quinta-feira, fevereiro 11, 2010

SEGREGAÇÃO NO CARNAVAL E A ALAURSA DE PELÓPIDAS SOARES

Do carnaval de Pernambuco diz-se o mais democrático. Não há cordões de isolamentos como na Bahia, ou arquibancadas como na Marquês de Sapucaí, separando o povo da folia. A tradição pernambucana, noticiam os jornais, está no amálgama de gentes de classes diversas com músicos e bandidos, tudo ao mesmo tempo agora. Quando se erige uma casa patrocínio, um camarote luxuoso, um espaço para poucos, denominado VIP, logo o grito reverso se apresenta clamando pelo carnaval sem preconceito de raça, de credo e, principalmente, de classe social.

Tudo muito falso. Esse carnaval pernambucano tradicionalmente democrático só existe na cabeça de intelectuais e isso a partir da segunda metade do século XX. Que os intelectuais do século XIX, cento matriz da brincadeira moderna, torciam o nariz para o entrudo. O carnaval de rua era o espaço reservado para os forros, para os artesãos que fundavam suas troças homenageando suas funções, como o Vassouras, o Pás, o Carvoeiros, para ficar apenas em alguns.

A elite pernambucana, da aristocracia inventada, ficava nos clubes e nos teatros da capital, imitando o carnaval europeu; em uma Europa, também, inventada.

Os teatros e clubes mimetizaram-se em casas e corsos; os carros do início do século XX faziam as vezes de cordões de isolamento, e o asfalto (ou as pedras portuguesas) nunca chegava a tocar os pés de uma classe média que estava se consolidando. Só com a decadência da classe média e com a casa se aproximando cada vez mais da rua é que vemos surgir um espaço em que convive o saudosismo aristocrático do frevo de bloco com o suor enérgico do frevo de rua. O romantismo intelectual de resistência da segunda metade do século XX fortaleceu a impressão de que o carnaval, em seu nascedouro, é uma festa essencialmente popular.

Para mim, a tradução literária disso que escrevi até aqui: que a segregação (e a negação dela) também faz parte do carnaval está em um belíssimo conto de um dos grandes autores pernambucano (para mim, o maior contista do Brasil), Pelópidas Soares. O conto, denominado Alaursa trata das desventuras de um cortador de cana, feio como o diabo, que supera todas as suas tristezas morais no carnaval, quando se transfigura em uma alaursa e transcende sua triste figura. Paralelamente a esse anti-herói, o autor desenha um quadro aristocrático de uma família natural de Catende, cujo patriarca é um riquíssimo médico, hoje residente no Recife, e que comemora o carnaval em uma fazenda bucólica com uísque escocês e com uma radiola a tocar o frevo mecânico.

Até que um jovem não identificado, mas que deve ser desses jovens românticos da década de sessenta, inflama na aristocracia brincante a idéia de ir até o clube popular da cidade para se misturar com o volksgeist de fevereiro. O patriarca da família acha a idéia horrível, mas é vencido pelo espírito intelectual da juventude. No clube popular, tudo é festa ao redor da alaursa.

A aristocracia bebe e brinca no meio da turba. Entre os aristocratas, está a esposa do médico patriarca, uma jovem senhora educada na Europa, belíssima e moderna; animada com a possibilidade de conhecer, ali, o “verdadeiro” carnaval. Embriagada ela dança com a alaursa. Até que só ficam os dois no meio do salão. O cortador de cana, rejeitado por todas as mulheres, percebe ali uma oportunidade ímpar. Leva-a para um canto longe dos olhos ébrios da multidão e (usarei o termo correto) dá uma senhora trepada com a curiosa cidadã do mundo. Ao cair em si, após o gozo, a esposa do rico médico se depara com a máscara da alaursa e com todo o significado de um carnaval sem amarras, elogio do grotesco. Ela grita e corre desatinada. O cortador de cana dorme como uma criança ao som do frevo a embalar seus sonhos sem amanhã.

Post scriptum 1 – Esse texto não é uma apologia à segregação, mas uma constatação de fato. Pessoalmente, e a partir de uma análise psicossocial do carnaval (ou coisa que o valha), acho que o carnaval só tem sentido na libertação de todas as amarras, incluindo as sociais. Por isso, usamos máscaras. Carnaval com ar condicionado e com garçom será sempre o anti-carnaval.

Post scriptum 2 – Moral da estória: Só brinca carnaval de verdade quem tem coragem de encarar o pau da alaursa

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Por que esse poema sempre encaixa

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

M. Bandeira

terça-feira, janeiro 05, 2010


SAUDAÇÃO A ALVARO DE CAMPOS

Portugal-Desvelado, dezesseis de dezembro de dois mil e nove
Evoé!

Da tua terra eternamente estrangeira, imune à passagem das horas e dos séculos
Saúdo-te, Álvaro, meu torturador feroz, irmanado nas minhas chagas universais
Ó homicida das sensações católicas, engenheiro da obra infinitamente incompleta
Puta de todas as indisposições do sentir
(eu que as sinto nesse grito mudo que dou)
Grande prostituta a dar-se para todos os recôncavos da alma negra
Primeiro de todos os meus mestres que ingressaram a fórceps pelos meus poros

Homem chamado Álvaro ou André, a sair perpetuamente de casa
Repetição homérica de todos os poetas que para o serem
Sangraram as mãos nas cordas firmes das naus sem nomes e se lançaram aos mitos
Ulisses elétrico do século vinte
Predecessor de todas as guerras e ratos que fizeram de cada racionalidade
um impulso elétrico que, em mim, nunca se dissipou.

Eu, com minha face branda e minhas mãos pensas,
Com meu terno roto de tanto porto e navios e pontes e gentes
Venho beijar-te as mãos, como faria com a virgem sempre imaculada
Por reconhecer em ti todas as religiões, mesmo as que foram negadas
E saudar-te como quem saúda um monólito imenso
Que é Deus e carne ao mesmo tempo

Olha, que já vem se prenunciando o grande tempo
E uma orgia de coisas já grita a sua hora: é carnaval, Álvaro, homem de coisas imensas
Vem comigo perder-se na insupeição do homem alheio
Dá-me cá tua mão e teu suor e tua metafísica
Grita, como gritaste do Grande Cais e não sabia onde ias
Que só há verdade em não saber aonde vamos
Deixa-te levar comigo na correnteza dos devaneios
Para que tenhamos mil braços, dezenove mil pernas e nenhum pensamento;
Nenhum, por mais original que seja
Que construiremos nossa identidade na ausência sequer do pensar em nada

Evoé, irmão engenheiro, pelas coisas que sentes
Sou teu irmão porque as sinto também
Roubei-te a coisa real por dentro e a imaginada por fora
(Quantas coisas eu roubo e proclamo-as minhas.
eu mesmo roubado de mim, sou proclamado meu)
Roubei-te mas não faz mal, porque sou o teu irmão
Roubei-te mas não faz mal, porque não sou eu.

Era preciso que eu sofresse dessa febre e cólera
Era preciso que eu estive ciente do meu passo para morte
Para que pudesse cantar este canto como quem rasga o corpo de um inimigo
Um canto trespassado na alma pelos espíritos dos facínoras e dos santos
E já não ser eu mas uma turba logicamente indefinida
A invadir as igrejas e os parlamentos em nome de nada

Ó tu que és nada, homem-Álvaro imenso
És a contracorrente dessa matéria, desse piano de cauda, dessa moça a dar com paus
Estás no meu impulso de lançar-me à transitoriedade
Estás no ponto cego dos retrovisores dos carros a seguir na estrada
Estás na dúvida entre ser Deus e ir à Tabacaria
Estás em mim como uma sífilis que anuncia à cidade os meus pecados

E eu, nu, como as prostitutas rechaçadas dos fins-de-semana
Solitário e circunspeto como cada uma delas
Faço-te festa no universo, irmão Álvaro
Vou buscar-te uma mentira para além da nossa galáxia
A mentira de saber-me aqui a cantar-te isso
De estar sentado em dúvida desse próximo verso
Aguardando minha esposa e ouvindo o banho da minha filha
Eu não sou nada disso
Nunca estive aqui
Esses versos não existem
Como nunca existiu um Álvaro de Campos
E justamente por isso, Evoé!

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Tradicional como Roberto Carlos

Quando a noite era prévia ao romper do ano
Sempre escolhia uma roupa nova para a novidade do ano por vir
Para que o passado ficasse alheio a mim, e eu, novo, para o mistério do futuro
Que besteira
Hoje eu visto a mesma roupa do ano passado
A mesma roupa que eu vestirei no ano que vem
Porque eu quero o passado comigo
E os anos que se foram estarão ao meu lado no ano que é novo
Não há novidade maior que estar vivo a cada novo segundo
E em cada segundo do passado eu experimento o ano vindouro



Feliz ano novo aos neus três leitores e à infinidade dos que não me lêem
Sem promessas, mas com esperanças
armadas sempre entre o temor e a maravilha

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Feliz Natal







Pela simbologia e tradição



Pela boca dos falsos anjos e profetas



Mas pela verdade das crianças



Que seja essa a nossa oração

Momento Gastronomia - Lisboa


Depois de uns dias pela Península Ibérica, voltei à minha terra e deparei-me com um amontoado de jornais. Todos eles ficaram quietinhos, esperando meu retorno para serem lidos. Dentre tantos assuntos que me apareciam como velhas novidades, supreendeu-me a quantidade de novos restaurantes que surgiram nesses treze dias de minha ausência. Em tão pouco tempo, tantos restaurantes. A maioria deles era objeto de crítica gastronômica que tecia loas (aqui, a crítica gastronômica sempre tece loas) à profusão de "reduções", "espumas" e outras invencionices modernas que se sustentam, na maior parte das vezes, na cozinha espanhola.

Como já deixei bastante claro nesses meus escritos extemporâneos, sou adepto da cozinha verdadeira. Daquela feita com base na tradição. Na cocção lenta dos sulcos orgânicos a ponto de nos refletir no prato feito artesanalmente para nós. Olho com desconfiança, mas não com preconceito, para essa moderna cozinha molecular ou atômica ou coisa que o valha.

