então sob o olho vermelho pude entender
que no meio do caminho haverá sempre
uma parada. Que para poder se lançar
em uma nova nau ou na mesma estrada
a parada é escada nesse mar inexistente
lar do navio que sente essa imensa sede
E o olho do ciclope ficou verde
terça-feira, julho 03, 2007
Quase uma crítica de cinema
Assisti extemporâneo a Baixio das Bestas, movido bem pela curiosidade de ver novamente um filme do Cláudio Assis. O diretor havia repercutido bem no meu imaginário a partir de Amarelo Manga. Logicamente as circunstâncias eram outras, e o texto da obra se perfaz com o contexto do auditório: em Amarelo Manga eu via, pela primeira vez, o Recife real pintado nas telas do cinema. Recife sem concessões à beleza decantada nos inúmeros frevos de bloco. Recife sujo, feio, do ventre inchado, amarelo e roxo como o cadáver Boca-de-Ouro das estórias de Gilberto Freyre.
Aqui e ali, alguns defeitos de narrativa e idéias caricatas, mas nada que prejudicasse o promissor caminho que seria trilhado a partir de então pelo diretor Cláudio Assis.
Justificada, portanto, minha curiosidade acerca do filme Baixio das Bestas.
O filme se desloca do urbano tratado em Amarelo Manga para a Zona da Mata pernambucana, onde se vê um purgatório situado entre o inferno de concreto da urbis recifense e o paraíso selvagem dos sertões pernambucanos. Novamente, como no filme anterior de Assis, não há foco em um personagem específico, mas o desfile de caricaturas que irão tratar, cada um a seu modo, a tese do filme: sexo e violência em uma sociedade decadente de valores. A tese de Amarelo Manga se repete, a diferença está na geografia que, de uma forma ou outra, irá refletir como elemento singularizador do que já antes foi mostrado.
Das críticas que tenho lido, há sempre o entusiasmo pelo Brasil (ou Nordeste) real retratado sem cores artificiais pelo diretor. A crítica do Sudeste não tem economizado nos elogios à lente real da câmera, lente de carne não de vidro, lente de gente não digital. E confessei que esse mesmo elogio à carne foi que me entusiasmou à época de Amarelo Manga. O contexto era outro, e essa carne exposta hoje não traz tanto entusiasmo a mim, que não sou crítico, mas auditório.
Baixio das Bestas tem o seu valor. Fica fácil de perceber sua importância a partir da câmera segura, da fotografia excelente, e dos atores que demonstram desprendimento na entrega à tese defendida no filme.
O grande problema de Baixio, no entanto, reside na percepção de que é muito fácil chocar a crítica do Sudeste a partir da reprodução da violência que já estamos acostumados. E assim o filme se transforma em um simulacro do jornal cotidiano capaz de gerar o mesmo tipo de discussão que se tenciona a partir do filme. As saídas fáceis continuam na forma caricata dos agroboys, tratados a partir da leniência materna que pode ser interpretada como representação fácil do próprio Estado ausente; a metáfora fácil da fossa interminável, a fala fácil do personagem interpretado por Matheus Nachtergaele, que trata a metalinguagem de maneira fácil.
O filme ficou fácil ao tratar de um tema difícil. E só se choca com ele quem não mora na minha rua.
Aqui e ali, alguns defeitos de narrativa e idéias caricatas, mas nada que prejudicasse o promissor caminho que seria trilhado a partir de então pelo diretor Cláudio Assis.
Justificada, portanto, minha curiosidade acerca do filme Baixio das Bestas.
O filme se desloca do urbano tratado em Amarelo Manga para a Zona da Mata pernambucana, onde se vê um purgatório situado entre o inferno de concreto da urbis recifense e o paraíso selvagem dos sertões pernambucanos. Novamente, como no filme anterior de Assis, não há foco em um personagem específico, mas o desfile de caricaturas que irão tratar, cada um a seu modo, a tese do filme: sexo e violência em uma sociedade decadente de valores. A tese de Amarelo Manga se repete, a diferença está na geografia que, de uma forma ou outra, irá refletir como elemento singularizador do que já antes foi mostrado.
Das críticas que tenho lido, há sempre o entusiasmo pelo Brasil (ou Nordeste) real retratado sem cores artificiais pelo diretor. A crítica do Sudeste não tem economizado nos elogios à lente real da câmera, lente de carne não de vidro, lente de gente não digital. E confessei que esse mesmo elogio à carne foi que me entusiasmou à época de Amarelo Manga. O contexto era outro, e essa carne exposta hoje não traz tanto entusiasmo a mim, que não sou crítico, mas auditório.
Baixio das Bestas tem o seu valor. Fica fácil de perceber sua importância a partir da câmera segura, da fotografia excelente, e dos atores que demonstram desprendimento na entrega à tese defendida no filme.
O grande problema de Baixio, no entanto, reside na percepção de que é muito fácil chocar a crítica do Sudeste a partir da reprodução da violência que já estamos acostumados. E assim o filme se transforma em um simulacro do jornal cotidiano capaz de gerar o mesmo tipo de discussão que se tenciona a partir do filme. As saídas fáceis continuam na forma caricata dos agroboys, tratados a partir da leniência materna que pode ser interpretada como representação fácil do próprio Estado ausente; a metáfora fácil da fossa interminável, a fala fácil do personagem interpretado por Matheus Nachtergaele, que trata a metalinguagem de maneira fácil.
O filme ficou fácil ao tratar de um tema difícil. E só se choca com ele quem não mora na minha rua.
sexta-feira, junho 22, 2007
Na Rua do Sabão
Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!
O que custou arranjar aquêle balãozinho de papel!
Quem fêz foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de sêda, cortou-o com amor, compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.
Ei-lo agora que sobe - pequena coisa tocante na escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de côr.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!
Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente...
Como se o enchesse o soprinho tísico do José.
Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balão!
Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais.
Ele foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar - nas águas puras do mar alto
Manuel Bandeira
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!
O que custou arranjar aquêle balãozinho de papel!
Quem fêz foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de sêda, cortou-o com amor, compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.
Ei-lo agora que sobe - pequena coisa tocante na escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de côr.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!
Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente...
Como se o enchesse o soprinho tísico do José.
Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balão!
Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais.
Ele foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar - nas águas puras do mar alto
Manuel Bandeira
segunda-feira, junho 18, 2007
Ster, Pernambuco na imensidão
quinta-feira, junho 14, 2007
O FANTASMA DA REPARTIÇÃO
Quando o corpo esfriou de matéria
E o caixão era tudo que se mostrava restar
Sr. José Antônio levantou-se do seu túmulo
E objetivando a repartição pôs-se a andar
Anda que anda: “será que não há descanso
para a alma concursada?”
Enquanto algumas almas seguiam para o inferno
Enquanto outras tantos para o céu rumavam
O Sr. José atravessa a Rua do Imperador
Como se os formulários públicos fossem sua estrada
E o vigia da repartição por vezes e outras
No fim da noite jurava que ouvia
Uma máquina de escrever batendo sozinha
Escrevendo em papel nenhum a mesma melancolia:
“É da eternidade da alma que nasce o suspiro
É da eternidade da alma que nasce a burocracia”
E o caixão era tudo que se mostrava restar
Sr. José Antônio levantou-se do seu túmulo
E objetivando a repartição pôs-se a andar
Anda que anda: “será que não há descanso
para a alma concursada?”
Enquanto algumas almas seguiam para o inferno
Enquanto outras tantos para o céu rumavam
O Sr. José atravessa a Rua do Imperador
Como se os formulários públicos fossem sua estrada
E o vigia da repartição por vezes e outras
No fim da noite jurava que ouvia
Uma máquina de escrever batendo sozinha
Escrevendo em papel nenhum a mesma melancolia:
“É da eternidade da alma que nasce o suspiro
É da eternidade da alma que nasce a burocracia”
terça-feira, junho 12, 2007
“Quando teu não-olhar encontra meu olhar
é mentira
é o desejo querendo concretizar-se
teu ícone paralisado bebendo meu movimento
o que poderia ser e o que não é”
( Poema extraído do Diário de um Médico de Rubens Aires)
“ Então eu vi Rubens pela primeira vez. A princípio o achei parecido com Fabrício. Deus meu, como estava enganada. Do segundo relance, quando meu noivo chamou a atenção, vi uma beleza que não era comum a tantos homens com quem tenho cruzado por este mundo. Seus olhos escuros, sua face lisa, sem barba, sua boca bem feita. Não era alto, não era baixo, mas quando gesticulava, parecia tornar-se enorme frente a pequenez da nossa pluralidade campestre. Rubens era singular, diferente da introspeção destas terras que se parece muito com a introspeção dos suíços e dos belgas. Naquele momento em que ele beijou a minha mão, senti o hálito terrível do destino baforando em minha nuca e o suspiro de Fabrício se afastando de minha boca”
( Texto extraído do diário pessoal de Ariel Souza d’Alencar, publicado com a permissão da família Souza d’Alencar).
é mentira
é o desejo querendo concretizar-se
teu ícone paralisado bebendo meu movimento
o que poderia ser e o que não é”
( Poema extraído do Diário de um Médico de Rubens Aires)
“ Então eu vi Rubens pela primeira vez. A princípio o achei parecido com Fabrício. Deus meu, como estava enganada. Do segundo relance, quando meu noivo chamou a atenção, vi uma beleza que não era comum a tantos homens com quem tenho cruzado por este mundo. Seus olhos escuros, sua face lisa, sem barba, sua boca bem feita. Não era alto, não era baixo, mas quando gesticulava, parecia tornar-se enorme frente a pequenez da nossa pluralidade campestre. Rubens era singular, diferente da introspeção destas terras que se parece muito com a introspeção dos suíços e dos belgas. Naquele momento em que ele beijou a minha mão, senti o hálito terrível do destino baforando em minha nuca e o suspiro de Fabrício se afastando de minha boca”
( Texto extraído do diário pessoal de Ariel Souza d’Alencar, publicado com a permissão da família Souza d’Alencar).
sexta-feira, junho 01, 2007
As Músicas do Disco (será que sai :( ?)
The Outsider´s Samba Soundtrack
Chegou atrasada e demente
Com marcas que possivelmente
São feitas sob os lençóis
Bebeu do meu copo na mesa
E me disse “é apenas cerveja,
Então não faça caso irmão
Que hoje eu não estou pra não”
Beijou a boca da Rosa
Enfiou-me um dedo de prosa
Pedindo pra eu não me afastar
“Que trago cocada boa
e outras coisas à toa
enquanto o Mundo vai dormir
vamos fazer o samba cantar”
Ela é minha rota desvia
A noite sangrando em meu dia
Canonizada por beberrões
Santa de pecados e de ladrões
Agora eu estou sem ela
E a vida me vê na janela
Olhando a vida passar
Agora eu estou na janela
E a vida que se faz sem ela:
Café, almoço e jantar
(esperando a vida passar)
(lá fora o samba vai cantar)
O Jovem Gilberto Freyre ou a Invenção do Brasil
Essa multa quando pisa no terreiro
Ilumina um povo inteiro
Dentro do meu coração
Eu vou traçando em suas pernas novas rotas
Como quem suave aporta
Em um porto em formação
Essa cabrocha do gostinho brasileiro
Me concede o corpo inteiro
Pra eu entender a minha mãe
Vai tatuando em minha pele um novo Estado
Que emerge inventado
Na ante-sala das manhãs
Se ela vive entre as estrelas
Se ela é meu grande amor
Ai minha cabrocha
Flor do mundo
Minha flor
Ela vem me dar um beijo
Reconstrói minha raiz
Abro os meus braços
E abraço o meu país
Eu ouço os passos de um país se costurando
Nas alcovas se formando
Entre desejos e tendões
Eu ouço as vozes de um país que é sussurrado
Como quem faz um pecado
E não se arrepende depois
Eu vejo os passos da morena brasileira
Se chegando sorrateira e presidindo minha nação
E na delícia dos seus passos mais bonitos
Vou convencer os mais aflitos
Que isso é evolução
Valsa para Angenor
Entre a carne e a cruz
Onde mora a dor
Onde o meu samba fez morada
E a semente nunca vira flor
Nesse grande mar
Solitário e vão
Fico porta-voz da alvorada
Cubro de verde e rosa o meu chão
A noite quando me vem é madrugada
E o mundo já se tarda dentro de mim
O samba é quem me mostra
A flor a ser exposta
Na valsa da solidão de quem diz sim
Samba Muderno
Esse samba de roda é muderno
É pra quem tem sandália no pé
Descobri que o samba é a força
Que põe força na minha fé
Vou deixar minha guitarra de lado
Vou deixa minha barba crescer
Pedir bença pra Mãe Clementina
E fincar minha raiz num bangüê
Você pode ser emo ou Hermano
Você pode ser do Mombojó
O meu samba de roda é muderno
Mas é levado na palma da mão
Sampleando a voz do passado
Vou cantar a glória nacional
Onde quer que se faça um barraco
Vai ser lá minha Lapa pessoal
Burburinho (to lá...)
No Cafofa (tô lá)
No Quintal (to lá)
Lá na Toca....
Chegou atrasada e demente
Com marcas que possivelmente
São feitas sob os lençóis
Bebeu do meu copo na mesa
E me disse “é apenas cerveja,
Então não faça caso irmão
Que hoje eu não estou pra não”
Beijou a boca da Rosa
Enfiou-me um dedo de prosa
Pedindo pra eu não me afastar
“Que trago cocada boa
e outras coisas à toa
enquanto o Mundo vai dormir
vamos fazer o samba cantar”
Ela é minha rota desvia
A noite sangrando em meu dia
Canonizada por beberrões
Santa de pecados e de ladrões
Agora eu estou sem ela
E a vida me vê na janela
Olhando a vida passar
Agora eu estou na janela
E a vida que se faz sem ela:
Café, almoço e jantar
(esperando a vida passar)
(lá fora o samba vai cantar)
O Jovem Gilberto Freyre ou a Invenção do Brasil
Essa multa quando pisa no terreiro
Ilumina um povo inteiro
Dentro do meu coração
Eu vou traçando em suas pernas novas rotas
Como quem suave aporta
Em um porto em formação
Essa cabrocha do gostinho brasileiro
Me concede o corpo inteiro
Pra eu entender a minha mãe
Vai tatuando em minha pele um novo Estado
Que emerge inventado
Na ante-sala das manhãs
Se ela vive entre as estrelas
Se ela é meu grande amor
Ai minha cabrocha
Flor do mundo
Minha flor
Ela vem me dar um beijo
Reconstrói minha raiz
Abro os meus braços
E abraço o meu país
Eu ouço os passos de um país se costurando
Nas alcovas se formando
Entre desejos e tendões
Eu ouço as vozes de um país que é sussurrado
Como quem faz um pecado
E não se arrepende depois
Eu vejo os passos da morena brasileira
Se chegando sorrateira e presidindo minha nação
E na delícia dos seus passos mais bonitos
Vou convencer os mais aflitos
Que isso é evolução
Valsa para Angenor
Entre a carne e a cruz
Onde mora a dor
Onde o meu samba fez morada
E a semente nunca vira flor
Nesse grande mar
Solitário e vão
Fico porta-voz da alvorada
Cubro de verde e rosa o meu chão
A noite quando me vem é madrugada
E o mundo já se tarda dentro de mim
O samba é quem me mostra
A flor a ser exposta
Na valsa da solidão de quem diz sim
Samba Muderno
Esse samba de roda é muderno
É pra quem tem sandália no pé
Descobri que o samba é a força
Que põe força na minha fé
Vou deixar minha guitarra de lado
Vou deixa minha barba crescer
Pedir bença pra Mãe Clementina
E fincar minha raiz num bangüê
Você pode ser emo ou Hermano
Você pode ser do Mombojó
O meu samba de roda é muderno
Mas é levado na palma da mão
Sampleando a voz do passado
Vou cantar a glória nacional
Onde quer que se faça um barraco
Vai ser lá minha Lapa pessoal
Burburinho (to lá...)
No Cafofa (tô lá)
No Quintal (to lá)
Lá na Toca....
Estorinha de Luciana
Luciana nunca atende o celular. Sempre nos momentos mais ordinários da vida, quando realmente precisamos de mais do que um eco no outro lado da linha, a chamada segue seu tom até o fim sem que me reste um “alô” por conforto. Luciana nunca atende o celular. O seu número gravado na memória digital do meu aparelho é um memorial à esperança de que um dia, quando o céu de agosto tocar o horizonte, Luciana consubstanciar-se-á em impulsos elétricos, em lembranças de cheiros, em um corpo que um dia confrontou o meu. Mas só esperança. Duvidam eles de mim: Luciana não existe. Como crianças amorais de um pré-escolar imaginário: Luciana não existe.
Existirá Luciana? Somos algo mais do que esses impulsos elétricos que enviamos para os nossos? Além desse número digital, há alguém que se conforta com sua pele, seus olhos, seu cabelo? Chego a duvidar de Luciana, e tomo por testemunha esse tom de chamada nunca atendida que me diz: Luciana nunca atende o celular.
E Luciana, que nunca atende o celular, vai migrando para a casta das figuras mitológicas, dos deuses esquecidos, das nossas senhoras da moda que passou. E lá do outro lado da cidade, mora uma menina chamada Luciana que por nunca atender o celular virou lenda.
Existirá Luciana? Somos algo mais do que esses impulsos elétricos que enviamos para os nossos? Além desse número digital, há alguém que se conforta com sua pele, seus olhos, seu cabelo? Chego a duvidar de Luciana, e tomo por testemunha esse tom de chamada nunca atendida que me diz: Luciana nunca atende o celular.
E Luciana, que nunca atende o celular, vai migrando para a casta das figuras mitológicas, dos deuses esquecidos, das nossas senhoras da moda que passou. E lá do outro lado da cidade, mora uma menina chamada Luciana que por nunca atender o celular virou lenda.
quinta-feira, maio 31, 2007
Pour Rodrigo
Polly Nichols
(Rodrigo Pinto)
Quase seis, a tarde morta.
