quinta-feira, janeiro 13, 2011
terça-feira, janeiro 11, 2011
A valsa da princesa
por, quem sabe, esperar o fim do século
aguardava o homem Ulisses que lhe havia,
prometido ser-lhe contraparte do espéculo
A princesa enquanto paciente aguardava
bordou um imenso tapete de tramas
onde o Mundo era outro e estava
imune a tristezas, feridas e chamas
Bordada em cores, estampava a alegoria
da eterna felicidade da princesa
que perdida entre unicórnio, leão e utopia
mantinha a alegria da esperança acesa
E no tapete só reinava a princesa
que escoltada em ouro pelas suas damas
dançava eterna e infinita com alma tesa
bordada por si mesma nas entrelinhas das tramas
A princesa de fora admirava a princesa de dentro
por reconhecer que do tapete para si, duas havia
uma, bordada por Deus, era carne, dor e vento
a outra, fruto de si, era somente alegria
E eis que, absorvida na sua imagem bordada
surpreendeu-se a princesa com um chamado distante
Ulisses, o homem-deus que ela tanto esperava
apareceu perante seus olhos, em um rompante
E lhe arrebatou e lhe levou para casa
deu-lhe jóias, máquinas e cotidiano
cristais de murano, bichos fantásticos, carros com asas
deu-lhe todos os seus dias do ano
E em uma noite de núpcias e de paz
no instante em que Ulisses dormia
a princesa sorrateiramente por trás
estripou o dormente enquanto sorria
Encarcerada a princesa, questionaram-lhe o ato
“porque, de maneira tão horrenda, rasgaste a lei?”
e ela respondeu tranqüila sobre o ocorrido fato
“porque eu nunca fui feliz como no tapete que bordei”
segunda-feira, janeiro 10, 2011
A Função Social do Amigo Gordo

Ao Gordo (sempre Gordo)
A Filipe (a partir de amanhã, ex gordo)
Todo grupo social que se preze tem um amigo gordo. Ele é a liga que une os demais membros da confraria. Ele é o bonachão, por vezes, é o mal-humorado em outras tantas, é o cara que aceita a berlinda porque sabe que nenhuma reunião regada a cerveja funciona sem uma berlinda. O amigo gordo se sacrifica pelos demais, na sua imensa sabedoria, no santo ofício de beber até a última gota de cerveja, ou de comer o acepipe restante do prato. Morrerá um tanto mais cedo, com as veias entupidas, mas cumprirá, até o final, a sua missão de ligar nas noites de segunda-feira para exigir a presença daquele pai de família na mesa de ferro enferrujada que descansa tantos copos do líquido sagrado translúcido e que será o motor de mais uma discussão conjugal.
domingo, janeiro 09, 2011
Sobre o brega e outros bichos
O grupo social que gosta de se afirmar na contramão da cultura de massa, e por tais razões mais culta que as demais, vem ostentando sua presença em festas realizadas fora das circunscrições geográficas da classe média de uma maneira ideologizada, utilizando não apenas como diversão, mas como provocação.
O questionamento da dicotomia entre a música brega e a chamada MPB já havia sido colocada em xeque desde a década de 70 com Caetano Veloso gravando (e cantando ao vivo no Phono 78) “Eu vou tirar você desse lugar” do Odair José. Posteriormente, Caetando gravou outros cantores tachados de “cafonas”, o adjetivo antecessor do “brega”. Algumas dessas gravações são memoráveis.
Particularmente eu já apresentei minha opinião quando tive a oportunidade de escrever sobre o fenômeno João do Morro (quem tiver curiosidade, ver os comentários http://acertodecontas.blog.br/atualidades/joao-do-morro-um-sambista-de-verdade/).
Gosto bastante de algumas músicas do grupo Calypso e acho “A Vida é Assim” uma música muito bem estruturada, apesar da letra simples e sem pretensão. Qualquer segregação apriorística do que é ou não é arte será sempre o mesmo preconceito que, no início do século XX, recaiu sobre o samba.
O que eu não concordo é o tratamento ideologizado do “brega” e a tentativa de impor qualquer música feita na periferia (geográfica ou cultural) como ponto de resistência à massificação midiática. Para mim, tal atitude esvazia o conteúdo crítico, empobrece o reconhecimento do que é arte popular e desvaloriza a espontaneidade da música que paradoxalmente (e momentaneamente) é louvada.
A boa música se releva por si, independente de posturas guerrilheiras da pseudo-intelectualidade que faz da falta de recursos uma bandeira que se perpetua para legitimar a divisão cultural.
PS – Para fins de fomentar a discussão eu coloco uma versão feita para o novo fenômeno popular “Vou não, posso não”, onde um arranjador preencheu a música com acordes dissonantes não existentes originalmente na música e deu um andamento de bossa nova.
Evidentemente trata-se, aqui, de uma tentativa de demonstrar que qualquer música bem arranjada é boa. O argumento é falacioso por dois motivos: 1) A música tocada é instrumental. A letra é suprimida. 2) A estrutura da música ocidental, desde a Idade Média, segue um padrão de escalas tonais que soa agradavelmente aos ouvidos. De Tom Jobim a DJ Sandro esse padrão é minimamente repetido (não vão sair por aí dizendo que estou a comparar um com o outro). Um arranjo bem feito em cima de acordes seqüenciais sempre vai soar agradavelmente aos ouvidos do auditório. Isso não quer dizer que a música é boa, nem que isso é arte.