Ao refletir sobre o significado da "tradição" fiz um poema, há alguns anos atrás. Dediquei a um restaurante do Recife, o Leite, de matriz portuguesa, que conserva em seu cardápio e em seu ambiente o elogio ao status quo, o que lhe permite, paradoxalmente, ser revolucionário em meio à constante auto-paráfrase do mundo.

Eu havia feito, em uma das versões do poema, uma crítica à contra-tradição, representada, arquetipicamente, pela "desconstrução" gastronômica, moda já citada, de raiz catalã. O trecho do poema foi vetado na versão definitiva do mesmo, mas transcrevo aqui por entender que ele traduz o sentimento que introduz esse meu escrito:


Coisa que sabe à coisa, como eu te desejo !
Carne que tem gosto de carne, vinho que tem gosto de vinho
Mas é apenas artifício isso que vejo

(e o vinho tem gosto de carne e a carne tem gosto de queijo)
Serei eu artifício do meu original? O Mundo se modificou e não sei mais o que me é natural


Introduzo assim meu amor pela comida portuguesa. Pela comida feita com aquilo que se é: alho, azeite, pão. A trama é tecida artesanalmente como se a mesma mão centenária estivesse a guiar os cozinheiros de hoje; e nesse encontro de mãos presentes e pretéritas a tradição se transmuta atemporal e se torna muito mais que a permanência de nós.


Para homenagear a comida portuguesa, apresento "O Pinóquio".


Há treze anos atrás, quando fui a Portugal pela primeira vez, meu pai levou-me ao Pinóquio. Ficou na minha memória o gosto das azeitonas temperadas com alho, o pão de milho com manteiga, as vagens portuguesas refogadas no azeite extra-virgem. Era um mundo novo, mas, de igual modo, familiar, pois ali, no meu prato, estava também a permanência da nossa colonização.

O Pinóquio fica no centro de Lisboa, na Praça dos Restauradores, Baixa. Destaca-se em meio aos prédios históricos pelo seu verde dominante e pelos seus aquários de lagostas, sapateiras e outros frutos do mar, que aguardam o freguês (não consumidor - invenção da modernidade) guloso. Os garçons são verdadeiros malabaristas e contorcionistas, lançando seus corpos nos limites estreitos das mesas, e atendendo com precisão aos reclamos dos gourmets. O preço é acima da média dos restaurantes informais da cidade; mas vale à pena se tua alma não é sovina.

Lá, como sempre o Pica-pau: nacos de filé banhados em azeite e alho, acompanhados de batatas que, ritualisticamente, banhamos nesse bálsamo gordo e benfazejo da tradição portuguesa. Os frutos d´água são igualmente famosos: deixei-os à minha esposa que sonha mais com o mar do que com a terra. Aliás, é nos sonhos que o Pinóquio permanece como memorial da tradição: nessa metade sonhada da gente que não quer mudar.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

O nome do texto abaixo é a "Sombra de Príamo". Escrevi pensando no drama pessoal de um homem público, o político Sílvio Costa, que, diante das acusações de improbidade que recaíram sobre seu filho, foi a uma rádio e disparou verborragicamente contra tudo e contra todos, em uma clara atitude antipolítica, mas perfeitamente compreensível sob o signo da paternidade.

O que fará um pai pelo filho? Não pude responder esta questão ao longo de trinta e dois anos da minha vida. Apesar de ter em minha imaginação até então a amplitude do se doar para a descendência, logicamente não sentia na carne a possibilidade da anulação completa em nome de quem mais se ama. A maior prova de amor imposta pela divindade a um homem, nos relatos religiosos da tradição judaico-cristã, foi o sacrifício daquele que procede: o filho. E o mesmo filho seria sacrificado, posteriormente, pela divindade, fechando o ciclo do amor infinito.
Para além da metafísica, só hoje acho que posso compreender o momento mais doloroso da Ilíada, quando Príamo vai a Aquiles reclamar o cadáver de Heitor que dorme insepulto, por capricho do vencedor da batalha. É no momento em que Príamo se ajoelha perante Aquiles, e beija sua mão, que se dá toda a anulação do pai por amor ao filho. No texto traduzido, o canto de Homero ficou assim: “Por teu bom pai de um velho te apiedes/ Mais infeliz do que ele, estou fazendo/ o que nunca mortal fez sobre a terra/Esta mão beijo que matou meus filhos”.
Com um beijo o rei deixa de existir para reclamar não o seu corpo morto, mas o de seu filho, porque ao passar pela morte de sua descendência não existirá coroa ou trono capaz de deixar o rei satisfeito. A Ilíada trata da cólera de Aquiles. Mas é a cólera disfarçada de submissão de Príamo que vence o orgulho do guerreiro. Cólera que o leva, desarmado, a adentrar na tenda do inimigo para mostrar a sua dor. E quem poderia julgar a atitude de Príamo? Quem tem a paternidade no peito sabe da cólera dormente que nos levaria a nossa própria anulação por amor ao nosso filho.
Por ele invadiríamos as rádios, romperíamos alianças, lançaríamos as lanças sobre quem estivesse na frente; beijaríamos a mão do assassino. Faríamos o sacrifício imenso do corpo físico ou do corpo político para resgatar o filho que dorme, justa ou injustamente, insepulto no coração do pai que tudo agüenta, tudo suporta. A despeito de toda política que envolveu a cólera do deputado Sílvio Costa, ao ver seu filho alvo de acusações envolvendo a Secretaria de Turismo do Estado, havia ali, no momento do seu desespero perante a imensa platéia que lhe ouvia, a sombra trágica de Príamo tentando resgatar o corpo filial enterrado por palavras. Só hoje, ao olhar o sono tranqüilo da minha filha, posso entender o beijo resignado do rei Príamo e a cólera paterna do político Sílvio Costa.

domingo, novembro 29, 2009

para o infinito e além


Para onde a gente vai, pai?
Para 2010, filha
E o que tem lá?
Não faço a menor idéia
Mas você não sabe tudo?
De jeito nenhum; papai seria infeliz se de tudo soubesse
...
O bonito é isso, filha, é não ver o horizonte, mas saber que ele existe
Então me dá a mão, pai
Tem medo não, filha, a gente anda sobre as águas
É milagre, pai?
É amor, filha

sábado, novembro 28, 2009

Fratelli



Só os olhos treinados podem ver os espíritos que caminham entre nós. Entender que mais do que uma manifestação da metafísica, os espíritos são a permanência do nosso passado, destroçado, diminuído, mas ainda assim lá, a sussurrar sua teimosia em ficar no tempo que não mais lhes pertence. São unicórnios silenciosos a atestar que fomos feitos para a única certeza que trazemos na carne: que nada fica para sempre.

Um dia, as ruínas da fábrica da Fratelli Vita não existirão mais. Mas enquanto elas estão aqui, eu me sinto mais próximo dos que me antecederam, fico irmanado aos meus fantasmas, em vida; e o gosto do guaraná doce na boca transforma toda saudade em sentido.

quinta-feira, novembro 19, 2009

No Alarms and no surprises

Esse inverno em pleno dezembro,
Impede que o sol ao sol se repita
Desobedece aos simples conceitos da física
Como um anti-deus não semita

Sopra o frio nos meus ossos da face
E o que era sorriso reconstrói-se em angústia
Enquanto o mar (azul) se descobre em vidas
A minha vida se encobre em minúcias

E quedo antítese do caju e do garbo
Nevando nos dias de sol de dezembro
Pois em vão tento conter esse inverno
Que me esfria o futuro até onde me lembro

terça-feira, outubro 06, 2009


MEU BRASIL PROFUNDO

No corpo de minha filha há um trânsito infinito de gentes
Dos sertões mais longínquos do seu avô, passagem de homens e gado
Aquela foto de casal pintada à mão, sussurrando o inconfessável para além do sangue
Essa bisavó negra que deitou com tantos homens, cujos filhos legitimam meu estado de coisas

No corpo de minha filha dorme o amálgama das nações
A travessia do mar pelos árabes, o gosto pelo cobre, o nome da pataca
Meu sangue quente e insuportável que se torna palavra na boca e morre cólera
Um gosto de flor de laranjeira e de doce amarelo a dar suporte às pálpebras

No corpo de minha filha gritam os entreatos do amanhã
nossa criança portuguesa a ter esperanças de novamente ser grande
Um colar de contas, uma ousadia de cruzar a porta aberta
E o mar infinito a se tornar braços, mãos, olhos e pernas

Na cama da minha filha, repousa insone o mapa dessa anti-guerra

sexta-feira, setembro 04, 2009

NO BAR DA MIRA

Os santos africanos têm boca. Comem tudo o que a boca come, como Exu. Os santos católicos são pálidos, parecem que nunca viram um prato de pirão na vida. Parece que nunca foram na Mira. O Bar da Mira é uma dessas jóias que já fazem parte do itinerário turístico da cidade, com seus mitos e lendas e uma verdade inquestionável: a qualidade de sua cozinha. Mira é devota de Cosme e Damião, santos católicos. Mas eu acho que são os Iberês que dão as caras por lá, na hora do almoço. A comida de Mira é um ritual de fé e esperança que vai além do pão e do vinho. Coisa para poucos.
Como toda liturgia, começamos do caldinho de feijão, nominado por Edmilson, o baiano, de café. Edmilson é o celebrante desse ato religioso: filho de Mira, sua presença é indispensável para compreensão da beleza que se esconde por detrás de cada prato. Primeiramente, devemos agradecer pelo privilégio de estarmos diante da autêntica comida pernambucana. Sem invencionices de espumas, reduções, salteados. Amém, Senhor. O cabrito precoce. Aleluia. O sarapatel. Hosana. A galinha de cabidela. Saravá. Feijão, pirão, pimenta. I tego arcana dei.
E no fim do ritual, comunguemos todos na mesa em torno do doce de banana, de caju. Misturado e gelado, com o gosto de cravo a afastar qualquer pecha de pecado da gula a pairar sobre nossas cabeças abençoadas pela cerveja gelada. Oremos. A vida vale o peso exato desses momentos de paz.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Oxóssi

Eu, bancário, advogado, professor, burocrata
De unhas cortadas, caninos serrados
Cheirando a sabonete, alfazema, boa-fé
Limitado em meus braços por conta das gravatas
Desmatado nas pernas e nas vontades
Pelas motosserras das normas e do beijo conjugal
Hei de morrer sério, católico bucal
Para dar espaço a outro, que carimbará para além de mim