A noite dobra a esquina.
A chuva deu uma trégua,
Mas deixou uma bruma fina.
Esse ar enevoado,
Embaçando minhas retinas,
Lembra o fog tão fleumático
Das tais vielas londrinas
Perto da branca capela,
Onde Jack, o Estripador,
Imolava as suas vítimas:
Mariposas muito brancas
E vermelhas, viciadas
Em gim vagabundo, tísicas.
Certa feita uma delas
Me apareceu em sonho
E falou no meu ouvido
O nome do seu algoz.
“A morte é imponderável
Como uma rosa desmaiada”,
Disse, num fatal suspiro,
A paloma malsinada,
Dirigindo-se à janela
Que mantenho sempre aberta,
Mesmo quando o frio lá fora
É um açoite (afinal
Nunca se sabe quem po-
derá do meio da escu-
ridão sair para di-
zer-me o seu boa-noite).
(Rodrigo Pinto)
Quase seis, a tarde morta.
A noite dobra a esquina.
A chuva deu uma trégua,
Mas deixou uma bruma fina.
Esse ar enevoado,
Embaçando minhas retinas,
Lembra o fog tão fleumático
Das tais vielas londrinas
Perto da branca capela,
Onde Jack, o Estripador,
Imolava as suas vítimas:
Mariposas muito brancas
E vermelhas, viciadas
Em gim vagabundo, tísicas.
Certa feita uma delas
Me apareceu em sonho
E falou no meu ouvido
O nome do seu algoz.
“A morte é imponderável
Como uma rosa desmaiada”,
Disse, num fatal suspiro,
A paloma malsinada,
Dirigindo-se à janela
Que mantenho sempre aberta,
Mesmo quando o frio lá fora
É um açoite (afinal
Nunca se sabe quem po-
derá do meio da escu-
ridão sair para di-
zer-me o seu boa-noite).
quarta-feira, maio 23, 2007
REVEL
Trago sempre comigo essa impressão de revelia
De que as coisas acontecem no ponto cego do meu retrovisor
Desapercebidas de mim que me preocupo com a rua defronte
E não consigo enxerga-las no ponto cego do meu retrovisor:
Um unicórnio negro, Ulisses se preparando para sair de casa
Um ciclope, uma bruxa, Jesus Cristo
Quando dou por mim, eles já não estão mais lá
E só me sobra esta estrada de concreto
Com pessoas preocupadas se vão morrer
Homens consertando os postes de luz
O vapor da vida a despejar-se dos seus suportes vãos
Mas a beleza sobrevivente dos contos de fada
O mistério do divino para o ateu e para o crente
A máquina do mundo a abrir-se para quem nela crê:
Sempre no ponto cego do meu retrovisor
À revelia de mim, o mundo vira poema
De que as coisas acontecem no ponto cego do meu retrovisor
Desapercebidas de mim que me preocupo com a rua defronte
E não consigo enxerga-las no ponto cego do meu retrovisor:
Um unicórnio negro, Ulisses se preparando para sair de casa
Um ciclope, uma bruxa, Jesus Cristo
Quando dou por mim, eles já não estão mais lá
E só me sobra esta estrada de concreto
Com pessoas preocupadas se vão morrer
Homens consertando os postes de luz
O vapor da vida a despejar-se dos seus suportes vãos
Mas a beleza sobrevivente dos contos de fada
O mistério do divino para o ateu e para o crente
A máquina do mundo a abrir-se para quem nela crê:
Sempre no ponto cego do meu retrovisor
À revelia de mim, o mundo vira poema
segunda-feira, maio 21, 2007
terça-feira, maio 15, 2007
O amor pela manhã
As coisas amanhecem fictas
Metade ainda de matéria sonhada, outra metade quiçá
irreconhecível de si, como se lançada do útero naquela hora:
o bocejo, o olho entreaberto, o livro não lido
as dúvidas se somos aquilo que somos
ou algo sonhado pelo que não compreendemos
As coisas amanhecem nuvens
Coisa real à vista, mas ao tato, à língua, ao cheiro
irremediavelmente fugidio a tangência do homem
Custa a chegar essa matéria, que só advém depois do banho
Mas nós, nós amanhecemos carne
passíveis de sermos tocados por qualquer um que se aproxime
embora segredados pela cama que é embrulho dessa carne
gritamos o pregão tão real quanto o do vendedor de vassouras:
-Temos cheiro, temos gosto, podem nos tocar
Vamos ser fictos no decorrer do dia
Enquanto o mundo se materializa em preços
Metade de nós queda sonhando com a carne que antecedeu ao sonho,
nos dispersamos como nuvem na multidão tangível
Metade ainda de matéria sonhada, outra metade quiçá
irreconhecível de si, como se lançada do útero naquela hora:
o bocejo, o olho entreaberto, o livro não lido
as dúvidas se somos aquilo que somos
ou algo sonhado pelo que não compreendemos
As coisas amanhecem nuvens
Coisa real à vista, mas ao tato, à língua, ao cheiro
irremediavelmente fugidio a tangência do homem
Custa a chegar essa matéria, que só advém depois do banho
Mas nós, nós amanhecemos carne
passíveis de sermos tocados por qualquer um que se aproxime
embora segredados pela cama que é embrulho dessa carne
gritamos o pregão tão real quanto o do vendedor de vassouras:
-Temos cheiro, temos gosto, podem nos tocar
Vamos ser fictos no decorrer do dia
Enquanto o mundo se materializa em preços
Metade de nós queda sonhando com a carne que antecedeu ao sonho,
nos dispersamos como nuvem na multidão tangível
terça-feira, maio 08, 2007
Imagine me and you, I do...
quarta-feira, maio 02, 2007
Lavoura
Plantei em meu peito vinte rosas rubras
Reguei e adubei com todas as coisas-belas a que minha vida se submeteu:
A face concedida depois da cama, a humildade de se supor nada e nunca, a estética simples
Do nada desejar senão aquilo que se é concedido
Aguardei a primavera como quem enxerga castelos e destinos para além da televisão
Mas a terra que cedeu em meu peito não era propícia à lavoura de rosas
E as sementes em mim plantadas se contaminaram com coisas-reais (coisas fatalmente reais como o choro de uma mãe que sobreviveu à morte do filho
como o desejo inconfessável de um velho que morre aos poucos frente a uma escola ginasial)
contaminaram-se com as minhas indisfarçáveis guerras contra o grande amor
E eis que ao invés de rubras rosas, nasceu em meu peito uma planta carnívora
E é por isso que sou poeta
Reguei e adubei com todas as coisas-belas a que minha vida se submeteu:
A face concedida depois da cama, a humildade de se supor nada e nunca, a estética simples
Do nada desejar senão aquilo que se é concedido
Aguardei a primavera como quem enxerga castelos e destinos para além da televisão
Mas a terra que cedeu em meu peito não era propícia à lavoura de rosas
E as sementes em mim plantadas se contaminaram com coisas-reais (coisas fatalmente reais como o choro de uma mãe que sobreviveu à morte do filho
como o desejo inconfessável de um velho que morre aos poucos frente a uma escola ginasial)
contaminaram-se com as minhas indisfarçáveis guerras contra o grande amor
E eis que ao invés de rubras rosas, nasceu em meu peito uma planta carnívora
E é por isso que sou poeta
segunda-feira, abril 30, 2007
Tigre, Tigre

Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?
(W. Blake)
Maria Eduarda me puxa pela mão e me mostra o segredinho de tantos dias: um tigre branco. Mas um tigre, Maria Eduarda? É, um tigre, papai...Tento explicar à Maria Eduarda que tigres são criaturas selvagens, ou que, do ponto de vista do romantismo inglês, os tigres são a perfeita representação da força da natureza, e, portanto, não seriam as criaturas mais plausíveis para caminhar pela sala de jantar. Mas qualquer argumento estético ou biológico fenece perante os olhinhos de retrós de Maria Eduarda que proclama: ele é tão bonitinho.
Devo concordar que o tigre branco é realmente de um apuro estético extremamente prazeroso para qualquer mortal, ainda mais para uma criança de dois anos de idade que passou suas tardes olhando um livrinho de fotos de animais. Poder-se-ia argumentar que o tigre branco é uma criatura inverossímil, diante da incapacidade da babá de enxerga-lo, ou do descaso da mãe que não compreende a importância de um tigre branco, principalmente se confrontado com coisas mais tangíveis como a falta de leite em pó, ou o barulho insistente da geladeira.
Mas quem sou eu, tão liberto da verdade aristotélica, para não dar crédito ao tigre branco de Maria Eduarda que passeia pela sala de estar e olha curioso para a televisão ligada. Ele acompanhará minha filha pela vida afora, deglutirá, selvagem, cadernos de lição, livros de matemática, o menino chato que grudou um chiclete em seu cabelo.
Um dia, quando eu não mais o enxergar, o tigre virá sorrateiro, após a noite mal dormida em que proibi Maria Eduarda de ir a um show, e me devorará em silêncio sem que eu perceba meus braços, minhas pernas e meus olhos indo embora da existência sonhada.
E nas florestas da noite, Maria Eduarda terá crescido.
sexta-feira, abril 20, 2007
Galega: sou muito mais você do que todas essas poesias, filosofias, pensamentos
sou muito mais você do que Habermas, Dworkin, Apel
sou mais você do que Drummond, Pessoa, Yeats
mais você do que qualquer explicação da moral pós-transcendental
do que a guinada linguistica da filosofina analítica
que a palavra
q...
...
terça-feira, abril 17, 2007
A TERCEIRA GUERRA MUNDIAL
Muitos perguntavam para o Sr. David porque ele insistia morar perto da Kurfürstendamm; O aluguel do imóvel é caro e não existem as facilidades requisitadas para alguém daquela idade.
O que o Sr. David não confessava é que havia certo prazer em ser vizinho de um homem como Günter Grass; Não que o Sr. David fosse amigo ou coisa que o valha daquele senhor sempre acompanhado pelo cachimbo; sequer havia lido suas obras e seu teatro do absurdo. Só gostava de pensar que, na sua solidão, estava acompanhado de uma mente que havia ajudado a construir aquele tempo.
Entre eles havia o espaço de um cordial “bom dia”. E essa possibilidade de uma conversa maior, estancada pelos afazeres de ambos, era o suficiente para o gáudio do Sr. David.
As confissões de Günter Grass atingiram, de um modo ou outro, toda a classe intelectual alemã. Mas não tenho dúvidas que o Sr. David sentiu de modo desproporcional a entrevista concedida ao 'Frankfurter Allgemeine Zeitung', onde o Sr. Grass afirmou que foi voluntário ao servir a tropa de elite nazista.
No dia seguinte à publicação, o Prêmio Nobel de Literatura de 1999 encontrou o Sr. David na porta de casa e repetiu o rito do “bom dia”. Não houve resposta. Naquele mesmo mês, não havia mais vizinhança.
...............................................................................
Foi uma surpresa para Lindonéia encontrar Dona Clara na audiência pública convocada pelo Ministério Público. Lindonéia sempre reputou Dona Clara como uma pessoa de bem e fazia questão de levar suas amigas para apreciar o acarajé vendido na porta da sua Igreja-Assembléia.
Estando Dona Clara naquela audiência, ficou claro para Lindonéia que a vendedora de acarajé era íntima do terreiro de Pai Adão e, portanto, também responsável pelos cantos que invadiam e violentavam os louvores ao Deus único.
A Promotora não sabia como resolver as divergências de uma e de outra denominação religiosa. Não se sabia qual culto havia se estabelecido primeiro naquela circunscrição; os livros, as leis, a Constituição não ofereciam melhor resposta do que um oráculo de previsões vagas e imprecisas.
Ao sugerir o respeito mútuo e a compreensão às diferenças, a Promotora viu, pelo rabo do olho, Lindonéia passar na frente de Dona Clara e cuspir no chão, demarcando o limite entre um e outro deus.
..................................................................................................
Eu sinceramente havia esquecido o motivo daquela briga. Mas não ia abrir mão daquele silêncio. Havia um motivo ainda que esquecido entre a xícara da noite anterior e o marcador de livro lançado no chão.
Não olhei para ela. Coloquei a camisa, liguei o ar condicionado no máximo e deitei com as minhas costas voltadas para a coluna arqueada dela, que tecia uma muda conversa com o espaço de ar entre nós.
Não pedi desculpas. Não esperei desculpas dela. Eu segurava aquele silêncio como troféu de uma corrida em que não havia certeza de vencedor.
Fechei os meus olhos e quase pude ouvir as sirenes do bombardeio antiaéreo invadindo a cidade.
O que o Sr. David não confessava é que havia certo prazer em ser vizinho de um homem como Günter Grass; Não que o Sr. David fosse amigo ou coisa que o valha daquele senhor sempre acompanhado pelo cachimbo; sequer havia lido suas obras e seu teatro do absurdo. Só gostava de pensar que, na sua solidão, estava acompanhado de uma mente que havia ajudado a construir aquele tempo.
Entre eles havia o espaço de um cordial “bom dia”. E essa possibilidade de uma conversa maior, estancada pelos afazeres de ambos, era o suficiente para o gáudio do Sr. David.
As confissões de Günter Grass atingiram, de um modo ou outro, toda a classe intelectual alemã. Mas não tenho dúvidas que o Sr. David sentiu de modo desproporcional a entrevista concedida ao 'Frankfurter Allgemeine Zeitung', onde o Sr. Grass afirmou que foi voluntário ao servir a tropa de elite nazista.
No dia seguinte à publicação, o Prêmio Nobel de Literatura de 1999 encontrou o Sr. David na porta de casa e repetiu o rito do “bom dia”. Não houve resposta. Naquele mesmo mês, não havia mais vizinhança.
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Foi uma surpresa para Lindonéia encontrar Dona Clara na audiência pública convocada pelo Ministério Público. Lindonéia sempre reputou Dona Clara como uma pessoa de bem e fazia questão de levar suas amigas para apreciar o acarajé vendido na porta da sua Igreja-Assembléia.
Estando Dona Clara naquela audiência, ficou claro para Lindonéia que a vendedora de acarajé era íntima do terreiro de Pai Adão e, portanto, também responsável pelos cantos que invadiam e violentavam os louvores ao Deus único.
A Promotora não sabia como resolver as divergências de uma e de outra denominação religiosa. Não se sabia qual culto havia se estabelecido primeiro naquela circunscrição; os livros, as leis, a Constituição não ofereciam melhor resposta do que um oráculo de previsões vagas e imprecisas.
Ao sugerir o respeito mútuo e a compreensão às diferenças, a Promotora viu, pelo rabo do olho, Lindonéia passar na frente de Dona Clara e cuspir no chão, demarcando o limite entre um e outro deus.
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Eu sinceramente havia esquecido o motivo daquela briga. Mas não ia abrir mão daquele silêncio. Havia um motivo ainda que esquecido entre a xícara da noite anterior e o marcador de livro lançado no chão.
Não olhei para ela. Coloquei a camisa, liguei o ar condicionado no máximo e deitei com as minhas costas voltadas para a coluna arqueada dela, que tecia uma muda conversa com o espaço de ar entre nós.
Não pedi desculpas. Não esperei desculpas dela. Eu segurava aquele silêncio como troféu de uma corrida em que não havia certeza de vencedor.
Fechei os meus olhos e quase pude ouvir as sirenes do bombardeio antiaéreo invadindo a cidade.
terça-feira, abril 10, 2007
segunda-feira, abril 02, 2007
TOURADA
Isso, que me repudia, o matrimônio
Não entre a carne e a carne, mas a elegia
entre a carne e o aço, eu diria,
entre o touro e o braço à luz do dia
Isso, que me repudia, ou deveria,
causar ânsia de vômitos ou apatia
Dantes me causa um assombro ou uma alegria
De ver em tal casamento a fidalguia
da união carne a carne à luz do dia
O touro, este esposo em fúria, de si avança
Para abraçar sua morte, febril se lança
Que o casamento na arena não guarda a vida
Mas une em antítese a carne a sua própria ferida
Que a arena é da vida a anti-vida, da parte a contra-parte
Onde há a união, mora o aparte
Onde nasce o homem, Deus encontra a morte
Onde encontras teu executor, eis o teu consorte
Não entre a carne e a carne, mas a elegia
entre a carne e o aço, eu diria,
entre o touro e o braço à luz do dia
Isso, que me repudia, ou deveria,
causar ânsia de vômitos ou apatia
Dantes me causa um assombro ou uma alegria
De ver em tal casamento a fidalguia
da união carne a carne à luz do dia
O touro, este esposo em fúria, de si avança
Para abraçar sua morte, febril se lança
Que o casamento na arena não guarda a vida
Mas une em antítese a carne a sua própria ferida
Que a arena é da vida a anti-vida, da parte a contra-parte
Onde há a união, mora o aparte
Onde nasce o homem, Deus encontra a morte
Onde encontras teu executor, eis o teu consorte
segunda-feira, março 26, 2007
O Jogo Handke
Quando eu era criança
No tempo que minha janela dava para um pátio de escola
Meus olhos buscavam se fixar em um jogo de bola
Que se repetia sempre no mesmo horário
E eu admirava
Os jovens heróis que saíam do liceu
Davam as costas à cultura e à civilização
E repetiam o desdém de Esparta para com Atenas
Quando eu era criança
No tempo que minha janela dava para um pátio de escola
Meus olhos viam os jovens transcender suas circunstâncias
O tempo parava para saudar o jogo de bola
Ao nosso redor
uma inflação galopante corroia o tutano dos nossos pais
Não havia carne nos supermercados, nem nos nossos dentes
Homens se lançavam de prédios buscando a paz
Quando eu era criança
No tempo em que minha janela dava para um pátio de escola
José se lançava além de José, e tudo que importava era o gol
E eu admirava
Como quem assiste o extermínio de uma Tróia
Como quem é testemunha ocular de uma civilização esquartejada
Como um historiador que encontra um velho soldado
Como o escudeiro do maior de todos os heróis
Ao nosso redor
O povo clamava por eleições diretas
A língua inglesa colonizava as nossas refeições
As favelas mimetizavam a ousadia das marés
A casa com a janela não existe mais
alguém me disse que eu havia crescido
O que foi feito de José e dos outros heróis senão a realidade?