Para ver as meninas

(Paulinho da Viola)
Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor
assim descontraído
Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
Pele Negra

sábado, janeiro 08, 2011
A Corrupção do Mundo
é um rato, é um rato, é um rato, é um rato, é um rato,
é um rato
debaixo da cama
sexta-feira, janeiro 07, 2011
O Medo
Mas eu não quero viver cruzando os braços
Nem ser cristo na tela de um cinema
Nem ser pasto de feras numa arena
Nesse circo eu prefiro ser palhaço
Eu só quero uma cama pro cansaço
Não me causa temor o pesadelo
Tenho mapas e rotas e novelos
Para sair de profundos labirintos
Sou de ferro, de aço de granito
Grito aflito na rua do sossego
Mas na verdade é mentira
Eu sou o resto
Sou a sobra num copo, Sou sobejo
Sou migalhas na mesa
Sou desprezo
Eu não quero estar longe
Nem estou perto
Eu só quero dormir de olho aberto
Minha casa é um cofre sem segredo
O meu quarto é sem portas, tenho medo
Quando falo desdigo, calo e minto
Sou de ferro, aço e de granito
Grito aflito na rua do sossego
sexta-feira, dezembro 31, 2010
A última crônica do ano
Nós não somos uvas. Não seremos colhidos. É certo que nos transformaremos em algo, adiante, mas esse algo permanece como coisa impronunciável encoberto pelas limitações da física, da fé e do homem. Por isso, eu não acredito em um ano bom. Eu acredito na sucessão de eventos previsíveis e imprevisíveis que está pautada de maneira fictícia por uma divisão estabelecida pelo homem que se baseou no seu conhecimento imperfeito acerca do movimento da Terra. O ano, do seu começo ao fim, é uma simples e imperfeita ficção.
A cada espaço de tempo pré-determinado nesses doze meses nós choramos, sorrimos, temos explosões de felicidade, sentimentos de solidão infinita, melancolias, achamentos e despedidas. Todo ano é e será assim.
No fundo, para nós, o ano de 2001 não foi muito diferente do ano de 2011. Os marcos mudaram decerto, mas a percepção subjetiva do mundo segue sob a pauta das mesmas emoções que serão renovadas em outros eventos. Em 2011 e me despedirei, eu acharei, sorrirei em explosões de felicidade e me sentirei impotente perante a solidão avassaladora do ser, tal como vem ocorrendo desde o primeiro ano em que me apartei do universo para ser um sujeito único e caminhante sobre a superfície do perceptível.
O engraçado e contraditório disso tudo é que, a despeito dessa racionalidade que antecede o brinde do vindouro, no momento do verso contrário da Tabacaria, vem sempre em mim a esperança da uva: de que o próximo ano seja um bom ano como o de 2001 foi para a uva Cabernet plantada no solo fértil do Chile.
A esperança é sempre maior do que aquilo que eu penso acreditar. E de uma maneira sub-reptícia, a ficção do tempo, criada de modo imperfeito pelo homem, subjuga a realidade corpórea e sem graça da vida desencantada, ao som dos fogos infinitos da fé e ao sabor de um vinho degustado no entreato de uma década que se foi.
ps: Um bom ano aos que desejam o melhor possível de dentro de uma taça ou de uma casca de noz
domingo, dezembro 26, 2010
Feliz Pós-Natal
Rodar pelas ruas antigas da cidade
Em tudo havia uma paz extremamente subjetiva
Que só o comércio adormecido pode ofertar
Uma mulher louca falava consigo
A sombra de alguém cambaleava embriagada rumo a nada
Dois policiais faziam uma velha cuspir pedras de crack, na ponte
Não havia anjos, não havia reis
Nenhuma glória a distinguir a pobreza sagrada da profana
A cidade era uma grande manjedoura vazia, sem pastores e vacas
E não havia homem ou deus que desejasse romper um ventre,
E embalar seu sono naquela pouca, magra e recifense paz.
domingo, novembro 07, 2010
Ao Mafuá do Malungo
Nessa rua, nessa rua tinha um bosque,
e tinha um portão de ferro para o passado não sair
tinha a marca dos meus dedos em uma casa
e um bonde imaginário sempre por vir
Dentro do bosque (dentro dele) morou um anjo
Cujas asas a poesia arrancou
Tinha uma dentadura engraçada e proeminente
e não sabia – pobre anjo - falar de amor
(Bosque, rua, anjo e tempo não resistem
Às intempéries que constroem as discussões
são de vento ou de sonho, e não se firmam
duram só o momento das ilusões)
Se essa rua, se essa rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com a pedra que constrói a eternidade
Para o que eu fui nunca mais se acabar
terça-feira, novembro 02, 2010
Notinha Social 02/11
quinta-feira, outubro 28, 2010
segunda-feira, outubro 25, 2010
VIRGINDADE

Por que chegaste agora, unicórnio, quando minha mão apedrejou o mundo?
Agora que os meus nós seguraram os barcos, e a vazão do mar não passa minha sala
Por que chegaste agora que meu peito inflamado ora se cala,
e quando meu peito calado é, morto, um mar sem fundo?
Por que chegaste agora, unicórnio, se agora eu uso gravata?
E tudo que há ao redor de mim tem carimbo, duplicata e segunda via
Por que apareces a mim quando tenho sono no final do dia
E o coração rebelde morreu confinado em embalagem de lata?
Por que chegaste agora, unicórnio, quando meus cabelos são mais brancos?
E toda palavra que sai da minha boca tem que ser pensada
Tu chegaste quando o exército do mundo derrubou minha armada
E a areia do moto-contínuo fez brotar todos os meus cancros
Por que chegaste agora, unicórnio, quando meus modos são de fino trato?
E as revoluções da noite não resistem mais ao raiar do dia
Por que olhaste para mim quando em mim plantei essas flores de ironia?
E te sufoquei lentamente até de unicórnio verteres em rato
domingo, outubro 17, 2010
Bastardo
Na tradição do haiku japonês ou nos longos descritivos latino-americanos
Ou em São Paulo, um poema rápido, certeiro, como a cidade que já se foi
O poema não se atém a mim
Não se dobra
Não se cala
Não diferencia o caráter de quem o empunhará
Talvez o filho de um poeta morra hoje (e a solidão avassaladora do ser
Lance uma rede para o infinito
E roube de mim esse poema, que tanto custa a nascer)
domingo, outubro 10, 2010
Maria Eduarda, meu tempo
terça-feira, setembro 21, 2010
VESTIR O MORTO
Cobrir com cotidiano o corpo lasso do morto
Conceder-lhe dignidade com o terno
Humanidade com a gravata
Adoçá-lo com os sapatos caros de pelica
Vestir o morto
Atualizar o tempo ido do morto
Dar razões às lágrimas ao se domar a morte
Com a roupa mais clara que possuía o morto
Conter a decomposição mundana do corpo
Vestir o morto
Emprestar um último suspiro ao morto
Recobrir a pele fina com outra pele mais bela
Congelar a vida extinta enquanto a terra espera
Para despir com morte a vida fictícia, inventada e terna
quinta-feira, agosto 19, 2010
No Zé Corninho
Triste do homem que, às sextas-feiras, não possui um lugar sagrado para preparar sua ressurreição. Nós morremos um pouco da segunda até as onze horas da sexta. Um pouco por vez. Desfazemo-nos, cotidianamente, nas obrigações irremediáveis, na busca pelo conforto, na imagem calculada de homem bom. Isso é a nossa morte, ou a antecipação do sono definitivo. Mas às sextas-feiras, somos chamados a recuperar a nossa vida, nossa matéria perdida no mundo, e nos possibilitam o livramento das gravatas, dos prazos, do homem bom.