E quem me dera antes da morte
Libertar do meu peito aquele que eu era
Antes de existir civilizações e belas palavras
O meu deus das matas, meu senhor Oxóssi
Abrir a jaula dos lobos e dos vampiros
Morder a carne alheia e beijar a boca furtiva
Desdenhar do rato, do impressionismo e do perdão

Corromper com árvores a sífilis do amor eterno
Destronar dos filmes o final feliz
Andar porque andava e nem me dar por isso
Desculpar a tortura, a angústia e a opressão

Quem me dera morrer apenas como casca
E viver na vida a vida a que sempre disse não

quarta-feira, agosto 05, 2009

Lembranças de mundos encantados

Passei ontem na frente do prédio central dos correios. Veio-me uma lembrança alegre de quando era de poucos anos e lendo uma revista qualquer vi um anúncio de uma coleção de livros que se intitulava "Os Quatro Mundos Encantados de Walt Disney". Corri para minha mãe e disse aquilo que eu ouço repetidamente da boca da minha filha: "eu quero !" Minha mãe não relutou muito, visto que se tratava de uma coleção de livros e que isso me faria bem, afinal de contas, crianças não costumam pedir livros de presente.
A coleção não era vendida em livrarias. Apenas por pedido via correios e pagamento por boleto (visto que naquela época não havia internet e quejandos para facilitar a vida dos consumidores) a coleção quedaria acessível às crianças mais curiosas.
Foi minha primeira lição de paciência. O tempo naquela época corria com mais vagar: estradas velhas, estatismo exagerado dos caminhos que levam às comunicações.
Em um dia de sábado, meu pai me disse: vamos aos correios, seu presente chegou. Meu pai, sempre distante do meu mundo inventado, abriu a porta do carro rumo aos quatro mundos encantados de Walt Disney. Lembro do monumento que era o prédio dos correios. Colunas, mármore, gentes. Tudo me impressionou. Meu pai me pegou pela mão. Caminhou por entre os malotes, cartas. Eu sempre impressionado, de mãos dadas com meu pai. O malote veio em papel marrom. Pesado. Era uma coleção, afinal. Em casa, larguei a mão de meu pai e rasguei com voracidade o papel marrom, adentrando naquele chamado mundo encantado. E quanto de encantamento havia: nomes de bichos, estórias centenárias, segredos científicos, fábulas e mais fábulas. Eu me lembro que, por um instante, eu senti que dominava os segredos do universo. Lembro dos desenhos. Lembro das páginas e das letras. Lembro de quão era grande e belo o prédio dos correios.
Mas disso tudo, em meio a fábulas e bichos, a coisa de que mais me lembro é da força firme da mão de meu pai.

terça-feira, julho 21, 2009

Ao Orecic, com carinho

Foi justamente na mesa de um bar que ouvi a notícia. Justamente no dia do amigo: o Orecic fechou. Assim, inevitável. Cícero bandeou-se para os lados do Rio Grande do Norte, notícias desencontradas da busca por um grande amor. Ou talvez um câncer. Nunca se sabe. A única certeza disso tudo é esse buraco no peito que chora o fim de uma era. No Orecic, eu vivi, praticamente, todas as minhas dores. E todas as alegrias também. Pelo menos até aqui. A notícia do primeiro amor, o anúncio da chegança de Maria Eduarda. A casa feia e desbotada foi testemunha de laços feitos, desfeitos e refeitos, como se fosse um monólito erigido para acompanhar a história íntima de um grupo de homens.
A comida era ruim, o lugar era feio, a cerveja tantas vezes vinha quente. Cícero não nos atendia, tantas vezes. O nosso garçom foi demitido. Mas acima de tudo era aquele nosso quintal, nossa caixa de areia, onde ternos, batas e aventais não entravam;
No início do ano eu compus um frevo chamado “Orecic Futebol Clube” que diz assim em um trecho:

É fevereiro, vem
A carne queima, bem
No Orecic tem uma mesa pra sentar

Esquece o ano, e vem
Vem no meu passo, bem
A vida à toa está na mesa desse bar

O frevo não tem mais sentido, agora. Não tem mais tempo presente. Foi para o reino das coisas idas, como o próprio Orecic, para quem, nessa manhã chuvosa de terça-feira (o anti-dia), eu dedico esse poema:

ORECIC

Eu nunca estarei em paz com a finitude das coisas
porque eu sei que junto com as coisas idas
deixamos de ser esse pouco que nos restava
largados ao vento que sopra o inevitável
deixamos o tênis, os amores, o hálito
a diferença, o choro, o tormento
e tudo fica da espessura de um fotograma na parede
tudo se resume a esse fotograma na parede
nossa tentativa absurda que reter água e areia
como se pudéssemos negociar com a finitude das coisas
e dar-lhe em troca um copo de cerveja
por, quem sabe, mais um segundo de tangência.

segunda-feira, julho 13, 2009

The times, they are a-changing

Come gather 'round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin
'Then you better start swimmin
'Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'.

Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won't come again
And don't speak too soon
For the wheel's still in spin
And there's no tellin' who
That it's namin'.
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin'.

Come senators, congressmen
Please heed the call
Don't stand in the doorway
Don't block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There's a battle outside
And it is ragin'.
It'll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin'.

Come mothers and fathers
Throughout the land
And don't criticize
What you can't understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin'.
Please get out of the new one
If you can't lend your hand
For the times they are a-changin'.

The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin'.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin'.

sábado, junho 20, 2009

VALSA PARA AMOR, GUERRA E CIRCO


Ouço rumores de guerra
sangue, dor, desterro, vindos pelo mar
ela beija a minha boca com fúria e pouca
vontade de largar

Homens tomam a cidade, queimam fortalezas
Escravizam mães
Ela arranha a minha pele, diz que está com febre
E me pede mais

Tropas invadem por mar
Ela me morde sem fim
Enquanto eu sonho com a verdade
Ela tem saudade e me sussurra assim:

Acorda, amor
Acorda, amor
Vem ver o mar
Ver o mar
Ver o mar
Ver....

O mar, maré de gente e medo
de tanto segredo que a guerra tem
ela diz que não importa, que a vida é torta
e que eu sou seu bem

E assim a guerra adentra a noite, como um açoite
no corpo da paz
Ela puxa o meu cabelo, com terror e zelo
E me pede mais

Tropas invadem por mar
Ela me morde por fim
Enquanto eu sonho com a verdade
Ela tem saudade e me sussurra assim:

Acorda, amor
Acorda, amor
Vem ver o mar
Ver o mar
Ver o mar
Ver....

sábado, maio 02, 2009

O mundo precisa de mães


Para espantar a crise

Para dar palmadas em juízes

Para dar juízo aos políticos

Para dar abraço em putas

Para tocar os pés dos Cristos

Para lamber a alma dos papas

Para aninhar os pródigos

os sílvicolas

os loucos de todos os gêneros

Para quem, no silêncio da noite

está nu até de Deus

segunda-feira, abril 27, 2009

Botões e ratos

Quando me casei, pela segunda vez, minha ex-esposa escreveu o texto abaixo. Agora, minha ex-esposa está casada também. Encontrou o seu caminho, como eu encontrei o meu. E quão melhor o mundo seria, se fôssemos capazes de abrir nossos braços para o futuro sem os cotovelos do passado. Deve ter sido um casamento muito bonito, como são os espíritos de Aline e Edgar.

Gostaria de dizer palavras de brinde, como nos casamentos anglo-saxões. Mas as palavras de Aline, quando eu me casei, representam tudo o que eu gostaria de dizer, na mais verdadeira recíproca que pode haver entre um ex-casal:

"Fui hoje comprar um presente para o casamento de meu ex marido. Rodei a loja um tempão, tentando encontrar algo que, ao mesmo tempo, dissesse o quanto de alegria eu desejo para sua nova vida e o quanto lhe sou grata pelo seu apoio incondicional.André me ensinou que a amizade verdadeira (que é amor, no fim das contas), não precisa de um bando de coisas; só precisa de doação. Que erros podem ser reparados. Quer é possível perdoar, e, assim, curar dores terríveis. Que o rio da vida sempre continua.Nesse meu ano tão atribulado, André me deu ombro nos momentos mais difíceis. Quando me desesperei, ele mostrou que eu não precisava me sentir desamparada. Quando tive medo, ele me fez rir para espantar os demônios. Quando eu fui vítima de maledicência, ele me defendeu.Gosto de pensar que pouca gente no mundo consegue ter o que temos, depois de um divórcio. O respeito que construímos depois que nos refizemos. As "piadas internas" que mantemos. Fico muito feliz que ele tenha encontrado alguém como Fátima, que o faz enxergar o futuro sempre com olhos otimistas. E não digo isso pra parecer boazinha não, que eu nem carrego essa fama, nem dela preciso. Estou mesmo, genuinamente, feliz por ele ter encontrado seu caminho. Desejo aos dois toda a sorte que houver nessa vida. Encontrar um amor é muito difícil, e quando acontece... bem... quando acontece nunca mais a vida é a mesma.Acabei escolhendo um presentinho bobo, mas alegre. Tão alegre quanto desejo que a vida seja: para Fátima e André, para os bebês, e para mim também; por que não?"

sábado, abril 18, 2009

Maria´s song


Escuta, Maria, eu andei toda vida para te encontrar
Maria, Maria, duas linhas perfeitas não podem se tocar
E os meus sóis,
que se horizontam além de nós
brilharão sagrados
se tua noite antiga com eles se casar

Escuta Maria, pé no chão, fé na lida é que posso te dar
Maria, Maria, e o som da poesia que me trouxe pra cá
E quem de nós
poderá dizer que sós
seguiremos todos
se as nossas linhas querem se eninhar

Quando a noite nos chegar

Para a vida nos casar

Pé na reta e mira o mar

Maria....

quinta-feira, abril 09, 2009


Quantos nomes você terá?

Lê, Lelê, Amor, Meu Raio de Sol

Mas o que há em um nome?