Eu descobri que as coisas aconteciam ao meu redor
As eleições diretas
O mar de favelas
José morto
É esse entorno de mim que me mata
No tempo que minha janela dava para um pátio de escola
Meus olhos buscavam se fixar em um jogo de bola
Que se repetia sempre no mesmo horário
E eu admirava
Os jovens heróis que saíam do liceu
Davam as costas à cultura e à civilização
E repetiam o desdém de Esparta para com Atenas
Quando eu era criança
No tempo que minha janela dava para um pátio de escola
Meus olhos viam os jovens transcender suas circunstâncias
O tempo parava para saudar o jogo de bola
Ao nosso redor
uma inflação galopante corroia o tutano dos nossos pais
Não havia carne nos supermercados, nem nos nossos dentes
Homens se lançavam de prédios buscando a paz
Quando eu era criança
No tempo em que minha janela dava para um pátio de escola
José se lançava além de José, e tudo que importava era o gol
E eu admirava
Como quem assiste o extermínio de uma Tróia
Como quem é testemunha ocular de uma civilização esquartejada
Como um historiador que encontra um velho soldado
Como o escudeiro do maior de todos os heróis
Ao nosso redor
O povo clamava por eleições diretas
A língua inglesa colonizava as nossas refeições
As favelas mimetizavam a ousadia das marés
A casa com a janela não existe mais
alguém me disse que eu havia crescido
O que foi feito de José e dos outros heróis senão a realidade?
Eu descobri que as coisas aconteciam ao meu redor
As eleições diretas
O mar de favelas
José morto
É esse entorno de mim que me mata
quarta-feira, março 21, 2007
Eu te disse...
Aí o Secretário Ariano Suassuna disse que quem escreveu a letra de uma música do Calypso era um "idiota, um imbecil". Eu tinha escrito anteriormente nesse blog que eleger um símbolo para administração da coisa pública poderia dar em má coisa. Sobremodo se esse símbolo é de um hermetismo em relação a formas de expressão artística que não as eleitas por si ou pelos seus.
Longe de mim lançar loas à música do Calypso. As letras são de uma precariedade simbólica que dispensa qualquer comentário mais aprofundado. A música é pobre dos seus arranjos à estrutura melódica. Mas quem sou eu para questionar a legitimidade dessa expressão musical? Sou versado em música? Sim, mas ainda assim não acho que esse fato em particular possa me dar um argumento de autoridade para questionar a legitimidade de uma música (ou de um gênero musical) quando o subconsciente da população está atrelado ao que eu não concordo como técnico.
Quero que fique claro: a crítica é legítima. O Secretário de cultura poderia dizer que esse gênero musical (se é que podemos algutinar as linhas do brega em um gênero) é pobre musicalmente, que suas letras se afastam da criatividade e da arte poética, ou ainda de manifestos inteligentes seja pela manutenção do status quo, seja pela superação do mesmo. O Secretário de cultura poderia sugerir que a população ouça outros gêneros musicais tecnicamente mais próximos do que seria a "bela-arte".
Mas o Secretário de cultura jamais poderia levar sua crítica a um grau de pessoalidade que o faz taxar de imbecil o compositor de uma canção imbecil. Esse discurso não condiz com o discurso de um Secretário de cultura. Condiz com o velho discurso de Ariano Suassuna que sempre elegeu seus requisitos e caminhos para se chegar em um conceito unívoco e válido de "arte". E aqueles que não se filiam a sua ditadura de requisitos e caminhos são idiotas e imbecis.
Longe de mim lançar loas à música do Calypso. As letras são de uma precariedade simbólica que dispensa qualquer comentário mais aprofundado. A música é pobre dos seus arranjos à estrutura melódica. Mas quem sou eu para questionar a legitimidade dessa expressão musical? Sou versado em música? Sim, mas ainda assim não acho que esse fato em particular possa me dar um argumento de autoridade para questionar a legitimidade de uma música (ou de um gênero musical) quando o subconsciente da população está atrelado ao que eu não concordo como técnico.
Quero que fique claro: a crítica é legítima. O Secretário de cultura poderia dizer que esse gênero musical (se é que podemos algutinar as linhas do brega em um gênero) é pobre musicalmente, que suas letras se afastam da criatividade e da arte poética, ou ainda de manifestos inteligentes seja pela manutenção do status quo, seja pela superação do mesmo. O Secretário de cultura poderia sugerir que a população ouça outros gêneros musicais tecnicamente mais próximos do que seria a "bela-arte".
Mas o Secretário de cultura jamais poderia levar sua crítica a um grau de pessoalidade que o faz taxar de imbecil o compositor de uma canção imbecil. Esse discurso não condiz com o discurso de um Secretário de cultura. Condiz com o velho discurso de Ariano Suassuna que sempre elegeu seus requisitos e caminhos para se chegar em um conceito unívoco e válido de "arte". E aqueles que não se filiam a sua ditadura de requisitos e caminhos são idiotas e imbecis.
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
Filie
Trago em mim algo imaculado
Fui justificado perante os séculos
Fui perdoado de todos os meus pecados
Um bom abre meus olhos para quem eu não era:
Pois trago em mim algo imaculado
Parem os bondes, as mortes, o aplauso à criança torturada
Cessem os choros, judias
Cale-se a devastação que sai do útero das máquinas
Desliguem a televisão:
Trago em mim algo imaculado
Abram as portadas da cidade imaginada
Abracem-se os mendigos com os grupos de extermínio
Eu quero uma foto amarelada de magnésio a romper o tempo
Perpetuando essa esperança que se deitou em minha cama:
Trago em mim algo imaculado
Vou despejar a vida como quem segreda a morte
E me farei à imagem de algo que apenas intuo
Adeus palavras, medos, ausências:
Trago em mim algo imaculado
Fui justificado perante os séculos
Fui perdoado de todos os meus pecados
Um bom abre meus olhos para quem eu não era:
Pois trago em mim algo imaculado
Parem os bondes, as mortes, o aplauso à criança torturada
Cessem os choros, judias
Cale-se a devastação que sai do útero das máquinas
Desliguem a televisão:
Trago em mim algo imaculado
Abram as portadas da cidade imaginada
Abracem-se os mendigos com os grupos de extermínio
Eu quero uma foto amarelada de magnésio a romper o tempo
Perpetuando essa esperança que se deitou em minha cama:
Trago em mim algo imaculado
Vou despejar a vida como quem segreda a morte
E me farei à imagem de algo que apenas intuo
Adeus palavras, medos, ausências:
Trago em mim algo imaculado
quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Os animais foram imperfeitos,
compridos de rabo, tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo,
fazendo-se paisagem, adquirindo pintas, graça vôo.
O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro
(Neruda, Ode ao Gato)
terça-feira, janeiro 30, 2007
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Os poemas de Francisco me deixam melancólico, porque traduzem com lâmina exposta a melancolia que habita nele. Esse é o móvel do poema, transcender o particular e alçar a dor alheia sem se dar conta dela. O poema abaixo lembra um poema que eu fiz em circunstâncias que acredito semelhantes as que levaram Francisco ao cinzel tão contundente. E isso sem que houvesse comunicação explícita, apenas porque ele virou letras.
Por descuido cruzei a fronteira.
Vivo estrangeiro em minha casa.
Bagagem revistada.
Íntimo exposto.
Parte impedida de prosseguir.
O peso dos rancores.
As múltiplas máscaras.
Memórias de amor.
Necessário o catálogo da vida.
O inventário de cada item a abandonar.
E lá se vão pedras e mais pedras.
Passos e mais passos.
Estórias.
E lá se vai insensatez. E espera.
E lá se vai tristeza.
No fim, apenas o indispensável.
O retrato do menino de cabelo de milho,
com sua família centenária.
Punhado de lembranças.
Organizadas por épocas.
Convergentes.
Bagagem revisitada.
Caminho exposto.
Parte regressa, parte prossegue.
O estrangeiro de mim se despede.
Fco.
Por descuido cruzei a fronteira.
Vivo estrangeiro em minha casa.
Bagagem revistada.
Íntimo exposto.
Parte impedida de prosseguir.
O peso dos rancores.
As múltiplas máscaras.
Memórias de amor.
Necessário o catálogo da vida.
O inventário de cada item a abandonar.
E lá se vão pedras e mais pedras.
Passos e mais passos.
Estórias.
E lá se vai insensatez. E espera.
E lá se vai tristeza.
No fim, apenas o indispensável.
O retrato do menino de cabelo de milho,
com sua família centenária.
Punhado de lembranças.
Organizadas por épocas.
Convergentes.
Bagagem revisitada.
Caminho exposto.
Parte regressa, parte prossegue.
O estrangeiro de mim se despede.
Fco.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
O que é o mundo, perguntou-me Bia
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Canção do Exílio, 07-08-1969
Se teus olhos estivessem aqui, Maria, veriam que minhas mãos enfim. Despertaram-se das algemas, e hoje sorriem para mim. Mas eu não rio para ninguém, Maria. Decerto por causa do frio.
Um frio que dá aqui dentro, nas cordilheiras dos meus rins. Que começa cá no Chile e sobe para o vidro dos olhos. Procura, procura e nada. Nem Maria, nem consolo, nem diabos, nem querubins. Maria, se você pudesse, ver as minhas mãos libertas, e deixa-las presas em Maria, lágrimas não haveria, nem nos meus olhos nem nos de ninguém. E as flores não morreriam, Maria, e o inverno não mataria, Maria, quem a gente quer bem. Meu passaporte seria a tua palavra. Dirias o que sabes de mim. E falarias de Maria, dos meus pecados, dos meus querubins. E isso me bastaria, não precisava de mãos libertas que hoje despertam enfim.
Maria, se você pudesse ver Santiago do Chile. Teus olhos procurariam os porquês do sabiá. Que não há garrafada de feira nem roda de se cantar. Segurarias meus dedos, com medo de avançar, dentro dessa língua-palato, Maria, e eu iria te acalmar. Contava estórias de sangue, de um tempo que o mar levou. Em que eu vencia bicho grande, Maria, e liberdade ao vencedor. Depois te ensinava a dar cada passo nesta terra estrangeira, pra gente se perder na gente, mas mantendo a alma brasileira. Faríamos feijoada quando chovesse, Maria, e chamaríamos os nossos pares, esvaziaríamos as revoluções, os quintais dos nossos lares, para relembrar que Chico, Maria, lançou um novo LP. Que em Dezembro chega de contrabando e a gente tentando conter, o deslumbramento perante a palavra, Maria, o choro equivocado, Maria, a dor atravessada, Maria, tudo que eu sinto hoje, Maria, e hoje não há você.
Se teus olhos estivessem aqui, Maria, veriam que minhas mãos enfim. Despertaram das algemas. E hoje sorriem para mim. Mas para quê mãos libertas, Maria, se tu não estás aqui? De que me vale um país livre, sem tua boca para me trancar? Meus olhos já se esqueceram dos porquês do sabiá.
A carta de Augusto Carneiro nunca foi enviada à Maria, sua noiva que ficou em Recife, no ano de 1969. Augusto morreu de câncer no Chile em Outubro de 1972. Maria se casou com Hermano Souza Santos, hoje captador de recursos na Fundação de Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife. O amigo chileno de Augusto Carneiro, Juan Remoz, herdou seus pertences pessoais e seu livro nunca terminado, e publicou a carta transcrita acima no “Diario de la Nación” em 08/07/1982. Os leitores reclamaram que não houve tradução para o espanhol.
Se teus olhos estivessem aqui, Maria, veriam que minhas mãos enfim. Despertaram-se das algemas, e hoje sorriem para mim. Mas eu não rio para ninguém, Maria. Decerto por causa do frio.
Um frio que dá aqui dentro, nas cordilheiras dos meus rins. Que começa cá no Chile e sobe para o vidro dos olhos. Procura, procura e nada. Nem Maria, nem consolo, nem diabos, nem querubins. Maria, se você pudesse, ver as minhas mãos libertas, e deixa-las presas em Maria, lágrimas não haveria, nem nos meus olhos nem nos de ninguém. E as flores não morreriam, Maria, e o inverno não mataria, Maria, quem a gente quer bem. Meu passaporte seria a tua palavra. Dirias o que sabes de mim. E falarias de Maria, dos meus pecados, dos meus querubins. E isso me bastaria, não precisava de mãos libertas que hoje despertam enfim.
Maria, se você pudesse ver Santiago do Chile. Teus olhos procurariam os porquês do sabiá. Que não há garrafada de feira nem roda de se cantar. Segurarias meus dedos, com medo de avançar, dentro dessa língua-palato, Maria, e eu iria te acalmar. Contava estórias de sangue, de um tempo que o mar levou. Em que eu vencia bicho grande, Maria, e liberdade ao vencedor. Depois te ensinava a dar cada passo nesta terra estrangeira, pra gente se perder na gente, mas mantendo a alma brasileira. Faríamos feijoada quando chovesse, Maria, e chamaríamos os nossos pares, esvaziaríamos as revoluções, os quintais dos nossos lares, para relembrar que Chico, Maria, lançou um novo LP. Que em Dezembro chega de contrabando e a gente tentando conter, o deslumbramento perante a palavra, Maria, o choro equivocado, Maria, a dor atravessada, Maria, tudo que eu sinto hoje, Maria, e hoje não há você.
Se teus olhos estivessem aqui, Maria, veriam que minhas mãos enfim. Despertaram das algemas. E hoje sorriem para mim. Mas para quê mãos libertas, Maria, se tu não estás aqui? De que me vale um país livre, sem tua boca para me trancar? Meus olhos já se esqueceram dos porquês do sabiá.
A carta de Augusto Carneiro nunca foi enviada à Maria, sua noiva que ficou em Recife, no ano de 1969. Augusto morreu de câncer no Chile em Outubro de 1972. Maria se casou com Hermano Souza Santos, hoje captador de recursos na Fundação de Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife. O amigo chileno de Augusto Carneiro, Juan Remoz, herdou seus pertences pessoais e seu livro nunca terminado, e publicou a carta transcrita acima no “Diario de la Nación” em 08/07/1982. Os leitores reclamaram que não houve tradução para o espanhol.
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Boca
Que se por um lado, a felicitação de estar nos Brasis, por outro, a dor de estar longe da Bahia. Mas as terras de Pernambuco iam de ser iguais, diziam. Risonha ao cetim e amarga à crítica. Gregório chegou onde o Beberibe e o Capibaribe se juntam para formar o Oceano Atlântico. E o povo já conhecia a fama que lhe valeu a alcunha. Por isso, o olhar de soslaio. As damas não olhavam nos seus olhos, por certo advertidas pela sociedade, do pecado que estariam consubstanciando a partir da cruzadela de olhares.
As putas tampouco lhe davam às vezes, advertidas por certo da enorme plausibilidade de serem transformadas em personagem de poemas escandalosos. De mais a mais, o Governo da Província era de tal modo corrupto, que a Metrópole estava a quinhentos mares de distância, como se o abismo geográfico fosse relativo para cada Governo de Capitania.
Mas o que fazer, se pela língua ferina havia sido degredado? E por não escrever, sentiu-se tão estrangeiro, que percebeu o que era claro diante de cada passo dado em falso: o degredo estava em não sibilar através da pena. Que não existe outra pátria para o homem senão o homem que se é e se compraz em o ser. E farto daquela merda toda, inaugurou a cidade de Recife:
Por entre o Beberibe, e o Oceano
Em uma areia sáfia, e lagadiça
Jaz o Recife povoação mestiça,
Que o Belga edificou ímpio tirano.
O Povo é pouco, e muito pouco urbano,
Que vive à mercê de uma linguiça,
Unha de velha insípida enfermiça,
E camarões de charco em todo o ano.
As Damas cortesãs, e por rasgadas
Olhas podridas, são, e pestilências,
Elas com purgações, nunca purgadas.
Que estava farto daquela cidade. Aumentaram a passagem do ônibus e decerto alguém ganharia com aquilo. Havia sido reprovado no vestibular. Era socialista. Anarquista. Ista, ista, ista. Qualquer coisa assim. As mulheres eram todas putas ( e dele dir-se-ia machista), o país não ia para canto algum (e dele dir-se-ia pessimista), minha mãe vai me matar (e dele dir-se-ia fatalista).
Foi quando descobriu uma revolta na Conde da Boa Vista. Revolta popular como acontecia nos livros de história. Contra o aumento da passagem de ônibus. Rumou para lá, e deixou-se pequeno na multidão que crescia. Um brado que crescia em si, contra o aumento, contra as putas, contra alguém que ganhava, contra o vestibular. O ônibus azul era tudo isso. E um ímpeto ancestral que vinha não se sabe da onde, talvez de mil e seiscentos, transformou a mão em pedra, a pedra em arma, o ônibus em alvo. Purgações nunca purgadas. O soco do policial foi na cabeça, e a língua sibilou contra a farda: - Enfia esse cacetete no cu, polícia filha duma puta.
A turba se evadia.
O policial ficou sem reação, pelas palavras gritadas escandalosas e inesquecíveis como se tivessem saído do inferno.
As putas tampouco lhe davam às vezes, advertidas por certo da enorme plausibilidade de serem transformadas em personagem de poemas escandalosos. De mais a mais, o Governo da Província era de tal modo corrupto, que a Metrópole estava a quinhentos mares de distância, como se o abismo geográfico fosse relativo para cada Governo de Capitania.
Mas o que fazer, se pela língua ferina havia sido degredado? E por não escrever, sentiu-se tão estrangeiro, que percebeu o que era claro diante de cada passo dado em falso: o degredo estava em não sibilar através da pena. Que não existe outra pátria para o homem senão o homem que se é e se compraz em o ser. E farto daquela merda toda, inaugurou a cidade de Recife:
Por entre o Beberibe, e o Oceano
Em uma areia sáfia, e lagadiça
Jaz o Recife povoação mestiça,
Que o Belga edificou ímpio tirano.