Meu marco de ressurreição das sextas-feiras tem sido o Zé Corninho. Esse recinto familiar que não possui placa, propaganda ou reclame na televisão. Um dos muitos meandros da capital que faz a sua fama sob o fogo das panelas quentes de dobradinha e de um bom bacalhau.
O nome do local é “Recanto dos Amigos”. A lenda de um patriarca já ido proveu com a alcunha de “Zé Corninho”. Eu me sinto mais à vontade o nomeando assim. Mas tão folclórico quanto a alcunha do lugar é a cara amarrada do filho Gustavo, a beleza da filha Carol, o gosto inesquecível que vem de uma cozinha pilotada pelo amor familiar, Deus nos permita a pieguice.
Não gosta de dobradinha, nem de bacalhau? Encomende o pernil de carneiro recheado. Também não gosta? Vá prá puta que pariu lá pelos lados do Tacaruna. Acho que seria isso, mais ou menos, o que Gustavo diria a você.
É comida de panela, de gente, de sexta. E após a primeira cerveja, você talvez ouça a voz dos anjos conclamando à ressurreição da carne, dos miúdos, da farinha e da pimenta. Bendito seja o homem que não tem medo de renascer.
...
Amanhã eu não irei ao Zé Corninho.
Da Avenida Agamenon Magalhães, entre na Rua Odorico Mendes (a do Clube das Pás). Depois de cruzar a Estrada de Belém, dobre na segunda rua à direita. Fica no fim da rua, do lado esquerdo.
domingo, agosto 15, 2010
Auto-retrato
É eficiente bancário de um banco privado onde as moedas são desnecessárias
Foi nomeado servidor público quando o mundo se acabou, e não havia quem requisitasse uma necessidade qualquer
Possui mãos grandes que colocou a serviço do rei da Inglaterra, recentemente decapitado por nunca ter sido um homem fiel
Escritor de célebres romances, foi tomado de um sentimentalismo inexplicado no século XIX,
ficando cego no século XX, quando a primeira bomba estourou
cresceu-lhe um tumor na alma que redundou em seu primeiro casamento
mas dá-se muito bem com as chagas que lhe mandou o Nosso Senhor
Dele diz-se invisível ao meio-dia quando o sol é mais claro
Dorme tranqüilo, às nove, no leito de um grande amor
sábado, agosto 07, 2010
(Caetano Veloso)
O homem velho deixa a vida e morte para trás
Cabeça a prumo segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais
A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock'n'roll
As coisas migram e ele serve de farol
A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve trás o olor fulgaz
Do sexo das meninas
Luz fria, seus cabelos têm tristeza de neon
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom
Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval
Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal
sexta-feira, julho 30, 2010
“O que mais me irrita nele é esse adjetivo com que ele sai nomeando todo mundo: ‘querido’; ‘querida’. Ele faz isso por causa de sua incapacidade de decorar os nomes das pessoas e com isso cria uma falsa ternura, como se ele pudesse gostar de todo mundo da mesma maneira. Sempre exigi que ele me chamasse pelo nome. Um dia ele me chamou de ‘querida’ e eu estourei; tive certeza, ali, que eu era apenas mais uma”
Ana Paula – ex-namorada 1997/1998
“Tudo nele é grandioso demais, um projeto grande demais. Mas ele planeja castelos e executa biscoitos; e se você faz parte daquilo acaba se frustrando também, lógico. Quem não se frustraria? É esse negócio mesmo de comprar gato por lebre, como falam por aí. Ele te vende um revolucionário, um artista, um inconformado durante o dia. Quando chega a noite, coloca o pijama e vai dormir”
Mariana – noiva 2003/2004
“Tem uma música de Caetano que define bem ele: ‘mas na hora da cama/nada pintou direito/é minha cara falar/ não sou proveito/sou pura fama’. Acho que é por aí mesmo. Não quero falar mais, porque seria uma puta de uma indiscrição, mesmo sabendo que ele autorizou falar sobre esse assunto. Mas resumiria bem dizendo que ele faz propaganda de um leão e na cama é um gatinho (risos)”
Irma – “negócio mal resolvido” 2001/2002
quinta-feira, julho 29, 2010
Água Doce
A minha vida é água doce nas águas desse mar
Esse um veio com o Mundo, com navios e canções
no seu peito tatuado, a marca de mil corações
me pegou pelos cabelos, como quem fosse naufragar
mas depois da tempestade, me deixou a ver o mar
(eu não quero amor)
Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar
Esse outro, sorrateiro, com palavras de algodão
sussurradas no ouvido, cravadas no coração
me deu tantos outros nomes, que eu me perdi de mim
fiquei só entre as palavras, por isso hoje canto assim,
(eu não quero amor)
Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar
E quem quiser saber de mim, pode até me encontrar
eu sou aquela que no Mundo, faz do Mundo o seu lugar
me acompanham nessa vida, só meu Deus e a lua cheia
se eu sou a escuridão de mim, eu também sou minha candeia
(eu não quero amor)
Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar
sábado, junho 26, 2010
Seculorum
Frequentemente caio nessa dúvida: de que século falam?
Do século vinte? Com seus hiatos armados entre o terror e o sublime
O século vinte dos ratos que surgiam dos escombros
E me contavam histórias de extermínio e de grandes amores
Do século dezenove? Com sua assepsia imperial a tapar o túmulo de Deus
O século dezenove quando os grandes homens eram possíveis
E pairava no ar uma esperança de curar todas as doenças
O século dezenove sem qualquer contradição
O século vinte que, ao nascer, proclamou: eu morri
Que século passou por mim e me antecedeu?