Se o que interrompe a madrugada são seus olhos

Se o que deixa ansioso é não poder ser como o vento

e soprar nos seus ouvidos

Todo o amor que haverá por aqui afora

E nem sei se esse sopro será em Raquel ou em ti

porque ambas, imensas

são, sem nome, a extensão de mim

quinta-feira, março 12, 2009

FODEU


quarta-feira, março 11, 2009

ponto final

"Se viessem os ciganos
Com teu coração fariam
Anéis e colares brancos.
Oh, foge lua, lua, lua.
Quando vierem os ciganos,
Te acharão sobre a bigorna
Com teus olhinhos fechados.
Foge lua, lua, lua,
Que já sinto os seus cavalos
Deixa-me, filho, e não pises
O meu alvor engomado."

(tradução de Flaviola, sobre poema de Lorca, musicado pelo Flaviola, magistralmente gravado pro Amelinha, sentida por mim)

quarta-feira, fevereiro 25, 2009


Haverá sempre uma quarta-feira a nos lembrar do final
que a felicidade não é desse mundo,
que essa cidade é um vale de sangue e de sombras
que a alegria é um pecado,
que o martírio é nossa bandeira

Mas o nosso peito que não se entrega à confissão
o nosso peito pagão
lançará confetes sobre nossas cabeças
no dia de se lavarem as cinzas
a esperança sagrada será substituída
pela terça-feira gorda
que será então a última a morrer

segunda-feira, fevereiro 23, 2009



Finda a tempestade, o sol nascerá (com uma raiva do caralho); ai dos que vão sem protetor solar

Sempre haverá o carnaval no meio desse blog


O Galo é para os loucos de todo o gênero, especificamente os que nasceram frevando

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Genuflexório


Na curva perigosa dos trinta
Encontrei o Zé Pelintra; que dor
O miserável do meu corpo se apossou
E libertou essa sede tão infinda, essa fome que
de tão grande já não cabe no catecismo da alma
Alma, alma, alma
Lobo sem dentes, macaca risonha
E esse cavalo manco a foder o peito de quem sonha

sábado, fevereiro 14, 2009

O Bode Dourado

Cabeça Branca é o nome do sujeito. Só o dedo de prosa vale o calor da Encruzilhada. Mas o percurso não termina nas palavras, o Bode Dourado tem e merece a fama do melhor bode de Recife. Comer bode é uma arte para poucos. O sabor não agrada a todos. Mas a base do sertão vem ali, no prato, dourado como diz o nome. Acompanhado do pirão. Da vinagrete. Da farofa. O dourado do nome está na capa que protege a maciez da carne, dourada, resultado de algum tempo no forno depois de ter sido amaciada na cocção.

Quando servido, o bode é crocante, com o sabor característico preservado, seja no pernil, seja na costela. Os ossos se acumulam no prato, que mimetiza um cemitério dos prazeres passageiros, sem nos dizer "nós, que aqui estamos, por vós esperamos". Não, é antes um cemitério da boa lembrança, do gosto da carne minuciosamente preparada.

A simplicidade do lugar é inversamente proporcional a grandeza do preparo do bode. Esse animal que resiste às intepéries da vida, do solo seco, a palo duro, mas felizmente domado pela nossa fome, pois triste do bicho que o homem come.

(PS - Depois do bode, sugiro o licor de cana de açúcar de Triunfo, gelado, doce, perigosíssimo).

Abraços, Edvaldo, ó cabeça branca.

Bode Dourado
Rua Dr. José Maria, 217, lojas 09 e 10.
Encruzilhada
Recife

domingo, fevereiro 08, 2009

Gastronomia - daqui para frente

Desde que eu abri o blog tenho escrito várias poesias, publicado coisas alheias, tentado escrever na net, o que eu não escrevo em livros, papéis. Sempre guardei em mim um assunto que gostaria de falar porque me toca de maneira especial e mui profunda. A gastronomia da minha cidade. Mas a gastronomia acessível. Que me faz acreditar que a comida na mesa revela o tanto de gente e bicho que há em nós. Que eleva à alma até a carne, porque alma pela alma não tem gosto de nada, nem de hóstia.
Logicamente não vou publicar receitas. Não tenho competência para isso. O que eu quero é desvelar caminhos que acabei conhecendo, por tanto amar me perder entre os sabores. É uma forma de tornar esse blog mais útil também. Poesia não enche barriga de ninguém. (rimou).

Ainda sobre João do Morro

Ano passado, escrevi um artigo sobre João do Morro. Aliás, sobre a censura que queriam fazer às suas músicas. Até hoje esse artigo rende comentários. Ao tentar demonstra que o cadinho marginal (à margem do oficial) que dá origem às letras das músicas de João do Morro é o mesmo que foi nascedouro de tantos sambas (de Noel Rosa à Lamartine Babo) dei espaço a interpretações que levaram meu discurso para um caminho que eu não havia seguido: o da comparação do samba de Noel Rosa com o samba de João do Morro. De vero, nunca quis comparar coisa com outra, até porque, para mim, os critérios de definição do que é arte e do que vale como arte ainda não foram bem definidos. Gosto de ouvir Noel Rosa. Tenho curiosidade pela música do João.
Ontem, no Guaiamum Treloso, tive a oportunidade de escutar novamente João do Morro. A música dele é de uma precariedade gritante. "Balaiagem" (sic) tem uma melodia copiada de tantas outras que seguem uma sequência maior-menor-maior. A letra tem lacunas propositais decorrentes da falta de intimidade com a língua.
Mas a originalidade e a verdade da letra de João do Morro sempre me surpreendem. E não tem teoria musical que me tire o sorriso do rosto.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Nós fechamos os olhos
e já são vinte postagens em 2008.
A vida segue inevitável como a marcha dos pinguins.

Paz para todos.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Feliz Natal

O natal é meia banda de uma aspirina
para aliviar a enxaqueca crônica do mundo
tem as cores da coca-cola
e o gosto da neve que nunca vem.
Cristo não nasceu em dezembro
papai noel não existe e se existisse possivelmente estaria preso
acusado de pedofilia.
Mas só os sórdidos, os terrivelmente solitários
os loucos de todos os gêneros
e os intelectuais, imbecilmente intelectuais
ousam não sorrir mais leve
após tomar meia banda de aspirina

terça-feira, dezembro 16, 2008

Deus há de me compensar
por esses dentes tortos
por causa das lentes na cara
por esse senso de norte
Deus há de me compensar
por causa da morte do gato
porque eu perdi o meu ônibus
pelas mãos que evitam o tesouro
Deus há de me compensar
porque eu choro e eu sonho
pelas horas em que um mudo espanto
transborda da minha face em silêncio
e eu sigo conformado com os pássaros
Deus há de me compensar
ainda que eu faça o diabo
ainda que o mundo arrebente
em tanto rebanho de gente e de medo
Deus há de me confortar
eu cobro com multa e com juros
o preço de não ser ateu

domingo, dezembro 14, 2008

Um homem chamado André sairá hoje de casa

Iniciei um blog novo. Isso não significa o fim da "Fúria do Mar". Mas, já há algum tempo, pretendia sistematizar minhas idéias em algo mais alinhavado. O conceito do "Fúria" é de fluxo de consciência mesmo. Posto o que me dá na telha. Não raras vezes o conteúdo do texto se mistura com minha vida pessoal, o que imprime o tom de diário que eu não gosto muito. O novo blog será mais pensado embora não será raridade haver uma coincidência de textos postados.

Se minha única leitora (foi mal aí, José Teles) quiser dar um passeio por ele, está lá no "Wordpress". O http assusta: www.umhomemchamadoandresairahojedecasa.wordpress.com´

É isso.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

TREM

Se eu andasse sempre de trem, talvez mais feliz seria
pois nunca a volver, nunca a dar ré, é o modo da trilha
A paisagem sempre de uma vez, nunca repetida
pela imagem do retrovisor, invertida
Talvez mais feliz seria, se eu andasse de trem

Ao passo que o homem-automóvel, que vai de Lisboa à Sintra
terá sempre à disposição a marcha ré.
Verá o que perdeu de relance, por ser homem e possuir pouca fé
nos próprios olhos. Invertido no espelho do retrovisor, já não saberá
se veio de Lisboa ou se vai para Sintra
se seguia para vida ou prosseguia para o mar.

Mas o trem não se irmana a essas coisas. Não desperta o quiçá.
despreza o destino, os avisos de abalroamento
“Se eu casasse com a filha da lavadeira..” e, nesse momento, não estarás mais lá.

Atropela os acorrentados nos trilhos, mães, avós, pianos, segredos, a sala de estar.

Tudo de uma vez, como o vômito sincero da madrugada
Como a liberdade sagrada de uma coisa bruta e grega que não se apieda de ninguém
Eu quero ir como quem se lança a um soco
E o meu coração oco mais feliz seria, se eu andasse de trem

domingo, dezembro 07, 2008

Explicação para as fotos abaixo

Eu ainda me deixo surpreender pela tecnologia. As fotos postadas logo abaixo foram tiradas pela câmera do meu celular e enviadas imediatamente para o meu blog, através de um link automático. Isso não deve ser novidade para ninguém (nem para Maria Eduarda), e usualmente o "Blog do Jamildo" utiliza a mesma tecnologia para gerar postagens em tempo real (com filmagem). Eu sou da geração um dia antes do virtual, deixo-me conquistar tanto pelo mistério insondável da flor que não se deixa colher, quanto pela descoberta tecnológica que faço, ainda que tardiamente.


PS - Para minha prima Renata que deixou de ser a menina do sorriso mais gostoso do mundo, para ser a mulher com o sorriso mais gostoso do mundo, junto a José.