O Povo é pouco, e muito pouco urbano,
Que vive à mercê de uma linguiça,
Unha de velha insípida enfermiça,
E camarões de charco em todo o ano.
As Damas cortesãs, e por rasgadas
Olhas podridas, são, e pestilências,
Elas com purgações, nunca purgadas.
Que estava farto daquela cidade. Aumentaram a passagem do ônibus e decerto alguém ganharia com aquilo. Havia sido reprovado no vestibular. Era socialista. Anarquista. Ista, ista, ista. Qualquer coisa assim. As mulheres eram todas putas ( e dele dir-se-ia machista), o país não ia para canto algum (e dele dir-se-ia pessimista), minha mãe vai me matar (e dele dir-se-ia fatalista).
Foi quando descobriu uma revolta na Conde da Boa Vista. Revolta popular como acontecia nos livros de história. Contra o aumento da passagem de ônibus. Rumou para lá, e deixou-se pequeno na multidão que crescia. Um brado que crescia em si, contra o aumento, contra as putas, contra alguém que ganhava, contra o vestibular. O ônibus azul era tudo isso. E um ímpeto ancestral que vinha não se sabe da onde, talvez de mil e seiscentos, transformou a mão em pedra, a pedra em arma, o ônibus em alvo. Purgações nunca purgadas. O soco do policial foi na cabeça, e a língua sibilou contra a farda: - Enfia esse cacetete no cu, polícia filha duma puta.
A turba se evadia.
O policial ficou sem reação, pelas palavras gritadas escandalosas e inesquecíveis como se tivessem saído do inferno.
quarta-feira, janeiro 03, 2007
Colo, culto, cultus
Vejo com certa preocupação a indicação de Ariano Suassuna para a pasta da cultura do Governo do Estado de Pernambuco. É de estranhamento essa postura de general que não bota a mão na batalha, mas fica ao longe lançando diretrizes sobre o campo de guerra. Não quer a burocracia, quer linhas gerais. O grande problema do suporte à cultura é a burocracia. Ariano Suassuna tem entrado em choque com algumas das idéias mais interessantes que permearam a cultura pernambucana; Seu confete é em si mesmo, no movimento armorial e nos seus seguidores. Qualquer estética que fuja do padrão do popular/erudito, baseado na junção do medievo ocidental com a cultura da pedra, para ele é sub-cultura, quando muito.
É contra a colonização da cultura, e parece ignorar que culto, cultura e colonização partem da mesma raiz etimológica latina, e que há uma violência necessária na renovação cultural. A exclusão de movimentos como o que se convencionou a chamar de "mangue-beat", do som periférico do rap e de outras formas de expressão cultural surgidas a partir de uma dialética com o mundo (e com os Estados Unidos, porque não dizer...) possui um motor ideológico que não se irmana com uma política pública voltada para a valorização da cultura. Mas esse é o Ariano Suassuna das idéias. Será que o homem público, o gestor da res publica, vai abstrair os pré-conceitos e transcender as exclusões baseadas no seu quixotismo tão engraçado se não levado a sério?
É contra a colonização da cultura, e parece ignorar que culto, cultura e colonização partem da mesma raiz etimológica latina, e que há uma violência necessária na renovação cultural. A exclusão de movimentos como o que se convencionou a chamar de "mangue-beat", do som periférico do rap e de outras formas de expressão cultural surgidas a partir de uma dialética com o mundo (e com os Estados Unidos, porque não dizer...) possui um motor ideológico que não se irmana com uma política pública voltada para a valorização da cultura. Mas esse é o Ariano Suassuna das idéias. Será que o homem público, o gestor da res publica, vai abstrair os pré-conceitos e transcender as exclusões baseadas no seu quixotismo tão engraçado se não levado a sério?
terça-feira, janeiro 02, 2007
Cê
Expectativa de ouvir o Cê de Caetano. Confesso que havia lido algumas coisas antes da audição, o que só aumentava minha expectativa de adentrar em um universo de contestação, que é próprio de Caetano Veloso, e que venho acompanhando com uma certa delícia, desde quando ouvi - pela primeira vez, e tardiamente - o primeiro disco contemporâneo à aquisição, Circuladô (1992).
Caetano foi o responsável pela minha frustração de querer ser músico. Por isso, sempre haverá em mim uma simpatia por ele, o que me impede de escrever algo sobre o novo disco de forma imparcial. Acredito, todavia, que ninguém é imparcial quando fala de Caetano. Ninguém é imune a ele, para o bem ou para o mal.
E falo "mal" porque longe de ser uma unanimidade, como sói ocorrer com Chico Buarque (seu ser antagônico no imaginário do público brasileiro), Caetano é um dos compositores (e, sim, direi pensadores da cultura brasilera) que mais tem recebido tapas na cara dada à tapas. A geração imediatamente posterior à minha tem em Caetano um inimigo do novo, da cultura produzida no Brasil após o ocaso do que se chamava de "MPB". Por isso, Caetano é hoje o mais indie dos indies do Brasil . Ele é independente dos modismos que assolam a música, porque muito do que ele fizer será odiado pelo nicho consumidor do pop que ele mesmo ajudou a trazer para a cultura do país.
E é pelo fato de Caetano ser um índio-indie (perca o texto, mas não perca a piada) e assim ser taxado pelo próprio David Byrne que o Cê se torna um objeto delicioso para uma análise de blog.
Caetano se juntou com três meninos. A primeira impressão que se tem do disco é que não houve nenhuma reformulação no jeito de compor ou na estrutura linguística que é usual nas suas composições ("totais", "fatais" - utilizadas com ênfase em Rocks, típicas aliterações como o"Ganesh na coxa" na mesma música ou em "Um Sonho", o tema da absorção do negro da sociedade que foi um dos móveis de "Noites do Norte" disco autoral anterior), mas uma embalagem (não quero usar esse termo...) "antenada" com a música produzida no final da década de 80 pelas bandas que preparam o contexto do movimento independente que assola, atualmente, a cultura de massas. Assim, ecos do REM (principalmente do "New Adventures in Hi-Fi), do Pixies emolduram músicas bastante caetanas, que logo serão reconhecidas por aqueles que militam na obra do agora "Senhorito Veloso".
A segunda impressão tem ligação com o adjetivo lançado na última frase. Caetano repete um padrão que eu já havia observado em "Bicho Solto" do Djavan. Solteiro, pós-Paulinha, Caetano parece buscar o prazer do sexo pelo sexo, do amor adolescente-solar, sem coração e com muita mucosa. Esse "estado de coisas" teria levado à escolha do rock cru e bruto como moldura das suas canções? Ou houve uma escolha racional desse tema a partir da eleição do rock como moldura ainda vazia? Sem respostas para o paradoxo Tostines.
A terceira impressão tem ligações com o roxo da capa, cor que o próprio Caetano havia utilizado para a capa de "Uns". O roxo é ligado tradicionalmente à masculinidade e ao prazer, ou à metáfora da cor da pele mais escura. Tenho em mim que Caetano usou o roxo por ambas significações. As letras das músicas de "Deusa Urbana" e "Outro" sopram nos meus ouvidos essas impressões.
Assim, temos a tríade que Caetano nos imprime: rock-sexo-roxo. Um projeto na contra-mão das expectativas que não deveria nos surpreender vindo de Caetano Veloso, homem-velho-novo-homem que sempre se utilizou do inesperado para se lançar no mundo. Sempre esperamos o inesperado de Caetano Veloso; e isso basta para que ouçamos com atenção a Cê e reconheçamos Caetano quando ele passar por nós.
Expectativa de ouvir o Cê de Caetano. Confesso que havia lido algumas coisas antes da audição, o que só aumentava minha expectativa de adentrar em um universo de contestação, que é próprio de Caetano Veloso, e que venho acompanhando com uma certa delícia, desde quando ouvi - pela primeira vez, e tardiamente - o primeiro disco contemporâneo à aquisição, Circuladô (1992).
Caetano foi o responsável pela minha frustração de querer ser músico. Por isso, sempre haverá em mim uma simpatia por ele, o que me impede de escrever algo sobre o novo disco de forma imparcial. Acredito, todavia, que ninguém é imparcial quando fala de Caetano. Ninguém é imune a ele, para o bem ou para o mal.
E falo "mal" porque longe de ser uma unanimidade, como sói ocorrer com Chico Buarque (seu ser antagônico no imaginário do público brasileiro), Caetano é um dos compositores (e, sim, direi pensadores da cultura brasilera) que mais tem recebido tapas na cara dada à tapas. A geração imediatamente posterior à minha tem em Caetano um inimigo do novo, da cultura produzida no Brasil após o ocaso do que se chamava de "MPB". Por isso, Caetano é hoje o mais indie dos indies do Brasil . Ele é independente dos modismos que assolam a música, porque muito do que ele fizer será odiado pelo nicho consumidor do pop que ele mesmo ajudou a trazer para a cultura do país.
E é pelo fato de Caetano ser um índio-indie (perca o texto, mas não perca a piada) e assim ser taxado pelo próprio David Byrne que o Cê se torna um objeto delicioso para uma análise de blog.
Caetano se juntou com três meninos. A primeira impressão que se tem do disco é que não houve nenhuma reformulação no jeito de compor ou na estrutura linguística que é usual nas suas composições ("totais", "fatais" - utilizadas com ênfase em Rocks, típicas aliterações como o"Ganesh na coxa" na mesma música ou em "Um Sonho", o tema da absorção do negro da sociedade que foi um dos móveis de "Noites do Norte" disco autoral anterior), mas uma embalagem (não quero usar esse termo...) "antenada" com a música produzida no final da década de 80 pelas bandas que preparam o contexto do movimento independente que assola, atualmente, a cultura de massas. Assim, ecos do REM (principalmente do "New Adventures in Hi-Fi), do Pixies emolduram músicas bastante caetanas, que logo serão reconhecidas por aqueles que militam na obra do agora "Senhorito Veloso".
A segunda impressão tem ligação com o adjetivo lançado na última frase. Caetano repete um padrão que eu já havia observado em "Bicho Solto" do Djavan. Solteiro, pós-Paulinha, Caetano parece buscar o prazer do sexo pelo sexo, do amor adolescente-solar, sem coração e com muita mucosa. Esse "estado de coisas" teria levado à escolha do rock cru e bruto como moldura das suas canções? Ou houve uma escolha racional desse tema a partir da eleição do rock como moldura ainda vazia? Sem respostas para o paradoxo Tostines.
A terceira impressão tem ligações com o roxo da capa, cor que o próprio Caetano havia utilizado para a capa de "Uns". O roxo é ligado tradicionalmente à masculinidade e ao prazer, ou à metáfora da cor da pele mais escura. Tenho em mim que Caetano usou o roxo por ambas significações. As letras das músicas de "Deusa Urbana" e "Outro" sopram nos meus ouvidos essas impressões.
Assim, temos a tríade que Caetano nos imprime: rock-sexo-roxo. Um projeto na contra-mão das expectativas que não deveria nos surpreender vindo de Caetano Veloso, homem-velho-novo-homem que sempre se utilizou do inesperado para se lançar no mundo. Sempre esperamos o inesperado de Caetano Veloso; e isso basta para que ouçamos com atenção a Cê e reconheçamos Caetano quando ele passar por nós.
Feliz Ano Novo
Enfant Tèrrible
Esse ano-menino
me roubou um beijo
abriu a porta da geladeira
para ver o que lá havia
Desdenhou do que eu havia escrito:
“Está tudo velho”
e soprou um rock em meus ouvidos
Esse ano-menino
passou a mão em meus cabelos
me chamou de pai, de tio, de avô
Em meu colo chorou
o choro dos que nascem para o mundo
e que deixam a vida inflamar os pulmões
Esse ano-menino
dormiu cansado no sofá da sala
ainda do primeiro dia do ano
Aguardando que eu vá mima-lo,
contar-lhe histórias do futuro
para que ele possa se sonhar um ano bom
Esse ano-menino
me roubou um beijo
abriu a porta da geladeira
para ver o que lá havia
Desdenhou do que eu havia escrito:
“Está tudo velho”
e soprou um rock em meus ouvidos
Esse ano-menino
passou a mão em meus cabelos
me chamou de pai, de tio, de avô
Em meu colo chorou
o choro dos que nascem para o mundo
e que deixam a vida inflamar os pulmões
Esse ano-menino
dormiu cansado no sofá da sala
ainda do primeiro dia do ano
Aguardando que eu vá mima-lo,
contar-lhe histórias do futuro
para que ele possa se sonhar um ano bom
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Feliz Natal
Qualquer coisa que se escreva sobre o natal
vira um enorme clichê
então, fala o Rei David:
"Bendito seja o Senhor que de dia em dia nos carrega de benefícios
O Deus da nossa salvação"
(salmo 68)
Ps - não virei evagangélico :)
vira um enorme clichê
então, fala o Rei David:
"Bendito seja o Senhor que de dia em dia nos carrega de benefícios
O Deus da nossa salvação"
(salmo 68)
Ps - não virei evagangélico :)
quinta-feira, dezembro 14, 2006
O Jovem Gilberto Freyre ou A Invenção do Brasil (chorinho)
Essa mulata, quando pisa no terreiro
ilumina um povo inteiro
dentro do meu coração
E vou traçando - em suas pernas - novas rotas
como quem suave aporta
em um porto em formação
Essa cabrocha de gostinho brasileiro
me concede o corpo inteiro
para eu entender a minha mãe
Vai tatuando em minha pele um novo Estado
que emerge inventado
na ante-sala das manhãs
Se ela vive entre as estrelas
Se ela é meu grande amor
Ah, minha cabrocha,
Flor do mundo, minha flor
Ela vem me dar um beijo
reconstrói minha raiz
abro os meus braços
e abraço o meu País.
ilumina um povo inteiro
dentro do meu coração
E vou traçando - em suas pernas - novas rotas
como quem suave aporta
em um porto em formação
Essa cabrocha de gostinho brasileiro
me concede o corpo inteiro
para eu entender a minha mãe
Vai tatuando em minha pele um novo Estado
que emerge inventado
na ante-sala das manhãs
Se ela vive entre as estrelas
Se ela é meu grande amor
Ah, minha cabrocha,
Flor do mundo, minha flor
Ela vem me dar um beijo
reconstrói minha raiz
abro os meus braços
e abraço o meu País.
terça-feira, dezembro 12, 2006
Estorinha para Bia :)
De um a oito estava tudo dominado. O mundo estava ali. Fechava os olhos e colocava os braços no muro: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito; e os mistérios do mundo, a matriz dos anjos, o porquê da lesma: estava tudo ali, no oito.
Mas chegou sua mãe. Depois do oito tem o quê, Bia? Bia não sabia responder.Existia algo mais para saber? Algo além do que tudo aquilo que ela sabia? Era assim, de um ao oito. Mas não era, sorria sua mãe. Com uma singeleza cruel dos emissários do Misterioso disse: depois do oito, vem o nove.
Nove? O que é o nove que eu não conheço? E se depois do nove vier algo novo? De repente, os anjos voaram, o mundo alargou, a lesma virou algo indefinidamente complexo. No nove, Bia havia crescido.
Mas chegou sua mãe. Depois do oito tem o quê, Bia? Bia não sabia responder.Existia algo mais para saber? Algo além do que tudo aquilo que ela sabia? Era assim, de um ao oito. Mas não era, sorria sua mãe. Com uma singeleza cruel dos emissários do Misterioso disse: depois do oito, vem o nove.
Nove? O que é o nove que eu não conheço? E se depois do nove vier algo novo? De repente, os anjos voaram, o mundo alargou, a lesma virou algo indefinidamente complexo. No nove, Bia havia crescido.
segunda-feira, dezembro 04, 2006
Crítica de documentário e poema
Aí, deu-se que ontem eu estava assistindo a um documentário sobre João Cabral de Melo que abordava sua relação com a Espanha. Com Sevilha. Um cheiro de taco subiu pela sala e eu fiquei vermelho. Via por causa do poeta ou era Sevilha que prendia meus olhos dormentes pelo domingo que ia? Mas era possível separar João Cabral de Melo Neto de Sevilha?
Enchemos a boca para adjetivá-lo pernambucano, com os orgulhos que prezamos desde nossa gênese, mas João Cabral de Melo Neto não era pernambucano. Era de Sevilha.
De Sevilha porque não somos de onde nascemos, somos (pertença) de onde somos (existência). De onde nos descobrimos. Há uma pátria oculta em nós, que se aparta - tanta vezes - da nossa geografia e que irrompe quando a inexatidão do solo se equaliza em uma viagem e aí dizemos: é aqui que eu sou.
Eu sou de Recife. E já estive em tantos lugares. Mas em qualquer lugar do Mundo, eu trajo esse mar de mortes e esse povo mambembe que come caju. Acontece que minha pátria oculta coincide com a geografia plantada sob meus pés, para o bem ou para o mal.
Mas do documentário, deixai que o diga: a parte que me fez rir à beça é essa. Quando João Cabral - em depoimento - rememoria um acontecido na casa do embaixador na Suíça, quando do auge da Bossa Nova. O amigo Vinícius de Moraes cantava baixinhos coisas lindas: "o coração, o coração, ah, o coração..." E João Cabral lá do fundo: "Vinícius, você não tem outra víscera para cantar não? Se não for de amor tu não sabes né?..."Para gargalhada geral, inclusive a minha.
E aí entra a filha de João Cabral lembrando do que o pai dizia: "minha filha, devemos fazer poemas sobre o copo d´água". Ofício difícil esse. Belo documentário.
POEMA DE COISA POUCA
Um copo d´água:
paz da carne que suor transpira
sossego da saliva
que irmanada nas líquidas víceras da coisa translúcida
adentra infinita na seca da boca
e renova a vida
Enchemos a boca para adjetivá-lo pernambucano, com os orgulhos que prezamos desde nossa gênese, mas João Cabral de Melo Neto não era pernambucano. Era de Sevilha.