Que porta se fechou por detrás de mim e não percebi?
Eu aqui no século vinte e um, sinto-me como um sinal neutro em relação a tudo
Nada me pertence, nem agora, nem no futuro
Sou como algo nunca criado ou nunca disposto a se reinventar
E para além de todas as contingências, permaneço alheio ao mundo
Enquanto meus filhos constroem um século para além de mim
Difícil ofício esse, de pertencer a um século.
segunda-feira, junho 14, 2010
A Morte do Jogo
Gadamer, Verdade e Método.
Pour Lucas,
O modo de ser do jogo é sua fluidez. O jogo deve ser jogado. Segurar o jogo, não deixá-lo, é o anti-jogo, o não acontecer. A bola está presa no único esquema tático das seleções e das nações, pasteurizadas na preocupação excessiva com a defesa e exterminando a diversidade dos povos que nos encantava a cada quatro anos de copa. Os times africanos, os sul americanos, os asiáticos: todos são europeus, excessivamente europeus.
Meninos pretos de cabelos loiros e olhos azuis: o capital domesticou a criatividade e o que importa não é mais o jogo em si, mas a forma como se joga o jogo. O esquema tático se sobressai e domina o impulso de furar as barreiras inimigas; o impulso que é um monstro pré-cristão que não se apieda de nada.
O resultado é o descrédito no próprio jogo que se vê órfão de gols e de um deus-herói, um ponta de lança que atravesse o campo e entre como projétil trave adentro, erguendo as mãos para o céu em uma língua desconhecida.
Só um deus pode nos salvar.
Não há meio campo criativo, não existe o atacante imperial, a força física abafa a molecagem, o drible diabólico do menino crescido em várzea ou em rincão distante. É o genocídio dos reis, dos anjos de pernas tortas, das laranjas mecânicas, das tribos de verdadeiros guerreiros. É o elogio das academias, dos computadores, dos tecidos e das malhas criadas após anos de pesquisa. A assepsia venceu a lama. Mas da assepsia não se ergue a vida; da lama sim.
Aos poucos, vamos contentando-nos com essa postura tímida, de recuo, de parede. Ficamos esperando a vinda messiânica desse jogo que fluirá para além dos esquemas táticos excessivamente defensivos que se manifesta como um simulacro do que, um dia, nós chamamos de futebol.
sábado, junho 12, 2010
Young hearts run free (Valentine´s day)
WHY should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great.
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done, being what she is?
Was there another Troy for her to burn?
terça-feira, maio 18, 2010
ANDOR
redondilhas, meandros, discussões
é o toque além do seu sabor
mas se me pedes prá ficar, não vou
O amor é deveras traiçoeiro
põe espada onde primeiro era paixão
põe teu sim no meu não, deserto em flor
e se me pedes prá ficar, não vou
O amor por ser mudo, às vezes cala
por ser cego, na mira, às vezes erra
por ser surdo não ouve o coração
Mas o amor por ser tudo, em nós nos fala
por ser luz, abre seus olhos em quimera
por ser nosso, preenche a amplidão
Meu amor me aceite irrestrito
pois meu grito é a véspera do beijo
eu prometo descer do meu andor
e se me pedes prá ficar, não vou
se me pedes prá ficar, não vou
se me peder prá ficar, não vou
domingo, maio 09, 2010
O Som do Meu Medo
Sentado à margem dos meus medos e desejos
O diabo não me disse nada
Apenas me olhou e seus olhos eram castanhos
Não me ofereceu banquete, talheres de prata em rara cascata
Animais plenos de sabor e doçura enfileirados na oferta à minha língua
Calado ficou a olhar para mim
Não abriu seus dedos e convocou todas as potestades
Não me prometeu revelar a matéria inexata e imperfeita
Que é cimento e areia da coisa fêmea
Não me assegurou qualquer milagre
Sequer tirou uma moeda por detrás da minha orelha
Entre nós não havia o Mundo, apenas o silêncio
O silêncio que é a maior de todas as tentações
quarta-feira, maio 05, 2010
D.R.
sexta-feira, abril 23, 2010
Ou Isto ou Aquilo
Cecília Meireles
Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Ou Isto ou Aquilo foi o meu primeiro livro de poesia. Ganhei aos quatro anos de idade, quando recitei, na escola, "A Chácara do Chico Bolacha", poema constante do livro. Não sei bem o porquê, mas esse livro me veio na cabeça, hoje.
sábado, março 06, 2010
O QUE SE SABE ACERCA DO AMOR
Alguns animais são hermafroditas, isso os mantêm afastados de problemas
O corpo aumenta até um grau durante o ato sexual, independente da frigidez do outro
Se você encostar um estetoscópio no meu peito, ouvirá o corvo de Edgar Alan Poe:
“nunca mais, nunca mais, nunca mais...”
quarta-feira, fevereiro 17, 2010
O carnaval no Túmulo do Samba
domingo, fevereiro 14, 2010
sábado, fevereiro 13, 2010
Orecic Futebol Clube (2007)
pois quando o frevo começa, não tem hora prá acabar
me dê a mão que o meu amor não sabe onde estou
e esse cheiro na camisa é o meu motor
No meio da Imperatriz, eu deixei meu coração
no carrossel da avenidas, minha vida vai na contramão
enquanto os homens caem na rua, eu vou me levantar
que a vida não espera o sol raiar
É fevereiro vem, a carne queima, bem
no Orecic tem uma mesa prá sentar
Equece o ano e vem, vem no meu passo, bem
A vida à toa está na mesa desse bar
Vamos entrar na Concórdia, quero ver quem vai passar
pois quando o frevo começa, não tem hora prá acabar
me dê a mão que o meu amor não sabe onde estou
e esse cheiro na camisa é o meu motor
No meio da Imperatriz, eu deixei meu coração
no carrossel da avenidas, minha vida vai na contramão
enquanto os homens caem na rua, eu vou me levantar
que a vida não espera o sol raiar
quinta-feira, fevereiro 11, 2010
SEGREGAÇÃO NO CARNAVAL E A ALAURSA DE PELÓPIDAS SOARES
Tudo muito falso. Esse carnaval pernambucano tradicionalmente democrático só existe na cabeça de intelectuais e isso a partir da segunda metade do século XX. Que os intelectuais do século XIX, cento matriz da brincadeira moderna, torciam o nariz para o entrudo. O carnaval de rua era o espaço reservado para os forros, para os artesãos que fundavam suas troças homenageando suas funções, como o Vassouras, o Pás, o Carvoeiros, para ficar apenas em alguns.