Um pouco mais cedo



Em tempo real



sábado, dezembro 06, 2008

quarta-feira, outubro 29, 2008


No fim daquela estrada

havia uma igrejinha

cinco anjos barrocos

dois dedos de prosa

um quarto de cachaça

o tempo que ali resolveu parar

eu olhei para você

e com todas as dúvidas do homem

perguntei

"ora, vamos nos casar?"

e você a mais bela de todas

com os dedos de flores

as estrelas na fronte

o vestido de infinito

sussurou em meu ouvido

"deus me livre, me guarde"


e, depois, com o sorriso no rosto

espantou o meu gemido

"se é para alegria dos olhos
felicidade geral da inexatidão
fique tranquilo que eu caso "


e o Senhor me disse "amém"

sexta-feira, outubro 24, 2008

No peito de um homem feliz bate um jambeiro
bate um jambeiro, bate um jambeiro

No peito de um homem feliz bate um jambeiro
bate um jambeiro a florescer no seu quintal

domingo, outubro 19, 2008

Ode à Shylock

Excelentíssimo Senhor da minha concentração
Marquês das roupas estiradas na cama, ou em qualquer lugar mínimo que lhe pareça aconchego
Duque da vista da minha varanda, cuidadosamente colocada por Deus, unicamente para o seu deleite
Sire do Mundo todo que presumimos por todo
Milord
permita-me dois dedos de meus poemas, para dizer-lhe o que não precisas ouvir

A tua cauda aponta para a via Láctea, os teus olhos apontam para o que tu queres
És o conquistador terrível das tuas vontades, a polícia desbravadora do que não sabes
O sorriso oculto em Da Vinci, que se equivocou ao pintar uma reles
Quando toda a explicação reside no sorriso que dás e que olhos comuns não percebem

Esticador hábil do próprio corpo, que faz dele a ponte entre o prazer e o deleite
Mestre das próprias unhas, elegantemente dispostas ao ato de apenas dizer-lhes:
“eu as tenho”
e calado mostrar quatro bainhas que, de tão nobres,
faz-te apenas expectar que as aceitem

Cavaleiro do próprio corpo, que não precisa de qualquer outro pra completar o trote
Ser completo em si mesmo, dono do próprio dote
eu quero cantar-te porque só sei de mim se contigo, porque não és meu amigo mas mi lorde

E eu que nada sou, nem poeta, nem gente e nunca serei nobre
curvo-me ao que não entendo: letras, ouro, corvo e sorte
curvo-me então aos teus olhos que reclamam a propriedade
do meu corpo, dos meus bens, de tudo que percebem e colhem
pois é este o ato maior de Deus: de ser senhor de tudo o que se pode

E ainda assim, nesta que é a maior de todas as posses, deitar diante de mim
E ofertar-me. O prazer de ser seu senhor e aplacar a minha sede
De não querer ser gente mas este
Mistério indecifrável que tem a mim e eu a ele.
Quantos mundos existirão entre um homem e seus gatos?
quanta assimetria, segredos, confissões
levaram esse que sou a amar
algo tão alheio, tão diverso e ao mesmo tempo próprio
tornar-me o animal de estimação dessa grande ausência
e deixar-me encoleirar por saudade tão diversa

Quantas cidades, quantas pessoas, quantas antlântidas submersas
existirão entre um homem e seus gatos?
Nesse espaço vazio que se assenhora de mim
fica a capacidade de amar o plural
rendido, inutilmente rendido, a um mundo sem animais
bestialmente humano, com essa dignidade reles e torpe
sem os olhos noturnos que contêm o que ainda há de sagrado:
eu me preparo para morrer sem lenda, sem metafísica
pois os homens são, sabem os bichos
os únicos seres que morrem e mais nada.

segunda-feira, outubro 06, 2008


Can you take me back where I came from
Can you take me back
Can you take me back where I came from
Brother can you take me back
Can you take me back?

quinta-feira, outubro 02, 2008

Da série: eu preciso postar no meu blog antes que o Blogger o extinga

Eu não aguento o cheiro da política. PT com Severino Cavalcanti. Democratas levantando a bandeira da ética. Kátia Teles prometendo congelar o preço dos bens em 'recife'. Vereadores prometendo agir como executivo federal. Só tem doido. Exílio na França, já. Aliás na França não, que lá as coisas andam pretas. Quero ir para Transilvânia. Pelo menos os vampiros de lá só sugam o sangue.
Pedra no Peito

Não adianta não, irmão
que a dor não passa não
em vão você se distrai

A sombra extensa da dor
no peito de quem andou
o avesso do mundo
não se desfaz

E quando a noite descer
e no peito você perceber
a anti-flor que brotou rapaz

Repare com atenção
no oco do coração
uma pedra imensa batendo em paz

Das músicas da década de 90

Duas décadas fazem parte do meu imaginário musical:

A década de 80 foi a descoberta da música pop. A tentativa de ouvir o que os adultos ouviam: A-HA, U2, Pet Shop Boys, Joy Division, Depeche Mode, Madonna, Titãs, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, White Snake, Kraftwerk. As fitas eram gravadas diratamente das rádios através de um som "Magnavox". Interessante ver meninos e meninas ouvindo bandas de hoje que seguem uma linha melódica minimalista e "menor", baseada, em parte, na década de 80.

A década de 90 foi minha adolescência e o início da maturidade. O fim do colégio e o início (a0 fim) da Universidade. Acho que ainda não assentou a poeira do tempo passado para eu racionalizar sobre o som dos 90´s.

Mas algumas frases musicais são lindas e me fazem sentir mais jovem quando as ouço:

"There are many things that I like to say to you, but I don´t know how"

"You know I´m such a fool for you"

(...)

sábado, agosto 02, 2008

Voltando: João do Morro

Há algum tempo queria voltar. Estava ocupado com coisas terrenas, e os bens da lavoura celeste cresceram desmesuradamente no meu esquecimento.

Enfim...à crônica

Free, João do Morro, Free.

João do Morro de hoje é um sambista na última acepção da palavra. Nasceu no morro. Convive com a mesma situação que, nos fins do século XIX, promoveu a inclusão na classe média do ritmo africano que se irmanava com a modinha. Deu-se ao ritmo o nome de samba, (samba do morro de ontem). Foi gravado nas Casas Edison, a primeira gravadora do Brasil.
O disco de João do Morro de hoje foi gravado a custos baixos, traz a linguagem da periferia recifense e caiu nas graças da classe média "moderna".
O samba do morro de ontem, quando surgiu, era uma picardia só; chegou denunciando a desmoralização da polícia do Rio de Janeiro incapaz de conter a jogatina no Largo da Carioca: "O chefe da polícia, pelo telefone, manda me avisar/ que na Carioca há uma roleta para se ganhar".
João do Morro de hoje insiste na primeira linha do samba, tantas vezes reafirmada por Noel Rosa, de noticiar o que o subúrbio lhe traz como ambiente. Noticiar, eu insisto. João do Morro é um cronista que interpreta o que lhe rodeia.
O samba do morro de ontem fazia a crônica das relações amorosas e sociais, despreocupado com o "dever ser"; como João da Baiana, que noticiava os intercursos sociais no começo do século XX "Então não bula na cumbuca, não me espante o rato/Se o branco tem ciúme, que dirá o mulato/Eu fui na cozinha pra ver uma cebola/E o branco com ciúme de uma tal crioula/Deixei a cebola a cebola, peguei na batata/E o branco com ciúme de uma tal mulata"
João do Morro de hoje é cronista de um modo natural, sem intelectualismos, sem direções ideológicas. Reinterpreta os temas que gravitam ao redor dele de maneira jocosa, reafirmando a vocação do brasileiro para a picardia, como já havia notado Gilberto Freyre. Observou uma relação patrocinada entre um homoafetivo e um rapaz que se aproveita de tal situação e transformou em samba.
O samba do morro de ontem também transformava em samba relações patrocinadas escandalosas, onde o sexo considerado "mais frágil" se dispunha a custear uma relação, transformando o amor em caso de polícia: "Quando a polícia vier e souber/ quem paga casa pra homem é mulher" (novamente João da Baiana, gravado por Clementina de Jesus).
A música de João do Morro de hoje tem acentos preconceituosos, sem dúvida. Mas João do Morro não é preconceituoso. É só ouvir a música "Camarote Girl" em que ele se declara um "simpatizante" da luta homoafetiva. João do Morro não disse qualquer mentira, noticiou um caso que poderia acontecer em qualquer tipo de relação. O viés envernizado da relação foi o mote para a música jocosa.
Outras músicas do morro de ontem também possuem acentos preconceituosos; "Teu cabelo não nega, mulata" dos Irmãos Valença, modificada por Lamartine Babo é um exemplo inegável de um preconceito que perdeu o sentido com o tempo. Afinal, todos cantamos "mas como a cor não pega, mulata/mulata eu quero teu amor", sem notarmos a pecha preconceituosa da letra. "Teu cabelo não nega, mulata" é uma das músicas mais executadas nos carnavais de hoje.

Chegará o dia em que não haverá qualquer viés jocoso em qualquer tipo de relação entre homens e mulheres. Mas este dia não será abreviado através de censuras disfarçadas de coisas-dignas.
Proibir uma música, interpretando-a de uma maneira descontextualizada é reiterar a censura de ontem com novas bases de legitimação para o hoje. Há um perigo ínsito nessa atitude muito maior do que deixar a execução do samba se perpetuar enquanto se aguarda o dia em que "frango" será um termo histórico sem qualquer sentido para nós homens iguais e diferentes. Quem tenta proibir a música de João do Morro não entende do samba de ontem, nem do morro de hoje.

domingo, fevereiro 24, 2008

Pobre Blog

Largado meio de lado, por causa de Maria, o Blog adentra a escuridão das coisas secundárias, sem qualquer alimento, bom ou ruim, que lhe dê o contínuo da vida. O Blog silencia como uma noite sonhada por uma árvore; cala como o eunuco das lavouras femininas, cala com o corpo.
Mas artimanhas são planejadas contra o Criador, e o Blog logo se tornará ateu de mim. Erigirá a minha não-existência ao plantel dos Deuses-Mortos e culturá o fato de que tudo tem um fim.

Por ora, eu ainda sou quem cospe por aqui.