De Sevilha porque não somos de onde nascemos, somos (pertença) de onde somos (existência). De onde nos descobrimos. Há uma pátria oculta em nós, que se aparta - tanta vezes - da nossa geografia e que irrompe quando a inexatidão do solo se equaliza em uma viagem e aí dizemos: é aqui que eu sou.
Eu sou de Recife. E já estive em tantos lugares. Mas em qualquer lugar do Mundo, eu trajo esse mar de mortes e esse povo mambembe que come caju. Acontece que minha pátria oculta coincide com a geografia plantada sob meus pés, para o bem ou para o mal.
Mas do documentário, deixai que o diga: a parte que me fez rir à beça é essa. Quando João Cabral - em depoimento - rememoria um acontecido na casa do embaixador na Suíça, quando do auge da Bossa Nova. O amigo Vinícius de Moraes cantava baixinhos coisas lindas: "o coração, o coração, ah, o coração..." E João Cabral lá do fundo: "Vinícius, você não tem outra víscera para cantar não? Se não for de amor tu não sabes né?..."Para gargalhada geral, inclusive a minha.
E aí entra a filha de João Cabral lembrando do que o pai dizia: "minha filha, devemos fazer poemas sobre o copo d´água". Ofício difícil esse. Belo documentário.
POEMA DE COISA POUCA
Um copo d´água:
paz da carne que suor transpira
sossego da saliva
que irmanada nas líquidas víceras da coisa translúcida
adentra infinita na seca da boca
e renova a vida
terça-feira, novembro 21, 2006
O Homem Casado
Quando eu era pequeno, habitava em mim um Deus grande
E eu pedia ao Deus grande, grandes coisas:
Aeroplanos, eternidades, consolo quase sempre para as coisas inconsoláveis
Diamantes incrustados nas coisas que eu fazia e farei
Mas eu cresci, e esse Deus foi ficando pequenininho
Deus de coisas pequenas
Nem notei esse fato e pedi a ele a solução de todas as coisas
E Deus respondeu:
- De que lhe adianta a resolução de todas as coisas se tua sala não tem sofá?
Bendito seja o Senhor que se me fez pequenininho
E eu pedia ao Deus grande, grandes coisas:
Aeroplanos, eternidades, consolo quase sempre para as coisas inconsoláveis
Diamantes incrustados nas coisas que eu fazia e farei
Mas eu cresci, e esse Deus foi ficando pequenininho
Deus de coisas pequenas
Nem notei esse fato e pedi a ele a solução de todas as coisas
E Deus respondeu:
- De que lhe adianta a resolução de todas as coisas se tua sala não tem sofá?
Bendito seja o Senhor que se me fez pequenininho
quarta-feira, outubro 18, 2006
Cartola
Entre a carne e a cruz (onde mora a dor)
Onde o meu samba fez morada
E a semente nunca vira flor
Nesse grande mar, solitário e vão
Fico porta-voz da alvorada
E cubro o verde-e- rosa do meu chão
A noite quando me vem é madrugada
E o mundo já se vai dentro de mim
É o samba quem me mostra
A flor a ser exposta
Na valsa da solidão de quem diz sim
Entre a carne e a cruz (onde mora a dor)
Onde o meu samba fez morada
E a semente nunca vira flor
Nesse grande mar, solitário e vão
Fico porta-voz da alvorada
E cubro o verde-e- rosa do meu chão
A noite quando me vem é madrugada
E o mundo já se vai dentro de mim
É o samba quem me mostra
A flor a ser exposta
Na valsa da solidão de quem diz sim
quinta-feira, outubro 05, 2006
Quadrinha dos que dizem sim
(Alfama e Mouraria)
Senhor capitão, dá-me vinte cortes de vida
Para eu armar meu festim
Que tenha sangue e ojeriza, que tenha branco e carmim
Senhor capitão, dá-me trinta onças de sonhos
Para eu lançar pela pia
Entre as sobras da janta, que era o que em mim havia
Senhor capitão, dá-me cinqüenta dias de vênias
Ou mais de um mês de amor
Que alguém me disse que tinhas, bons remédios contra rancor
Senhor capitão, dá-me quarenta léguas de caminho
Para eu continuar a sorrir
Ainda que eu tenha que caminhar sozinho, que me leve aonde preciso ir
(Alfama e Mouraria)
Senhor capitão, dá-me vinte cortes de vida
Para eu armar meu festim
Que tenha sangue e ojeriza, que tenha branco e carmim
Senhor capitão, dá-me trinta onças de sonhos
Para eu lançar pela pia
Entre as sobras da janta, que era o que em mim havia
Senhor capitão, dá-me cinqüenta dias de vênias
Ou mais de um mês de amor
Que alguém me disse que tinhas, bons remédios contra rancor
Senhor capitão, dá-me quarenta léguas de caminho
Para eu continuar a sorrir
Ainda que eu tenha que caminhar sozinho, que me leve aonde preciso ir
segunda-feira, outubro 02, 2006
RAQUEL
Procurei-te no útero dividido de nossa mãe
No berço nosso que eu quebrei por ver você em meu futuro
Procurei-te em meus braços que sustentaram a nós dois em meio a dezembros
Na interpretação do Outubro, na interpretação da Libra
procurei nas nossas viagens, onde dividimos a surpresa da imensidão desse Mundo
E nos meus choros que curaste na crueza da verdade do nosso sangue
Procurei e não encontrei.
A festa havia acabado. A tua cama estava fria.
Os nossos pais estavam velhos.
Pisei os lírios e os cacos de vidro
Gritei teu nome e percebi como teu nome é forte
Nem no passado, nem no presente, nem na coisa por fazer
Estava só em meio aos padrões dos nossos genes.
Mas a tua ausência chamou meu nome
E eu fechei meus olhos para ouvir tua voz
Porque a liberdade transporta a carne nossa
Abro a porta do guarda-roupa e te acho sorrindo
Escondida no infinito de dentro de mim
No berço nosso que eu quebrei por ver você em meu futuro
Procurei-te em meus braços que sustentaram a nós dois em meio a dezembros
Na interpretação do Outubro, na interpretação da Libra
procurei nas nossas viagens, onde dividimos a surpresa da imensidão desse Mundo
E nos meus choros que curaste na crueza da verdade do nosso sangue
Procurei e não encontrei.
A festa havia acabado. A tua cama estava fria.
Os nossos pais estavam velhos.
Pisei os lírios e os cacos de vidro
Gritei teu nome e percebi como teu nome é forte
Nem no passado, nem no presente, nem na coisa por fazer
Estava só em meio aos padrões dos nossos genes.
Mas a tua ausência chamou meu nome
E eu fechei meus olhos para ouvir tua voz
Porque a liberdade transporta a carne nossa
Abro a porta do guarda-roupa e te acho sorrindo
Escondida no infinito de dentro de mim
quarta-feira, setembro 20, 2006
Versus André
A lembrança do tempo é o próprio tempo
como a lembrança da noite será a própria noite
eu rezo então às estrelas
Estrelas de um outro céu, de uma outra noite
De algo que me perturba como um sussurro vindo de mim mesmo
Vindo do tempo que só muda dentro de mim
deste ser interpretado que eu me tornei
Estrelas de outro céu, que podem me dizer?
Que há um conforto em um grito que ousei proferir
E que hoje é eco
(ou seremos sempre o eco daquilo que sequer pode existir?)
Mãos das estrelas, acariciam o meu corpo
(acariciam o meu corpo em suspensão)
Aos poucos vou me tornando uma memória, uma lembrança,
lembrança de que aqui existia irresignação
A lembrança do homem é o próprio homem?
Poderá se ouvir a amplidão daquela voz?
Por onde anda você, anjo, sangue e presença;
por onde anda você, estrela tão veloz?
A lembrança do fogo é a sombra que me aquece nesse dia
Nesse Mundo de lembranças em que meu Mundo se verteu
Eu canto esse poema, para que meus olhos continuem abertos
E eu durma acordado em uma outra noite
que na lembrança de mim mesmo se encantou e se perdeu
como a lembrança da noite será a própria noite
eu rezo então às estrelas
Estrelas de um outro céu, de uma outra noite
De algo que me perturba como um sussurro vindo de mim mesmo
Vindo do tempo que só muda dentro de mim
deste ser interpretado que eu me tornei
Estrelas de outro céu, que podem me dizer?
Que há um conforto em um grito que ousei proferir
E que hoje é eco
(ou seremos sempre o eco daquilo que sequer pode existir?)
Mãos das estrelas, acariciam o meu corpo
(acariciam o meu corpo em suspensão)
Aos poucos vou me tornando uma memória, uma lembrança,
lembrança de que aqui existia irresignação
A lembrança do homem é o próprio homem?
Poderá se ouvir a amplidão daquela voz?
Por onde anda você, anjo, sangue e presença;
por onde anda você, estrela tão veloz?
A lembrança do fogo é a sombra que me aquece nesse dia
Nesse Mundo de lembranças em que meu Mundo se verteu
Eu canto esse poema, para que meus olhos continuem abertos
E eu durma acordado em uma outra noite
que na lembrança de mim mesmo se encantou e se perdeu
segunda-feira, setembro 18, 2006
Balada para Eólio de Mileto
Porque assim como acontece com as lagartas
a morte chega aos jovens em forma de asas
a morte chega aos jovens em forma de asas
quarta-feira, setembro 13, 2006
Balada de Jonh Ashtray
Tenho medo de grandes amores
de baratas voadoras, de pessoas de circo
Tenho medo de bocas de lobo
do que se esconde infinito por debaixo da cama
tenho medo de luz apagada, mas não do escuro
de areia movediça ainda que só no filme
tenho medo de ir e nunca voltar
como Jonh Ashtray
que seguiu sempre reto na Avenida Boa Viagem
e sumiu para muito longe, para além do próprio medo
de baratas voadoras, de pessoas de circo
Tenho medo de bocas de lobo
do que se esconde infinito por debaixo da cama
tenho medo de luz apagada, mas não do escuro
de areia movediça ainda que só no filme
tenho medo de ir e nunca voltar
como Jonh Ashtray
que seguiu sempre reto na Avenida Boa Viagem
e sumiu para muito longe, para além do próprio medo
terça-feira, agosto 29, 2006
barroco
Estar vivo é não se alhear à exposição das instituições em crise
dar-se conta que as mãos envelhecem e que não fizeram a obra esperada
restituir o que foi roubado do sótão de si mesmo ao longo da infância
comer, beber e não se dar por satisfeito
errar seu erro, mas o seu, não de outro, mas o intransferível, pessoal e inequívoco erro
ter na carne o vislumbre da eternidade, como em Cristo (que se come e se bebe e nisso se eterniza)
Estar vivo e perder a medida do tempo enquanto o tempo se esvai
errar seu erro - já falei isso?
dar a cada um um doze avos da sua transitoriedade
esquecer mais do que lembrar que nisso reside a morte
e morrer como certeza de que se está vivo
dar-se conta que as mãos envelhecem e que não fizeram a obra esperada
restituir o que foi roubado do sótão de si mesmo ao longo da infância
comer, beber e não se dar por satisfeito
errar seu erro, mas o seu, não de outro, mas o intransferível, pessoal e inequívoco erro
ter na carne o vislumbre da eternidade, como em Cristo (que se come e se bebe e nisso se eterniza)
Estar vivo e perder a medida do tempo enquanto o tempo se esvai
errar seu erro - já falei isso?
dar a cada um um doze avos da sua transitoriedade
esquecer mais do que lembrar que nisso reside a morte
e morrer como certeza de que se está vivo
segunda-feira, julho 31, 2006
Momento Roberto Carvalho
O texto é do site do cara:
"Irreverente, jovem e com presença de palco poucas vezes encontrada no mundo do forró, Josildo Sá é um dos maiores destaques da atual música pernambucana. É um artista diferenciado, que une modernidade e tradição, atitude da capital às raízes sertanejas. Quando compõe, as letras e a melodia falam dos amores, da infância e do sertão farto e cheio de festas. Mas quando está no palco Josildo tem atitudes de rockeiro, dançando, mechendo, pulando, talvez pela grande admiração que tem por Cazuza e Chico Science, influenciadores de sua performance. Prova da versatilidade e criatividade de Josildo é o projeto Samba de Latada que relizou três shows no Carnaval Multicultural do Recife e em Olinda (foto acima a direita), em parceria com o Mestre Arlindo dos Oito Baixos e do Maestro e Clarinetista Paulo Moura. Tamanha foi a adesão dos músicos e a aceitação da imprensa pernambucana que o forrozeiro prepara para lançar em 2006 o CD Samba de Latada, em parceria com o Maestro, tendo o mestre como convidado."
Agora, irreverência mesmo é esse sujeito comendo bode e 'mangando' da cara dos pobres poetas. Prazer inenarrável, tanto do bode (preparado por Glívio), quanto do sarro.
Abraços, Josildo
"Irreverente, jovem e com presença de palco poucas vezes encontrada no mundo do forró, Josildo Sá é um dos maiores destaques da atual música pernambucana. É um artista diferenciado, que une modernidade e tradição, atitude da capital às raízes sertanejas. Quando compõe, as letras e a melodia falam dos amores, da infância e do sertão farto e cheio de festas. Mas quando está no palco Josildo tem atitudes de rockeiro, dançando, mechendo, pulando, talvez pela grande admiração que tem por Cazuza e Chico Science, influenciadores de sua performance. Prova da versatilidade e criatividade de Josildo é o projeto Samba de Latada que relizou três shows no Carnaval Multicultural do Recife e em Olinda (foto acima a direita), em parceria com o Mestre Arlindo dos Oito Baixos e do Maestro e Clarinetista Paulo Moura. Tamanha foi a adesão dos músicos e a aceitação da imprensa pernambucana que o forrozeiro prepara para lançar em 2006 o CD Samba de Latada, em parceria com o Maestro, tendo o mestre como convidado."
Agora, irreverência mesmo é esse sujeito comendo bode e 'mangando' da cara dos pobres poetas. Prazer inenarrável, tanto do bode (preparado por Glívio), quanto do sarro.
Abraços, Josildo
quinta-feira, julho 13, 2006
segunda-feira, julho 03, 2006
Alô Glívio, alô Josildo
Há uma linguagem que só se fala à beira de coisas boas. Essa linguagem de quando em vez se perde no meio do trânsito, dos bancários, do noticiário na televisão. E aí, quando estamos na ressaca de uma copa que nunca foi o que poderia ter sido, somos surpreendidos pela palavra falada no telefone, relembrando a linguagem que nos remete às coisas boas.
A grande vingança é ser feliz, amigo Glívio. E a felicidade é como a pluma soprada na mesa enquanto se bebe um bom vinho e se enche a barriga (bucho, diria Josildo) de coisas circunstanciais. Que quem precisa de eternidade é padre. A gente precisa é de uma boa câmera prá registrar nossos sorrisos enquanto ainda temos olhos prá ver. E nisso me comprazo. Obrigado por não desistir do nosso reencontro. Que venham outros domingos humanos de alegria que os anjos não conseguem compreender. Só o jazz.
Josildo, foi um prazer conhecer você e ouvir seu CD com Paulo Moura em primeira mão. Pode acreditar que aquela parceria está de pé. Forte abraço sertanejo daqui das terras do centro.
A grande vingança é ser feliz, amigo Glívio. E a felicidade é como a pluma soprada na mesa enquanto se bebe um bom vinho e se enche a barriga (bucho, diria Josildo) de coisas circunstanciais. Que quem precisa de eternidade é padre. A gente precisa é de uma boa câmera prá registrar nossos sorrisos enquanto ainda temos olhos prá ver. E nisso me comprazo. Obrigado por não desistir do nosso reencontro. Que venham outros domingos humanos de alegria que os anjos não conseguem compreender. Só o jazz.
Josildo, foi um prazer conhecer você e ouvir seu CD com Paulo Moura em primeira mão. Pode acreditar que aquela parceria está de pé. Forte abraço sertanejo daqui das terras do centro.
quarta-feira, maio 03, 2006
quarta-feira, abril 12, 2006
sexta-feira, março 31, 2006
Volta
Volta prá cama, mulher
A estrela que era de sonho, fez-se vida e se quebrou
é melhor mentir na cama, é melhor mentir no amor
que minha cama é tua amiga, sabes onde ela vai dar
e as mentiras do meu samba nunca vão te enganar
Volta prá cama, mulher
Mais vale o amor bem feito, do que o dia a se viver
na certeza do meu leito você não vai se perder
pois o mundo é um labirinto de convites tão gentis
para ver a flor do asfalto vender a sua raiz
Volta prá cama, mulher
Hoje o mundo acorda cedo para beber da confusão
eu te ofereço o meu degredo no prazer da contra-mão
de acordar entre os meus sambas, vendo o dia se acabar
transpirando amor e medo e vento e noite e samba e mar
A estrela que era de sonho, fez-se vida e se quebrou
é melhor mentir na cama, é melhor mentir no amor
que minha cama é tua amiga, sabes onde ela vai dar
e as mentiras do meu samba nunca vão te enganar
Volta prá cama, mulher
Mais vale o amor bem feito, do que o dia a se viver
na certeza do meu leito você não vai se perder
pois o mundo é um labirinto de convites tão gentis
para ver a flor do asfalto vender a sua raiz
Volta prá cama, mulher
Hoje o mundo acorda cedo para beber da confusão
eu te ofereço o meu degredo no prazer da contra-mão
de acordar entre os meus sambas, vendo o dia se acabar
transpirando amor e medo e vento e noite e samba e mar
segunda-feira, março 13, 2006
Parabéns
A duas pessoas:
Em primeiro lugar à Maria de Fátima, pelos dois anos ao meu lado. Essa aqui é a minha cara da moeda - e ainda que a data pertença a nós dois - vou comemorá-la louvando você. Parabéns, meu amor:
"Tanto amor que há entre dois que em dois não cabe
Não cabe no mar, nas circunstâncias da terra, no clamor do soldado ferido
Não cabe em três, em mil, em número que só existe para as crianças
Não cabe no passado, no futuro, no presente, na cena final de 2001
Não cabe na carne, no espírito, no prazer do fim do dia que situa além dos dois
Não cabe na música, na pintura, na escultura, no entalhe que eu fiz quando criança
Não cabe no leite queimado, no sangue estancado, no café frio
Tanto amor que há entre dois que em nós não cabe
Não cabe no exagero, não cabe no poema..."