A elite pernambucana, da aristocracia inventada, ficava nos clubes e nos teatros da capital, imitando o carnaval europeu; em uma Europa, também, inventada.
Os teatros e clubes mimetizaram-se em casas e corsos; os carros do início do século XX faziam as vezes de cordões de isolamento, e o asfalto (ou as pedras portuguesas) nunca chegava a tocar os pés de uma classe média que estava se consolidando. Só com a decadência da classe média e com a casa se aproximando cada vez mais da rua é que vemos surgir um espaço em que convive o saudosismo aristocrático do frevo de bloco com o suor enérgico do frevo de rua. O romantismo intelectual de resistência da segunda metade do século XX fortaleceu a impressão de que o carnaval, em seu nascedouro, é uma festa essencialmente popular.
Para mim, a tradução literária disso que escrevi até aqui: que a segregação (e a negação dela) também faz parte do carnaval está em um belíssimo conto de um dos grandes autores pernambucano (para mim, o maior contista do Brasil), Pelópidas Soares. O conto, denominado Alaursa trata das desventuras de um cortador de cana, feio como o diabo, que supera todas as suas tristezas morais no carnaval, quando se transfigura em uma alaursa e transcende sua triste figura. Paralelamente a esse anti-herói, o autor desenha um quadro aristocrático de uma família natural de Catende, cujo patriarca é um riquíssimo médico, hoje residente no Recife, e que comemora o carnaval em uma fazenda bucólica com uísque escocês e com uma radiola a tocar o frevo mecânico.
Até que um jovem não identificado, mas que deve ser desses jovens românticos da década de sessenta, inflama na aristocracia brincante a idéia de ir até o clube popular da cidade para se misturar com o volksgeist de fevereiro. O patriarca da família acha a idéia horrível, mas é vencido pelo espírito intelectual da juventude. No clube popular, tudo é festa ao redor da alaursa.
A aristocracia bebe e brinca no meio da turba. Entre os aristocratas, está a esposa do médico patriarca, uma jovem senhora educada na Europa, belíssima e moderna; animada com a possibilidade de conhecer, ali, o “verdadeiro” carnaval. Embriagada ela dança com a alaursa. Até que só ficam os dois no meio do salão. O cortador de cana, rejeitado por todas as mulheres, percebe ali uma oportunidade ímpar. Leva-a para um canto longe dos olhos ébrios da multidão e (usarei o termo correto) dá uma senhora trepada com a curiosa cidadã do mundo. Ao cair em si, após o gozo, a esposa do rico médico se depara com a máscara da alaursa e com todo o significado de um carnaval sem amarras, elogio do grotesco. Ela grita e corre desatinada. O cortador de cana dorme como uma criança ao som do frevo a embalar seus sonhos sem amanhã.
Post scriptum 1 – Esse texto não é uma apologia à segregação, mas uma constatação de fato. Pessoalmente, e a partir de uma análise psicossocial do carnaval (ou coisa que o valha), acho que o carnaval só tem sentido na libertação de todas as amarras, incluindo as sociais. Por isso, usamos máscaras. Carnaval com ar condicionado e com garçom será sempre o anti-carnaval.
Post scriptum 2 – Moral da estória: Só brinca carnaval de verdade quem tem coragem de encarar o pau da alaursa
quarta-feira, janeiro 27, 2010
Por que esse poema sempre encaixa
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.
M. Bandeira
terça-feira, janeiro 05, 2010
Portugal-Desvelado, dezesseis de dezembro de dois mil e nove
Evoé!
Da tua terra eternamente estrangeira, imune à passagem das horas e dos séculos
Saúdo-te, Álvaro, meu torturador feroz, irmanado nas minhas chagas universais
Ó homicida das sensações católicas, engenheiro da obra infinitamente incompleta
Puta de todas as indisposições do sentir
(eu que as sinto nesse grito mudo que dou)
Grande prostituta a dar-se para todos os recôncavos da alma negra
Primeiro de todos os meus mestres que ingressaram a fórceps pelos meus poros
Homem chamado Álvaro ou André, a sair perpetuamente de casa
Repetição homérica de todos os poetas que para o serem
Sangraram as mãos nas cordas firmes das naus sem nomes e se lançaram aos mitos
Ulisses elétrico do século vinte
Predecessor de todas as guerras e ratos que fizeram de cada racionalidade
um impulso elétrico que, em mim, nunca se dissipou.
Eu, com minha face branda e minhas mãos pensas,
Com meu terno roto de tanto porto e navios e pontes e gentes
Venho beijar-te as mãos, como faria com a virgem sempre imaculada
Por reconhecer em ti todas as religiões, mesmo as que foram negadas
E saudar-te como quem saúda um monólito imenso
Que é Deus e carne ao mesmo tempo
Olha, que já vem se prenunciando o grande tempo
E uma orgia de coisas já grita a sua hora: é carnaval, Álvaro, homem de coisas imensas
Vem comigo perder-se na insupeição do homem alheio
Dá-me cá tua mão e teu suor e tua metafísica
Grita, como gritaste do Grande Cais e não sabia onde ias
Que só há verdade em não saber aonde vamos
Deixa-te levar comigo na correnteza dos devaneios
Para que tenhamos mil braços, dezenove mil pernas e nenhum pensamento;
Nenhum, por mais original que seja
Que construiremos nossa identidade na ausência sequer do pensar em nada
Evoé, irmão engenheiro, pelas coisas que sentes
Sou teu irmão porque as sinto também
Roubei-te a coisa real por dentro e a imaginada por fora
(Quantas coisas eu roubo e proclamo-as minhas.
eu mesmo roubado de mim, sou proclamado meu)
Roubei-te mas não faz mal, porque sou o teu irmão
Roubei-te mas não faz mal, porque não sou eu.