(poema inacabado, 2003)

Na mesma terra árida, como eu faço todos os dias
abro a janela da minha casa e é sempre o mesmo céu que nos vigia
ao homem que passa (como a mim mesma) direi "bom dia"
o mesmo homem que sempre passa, na mesma circusntância
na mesa apatia

O dia é isso que me construo: a nata do leite que nunca tiro
O livro que leio, o mesmo livro
A memória que lembro: e é sempre a outra

sábado, janeiro 12, 2008

Frevo para Chico n° 1

Eu faço frevo e amor até mais tarde
E a cidade amanhece ao meu redor
Eu fecho os olhos sob o som dos automóveis
Eu vou sonhando com meu bloco vencedor

Se o meu bloco sai
Se o meu bloco é rei
Se dele em mim eu sei

Se a noite passa com a moça a me encantar
Eu faço frevo e amor como quem ousa sonhar

Eu faço frevo e amor até mais tarde
Ouvindo o Galo a tecer outra manhã
É fevereiro no corpo de quem me acolhe
E a noite escorre como uma febre terçã

Se o meu amor me dói
Se o meu amor é lei
Se dele em mim eu sei

Se a noite passa com a moça a me encantar
Eu faço frevo e amor como quem ousa frevar

sábado, dezembro 29, 2007

2008

Eu vejo uma grande mesa, comprida de firmes tábuas
É hora da ceia e sempre foi a hora da ceia
Não há nenhuma solenidade, nenhuma forma prévia
Apenas os diálogos vizinhos que excluem tudo de si, menos o diálogo
Eu vejo minha irmã
Eu vejo minha esposa
As crianças correm sem nada que as façam mover
Maria Eduarda, Rafael, Luana, Gabriel, Írio, Lucas, Beatriz:
Novos apóstolos de nenhum Mestre
Eu vejo minha esposa e o seu sorriso enche o meu prato
As mãos pensas do meu pai
O cansaço sublime de minha mãe
Eu grito por Gustavo, por Sandro, por Gabriel
Por Giorgio, por Mário, por Adauto
Por Filipe, por Carlos Henrique, por Rodrigo
Por Írio, por Márcio, por André
Eu parto o pão de Aline, de Vera, de Mariana
De Edgard
Os pés de Maria Juciane, as mãos de Renata
A ausência do meu avô
Em uma grande mesa, comprida de firmes tábuas
E na cabeceira o infinito
Quase se deixando entrever

quarta-feira, dezembro 19, 2007


Você vale ouro, todo o meu tesouro,
Tão formosa da cabeça aos pés,
Vou lhe amando, lhe adorando,
Digo mais uma vez,
Agradeço à Deus, por que lhe fez.

Ô, coisinha tão bonitinha do pai,
Ô, coisinha tão bonitinha do pai,
Ô, coisinha tão bonitinha do pai,
Ô, coisinha tão bonitinha do pai.
Charmosa, tão dengosa,
Que só me deixa prosa,
Tesouro, vale ouro,
Agradeço à Deus, por que lhe fez...

Ô, coisinha tão bonitinha do pai,
Ô, coisinha tão bonitinha do pai,
Ô, coisinha tão bonitinha do pai,
Ô, coisinha tão bonitinha do pai.
(Jorge Aragão)

sábado, dezembro 01, 2007

nós, por exemplo


E nos rincões da gente
Lá onde o Pai de Fátima reina entre o gado
Na inexistência dos bancos, das avenidas em dias de segunda-feira
O silêncio absoluto do umbu me conta uma estória
do amor entre um homem e sua filha

terça-feira, novembro 27, 2007

Nós, Gatos

(para Mari, em memória de Pretzel, a quem eu nomeei)

Eu pensava que, como as letras e o ouro,
os gatos não morriam nunca
que eram um mistério para além da vida
que eram da mesma matéria dos afagos maternos
que eram derivados dos genes dos unicórnios
e encantavam-se no não-ver das coisas, assim que ficássemos adultos

Mas um dia Deus viajou para outros homens
e o mundo ficou de terra, de água e de fogo
de coisas que podiam ser explicadas
e por serem explicadas simplesmente morriam

E o gato virou um pequeno felino
com retinas, músculos, cérebro e estômago
saliva, fúria e dor intensa
o gato virou nosso irmão

E pudemos, pela primeira vez,
abraçar o gato e desejar-lhe o melhor
afagar o gato e beijar-lhe a fronte
amar o gato e saber-lhe finito
deixa-lo partir, para que possamos continuar

domingo, outubro 21, 2007


Referências (para Maria Eduarda)


Vamos começar de onde minha memória mais antiga começa: do meu medo.

Naquela esquina fica o colégio Nossa Senhora do Carmo, eu tinha medo da santa que fica no frontispício e fechava os olhos toda vez que passava por ela. Ali mais adiante é o Colégio Salesiano, onde boa parte da minha vida se enterrou.

Na frente da Praça Chora Menino há um prédio alto com uma barriguda por detrás do portão. Dali, seu pai saía até a Praça Maciel Pinheiro para rezar na Matriz da Boa Vista. Cortava o caminho pela Rua Velha, que é linda, e que desemboca no Pátio Santa Cruz, aonde eu ia com sua avó comprar tempero.

Na Rua Barão de São Borja tem uma escola pública, cuja casa pertenceu ao tal Barão. De pequeno eu já achava tudo aquilo belíssimo e ficava observando os meninos jogando bola, torcendo para que eu fosse chamado pra substituir alguém.

De algum lugar, que não me lembro bem, saem as ruas antigas do Recife, aonde seu avô me levava para passear: São José (bairro em que ele nasceu), Igreja do Livramento, Santo Antônio, Bairro do Recife, Rua Capitão Lima, casa de sua tia-bisavó que morreu há tanto tempo.

Mais ao norte da cidade, no bairro chamado Rosarinho, tem uma casa em que seu pai imaginou suas primeiras estórias e suas primeiras músicas. Ainda hoje se sente por lá um cheiro de comida árabe, que me remete, Maria, às nossas origens, quando o seu Tataravô chegou no Brasil para confirmar que essa era uma terra boa.

Depois eu fui morar em Santo Amaro das Salinas, no mesmo apartamento que me abrigou quando eu era assim, como você, recém nascido para o Mundo. Tudo lá é impregnado de revoluções. Inclusive da maior de todas: de quando eu comecei a pensar em você.

Nós moramos atualmente perto da Praça de Casa Forte, na chamada Freguesia do Poço da Panela. Foi aqui que eu me casei com sua mãe. Por aqui há um ar de Recife do século XIX que resiste em não sair dos casarões e das ruas de pedras portuguesas. As pessoas daqui gostam de comer bem e beber cachaça de cabeça, como se isso afirmasse o orgulho de pernambucanos. Eu acho isso tudo muito estranho, Maria Eduarda. Mas são boas gentes, acolha-as com sabedoria.

Para além daqui, de onde a gente mora, existe o mundo de Apipucos e depois tem o Jardim Zoológico e depois eu não sei mais. Por ora, é o que você precisa saber.

Essas são minhas referências mais antigas. Você terá outras; incomunicáveis para mim. Não sei se o carnaval será a festa mais bela de todas para você, como é para mim. Não sei se você apreciará sorvete de tangerina da Fri-Sabor, como eu e sua mãe. Não sei se você, ao passar pela Rua Imperial, olhará para um casarão quase em ruínas e pensará “quantas histórias se escondem por detrás daquelas paredes...” A felicidade está nas nossas referências, Maria Eduarda. Em saber quem nós somos. Que estamos ligados, indissociavelmente, da história de uma Cidade, seja Recife, seja qualquer outra.

Os deuses são tristes porque não são de nenhum lugar.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Carta de Tia Aline para Maria Eduarda

Seja bem-vinda, Maria Eduarda, a este mundo maluco! Agora, em meio a sua ovelhinhas, você representa possibilidades incontáveis. Mas aqui nada é tão seguro quanto a barriga quentinha de sua mãe e o maligno senso de humor de seu pai.
Mas calma! Aqui também tem sorvete, tem Natal e tem amigos. Sua mãe não vai querer que você exagere no primeiro e seu pai certamente vai exagerar de mimos pra você no segundo. Quanto aos amigos… bem, são eles que não vão deixar você enlouquecer quando a vida começar a se tornar um pouquinho mais complicada.
Quanto a seu pai… pois é, Maria Eduarda, vá com calma no seu pai. Ele é bem menor que seu enorme coração, e por isso ele tende a ser um pouquinho exagerado. No amor e no castigo. Procure não deixá-lo doente de preocupações daqui a uns anos, e dê pulinhos de alegria todas as vezes em que ele te desenhar como numa revistinha em quadrinhos. (acredite: ele vai enchê-la de desenhos, música e poesia - aprenda bem rápido a apreciar tudo isso). E saiba que sempre, todas as vezes, em que alguma coisa de ruim acontecer, ele vai achar um jeito de te fazer rir.
Ainda bem que sua mãe é uma pessoa doce, meiga, e tranquila. Se você fosse filha só de seu pai essa carta não ia caber de tantas recomendações.
Tenha paciência com Shylock e Morgana. Sei que será difícil, porque eles são a coisa mais fofa que você verá em casa, mas tente. Lembre-se do que eles abriram mão para recebê-la bem (não se assuste, eles devem voltar ao normal). Eles encherão sua infância de brincadeiras e sorrisos.
Por último, recomendo que você faça como eu e assista, todos os fins de ano, o filme da Noviça Rebelde. O máximo de sabedoria que eu poderia passar para você eu aprendi ali. O negócio de que, quando Deus fecha uma porta, em algum outro lugar ele abre uma janela. Você, Maria Eduarda, é uma janela aberta.
Seja sempre portas e janelas escancaradas, e comece a viver assim, de amor.
De sua tia Nine.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Sweet dreams are made of this


Não há poesia, ou filosofia que explique este deslumbramento, ou alumbramento
Parece que nada fez sentido até hoje
E ainda assim isso diz pouco

quarta-feira, setembro 26, 2007

Evocação

Tem virado costume nas manhãs de sábado
No quieto do meu quarto, a presença
Da Musa, da Primavera e da Cotovia
Que na beira do meu leito a repetir
Sempre a mesma ladainha
Convidam o que dorme a domar o mundo
E fazer do mundo desperto uma poesia

Mas eu nem abro o olho e permaneço
Nessa ociosidade permitida pela apatia
Deixem o mundo ser mundo por si mesmo
Não me encham o saco, Musa, Primavera, Cotovia

O mundo não precisa de mim, é isso que penso
Nem o mundo precisa de poesia
Já há poetas demais a serem despertados