Em segundo lugar, a Rodrigo a quem devo tantas circunstâncias que ainda me acompanham pela vida afora. Vou lembrar dos primeiros versos de 'Tempo", uma música do "Deus e o Diabo na Terra do Som" (lembra?) que já era dedicada a você. Feliz aniversário, meu velho. Bem-vindo ao Cabo da (sempre) Boa-Esperança:
"Quando o tempo vem, não importa bem
que o pronome submeta minha voz" - (só me lembro disso :) )
Em primeiro lugar à Maria de Fátima, pelos dois anos ao meu lado. Essa aqui é a minha cara da moeda - e ainda que a data pertença a nós dois - vou comemorá-la louvando você. Parabéns, meu amor:
"Tanto amor que há entre dois que em dois não cabe
Não cabe no mar, nas circunstâncias da terra, no clamor do soldado ferido
Não cabe em três, em mil, em número que só existe para as crianças
Não cabe no passado, no futuro, no presente, na cena final de 2001
Não cabe na carne, no espírito, no prazer do fim do dia que situa além dos dois
Não cabe na música, na pintura, na escultura, no entalhe que eu fiz quando criança
Não cabe no leite queimado, no sangue estancado, no café frio
Tanto amor que há entre dois que em nós não cabe
Não cabe no exagero, não cabe no poema..."
Em segundo lugar, a Rodrigo a quem devo tantas circunstâncias que ainda me acompanham pela vida afora. Vou lembrar dos primeiros versos de 'Tempo", uma música do "Deus e o Diabo na Terra do Som" (lembra?) que já era dedicada a você. Feliz aniversário, meu velho. Bem-vindo ao Cabo da (sempre) Boa-Esperança:
"Quando o tempo vem, não importa bem
que o pronome submeta minha voz" - (só me lembro disso :) )
quinta-feira, março 02, 2006
Felicidade sim
Quarta, quinta, sexta e o resto do ano de cinzas. Até o próximo carnaval. Não vou falar nada porque ainda é recente a dor da terça-feira gorda que se despede cantando como faziam os fenícios. Saudade tão grande....
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Marcha de Carnaval
Na bifurcação, no fim da avenida, perdi meu bloco
E parado – entre dois caminhos – me vi apenas um
Apenas um com as circunstâncias que me acompanharam :
Oculos, sapatos, esperança e uma gaiola vazia
Apenas um, de vista a muitos, mas apenas um
Na bifurcação, no fim da avenida, parei cansado
E me vi só de braços dados com a mesma canção
Que me acompanhou nas guerras, nas glórias e nas angústias
Perdi meu bloco mas ainda estou com a mesma canção
E lançado à dúvida de dois caminhos (eu, meus óculos, sapatos e esperança)
Ficarei parado enquanto o bloco avança em um desses desvios
um ao largo de mim que não fui
Outro à margem do que fui – minha lembrança
Na bifurcação, no fim da avenida, perdi meu bloco
E parado – entre dois caminhos – me vi apenas um
Apenas um com as circunstâncias que me acompanharam :
Oculos, sapatos, esperança e uma gaiola vazia
Apenas um, de vista a muitos, mas apenas um
Na bifurcação, no fim da avenida, parei cansado
E me vi só de braços dados com a mesma canção
Que me acompanhou nas guerras, nas glórias e nas angústias
Perdi meu bloco mas ainda estou com a mesma canção
E lançado à dúvida de dois caminhos (eu, meus óculos, sapatos e esperança)
Ficarei parado enquanto o bloco avança em um desses desvios
um ao largo de mim que não fui
Outro à margem do que fui – minha lembrança
terça-feira, fevereiro 07, 2006
As Tradições
Ao restaurante Leite
Valha-me Deus, as tradições !
Quedo caiado pelo amarelo do daguerrótipo
Como se não possuísse dantes outra cor
Dantes o azul morno que definiu minha infância
Dantes o vermelho do partido ao qual filiei minha juventude
Dantes isso que é espectro daquilo mas que não cheira a morfina
Mas resto “arrebalde” que é uma palavra antiga e que não se diz mais.
E ainda que eu tenha em mim a sede de domar coisa-nova
Vejo-me sentado à mesa reiteradamente posta
Mesura daquele garçon, que não se grafa garçom, e que serviu com a mesma mesura
ao meu avô.
Eu estou avizinhado por homens mortos –mas perpétuos
Suas histórias são contadas pelos seus bigodes e relógios de algibeira
Pelo talher de prata que um deixou cair ao pensar no tempo que não voltará
Mortos que me oferecem o charuto – e o charuto me perpetuará
( eu estarei morto)
Morto para o mundo que dura cinco segundos e que se refaz
Mundo paráfrase do mundo que havia antes
Mundo que o é por cinco segundos e que não será nunca mais
Valha –me Deus, as tradições !
Essa forma reiterada que congela o conteúdo
A mesa posta em ordem que é sub ordem universal
O terno, a gravata, o sorriso repetido
Até a desordem de nossas almas segue o mesmo ritual
E eu não estou velho, estou sempre
No hiato de mim-para-mim não cabem mais revoluções
Minha insígnia de guerra, que dantes foi o inconformismo
É hoje o suspiro: Valha-me Deus as tradições !
Eu estou encharcado pelo meu sobrenome
E quando me chamam, chamam meu ancestral
Do primeiro de mim, meu corpo é apenas um instrumento
Instrumento desse ser que é nomeado mas que nunca existiu
E quando disserem “Mussalem”, chamarão meu pai e meu avô
Até que se possa dizer o mesmo de mim, quando meu filho disser “já vou...”
Eu irei com ele, para ser a sombra em seu destino
E comigo irão, o menino, meu pai e meu avô
Eu serei perpétuo em um retrato na parede
Naquele restaurante em que se serviu ao meu avô
Servirá, o garçon, com a mesma mesura
E o daquerrótipo continuará a definir minha cor
O mundo se reparafraseará, lá fora, sendo outro mundo, outra vez
Aqui dentro a tradição conserva o mesmo mundo em nossas almas
Transformando-as em um painel de azulejo português.
Valha-me Deus, as tradições !
Quedo caiado pelo amarelo do daguerrótipo
Como se não possuísse dantes outra cor
Dantes o azul morno que definiu minha infância
Dantes o vermelho do partido ao qual filiei minha juventude
Dantes isso que é espectro daquilo mas que não cheira a morfina
Mas resto “arrebalde” que é uma palavra antiga e que não se diz mais.
E ainda que eu tenha em mim a sede de domar coisa-nova
Vejo-me sentado à mesa reiteradamente posta
Mesura daquele garçon, que não se grafa garçom, e que serviu com a mesma mesura
ao meu avô.
Eu estou avizinhado por homens mortos –mas perpétuos
Suas histórias são contadas pelos seus bigodes e relógios de algibeira
Pelo talher de prata que um deixou cair ao pensar no tempo que não voltará
Mortos que me oferecem o charuto – e o charuto me perpetuará
( eu estarei morto)
Morto para o mundo que dura cinco segundos e que se refaz
Mundo paráfrase do mundo que havia antes
Mundo que o é por cinco segundos e que não será nunca mais
Valha –me Deus, as tradições !
Essa forma reiterada que congela o conteúdo
A mesa posta em ordem que é sub ordem universal
O terno, a gravata, o sorriso repetido
Até a desordem de nossas almas segue o mesmo ritual
E eu não estou velho, estou sempre
No hiato de mim-para-mim não cabem mais revoluções
Minha insígnia de guerra, que dantes foi o inconformismo
É hoje o suspiro: Valha-me Deus as tradições !
Eu estou encharcado pelo meu sobrenome
E quando me chamam, chamam meu ancestral
Do primeiro de mim, meu corpo é apenas um instrumento
Instrumento desse ser que é nomeado mas que nunca existiu
E quando disserem “Mussalem”, chamarão meu pai e meu avô
Até que se possa dizer o mesmo de mim, quando meu filho disser “já vou...”
Eu irei com ele, para ser a sombra em seu destino
E comigo irão, o menino, meu pai e meu avô
Eu serei perpétuo em um retrato na parede
Naquele restaurante em que se serviu ao meu avô
Servirá, o garçon, com a mesma mesura
E o daquerrótipo continuará a definir minha cor
O mundo se reparafraseará, lá fora, sendo outro mundo, outra vez
Aqui dentro a tradição conserva o mesmo mundo em nossas almas
Transformando-as em um painel de azulejo português.
sexta-feira, janeiro 27, 2006
Hoje
Em homenagem à Mozart escutem "A Rainha da Noite" da "Flauta Mágica", principalmente os que admiram os Maçons (Mozart expôs segredos maçons e segundo uma das lendas que cercam sua morte prematura, foi assassinado por eles). Mentira. Mas isso só torna a audição mais gostosa.
segunda-feira, janeiro 16, 2006
Carta para Glívio:
Amigo Glívio, esse final de semana fui a sua loja e a encontrei fechada. E o que é pior: aquelas risadas soltas que eu dei com meus amigos em noites de traspassamos o expediente comercial estavam abafadas. Não se ouviam mais. Perdi o passo de discorrer contigo sobre a permanência do vinil pelos seus ruídos e a condenação da pureza do laser (pois o puro deixemos para o paraíso, aqui convivemos com pecados saudáveis, como a gula).Perdi o sabor intuído do futuro que estava dormindo na sugestão perspicaz do amigo, sugestão para se comer a dois, como se costuma lá em casa.
Glívio, as transnacionais venceram? Como eu queria que suas ideologias tivessem vencido o meu pai naquele dia de portas cerradas, quando e onde eu não podia mais saborear a surpresa que você prepararia para nós, enquanto nos empanturrávamos de vinho (porque vinho também é comida), ao som de Billie (que hoje me permitirá chamá-la assim), no disco escolhido por você. Mas os cálculos do meu pai são imperdoáveis e, infelizmente, exatos como a maldita pureza do CD.
Mas o pior, o pior disso tudo, amigo Glívio, é que eu não tenho a menor idéia de como encontrar você, de como ligar pra você, de como dizer que a amizade é a mesma, de convida-lo para uma farra e preocuparmo-nos com isso amanhã. De dizer o quanto sua comida me ensinou.
Se você ler isso por alguma razão que desconheço, se você for trazido a esse mar dantes furioso, se você chegar nessa terra inventada pelas minhas sem-razões, manda um e-mail pra mim (amussalem@hotmail.com). Eu não sei cozinhar, mas o sabor da amizade é algo que eu gosto de temperar.
Forte abraço
André
Glívio, as transnacionais venceram? Como eu queria que suas ideologias tivessem vencido o meu pai naquele dia de portas cerradas, quando e onde eu não podia mais saborear a surpresa que você prepararia para nós, enquanto nos empanturrávamos de vinho (porque vinho também é comida), ao som de Billie (que hoje me permitirá chamá-la assim), no disco escolhido por você. Mas os cálculos do meu pai são imperdoáveis e, infelizmente, exatos como a maldita pureza do CD.
Mas o pior, o pior disso tudo, amigo Glívio, é que eu não tenho a menor idéia de como encontrar você, de como ligar pra você, de como dizer que a amizade é a mesma, de convida-lo para uma farra e preocuparmo-nos com isso amanhã. De dizer o quanto sua comida me ensinou.
Se você ler isso por alguma razão que desconheço, se você for trazido a esse mar dantes furioso, se você chegar nessa terra inventada pelas minhas sem-razões, manda um e-mail pra mim (amussalem@hotmail.com). Eu não sei cozinhar, mas o sabor da amizade é algo que eu gosto de temperar.
Forte abraço
André
quinta-feira, janeiro 12, 2006
domingo, janeiro 08, 2006
quarta-feira, janeiro 04, 2006
terça-feira, janeiro 03, 2006
O significado cabalístico de 2006
Há exatos 10 anos - em 1996 - entramos em estúdio eu, Rodrigo Pinto, Carlos Campello, Alexandre Moreira e Giórgio X-nofonte, na primeira de várias gravações que permeariam nossas vidas até hoje: a gravação de "Bossa".
"Bossa" foi a estréia do Confraria de Bamba (à época denominada de "Confraria de Samba", denominação modificada pela provável confusão com os então efervescentes grupos de pagode de churrascaria), um projeto gravado no Conservatório Pernambucano de Música, em um dos mais modernos estúdios de gravação da época. Éramos 1o anos mais jovens, tínhamos perspectivas nunca confirmadas mas que foram registradas em uma mesa digital de 24 canais.
A despeito de todas as falhas de gravação, a audição hodierna de "Bossa" transparece a explosão de criatividade que acorda nos 20 e poucos anos e que portávamos como cédula de identidade. Não há uma identidade nas 05 músicas de "Bossa", contrapartida da juventude tanto minha quanto de Rodrigo que impedia, através da surpresa de desvelar-se-mo-nos músicos, uma unidade tanto de composição quanto de arranjos.
Por isso mesmo a delícia de se ouvir "Bossa" 10 anos depois; seja pela voz hesitante e falha, seja pela poesia juvenil e - de certa forma - inocente que desponta na audição de cada música. "Bossa" teve uma acolhida mais favorável do que podíamos imaginar, mas nunca foi divulgada para o grande público, como cada gravação posterior do Confraria até sua última edição "Obra Aberta, Carta Fechada", que eu considero a obra mais bem acabada por nós produzida: o amor ao samba e ao frevo tradicional devidamente homenageado em três músicas dedicadas a Paulinho da Viola.
Por ironia do destino, "Obra aberta" volta ao mesmo ponto de "Bossa", quebrando com as experiências de "Confraria de Bamba", a segunda fase do projeto, gravada em 1998.
O fim mudo do Confraria retrata a minha incapacidade de dialogar com o mundo lá fora, a despeito das tentativas de divulgação das músicas empreendida por mim e Gustavo, chegando ao ponto de burlar a segurança do "Abril Pro Rock" prá entregar uma cópia de "CD" para Lenine (onde estávamos com as cabeças?). Mas talvez o silêncio seja mais permanente do que o barulho e é por isso que a despeito do desconhecimento geral de "Bossa" ela continua nos impulsionando para registrarmos - em silêncio- novas coisas (no melhor contexto de Moacir Santos) com outros nomes, mas com o mesmo espírito.
10 anos depois, vamos gravar o "Som na Caixa, Mané" e eu deixo com vocês a letra da música que abrirá o novelhonovo projeto: "Oração de Madame Satã a Santa Bárbara"
Oração de Madame Satã para Santa Bárbara
Por que será que ele samba
E me deixa bamba assim ?
E assim, sai varando a madrugada
E me deixa guardada, dentro de mim
Diz que a noite é uma criança
E que o mundo é seu lar
Diz que não sabe se volta
Nem me pede pra esperar
Não vou me importar
Se ele vai sem hora
Jogar-se aos braços do ar
Ou se ele então demora
Esse homem vou amarrar
Com um santo de Angola
Que é pro dia cedo raiar
E ele voltar-me agora
Zera a reza, a terça, mãe, irmã, Iansã
Eu fiz uma promessa, Ioruba, Nana
Ponta de Lança guarda minhas costas vãs
Com essa rosa negra
Não vou me importar
Se ele faz das horas
Um cetro pra ele reinar
Pela noite afora
Santa Bárbara há de escutar
Essa filha que ora
Pra dessa febre lhe exorcizar
E ele encontrar a aurora
Zera a reza, a terça, mãe, irmã, Iansã
Eu fiz uma promessa, Ioruba, Nana
Ponta de Lança guarda minhas costas vãs
Com essa rosa negra
"Bossa" foi a estréia do Confraria de Bamba (à época denominada de "Confraria de Samba", denominação modificada pela provável confusão com os então efervescentes grupos de pagode de churrascaria), um projeto gravado no Conservatório Pernambucano de Música, em um dos mais modernos estúdios de gravação da época. Éramos 1o anos mais jovens, tínhamos perspectivas nunca confirmadas mas que foram registradas em uma mesa digital de 24 canais.
A despeito de todas as falhas de gravação, a audição hodierna de "Bossa" transparece a explosão de criatividade que acorda nos 20 e poucos anos e que portávamos como cédula de identidade. Não há uma identidade nas 05 músicas de "Bossa", contrapartida da juventude tanto minha quanto de Rodrigo que impedia, através da surpresa de desvelar-se-mo-nos músicos, uma unidade tanto de composição quanto de arranjos.
Por isso mesmo a delícia de se ouvir "Bossa" 10 anos depois; seja pela voz hesitante e falha, seja pela poesia juvenil e - de certa forma - inocente que desponta na audição de cada música. "Bossa" teve uma acolhida mais favorável do que podíamos imaginar, mas nunca foi divulgada para o grande público, como cada gravação posterior do Confraria até sua última edição "Obra Aberta, Carta Fechada", que eu considero a obra mais bem acabada por nós produzida: o amor ao samba e ao frevo tradicional devidamente homenageado em três músicas dedicadas a Paulinho da Viola.
Por ironia do destino, "Obra aberta" volta ao mesmo ponto de "Bossa", quebrando com as experiências de "Confraria de Bamba", a segunda fase do projeto, gravada em 1998.
O fim mudo do Confraria retrata a minha incapacidade de dialogar com o mundo lá fora, a despeito das tentativas de divulgação das músicas empreendida por mim e Gustavo, chegando ao ponto de burlar a segurança do "Abril Pro Rock" prá entregar uma cópia de "CD" para Lenine (onde estávamos com as cabeças?). Mas talvez o silêncio seja mais permanente do que o barulho e é por isso que a despeito do desconhecimento geral de "Bossa" ela continua nos impulsionando para registrarmos - em silêncio- novas coisas (no melhor contexto de Moacir Santos) com outros nomes, mas com o mesmo espírito.