Era preciso que eu sofresse dessa febre e cólera
Era preciso que eu estive ciente do meu passo para morte
Para que pudesse cantar este canto como quem rasga o corpo de um inimigo
Um canto trespassado na alma pelos espíritos dos facínoras e dos santos
E já não ser eu mas uma turba logicamente indefinida
A invadir as igrejas e os parlamentos em nome de nada
Ó tu que és nada, homem-Álvaro imenso
És a contracorrente dessa matéria, desse piano de cauda, dessa moça a dar com paus
Estás no meu impulso de lançar-me à transitoriedade
Estás no ponto cego dos retrovisores dos carros a seguir na estrada
Estás na dúvida entre ser Deus e ir à Tabacaria
Estás em mim como uma sífilis que anuncia à cidade os meus pecados
E eu, nu, como as prostitutas rechaçadas dos fins-de-semana
Solitário e circunspeto como cada uma delas
Faço-te festa no universo, irmão Álvaro
Vou buscar-te uma mentira para além da nossa galáxia
A mentira de saber-me aqui a cantar-te isso
De estar sentado em dúvida desse próximo verso
Aguardando minha esposa e ouvindo o banho da minha filha
Eu não sou nada disso
Nunca estive aqui
Esses versos não existem
Como nunca existiu um Álvaro de Campos
E justamente por isso, Evoé!
quinta-feira, dezembro 31, 2009
Tradicional como Roberto Carlos
Sempre escolhia uma roupa nova para a novidade do ano por vir
Para que o passado ficasse alheio a mim, e eu, novo, para o mistério do futuro
Que besteira
Hoje eu visto a mesma roupa do ano passado
A mesma roupa que eu vestirei no ano que vem
Porque eu quero o passado comigo
E os anos que se foram estarão ao meu lado no ano que é novo
Não há novidade maior que estar vivo a cada novo segundo
E em cada segundo do passado eu experimento o ano vindouro
Feliz ano novo aos neus três leitores e à infinidade dos que não me lêem
Sem promessas, mas com esperanças
armadas sempre entre o temor e a maravilha
quinta-feira, dezembro 24, 2009
Momento Gastronomia - Lisboa

Carne que tem gosto de carne, vinho que tem gosto de vinho
Mas é apenas artifício isso que vejo
Serei eu artifício do meu original? O Mundo se modificou e não sei mais o que me é natural
quarta-feira, dezembro 23, 2009
O que fará um pai pelo filho? Não pude responder esta questão ao longo de trinta e dois anos da minha vida. Apesar de ter em minha imaginação até então a amplitude do se doar para a descendência, logicamente não sentia na carne a possibilidade da anulação completa em nome de quem mais se ama. A maior prova de amor imposta pela divindade a um homem, nos relatos religiosos da tradição judaico-cristã, foi o sacrifício daquele que procede: o filho. E o mesmo filho seria sacrificado, posteriormente, pela divindade, fechando o ciclo do amor infinito.
Para além da metafísica, só hoje acho que posso compreender o momento mais doloroso da Ilíada, quando Príamo vai a Aquiles reclamar o cadáver de Heitor que dorme insepulto, por capricho do vencedor da batalha. É no momento em que Príamo se ajoelha perante Aquiles, e beija sua mão, que se dá toda a anulação do pai por amor ao filho. No texto traduzido, o canto de Homero ficou assim: “Por teu bom pai de um velho te apiedes/ Mais infeliz do que ele, estou fazendo/ o que nunca mortal fez sobre a terra/Esta mão beijo que matou meus filhos”.
Com um beijo o rei deixa de existir para reclamar não o seu corpo morto, mas o de seu filho, porque ao passar pela morte de sua descendência não existirá coroa ou trono capaz de deixar o rei satisfeito. A Ilíada trata da cólera de Aquiles. Mas é a cólera disfarçada de submissão de Príamo que vence o orgulho do guerreiro. Cólera que o leva, desarmado, a adentrar na tenda do inimigo para mostrar a sua dor. E quem poderia julgar a atitude de Príamo? Quem tem a paternidade no peito sabe da cólera dormente que nos levaria a nossa própria anulação por amor ao nosso filho.
Por ele invadiríamos as rádios, romperíamos alianças, lançaríamos as lanças sobre quem estivesse na frente; beijaríamos a mão do assassino. Faríamos o sacrifício imenso do corpo físico ou do corpo político para resgatar o filho que dorme, justa ou injustamente, insepulto no coração do pai que tudo agüenta, tudo suporta. A despeito de toda política que envolveu a cólera do deputado Sílvio Costa, ao ver seu filho alvo de acusações envolvendo a Secretaria de Turismo do Estado, havia ali, no momento do seu desespero perante a imensa platéia que lhe ouvia, a sombra trágica de Príamo tentando resgatar o corpo filial enterrado por palavras. Só hoje, ao olhar o sono tranqüilo da minha filha, posso entender o beijo resignado do rei Príamo e a cólera paterna do político Sílvio Costa.
domingo, novembro 29, 2009
para o infinito e além

sábado, novembro 28, 2009
Fratelli

Só os olhos treinados podem ver os espíritos que caminham entre nós. Entender que mais do que uma manifestação da metafísica, os espíritos são a permanência do nosso passado, destroçado, diminuído, mas ainda assim lá, a sussurrar sua teimosia em ficar no tempo que não mais lhes pertence. São unicórnios silenciosos a atestar que fomos feitos para a única certeza que trazemos na carne: que nada fica para sempre.