Pois no silêncio do meu quarto abandonado
Despovoado de sonhos, de cantos e alegoria
Fecho os meus olhos em direção as minhas pálpebras
E enxoto do sábado, a Musa, a Primavera e a Cotovia

segunda-feira, agosto 20, 2007

ORECIC

Há uma demanda dos que me cercam direta ou indiretamente pelo significado de um boteco perdido no fim de uma rua desapercebida chamado ORECIC. A curiosidade é despertada toda vez que eu tracejo: “Vou ao ORECIC”, ou, de uma maneira mais gostosa, “Vou tomar uma no ORECIC”. A resposta é automática em todos os casos: “o que diabos é o ORECIC?”.
Ao explicar de maneira rápida e sem muitos detalhes que o ORECIC é o bar onde eu me reúno com os meus comparsas nas tardes do sábado, um mito inexplicável é criado. Para tantos e tantos, o ORECIC é um diamante incrustado no alheio dos que buscam os bares da moda; um cantinho familiar onde uma comida com tempero inenarrável é preparada, onde a cerveja é geladíssima, onde, às quintas, Cartola, Paulinho da Viola e Chico Buarque fazem uma roda de samba, e Camila Pitanga pega um avião completamente disfarçada só para sentar ao lado da gente e compartilhar da espuma do chopp geladíssimo vindo diretamente do Capela no Rio de Janeiro.
O ORECIC pode ainda ser um reduto gastronômico para iniciados, onde acepipes conservados em receitas familiares pernambucanas de gerações ancestrais permanecem inalteradas pela mão de ferro de uma grande cozinheira.
Muitos pedem para ir lá. Querem compartilhar do mistério que parece existir nessa palavra incompreensível, nessa mitologia que se alimenta das poucas palavras e do imaginário que rodeia essa instituição universal do ser humano: o bar.
Mas eu mantenho guardado a sete chaves esse meu assento sagrado, ainda que o ORECIC não seja nada disso, mas tão somente um lugar onde nos despimos de todas as convenções, gravatas, letras, gramáticas, físicas, matemáticas, sistemas, engenharias, bancos, automações. Onde somos reis de uma terra inóspita e nos orgulhamos do nossos títulos de digníssimos filhas de uma puta.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Fazer anos

Deu-se que fiz anos antes da data do meu aniversário.

Padecendo da febre da dengue (e porque não sei ficar fora da moda), sentei-me na poltrona e fiz a única coisa possível para quem sente o corpo como se fosse um estorvo: fiquei imóvel, assistindo televisão. Para minha grata surpresa, a providência teve pena de mim e determinou que o canal “Telecine Cult” passasse “Roma de Fellini” para que eu pudesse esquecer um pouco das minhas fraquezas (eu gosto de pensar assim: a providência olhou para André e...). “Roma” é um filme belíssimo, com uma peculiar indefinição entre o documentário e a ficção, mas totalmente pensado através das percepções de Frederico Fellini sobre Roma, cidade que o contextualiza. Ao longo do filme, Fellini e Roma se misturam como personagens principais dentro da homenagem pintada com tintas impressionistas.

Sentado na minha poltrona pude entender que apenas quem sente o peso dos anos, dentro de um contexto de cidade poderia fazer uma homenagem como aquela. Não apenas uma homenagem à Roma, mas uma homenagem a si mesmo, como homem que compreende a cidade e as circunstâncias histórias que o cercam. Perder-se no seu contexto histórico é uma forma de se eternizar.

Ali, vendo aquela homenagem de Fellini à Roma, lembrei-me de uma viagem que fiz quando ainda tinha dezenove anos de idade. A Europa comemorava o centenário do cinema. Em Roma, entrei em uma exposição sobre Fellini e encontrei-me com o figurino utilizado por ele no filme que comento. Filme que só assistiria mais de uma década depois, padecendo da dengue.

Ao lembrar daquele instante no passado, vendo os mesmos figurinos observados ao vivo tanto tempo atrás, abriu-se uma janela imaginária na minha sala, e eu pude ver aquele jovem que eu era quando possuía vinte anos. Todas as escolhas que eu já fiz hoje ainda sequer eram pensamentos na minha cabeça e tudo estava impregnado de uma flexibilidade que não existe mais. Flexibilidade de moldar a vida de acordo com a vontade.

Como se pudesse perceber minha presença observadora, o jovem que eu fui olhou para mim e deu um sorriso do canto da boca, em respeito ao que sou. A imagem se desfez e o filme prosseguiu. Naquele momento eu havia feito 32 anos de idade.

segunda-feira, julho 23, 2007

Shylock e eu

Compartilho com Shylock essa resignação. Entendemo-nos com os olhos que algo natural mas singelamente revolucionário acomete nós dois. Tal indigesta compreensão se deu na última visita de Shylock à veterinária, quando a sentença foi proferida: “Shylock não é mais um jovem, ele precisa de comida para gatos maduros castrados”. Essa sentença não foi apenas para o meu gato. Foi para mim também. Naquele momento, ao olhar Shylock como um ser vulnerável ao tempo, percebi que estava – do mesmo modo – na metade da vida expectável para uma criatura urbana, que já nasceu, que já cresceu e que não possui novas formas verbais para descrever o percurso da vida até a chegada da indesejada das gentes. Nel mezzo del cammin di nostra vita.
Eu e Shylock somos dois maduros castrados. Shylock é castrado no sexo. Eu sou castrado no transborde da vida. Shylock foi castrado para não destruir a casa em busca de uma fêmea. Eu fui castrado para me tornar exatamente aquilo que a sociedade pede de um macho maduro: provedor, obrigado, circunspeto.
Shylock não consegue mais subir na mesa. Eu ando me esquecendo de compromissos. Shylock não dá três passos sem parar e suspirar. Eu não tomo ações sem pensar nelas cinco a seis vezes (riscos e derivativos). Shylock não tem mais paciência para tomar banho. Eu também não.
Toda vez que sento no sofá, ele se aninha perto de mim, como se dissesse: “E aí, irmão, vamos fazer o quê nesse primeiro dia do resto de nossas vidas?” Eu olho para ele com alguma esperança e digo: “Ora, Shylock, foi justamente nesse momento que Virgílio apareceu para Dante e o levou para conhecer o infinito; foi justamente nesse momento que a máquina do Mundo se abriu para Carlos Drummond de Andrade. Quem sabe não nos aparece algo que o valha?” Ele suspira meio incrédulo e fica aguardando algo que nos contamine de vida.

Enquanto isso, no silêncio além de nós, Maria Eduarda dorme no ventre da mãe.

quarta-feira, julho 18, 2007

O poema olha para a vida

Vivo
meu instante final e é como
se vivesse há muitos anos
antes e depois de hoje,
uma contínua vida irrefrável,
onde não houvesse pausas, sonos,
tão macia na noite é esta máquina e tão facilmente ela corta
blocos cade vaz maiores de ar.
Sou vinte na máquina
que suavemente respira,
entre placas estelares e remotos sopros de terra,
sinto-me natural a milhares de metro de altura,
nem ave nem mito,
guardo consciência de meus poderes,
e sem mistificação eu vôo,
sou um corpo voante e conservo bolsos, relógios, unhas,
ligado à terra pela memória e pelo costume dos músculos,
carne em breve explodindo.

Ó brancura, serenidade sob a violência
da morte sem aviso prévio,
cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico
golpe vibrado no ar, lâmina de ventono pescoço, raio
choque estrondo fulguração
rolamos pulverizados
caio verticalmente e me transformo em notícia.

(Morte no Avião - Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, julho 11, 2007

CONCÍLIO VATICANO

Por decreto papal fica assim determinado
que Cristo não pode jamais se transformar em elefante
visitar a Índia e se compadecer das castas
não poderá adotar o nome de Shiva

Por decreto de Sua Santidade, o Papa
fica Cristo proibido de festejar nos terreiros
de aparecer vestido de branco e comer pipoca
com seus pares. Que ele não se chama Oxalá
e Oxalá é coisa dos negros

Que esteja ressaltado, nos termos dessa norma
que estão fora do benefício da piedade
proibidos de comungar da face concedida
apartados do sacrifício final
os protestantes, porque protestam

E assim determinou o Papa, nesse Concílio ensimesmado
que Cristo ande na linha
que seja fiel com seus ministros
nada de sorrir para quem não vai à missa
ou ensinar filosofia nas universidades

Cristo tem que ficar
pendurado no seu lugar por direito
crucificado eternamente
eternamente dolorido
lá na igreja católica, o monopólio do menino
que achava que tinha vindo ao mundo para todos

segunda-feira, julho 09, 2007


O ovo, essa forma explícita
de se ocultar o sagrado
como se fosse o não sendo
do que ainda será formado
como se fosse o futuro
invisivelmente resignado
Ou uma inversão de sinais:
O dentro para fora tragado

quarta-feira, julho 04, 2007

O CÍCLOPE

Lanço-me ao mundo como quem
por nada se abate no meio do caminho
mas refaço (na mente, ora sozinho)
a alegria de ser bandeirante
dessa estrada normal, fronte e perene,
como se fosse eu navegante
do navio do mundo, esse rente.