10 anos depois, vamos gravar o "Som na Caixa, Mané" e eu deixo com vocês a letra da música que abrirá o novelhonovo projeto: "Oração de Madame Satã a Santa Bárbara"
Oração de Madame Satã para Santa Bárbara
Por que será que ele samba
E me deixa bamba assim ?
E assim, sai varando a madrugada
E me deixa guardada, dentro de mim
Diz que a noite é uma criança
E que o mundo é seu lar
Diz que não sabe se volta
Nem me pede pra esperar
Não vou me importar
Se ele vai sem hora
Jogar-se aos braços do ar
Ou se ele então demora
Esse homem vou amarrar
Com um santo de Angola
Que é pro dia cedo raiar
E ele voltar-me agora
Zera a reza, a terça, mãe, irmã, Iansã
Eu fiz uma promessa, Ioruba, Nana
Ponta de Lança guarda minhas costas vãs
Com essa rosa negra
Não vou me importar
Se ele faz das horas
Um cetro pra ele reinar
Pela noite afora
Santa Bárbara há de escutar
Essa filha que ora
Pra dessa febre lhe exorcizar
E ele encontrar a aurora
Zera a reza, a terça, mãe, irmã, Iansã
Eu fiz uma promessa, Ioruba, Nana
Ponta de Lança guarda minhas costas vãs
Com essa rosa negra
segunda-feira, janeiro 02, 2006
E um cantinho de terra n´algum lugar
2006 é um mar azul a ser descoberto
Se fui pobre, não me lembre até depois do carnaval. Aliás, só depois do carnaval volto a funcionar corretamente. Enquanto isso, vou na manha, devagarzinho, concretizando 2006 aos poucos, sem pressa muita, que o sufoco até o fim de 2005 foi grande. Merecido passeio de lancha em Maragogi proporcionado pelos amigos ricos. Que a riqueza - da alma, principalmente - me contamine nesse ano que chega.
quinta-feira, dezembro 22, 2005
And so it is...
Eu gostaria de terminar o ano com a foto abaixo
com a pureza do sorriso de Bebel, alheia a tantas coisas mundanas
Inevitável como a próxima geração que sorrirá e chorará tantas vezes
E que contará os anos como nós contamos os anos
E quederá mais solícita nessa época que denominamos natal
Absorta em tantos símbolos disvirtuados como o disvirtuado é o homem mesmo
Mas Bebel guarda a pureza dos que seguem o inevitável e não sabem porque
E o seu sorriso pensa as feridas do que se foi, só porque ele vale a pena:
2006 será o ano da concretude
Eu me casarei
Eu lecionarei
Eu cantarei
Eu gravarei
Eu publicarei
Eu engravidarei
Não falarei das coisas passadas porque vocês as passaram comigo
nem quero falar das coisas presentes, porque elas estão agora comigo
Falo das coisas futuras, como o horizonte puro e misterioso no sorriso de Bebel
Feliz natal a todos
Feliz 2006
com a pureza do sorriso de Bebel, alheia a tantas coisas mundanas
Inevitável como a próxima geração que sorrirá e chorará tantas vezes
E que contará os anos como nós contamos os anos
E quederá mais solícita nessa época que denominamos natal
Absorta em tantos símbolos disvirtuados como o disvirtuado é o homem mesmo
Mas Bebel guarda a pureza dos que seguem o inevitável e não sabem porque
E o seu sorriso pensa as feridas do que se foi, só porque ele vale a pena:
2006 será o ano da concretude
Eu me casarei
Eu lecionarei
Eu cantarei
Eu gravarei
Eu publicarei
Eu engravidarei
Não falarei das coisas passadas porque vocês as passaram comigo
nem quero falar das coisas presentes, porque elas estão agora comigo
Falo das coisas futuras, como o horizonte puro e misterioso no sorriso de Bebel
Feliz natal a todos
Feliz 2006
sexta-feira, dezembro 16, 2005
sexta-feira, dezembro 09, 2005
Pocket conto de natal
Ele havia acordado naquela noite disposto a cravar a lâmina cega no pescoço do pai. Tudo pela surra da noite anterior que quase lhe custou a vida. Ninguém daria conta da vida de um pastor naqueles dias. Mas ao se aproximar do rosto barbado do pai, ouviu uma cantilena de anjos lá fora, vindo de uma manjedoura que ficava ali perto. E deu-se uma comoção de não-sei-o-quê nele, embora não compreendesse bem a língua cantada. E viu o homem que estava deitado diante de si como algo particularmente próximo, naquilo que se convencionava a chamar de família. Recolheu a lâmina e engoliu a dor da surra se esforçando para repetir a cantilena que ouvia vinda lá de fora da manjedoura. E deu-se uma paz na casa e na cabeça do menino que seria morto pelo pai naquela mesma semana.
terça-feira, novembro 22, 2005
segunda-feira, novembro 21, 2005
And here we go again
Peço perdão pela omissão um tanto forçada (a se perdurar, inclusive. Foi mal, Marcelo)
Mas o esquema (música-advocacia-livro) está me chupando de uma maneira não muito gostosa.
Eu volto, logo, logo; tal qual um restaurante depois da reforma.
Aos meus três leitores fiéis, paciência e compreensão.
Até breve.
Mas o esquema (música-advocacia-livro) está me chupando de uma maneira não muito gostosa.
Eu volto, logo, logo; tal qual um restaurante depois da reforma.
Aos meus três leitores fiéis, paciência e compreensão.
Até breve.
segunda-feira, novembro 14, 2005
quarta-feira, novembro 09, 2005
MEIUQER
Aos que amam Manuel Bandeira. Aos que querem-querem. Aos que têm esperança e que não vão deixar de falar ao mundo por causa de qualquer intempérie. Você tem medo? Vem, me dê a mão - mesmo que à distância. O que morre hoje, nasce de novo amanhã. Vamos juntos enfrentar a fúria do mar:
Estrela da Vida Inteira
Estrela da Vida Inteira
Salvaguarda meu caminho
Brilharás sobremaneira, no meu coração sozinho
Quero os beijos de Adalgisa
A saliva de Carmela
A cidade em minhas veias
O que o ópio me reserva
Vou-me embora desse mundo
Vou para onde a tisteza não possa aparecer
Estrela da Vida Inteira
Querem coagir meu peito
a me dar por satisfeito
com trabalho, voto e lar....
Mas tal qual qualquer Estrela
quedo extinto enfim, um dia
sob o signo da alforria
de brilhar em outro ser
Vou-me embora desse mundo
Vou para onde a tisteza não possa aparecer
Estrela da Vida Inteira
Estrela da Vida Inteira
Salvaguarda meu caminho
Brilharás sobremaneira, no meu coração sozinho
Quero os beijos de Adalgisa
A saliva de Carmela
A cidade em minhas veias
O que o ópio me reserva
Vou-me embora desse mundo
Vou para onde a tisteza não possa aparecer
Estrela da Vida Inteira
Querem coagir meu peito
a me dar por satisfeito
com trabalho, voto e lar....
Mas tal qual qualquer Estrela
quedo extinto enfim, um dia
sob o signo da alforria
de brilhar em outro ser
Vou-me embora desse mundo
Vou para onde a tisteza não possa aparecer
sexta-feira, novembro 04, 2005
Episódio V
Fantasmas (Parte V)
E esse homem foi crescendo no decorrer das horas. O Desembargador sentia-o alimentando-se de desejos não confessados, com os de ter um apartamento bem melhor, de ter uma casa na praia, talvez uma casa no campo, talvez a garantia de que as coisas na velhice não esmoreceriam como lembrança. A manhã passou-se e o Desembargador “X” confortou-se que o crescimento do homem dentro dele seria limitado pela inércia em ligar para o advogado para falar daquele numerário no papel. Talvez o advogado nem aparecesse mais e toda essa conversa de numerários, liminares, corrupção quedasse como um episódio pitoresco que ele guardaria consigo e confessaria a um padre quando da unção extrema. Tão somente porque houve um desejo. Mas logo ao chegar no seu gabinete, o Desembargador notou um novo pedaço de papel dobrado sobre sua caixa de despachos pendentes. Abriu o papel dobrado e deparou-se com um numerário ainda maior e um número de telefone. Rapidamente, o Desembargador rasgou o papel e colocou as mãos sobre a cabeça atormentada. Queria se livrar daquilo tudo, mas não queria. E de repente, o homem havia dominado o Desembargador.
Há quem diga, no entanto, que as coisas não se passaram dessa maneira. Que o Desembargador não teve um conflito moral de-si-para-si, mas que durante todo o período em que estava titulado, apenas aguardava a hora certa para lançar suas fichas em uma prática velada de venda de decisão, por um preço excessivamente justo na tabela das coisas que não podem ser.
Fato mesmo é que o Desembargador encontrou-se mais uma vez com o advogado e apresentou-lhe um esboço da decisão naquele processo em que havia tantas partes envolvidas, inclusive o próprio Estado da Federação. E dizem que a decisão era tão bem argumentada que ninguém desconfiaria de que a mesma havia sido comprada se não fosse o fato de uma das partes envolvidas no feito já ter desencarnado há anos antes da primeira petição que iniciou o processo. Mas mortos não fazem parte do imaginário dos Desembargadores e o “X” não poderia saber do fato que o levou a enfrentar uma execução em praça pública. Mas vamos devagar que a estória deve ser bem trabalhada, como dizia Josefina Minha-Fé.
E esse homem foi crescendo no decorrer das horas. O Desembargador sentia-o alimentando-se de desejos não confessados, com os de ter um apartamento bem melhor, de ter uma casa na praia, talvez uma casa no campo, talvez a garantia de que as coisas na velhice não esmoreceriam como lembrança. A manhã passou-se e o Desembargador “X” confortou-se que o crescimento do homem dentro dele seria limitado pela inércia em ligar para o advogado para falar daquele numerário no papel. Talvez o advogado nem aparecesse mais e toda essa conversa de numerários, liminares, corrupção quedasse como um episódio pitoresco que ele guardaria consigo e confessaria a um padre quando da unção extrema. Tão somente porque houve um desejo. Mas logo ao chegar no seu gabinete, o Desembargador notou um novo pedaço de papel dobrado sobre sua caixa de despachos pendentes. Abriu o papel dobrado e deparou-se com um numerário ainda maior e um número de telefone. Rapidamente, o Desembargador rasgou o papel e colocou as mãos sobre a cabeça atormentada. Queria se livrar daquilo tudo, mas não queria. E de repente, o homem havia dominado o Desembargador.
Há quem diga, no entanto, que as coisas não se passaram dessa maneira. Que o Desembargador não teve um conflito moral de-si-para-si, mas que durante todo o período em que estava titulado, apenas aguardava a hora certa para lançar suas fichas em uma prática velada de venda de decisão, por um preço excessivamente justo na tabela das coisas que não podem ser.
Fato mesmo é que o Desembargador encontrou-se mais uma vez com o advogado e apresentou-lhe um esboço da decisão naquele processo em que havia tantas partes envolvidas, inclusive o próprio Estado da Federação. E dizem que a decisão era tão bem argumentada que ninguém desconfiaria de que a mesma havia sido comprada se não fosse o fato de uma das partes envolvidas no feito já ter desencarnado há anos antes da primeira petição que iniciou o processo. Mas mortos não fazem parte do imaginário dos Desembargadores e o “X” não poderia saber do fato que o levou a enfrentar uma execução em praça pública. Mas vamos devagar que a estória deve ser bem trabalhada, como dizia Josefina Minha-Fé.
sexta-feira, outubro 21, 2005
Morgana e o passarinho (full image)
Postei um escrito que não fazia sentido sem a foto logo abaixo (eu não havia conseguido postar a foto, por problemas técnicos). Depois de resolvê-los, publico novamente o escrito, desta vez, devidamente ilustrado pela ocasião que o motivou:
Minha gata conversa com o passarinho:
Tudo é relativo do outro lado do muro
Voar é uma questão de saber se desvencilhar do chão
Ser livre é ater-se às responsabilidades para com o outro
O mal é apenas o bem mal-feito: Vem cá que eu te ensino a flexibilizar perspectivas
O passarinho não caiu nessa
E voou para a segurança dos seus postulados
Minha gata conversa com o passarinho:
Tudo é relativo do outro lado do muro
Voar é uma questão de saber se desvencilhar do chão
Ser livre é ater-se às responsabilidades para com o outro
O mal é apenas o bem mal-feito: Vem cá que eu te ensino a flexibilizar perspectivas
O passarinho não caiu nessa
E voou para a segurança dos seus postulados
Parte 4 (ou, pelo tamanho, 3/76)
No decorrer da noite lenta, o Desembargador foi assombrado na continuidade do seu sono. Assombrado não por fantasma ou súcubo ou espírito desencarnado buscando passar o tempo da eternidade: mas assombrado pelo homem de carne e osso que precedia a titulação; assombrado pelo X do Desembargador. Os suores noturnos denotavam o homem angustiando-se pela oferta sinalizada do papel. Dinheiro para acabar com as preocupações do Desembargador; sim, porque as contas não diferenciam os nomeados dos sem-importância, chegam para todos. E mesmo acordado pelo pânico de saber-se homem naquela hora, o Desembargador sonhou: sonhou com uma casa em praia longe, sonhou com uma viagem para ilha remota, sonhou com a paridade com outros Desembargadores que haviam aceitado outras ofertas de outros advogados em outros processos em outros tempos. E na lentidão das horas, o Desembargador anoiteceu e o homem dentro dele amanheceu. E pela primeira vez em muitos anos, não houve prazer no ato de vestir-se para o café, pois havia um homem dentro dele que desrespeitava a titulação e que acreditava que era mais importante ser homem do que ser Desembargador.
terça-feira, outubro 04, 2005
Episódio 3
Fantasma (parte 3)
Deu qualquer desculpa ao advogado e o apresentou ao caminho de fora. Não queria se envolver com qualquer tramóia arquitetada por quem não pensa em honrarias.
Após a saída do advogado, chegou para o Desembargador um bilhete sem assinatura entregue a um funcionário da limpeza e dobrado sem maiores cuidados. Ao abrir o bilhete, o Desembargador deparou-se com um numerário que até então não cabia na sua vida. Depressa, rasgou em pequenos pedaços o papel, jogou no lixo e esvaziou a lixeira. A partir daquele momento, a tranqüilidade do gabinete do Desembargador X parecia abalada por algo invisível. O ar pesou. A caneta pesou. O existir pesou. Sequer despediu-se dos funcionários no final do expediente; deixou intacto o chá, os processos em sua mesa; não alertou o assessor sobre os feitos que deveriam entrar em pauta para julgamento na próxima sessão. Saiu depressa querendo não se fazer notar; mas ele era o Desembargador X e não tardou para que, mesmo na discrição de seus passos, alguém apontasse o dedo e repetisse a titulação: “Desembargador X”.
Jantou só. Não esperou pelos filhos, nem pela esposa. Recolheu-se ao quarto e apanhou um surrado manual de ética que trazia consigo desde os tempos de faculdade. Mas não leu. Ligou a TV e ficou a ouvir o noticiário sem prestar muita atenção no que era dito, deixando-se embalar pelas palavras que, destoando do contexto das imagens, viravam uma canção de ninar ruidosa e melancólica.
Deu qualquer desculpa ao advogado e o apresentou ao caminho de fora. Não queria se envolver com qualquer tramóia arquitetada por quem não pensa em honrarias.
Após a saída do advogado, chegou para o Desembargador um bilhete sem assinatura entregue a um funcionário da limpeza e dobrado sem maiores cuidados. Ao abrir o bilhete, o Desembargador deparou-se com um numerário que até então não cabia na sua vida. Depressa, rasgou em pequenos pedaços o papel, jogou no lixo e esvaziou a lixeira. A partir daquele momento, a tranqüilidade do gabinete do Desembargador X parecia abalada por algo invisível. O ar pesou. A caneta pesou. O existir pesou. Sequer despediu-se dos funcionários no final do expediente; deixou intacto o chá, os processos em sua mesa; não alertou o assessor sobre os feitos que deveriam entrar em pauta para julgamento na próxima sessão. Saiu depressa querendo não se fazer notar; mas ele era o Desembargador X e não tardou para que, mesmo na discrição de seus passos, alguém apontasse o dedo e repetisse a titulação: “Desembargador X”.
Jantou só. Não esperou pelos filhos, nem pela esposa. Recolheu-se ao quarto e apanhou um surrado manual de ética que trazia consigo desde os tempos de faculdade. Mas não leu. Ligou a TV e ficou a ouvir o noticiário sem prestar muita atenção no que era dito, deixando-se embalar pelas palavras que, destoando do contexto das imagens, viravam uma canção de ninar ruidosa e melancólica.
segunda-feira, outubro 03, 2005
Presente de Casamento
Corri para tentar dizer-lhe o segredo de tudo
Dobrei a esquina e sequer reparei na moça de olhos negros
Venci o pesadelo de fracassar naquela ponte depois da Avenida
Tinha certeza que ia dar tempo ao jogar quatro anos da minha vida no acostamento
Mas cheguei tarde demais e você saiu na carruagem antes que pudesse te segredar
Vendo você ao longe, feliz, e acenando ao povo, disse cá comigo:
Benditos são os que não sabem e não têm quem lhes conte o segredo
Dobrei a esquina e sequer reparei na moça de olhos negros
Venci o pesadelo de fracassar naquela ponte depois da Avenida
Tinha certeza que ia dar tempo ao jogar quatro anos da minha vida no acostamento
Mas cheguei tarde demais e você saiu na carruagem antes que pudesse te segredar
Vendo você ao longe, feliz, e acenando ao povo, disse cá comigo:
Benditos são os que não sabem e não têm quem lhes conte o segredo
terça-feira, setembro 27, 2005
Clara
(eita mulher prá causar ciúmes...)