Mas antes de cruzar a minha rua
que é porto desse mar inexistente
bem no ápice da glória de ser
homem livre, imortal, transcendente
um gigante me pára e me estanca
com uma carranca de olho-só reluzente

E me olha com o olho bem vermelho
e me diz que o mundo a ser descoberto
é para quem, em si circunspecto,
detém a passividade do que sonha
e não do que se lança ao mar (sob glória)
com velocidade na alma sempre risonha

“Eis que me chamam semáforo ou farol
e eu sou a lembrança sempre presente
de que até mesmo o sol (em seu conseqüente
caminho), ao fim do dia simplesmente
cessa; interrompe-se azul no fim do horizonte
para que se possa dele dizer ‘de si, recomeça’

pare, por isso, e se contenha
espere que o tempo do mundo sobrevenha
e só assim, parado, poderás partir”

Eu, que ao meio do caminho não me abatia
nem por nada parava e prosseguia
com a imensa sede de domar essa nau
o navio do mundo, proa de pau
e gente, vou desfazendo essa alegoria
da velocidade inconseqüente e valentia

Então sob o olho vermelho pude entender
que no meio do caminho haverá sempre
uma parada. Que para poder se lançar
em uma nova nau ou na mesma estrada
a parada é escada nesse mar inexistente
lar do navio que sente essa imensa sede

E o olho do ciclope ficou verde

terça-feira, julho 03, 2007

A despeito de tudo, eu gostei do cartaz


Quase uma crítica de cinema

Assisti extemporâneo a Baixio das Bestas, movido bem pela curiosidade de ver novamente um filme do Cláudio Assis. O diretor havia repercutido bem no meu imaginário a partir de Amarelo Manga. Logicamente as circunstâncias eram outras, e o texto da obra se perfaz com o contexto do auditório: em Amarelo Manga eu via, pela primeira vez, o Recife real pintado nas telas do cinema. Recife sem concessões à beleza decantada nos inúmeros frevos de bloco. Recife sujo, feio, do ventre inchado, amarelo e roxo como o cadáver Boca-de-Ouro das estórias de Gilberto Freyre.
Aqui e ali, alguns defeitos de narrativa e idéias caricatas, mas nada que prejudicasse o promissor caminho que seria trilhado a partir de então pelo diretor Cláudio Assis.
Justificada, portanto, minha curiosidade acerca do filme Baixio das Bestas.
O filme se desloca do urbano tratado em Amarelo Manga para a Zona da Mata pernambucana, onde se vê um purgatório situado entre o inferno de concreto da urbis recifense e o paraíso selvagem dos sertões pernambucanos. Novamente, como no filme anterior de Assis, não há foco em um personagem específico, mas o desfile de caricaturas que irão tratar, cada um a seu modo, a tese do filme: sexo e violência em uma sociedade decadente de valores. A tese de Amarelo Manga se repete, a diferença está na geografia que, de uma forma ou outra, irá refletir como elemento singularizador do que já antes foi mostrado.
Das críticas que tenho lido, há sempre o entusiasmo pelo Brasil (ou Nordeste) real retratado sem cores artificiais pelo diretor. A crítica do Sudeste não tem economizado nos elogios à lente real da câmera, lente de carne não de vidro, lente de gente não digital. E confessei que esse mesmo elogio à carne foi que me entusiasmou à época de Amarelo Manga. O contexto era outro, e essa carne exposta hoje não traz tanto entusiasmo a mim, que não sou crítico, mas auditório.
Baixio das Bestas tem o seu valor. Fica fácil de perceber sua importância a partir da câmera segura, da fotografia excelente, e dos atores que demonstram desprendimento na entrega à tese defendida no filme.
O grande problema de Baixio, no entanto, reside na percepção de que é muito fácil chocar a crítica do Sudeste a partir da reprodução da violência que já estamos acostumados. E assim o filme se transforma em um simulacro do jornal cotidiano capaz de gerar o mesmo tipo de discussão que se tenciona a partir do filme. As saídas fáceis continuam na forma caricata dos agroboys, tratados a partir da leniência materna que pode ser interpretada como representação fácil do próprio Estado ausente; a metáfora fácil da fossa interminável, a fala fácil do personagem interpretado por Matheus Nachtergaele, que trata a metalinguagem de maneira fácil.
O filme ficou fácil ao tratar de um tema difícil. E só se choca com ele quem não mora na minha rua.

sexta-feira, junho 22, 2007

Na Rua do Sabão

Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!

O que custou arranjar aquêle balãozinho de papel!
Quem fêz foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de sêda, cortou-o com amor, compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.

Ei-lo agora que sobe - pequena coisa tocante na escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de côr.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!

Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente...

Como se o enchesse o soprinho tísico do José.
Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.

Cai cai balão!

Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais.

Ele foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...

Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar - nas águas puras do mar alto

Manuel Bandeira

segunda-feira, junho 18, 2007

Ster, Pernambuco na imensidão

Estava em falta grande com Ster. Aí me apareceu essa foto, onde ela é uma personagem de Jorge Amado (em miniatura) ou a inspiração de Alceu Valença na composição de Morena Tropicana. Mais São João impossível. Beijão, Ster; você é linda.

quinta-feira, junho 14, 2007

O FANTASMA DA REPARTIÇÃO

Quando o corpo esfriou de matéria
E o caixão era tudo que se mostrava restar
Sr. José Antônio levantou-se do seu túmulo
E objetivando a repartição pôs-se a andar

Anda que anda: “será que não há descanso
para a alma concursada?”

Enquanto algumas almas seguiam para o inferno
Enquanto outras tantos para o céu rumavam
O Sr. José atravessa a Rua do Imperador
Como se os formulários públicos fossem sua estrada

E o vigia da repartição por vezes e outras
No fim da noite jurava que ouvia
Uma máquina de escrever batendo sozinha
Escrevendo em papel nenhum a mesma melancolia:

“É da eternidade da alma que nasce o suspiro
É da eternidade da alma que nasce a burocracia”

terça-feira, junho 12, 2007

“Quando teu não-olhar encontra meu olhar
é mentira
é o desejo querendo concretizar-se
teu ícone paralisado bebendo meu movimento
o que poderia ser e o que não é”
( Poema extraído do Diário de um Médico de Rubens Aires)

“ Então eu vi Rubens pela primeira vez. A princípio o achei parecido com Fabrício. Deus meu, como estava enganada. Do segundo relance, quando meu noivo chamou a atenção, vi uma beleza que não era comum a tantos homens com quem tenho cruzado por este mundo. Seus olhos escuros, sua face lisa, sem barba, sua boca bem feita. Não era alto, não era baixo, mas quando gesticulava, parecia tornar-se enorme frente a pequenez da nossa pluralidade campestre. Rubens era singular, diferente da introspeção destas terras que se parece muito com a introspeção dos suíços e dos belgas. Naquele momento em que ele beijou a minha mão, senti o hálito terrível do destino baforando em minha nuca e o suspiro de Fabrício se afastando de minha boca”
( Texto extraído do diário pessoal de Ariel Souza d’Alencar, publicado com a permissão da família Souza d’Alencar).

sexta-feira, junho 01, 2007

As Músicas do Disco (será que sai :( ?)

The Outsider´s Samba Soundtrack

Chegou atrasada e demente
Com marcas que possivelmente
São feitas sob os lençóis
Bebeu do meu copo na mesa
E me disse “é apenas cerveja,
Então não faça caso irmão
Que hoje eu não estou pra não”

Beijou a boca da Rosa
Enfiou-me um dedo de prosa
Pedindo pra eu não me afastar
“Que trago cocada boa
e outras coisas à toa
enquanto o Mundo vai dormir
vamos fazer o samba cantar”

Ela é minha rota desvia
A noite sangrando em meu dia
Canonizada por beberrões
Santa de pecados e de ladrões

Agora eu estou sem ela
E a vida me vê na janela
Olhando a vida passar

Agora eu estou na janela
E a vida que se faz sem ela:
Café, almoço e jantar
(esperando a vida passar)
(lá fora o samba vai cantar)




O Jovem Gilberto Freyre ou a Invenção do Brasil

Essa multa quando pisa no terreiro
Ilumina um povo inteiro
Dentro do meu coração
Eu vou traçando em suas pernas novas rotas
Como quem suave aporta
Em um porto em formação

Essa cabrocha do gostinho brasileiro
Me concede o corpo inteiro
Pra eu entender a minha mãe
Vai tatuando em minha pele um novo Estado
Que emerge inventado
Na ante-sala das manhãs

Se ela vive entre as estrelas
Se ela é meu grande amor
Ai minha cabrocha
Flor do mundo
Minha flor

Ela vem me dar um beijo
Reconstrói minha raiz
Abro os meus braços
E abraço o meu país

Eu ouço os passos de um país se costurando
Nas alcovas se formando
Entre desejos e tendões
Eu ouço as vozes de um país que é sussurrado
Como quem faz um pecado
E não se arrepende depois

Eu vejo os passos da morena brasileira
Se chegando sorrateira e presidindo minha nação
E na delícia dos seus passos mais bonitos
Vou convencer os mais aflitos
Que isso é evolução




Valsa para Angenor


Entre a carne e a cruz
Onde mora a dor
Onde o meu samba fez morada
E a semente nunca vira flor

Nesse grande mar
Solitário e vão
Fico porta-voz da alvorada
Cubro de verde e rosa o meu chão

A noite quando me vem é madrugada
E o mundo já se tarda dentro de mim

O samba é quem me mostra
A flor a ser exposta
Na valsa da solidão de quem diz sim




Samba Muderno

Esse samba de roda é muderno
É pra quem tem sandália no pé
Descobri que o samba é a força
Que põe força na minha fé

Vou deixar minha guitarra de lado
Vou deixa minha barba crescer
Pedir bença pra Mãe Clementina
E fincar minha raiz num bangüê

Você pode ser emo ou Hermano
Você pode ser do Mombojó
O meu samba de roda é muderno
Mas é levado na palma da mão

Sampleando a voz do passado
Vou cantar a glória nacional
Onde quer que se faça um barraco
Vai ser lá minha Lapa pessoal

Burburinho (to lá...)
No Cafofa (tô lá)
No Quintal (to lá)
Lá na Toca....

Estorinha de Luciana

Luciana nunca atende o celular. Sempre nos momentos mais ordinários da vida, quando realmente precisamos de mais do que um eco no outro lado da linha, a chamada segue seu tom até o fim sem que me reste um “alô” por conforto. Luciana nunca atende o celular. O seu número gravado na memória digital do meu aparelho é um memorial à esperança de que um dia, quando o céu de agosto tocar o horizonte, Luciana consubstanciar-se-á em impulsos elétricos, em lembranças de cheiros, em um corpo que um dia confrontou o meu. Mas só esperança. Duvidam eles de mim: Luciana não existe. Como crianças amorais de um pré-escolar imaginário: Luciana não existe.
Existirá Luciana? Somos algo mais do que esses impulsos elétricos que enviamos para os nossos? Além desse número digital, há alguém que se conforta com sua pele, seus olhos, seu cabelo? Chego a duvidar de Luciana, e tomo por testemunha esse tom de chamada nunca atendida que me diz: Luciana nunca atende o celular.
E Luciana, que nunca atende o celular, vai migrando para a casta das figuras mitológicas, dos deuses esquecidos, das nossas senhoras da moda que passou. E lá do outro lado da cidade, mora uma menina chamada Luciana que por nunca atender o celular virou lenda.