Domingou, ensaio geral do Nação
Clara vem com o mundo na palma da mão
vem sorrindo, me dispensa o seu olhar
pois o seu olhar é caro e vale o sem-fim do mar
Quem pensar o amor dessa mulher reter
de carcereiro a prisioneiro vai verter
Clara é a prisão do que você sentir
e dormir com ela é um passo prá se despertar tão só
Clara é sonho e você não vai acordar
Clara é clara e infinita como o mar
Clara diz não choro porque sei ser mulher
mas no fundo o que ela quer é um colo e um solo
prá fincar sua raiz
Descolada, ladra de toda atenção
o seu não tem hierarquia superior
o amor segundo ela é uma contra-mão
e a vida não lhe dá tempo qualquer para uma paixão
Tatuou o seu registro pessoal
bem na nuca (a fronteira entre o bem e o mal)
desesperada, quando chega o carnaval
ela aspira, proibida, e torna a vida como quer
Clara é sonho e você não vai acordar
Clara é clara e infinita como o mar
Clara diz não choro porque sei ser mulher
mas no fundo o que ela quer é um colo e um solo
prá fincar sua raiz
PS (música bobinha, feita aos vinte anos, mas que agrada pelos novos arranjos)
Domingou, ensaio geral do Nação
Clara vem com o mundo na palma da mão
vem sorrindo, me dispensa o seu olhar
pois o seu olhar é caro e vale o sem-fim do mar
Quem pensar o amor dessa mulher reter
de carcereiro a prisioneiro vai verter
Clara é a prisão do que você sentir
e dormir com ela é um passo prá se despertar tão só
Clara é sonho e você não vai acordar
Clara é clara e infinita como o mar
Clara diz não choro porque sei ser mulher
mas no fundo o que ela quer é um colo e um solo
prá fincar sua raiz
Descolada, ladra de toda atenção
o seu não tem hierarquia superior
o amor segundo ela é uma contra-mão
e a vida não lhe dá tempo qualquer para uma paixão
Tatuou o seu registro pessoal
bem na nuca (a fronteira entre o bem e o mal)
desesperada, quando chega o carnaval
ela aspira, proibida, e torna a vida como quer
Clara é sonho e você não vai acordar
Clara é clara e infinita como o mar
Clara diz não choro porque sei ser mulher
mas no fundo o que ela quer é um colo e um solo
prá fincar sua raiz
PS (música bobinha, feita aos vinte anos, mas que agrada pelos novos arranjos)
quinta-feira, setembro 22, 2005
Pausa no conto: hoje é equinócio (de primavera)
Para Andréia, que acha meu blog "afrescalhado" : )
A aridez e a flor
Não há primavera nessa terra
por força do clima: ora seco, ora úmido
ora qualquer coisa que entristece a gente
não há uma flor que valha a pena
Mas se naquela menina eu planto esperança
e colho, quem sabe, um olhar de destino
se desatino em prédio, mas sonho com flor
quiçá essa dor, essa ausência floresça
e arremate e me desça ao encontro do chão
Beijando a menina, colhendo-a com calma
Não na palma da mão, ou no canteiro
não por nada, ou por dinheiro que a tenho estação
mas primavera no dia, primavera unção
beijando a menina, colhendo-a com calma
primavera no sim, primavera na alma
A aridez e a flor
Não há primavera nessa terra
por força do clima: ora seco, ora úmido
ora qualquer coisa que entristece a gente
não há uma flor que valha a pena
Mas se naquela menina eu planto esperança
e colho, quem sabe, um olhar de destino
se desatino em prédio, mas sonho com flor
quiçá essa dor, essa ausência floresça
e arremate e me desça ao encontro do chão
Beijando a menina, colhendo-a com calma
Não na palma da mão, ou no canteiro
não por nada, ou por dinheiro que a tenho estação
mas primavera no dia, primavera unção
beijando a menina, colhendo-a com calma
primavera no sim, primavera na alma
quarta-feira, setembro 21, 2005
Segunda Parte
Fantasma (segunda parte)
Anunciado o advogado, esse não se fez de rogado. Sentou-se como se aquele gabinete fosse sua casa e o Desembargador X um amigo do pai ou do avô que lhe pegou nos braços quando em época de calças curtas. Sorria uma lua. Despejava um dicionário. O Desembargador X fez sol na ousadia do advogado que não ousara baixar os olhos ao receber a honra de ser recebido. Encrespou a face franzindo sulcos para mostrar que pública era a função, mas o espaço era privativo. O advogado nem. Disse:
- Desembargador, não vou tomar-lhe o tempo que é precioso. Mas o Senhor tem em mãos um processo muito importante para um cliente meu.
O Desembargador não mudou a face:
- Os autos estão aqui?
- Estão aqui comigo. Pedi à sua assessoria para separa-lo.
- Pois não?
- É um caso delicado. Envolve muito dinheiro.
- Vou ler com cuidado – O Desembargador notou que o advogado ficou nervoso de repente.
- Entenda, Desembargador...há um grande volume de dinheiro envolvido nessa causa. Dinheiro que ajudaria quem precisasse...entende? A liminar...entende?
Não precisava maiores explicações. Pela primeira vez, desde que havia se revestido no gáudio do título que ostentava, o Desembargador X estava presenciando uma oferta de dinheiro pela sua decisão favorável aos interesses de advogado. Não que isso não acontecesse, e até com uma certa freqüência. Mas não imaginava ele que tão cedo no Tribunal recebesse uma proposta indecorosa. Pelo menos aos olhos da lei, da ética, da justiça e de todas essas coisas inúteis que não tangenciam o mundo da vida.
Anunciado o advogado, esse não se fez de rogado. Sentou-se como se aquele gabinete fosse sua casa e o Desembargador X um amigo do pai ou do avô que lhe pegou nos braços quando em época de calças curtas. Sorria uma lua. Despejava um dicionário. O Desembargador X fez sol na ousadia do advogado que não ousara baixar os olhos ao receber a honra de ser recebido. Encrespou a face franzindo sulcos para mostrar que pública era a função, mas o espaço era privativo. O advogado nem. Disse:
- Desembargador, não vou tomar-lhe o tempo que é precioso. Mas o Senhor tem em mãos um processo muito importante para um cliente meu.
O Desembargador não mudou a face:
- Os autos estão aqui?
- Estão aqui comigo. Pedi à sua assessoria para separa-lo.
- Pois não?
- É um caso delicado. Envolve muito dinheiro.
- Vou ler com cuidado – O Desembargador notou que o advogado ficou nervoso de repente.
- Entenda, Desembargador...há um grande volume de dinheiro envolvido nessa causa. Dinheiro que ajudaria quem precisasse...entende? A liminar...entende?
Não precisava maiores explicações. Pela primeira vez, desde que havia se revestido no gáudio do título que ostentava, o Desembargador X estava presenciando uma oferta de dinheiro pela sua decisão favorável aos interesses de advogado. Não que isso não acontecesse, e até com uma certa freqüência. Mas não imaginava ele que tão cedo no Tribunal recebesse uma proposta indecorosa. Pelo menos aos olhos da lei, da ética, da justiça e de todas essas coisas inúteis que não tangenciam o mundo da vida.
terça-feira, setembro 20, 2005
Comecinho do conto
Fantasma
Ser desembargador é exatamente oposto a ser fantasma. Desembargador procura luzes, sol, gente, multidão. Fantasma vive de sombra, medo, de inexistência intuída. Assim era o Desembargador X, gente pública que como seus pares não pertencia mais a si, mas a consciência coletiva de quem o via passar e apontava-o com dedo em riste: “Desembargador X”. E isso lhe comprazia. Dava-lhe a glória cotidiana conquistada a ferro, fogo e política, no garimpo que lhe tomou os últimos anos da titularidade de uma vara comum escondida no fórum da capital.
Esse árduo trabalho de cativar seus superiores justificava (para si) a vaidade diagnosticada no bem-estar de ser apontado no espaço que era seu: o público. Gente privada é diferenciada pelo sobrenome: o “tal” do “fulano”. Sua diferenciação advinha da titularidade outorgada pelo Tribunal de Justiça “Desembargador fulano”, ou, no caso, “Desembargador X”. Até sua família findou-se titularizada: esposa do Desembargador, filhos do Desembargador. E isso também lhe comprazia.
Havia até um certo prazer perverso em vestir a toga, em calcular a altivez do olhar dispensado aos que assistiam ao seu julgamento. Um gozo não liquefeito, mas etéreo como as luzes que eram atraídas pela sua presença emblemática. “Emblemática”: o Desembargador X gostaria disso.
Definitivamente, os fantasmas são diferentes. Contou-me certa vez Josefina Minha Fé que os fantasmas não gostam de pessoas porque lembram a eles que a vida vivida é aquela vivida na carne. Por isso são agressivos com gente viva, quebram louças, rangem dentes, chamam nomes que não lhes eram permitidos chamar quando eram de carne. Mas como ninguém acredita muito em fantasmas, eles vão resignados para o canto mais escuro da casa e evitam o contato direto com aqueles que um dia serão seus pares. Ficam ensimesmados em seu espaço privado, construído no alívio de sua invisibilidade a olhos comuns.
Voltemos, por ora, ao Desembargador X. Seu fim de tarde era sempre sentado no seu gabinete, sala privativa para aliviar as pressões de ser público, tomando um chá de arnica preparado por uma das suas funcionárias mais antigas, uma parenta sua, que tinha a função de filtro: filtrava pessoas de importância das sem-importância quando o Desembargador estava livre para recepções. Filtragem essa não muito eficiente, pois, um dia, apareceu por lá um certo advogado que tinha nas mãos um importante processo, cujo relator era o Desembargador X.
Ser desembargador é exatamente oposto a ser fantasma. Desembargador procura luzes, sol, gente, multidão. Fantasma vive de sombra, medo, de inexistência intuída. Assim era o Desembargador X, gente pública que como seus pares não pertencia mais a si, mas a consciência coletiva de quem o via passar e apontava-o com dedo em riste: “Desembargador X”. E isso lhe comprazia. Dava-lhe a glória cotidiana conquistada a ferro, fogo e política, no garimpo que lhe tomou os últimos anos da titularidade de uma vara comum escondida no fórum da capital.
Esse árduo trabalho de cativar seus superiores justificava (para si) a vaidade diagnosticada no bem-estar de ser apontado no espaço que era seu: o público. Gente privada é diferenciada pelo sobrenome: o “tal” do “fulano”. Sua diferenciação advinha da titularidade outorgada pelo Tribunal de Justiça “Desembargador fulano”, ou, no caso, “Desembargador X”. Até sua família findou-se titularizada: esposa do Desembargador, filhos do Desembargador. E isso também lhe comprazia.
Havia até um certo prazer perverso em vestir a toga, em calcular a altivez do olhar dispensado aos que assistiam ao seu julgamento. Um gozo não liquefeito, mas etéreo como as luzes que eram atraídas pela sua presença emblemática. “Emblemática”: o Desembargador X gostaria disso.
Definitivamente, os fantasmas são diferentes. Contou-me certa vez Josefina Minha Fé que os fantasmas não gostam de pessoas porque lembram a eles que a vida vivida é aquela vivida na carne. Por isso são agressivos com gente viva, quebram louças, rangem dentes, chamam nomes que não lhes eram permitidos chamar quando eram de carne. Mas como ninguém acredita muito em fantasmas, eles vão resignados para o canto mais escuro da casa e evitam o contato direto com aqueles que um dia serão seus pares. Ficam ensimesmados em seu espaço privado, construído no alívio de sua invisibilidade a olhos comuns.
Voltemos, por ora, ao Desembargador X. Seu fim de tarde era sempre sentado no seu gabinete, sala privativa para aliviar as pressões de ser público, tomando um chá de arnica preparado por uma das suas funcionárias mais antigas, uma parenta sua, que tinha a função de filtro: filtrava pessoas de importância das sem-importância quando o Desembargador estava livre para recepções. Filtragem essa não muito eficiente, pois, um dia, apareceu por lá um certo advogado que tinha nas mãos um importante processo, cujo relator era o Desembargador X.
sexta-feira, setembro 09, 2005
E eu canto...
Rosa Negra
Por que será que ele samba
e me deixa bamba assim
e assim, sai varando a madrugada
e me deixa guardada, dentro de mim
Diz que a noite é uma criança
e que o Mundo é seu lar
Diz que não sabe se volta
e nem me pede prá esperar
Por que será que ele samba
e me deixa bamba assim
e assim, sai varando a madrugada
e me deixa guardada, dentro de mim
Diz que a noite é uma criança
e que o Mundo é seu lar
Diz que não sabe se volta
e nem me pede prá esperar
terça-feira, agosto 30, 2005
E eu canto....
Jorge Maravilha
(Chico Buarque)
E nada como um tempo após um contratempo
para o meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
chorando, resmungando, até quando, não, não, não...
E como já dizia Jorge Maravilha
prenhe de razão
mais vale uma filha na mão do que dois pais voando:
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
(Chico Buarque)
E nada como um tempo após um contratempo
para o meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
chorando, resmungando, até quando, não, não, não...
E como já dizia Jorge Maravilha
prenhe de razão
mais vale uma filha na mão do que dois pais voando:
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
quarta-feira, agosto 24, 2005
Teoria da Relatividade
Minha gata conversa com o passarinho:
Tudo é relativo do outro lado do muro
Voar é uma questão de saber se desvencilhar do chão
Ser livre é ater-se às responsabilidades para com o outro
O mal é apenas o bem mal-feito:
Vem cá que eu te ensino a flexibilizar perspectivas
O passarinho não caiu nessa
E voou para a segurança dos seus postulados
Tudo é relativo do outro lado do muro
Voar é uma questão de saber se desvencilhar do chão
Ser livre é ater-se às responsabilidades para com o outro
O mal é apenas o bem mal-feito:
Vem cá que eu te ensino a flexibilizar perspectivas
O passarinho não caiu nessa
E voou para a segurança dos seus postulados
segunda-feira, agosto 22, 2005
Sexta-feira prá não sair da lembrança
Sexta-feira à tardinha: primeira garrafa de vinho aberta
Sardela e pesto genovês a deslizar sobre as torradas
Mais um amigo que chega, mais uma garrafa aberta
O queijo reggiano compartilhado, amar o que se faz: isso permanece às dívidas
Mais um amigo que chega, mais uma garrafa aberta
Glívio cozinhando ao fundo: a carne desbota em sange
Pancceta e copa, mais uma garrafa aberta
os ânimos de exaltam, o ânimo habita o vinho
Billie Holliday é escolhida por Glívio, a conversa desbota em música
O disco de Jards Macalé emprestado, a confiança trespassa o clientelismo
Mais uma garrafa de vinho aberta
O título de mestre é compartilhado entre aqueles que bem sabem viver
Ao voltar para casa, a penumbra do meu amor dormindo tranquila
Mais uma garrafa de vinho aberta
O dia teve por cor o rubi.
Sardela e pesto genovês a deslizar sobre as torradas
Mais um amigo que chega, mais uma garrafa aberta
O queijo reggiano compartilhado, amar o que se faz: isso permanece às dívidas
Mais um amigo que chega, mais uma garrafa aberta
Glívio cozinhando ao fundo: a carne desbota em sange
Pancceta e copa, mais uma garrafa aberta
os ânimos de exaltam, o ânimo habita o vinho
Billie Holliday é escolhida por Glívio, a conversa desbota em música
O disco de Jards Macalé emprestado, a confiança trespassa o clientelismo
Mais uma garrafa de vinho aberta
O título de mestre é compartilhado entre aqueles que bem sabem viver
Ao voltar para casa, a penumbra do meu amor dormindo tranquila
Mais uma garrafa de vinho aberta
O dia teve por cor o rubi.
segunda-feira, agosto 08, 2005
30 anos
- Não há tempo, não há tempo...
Disse o coelho branco ao homem que tinha ido fotografar alice.
Ele não se perguntou acerca da esquisitice de um coelho branco segurando um relógio falar, porque mais esquisito era o fato de ele estar fotografando uma garotinha em poses sensuais.
- Não há tempo, não há tempo...
Coelho e relógios bons são coelhos e relógios mortos. E um tiro certeiro tingiu de sangue a adjetivação do coelho. Mas o relógio não parou. E isso era inevitável.
Disse o coelho branco ao homem que tinha ido fotografar alice.
Ele não se perguntou acerca da esquisitice de um coelho branco segurando um relógio falar, porque mais esquisito era o fato de ele estar fotografando uma garotinha em poses sensuais.
- Não há tempo, não há tempo...
Coelho e relógios bons são coelhos e relógios mortos. E um tiro certeiro tingiu de sangue a adjetivação do coelho. Mas o relógio não parou. E isso era inevitável.
segunda-feira, agosto 01, 2005
Agosto
Vem, Agosto
Com suas nominações de língua perdida
Com seus passos de coisa imaginada depois de algo que se conta
em mistério. Vem como minha mãe vinha para ver se eu havia morrido
E inaugura em mim a marca do tempo, renova as células imaginárias do tempo
A existência imaginária do tempo
Vem
Pai dos meses, feiticeiro de quadro de Goya
bruxedo de gente grande, coisa antecipada que fica em nós
senhor dos ventos, pressuposto de ficar em casa temendo-se o não sabido
Vem
Vem, Agosto
Que o meu corpo é um tronco disposto a ser levado pelo mar
Com suas nominações de língua perdida
Com seus passos de coisa imaginada depois de algo que se conta
em mistério. Vem como minha mãe vinha para ver se eu havia morrido
E inaugura em mim a marca do tempo, renova as células imaginárias do tempo
A existência imaginária do tempo
Vem
Pai dos meses, feiticeiro de quadro de Goya
bruxedo de gente grande, coisa antecipada que fica em nós
senhor dos ventos, pressuposto de ficar em casa temendo-se o não sabido
Vem
Vem, Agosto
Que o meu corpo é um tronco disposto a ser levado pelo mar
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