Um dia, as ruínas da fábrica da Fratelli Vita não existirão mais. Mas enquanto elas estão aqui, eu me sinto mais próximo dos que me antecederam, fico irmanado aos meus fantasmas, em vida; e o gosto do guaraná doce na boca transforma toda saudade em sentido.
quinta-feira, novembro 19, 2009
No Alarms and no surprises
Impede que o sol ao sol se repita
Desobedece aos simples conceitos da física
Como um anti-deus não semita
Sopra o frio nos meus ossos da face
E o que era sorriso reconstrói-se em angústia
Enquanto o mar (azul) se descobre em vidas
A minha vida se encobre em minúcias
E quedo antítese do caju e do garbo
Nevando nos dias de sol de dezembro
Pois em vão tento conter esse inverno
Que me esfria o futuro até onde me lembro
terça-feira, outubro 06, 2009

No corpo de minha filha há um trânsito infinito de gentes
Dos sertões mais longínquos do seu avô, passagem de homens e gado
Aquela foto de casal pintada à mão, sussurrando o inconfessável para além do sangue
Essa bisavó negra que deitou com tantos homens, cujos filhos legitimam meu estado de coisas
No corpo de minha filha dorme o amálgama das nações
A travessia do mar pelos árabes, o gosto pelo cobre, o nome da pataca
Meu sangue quente e insuportável que se torna palavra na boca e morre cólera
Um gosto de flor de laranjeira e de doce amarelo a dar suporte às pálpebras
No corpo de minha filha gritam os entreatos do amanhã
nossa criança portuguesa a ter esperanças de novamente ser grande
Um colar de contas, uma ousadia de cruzar a porta aberta
E o mar infinito a se tornar braços, mãos, olhos e pernas
Na cama da minha filha, repousa insone o mapa dessa anti-guerra
sexta-feira, setembro 04, 2009
Os santos africanos têm boca. Comem tudo o que a boca come, como Exu. Os santos católicos são pálidos, parecem que nunca viram um prato de pirão na vida. Parece que nunca foram na Mira. O Bar da Mira é uma dessas jóias que já fazem parte do itinerário turístico da cidade, com seus mitos e lendas e uma verdade inquestionável: a qualidade de sua cozinha. Mira é devota de Cosme e Damião, santos católicos. Mas eu acho que são os Iberês que dão as caras por lá, na hora do almoço. A comida de Mira é um ritual de fé e esperança que vai além do pão e do vinho. Coisa para poucos.
Como toda liturgia, começamos do caldinho de feijão, nominado por Edmilson, o baiano, de café. Edmilson é o celebrante desse ato religioso: filho de Mira, sua presença é indispensável para compreensão da beleza que se esconde por detrás de cada prato. Primeiramente, devemos agradecer pelo privilégio de estarmos diante da autêntica comida pernambucana. Sem invencionices de espumas, reduções, salteados. Amém, Senhor. O cabrito precoce. Aleluia. O sarapatel. Hosana. A galinha de cabidela. Saravá. Feijão, pirão, pimenta. I tego arcana dei.
E no fim do ritual, comunguemos todos na mesa em torno do doce de banana, de caju. Misturado e gelado, com o gosto de cravo a afastar qualquer pecha de pecado da gula a pairar sobre nossas cabeças abençoadas pela cerveja gelada. Oremos. A vida vale o peso exato desses momentos de paz.
quarta-feira, agosto 12, 2009
Oxóssi
De unhas cortadas, caninos serrados
Cheirando a sabonete, alfazema, boa-fé
Limitado em meus braços por conta das gravatas
Desmatado nas pernas e nas vontades
Pelas motosserras das normas e do beijo conjugal
Hei de morrer sério, católico bucal
Para dar espaço a outro, que carimbará para além de mim
E quem me dera antes da morte
Libertar do meu peito aquele que eu era
Antes de existir civilizações e belas palavras
O meu deus das matas, meu senhor Oxóssi
Abrir a jaula dos lobos e dos vampiros
Morder a carne alheia e beijar a boca furtiva
Desdenhar do rato, do impressionismo e do perdão
Corromper com árvores a sífilis do amor eterno
Destronar dos filmes o final feliz
Andar porque andava e nem me dar por isso
Desculpar a tortura, a angústia e a opressão
Quem me dera morrer apenas como casca
E viver na vida a vida a que sempre disse não
quarta-feira, agosto 05, 2009
Lembranças de mundos encantados
A coleção não era vendida em livrarias. Apenas por pedido via correios e pagamento por boleto (visto que naquela época não havia internet e quejandos para facilitar a vida dos consumidores) a coleção quedaria acessível às crianças mais curiosas.
Foi minha primeira lição de paciência. O tempo naquela época corria com mais vagar: estradas velhas, estatismo exagerado dos caminhos que levam às comunicações.
Em um dia de sábado, meu pai me disse: vamos aos correios, seu presente chegou. Meu pai, sempre distante do meu mundo inventado, abriu a porta do carro rumo aos quatro mundos encantados de Walt Disney. Lembro do monumento que era o prédio dos correios. Colunas, mármore, gentes. Tudo me impressionou. Meu pai me pegou pela mão. Caminhou por entre os malotes, cartas. Eu sempre impressionado, de mãos dadas com meu pai. O malote veio em papel marrom. Pesado. Era uma coleção, afinal. Em casa, larguei a mão de meu pai e rasguei com voracidade o papel marrom, adentrando naquele chamado mundo encantado. E quanto de encantamento havia: nomes de bichos, estórias centenárias, segredos científicos, fábulas e mais fábulas. Eu me lembro que, por um instante, eu senti que dominava os segredos do universo. Lembro dos desenhos. Lembro das páginas e das letras. Lembro de quão era grande e belo o prédio dos correios.
Mas disso tudo, em meio a fábulas e bichos, a coisa de que mais me lembro é da força firme da mão de meu pai.
terça-feira, julho 21, 2009
Ao Orecic, com carinho
A comida era ruim, o lugar era feio, a cerveja tantas vezes vinha quente. Cícero não nos atendia, tantas vezes. O nosso garçom foi demitido. Mas acima de tudo era aquele nosso quintal, nossa caixa de areia, onde ternos, batas e aventais não entravam;
No início do ano eu compus um frevo chamado “Orecic Futebol Clube” que diz assim em um trecho:
É fevereiro, vem
A carne queima, bem
No Orecic tem uma mesa pra sentar
Esquece o ano, e vem
Vem no meu passo, bem
A vida à toa está na mesa desse bar
O frevo não tem mais sentido, agora. Não tem mais tempo presente. Foi para o reino das coisas idas, como o próprio Orecic, para quem, nessa manhã chuvosa de terça-feira (o anti-dia), eu dedico esse poema:
ORECIC
Eu nunca estarei em paz com a finitude das coisas
porque eu sei que junto com as coisas idas
deixamos de ser esse pouco que nos restava
largados ao vento que sopra o inevitável
deixamos o tênis, os amores, o hálito
a diferença, o choro, o tormento
e tudo fica da espessura de um fotograma na parede
tudo se resume a esse fotograma na parede
nossa tentativa absurda que reter água e areia
como se pudéssemos negociar com a finitude das coisas
e dar-lhe em troca um copo de cerveja
por, quem sabe, mais um segundo de tangência.
segunda-feira, julho 13, 2009
The times, they are a-changing
Come gather 'round peopleWherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin
'Then you better start swimmin
'Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'.
Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won't come again
And don't speak too soon
For the wheel's still in spin
And there's no tellin' who
That it's namin'.
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin'.
Come senators, congressmen
Please heed the call
Don't stand in the doorway
Don't block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There's a battle outside
And it is ragin'.
It'll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin'.
Come mothers and fathers
Throughout the land
And don't criticize
What you can't understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin'.
Please get out of the new one
If you can't lend your hand
For the times they are a-changin'.
The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin'.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin'.
sábado, junho 20, 2009
Ouço rumores de guerra
sangue, dor, desterro, vindos pelo mar
ela beija a minha boca com fúria e pouca
vontade de largar
Homens tomam a cidade, queimam fortalezas
Escravizam mães
Ela arranha a minha pele, diz que está com febre
E me pede mais
Tropas invadem por mar
Ela me morde sem fim
Enquanto eu sonho com a verdade
Ela tem saudade e me sussurra assim:
Acorda, amor
Acorda, amor
Vem ver o mar
Ver o mar
Ver o mar
Ver....
O mar, maré de gente e medo
de tanto segredo que a guerra tem
ela diz que não importa, que a vida é torta
e que eu sou seu bem
E assim a guerra adentra a noite, como um açoite
no corpo da paz
Ela puxa o meu cabelo, com terror e zelo
E me pede mais
Tropas invadem por mar
Ela me morde por fim
Enquanto eu sonho com a verdade
Ela tem saudade e me sussurra assim:
Acorda, amor
Acorda, amor
Vem ver o mar
Ver o mar
Ver o mar
Ver....
sábado, maio 02, 2009
O mundo precisa de mães
segunda-feira, abril 27, 2009
Botões e ratos
Gostaria de dizer palavras de brinde, como nos casamentos anglo-saxões. Mas as palavras de Aline, quando eu me casei, representam tudo o que eu gostaria de dizer, na mais verdadeira recíproca que pode haver entre um ex-casal:
"Fui hoje comprar um presente para o casamento de meu ex marido. Rodei a loja um tempão, tentando encontrar algo que, ao mesmo tempo, dissesse o quanto de alegria eu desejo para sua nova vida e o quanto lhe sou grata pelo seu apoio incondicional.André me ensinou que a amizade verdadeira (que é amor, no fim das contas), não precisa de um bando de coisas; só precisa de doação. Que erros podem ser reparados. Quer é possível perdoar, e, assim, curar dores terríveis. Que o rio da vida sempre continua.Nesse meu ano tão atribulado, André me deu ombro nos momentos mais difíceis. Quando me desesperei, ele mostrou que eu não precisava me sentir desamparada. Quando tive medo, ele me fez rir para espantar os demônios. Quando eu fui vítima de maledicência, ele me defendeu.Gosto de pensar que pouca gente no mundo consegue ter o que temos, depois de um divórcio. O respeito que construímos depois que nos refizemos. As "piadas internas" que mantemos. Fico muito feliz que ele tenha encontrado alguém como Fátima, que o faz enxergar o futuro sempre com olhos otimistas. E não digo isso pra parecer boazinha não, que eu nem carrego essa fama, nem dela preciso. Estou mesmo, genuinamente, feliz por ele ter encontrado seu caminho. Desejo aos dois toda a sorte que houver nessa vida. Encontrar um amor é muito difícil, e quando acontece... bem... quando acontece nunca mais a vida é a mesma.Acabei escolhendo um presentinho bobo, mas alegre. Tão alegre quanto desejo que a vida seja: para Fátima e André, para os bebês, e para mim também; por que não?"
sábado, abril 18, 2009
Maria´s song

Maria, Maria, duas linhas perfeitas não podem se tocar
E os meus sóis,
que se horizontam além de nós
brilharão sagrados
se tua noite antiga com eles se casar
Escuta Maria, pé no chão, fé na lida é que posso te dar
Maria, Maria, e o som da poesia que me trouxe pra cá
E quem de nós
poderá dizer que sós
seguiremos todos
se as nossas linhas querem se eninhar
Quando a noite nos chegar
Para a vida nos casar
Pé na reta e mira o mar
Maria....
quinta-feira, abril 09, 2009

quarta-feira, março 11, 2009
ponto final
Com teu coração fariam
Anéis e colares brancos.
Oh, foge lua, lua, lua.
Quando vierem os ciganos,
Te acharão sobre a bigorna
Com teus olhinhos fechados.
Foge lua, lua, lua,
Que já sinto os seus cavalos
Deixa-me, filho, e não pises
O meu alvor engomado."
(tradução de Flaviola, sobre poema de Lorca, musicado pelo Flaviola, magistralmente gravado pro Amelinha, sentida por mim)
quarta-feira, fevereiro 25, 2009

que a felicidade não é desse mundo,
que essa cidade é um vale de sangue e de sombras
que a alegria é um pecado,
que o martírio é nossa bandeira
Mas o nosso peito que não se entrega à confissão
o nosso peito pagão
lançará confetes sobre nossas cabeças
no dia de se lavarem as cinzas
a esperança sagrada será substituída
pela terça-feira gorda
que será então a última a morrer
segunda-feira, fevereiro 23, 2009
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
sábado, fevereiro 14, 2009
O Bode Dourado
Quando servido, o bode é crocante, com o sabor característico preservado, seja no pernil, seja na costela. Os ossos se acumulam no prato, que mimetiza um cemitério dos prazeres passageiros, sem nos dizer "nós, que aqui estamos, por vós esperamos". Não, é antes um cemitério da boa lembrança, do gosto da carne minuciosamente preparada.
A simplicidade do lugar é inversamente proporcional a grandeza do preparo do bode. Esse animal que resiste às intepéries da vida, do solo seco, a palo duro, mas felizmente domado pela nossa fome, pois triste do bicho que o homem come.
(PS - Depois do bode, sugiro o licor de cana de açúcar de Triunfo, gelado, doce, perigosíssimo).
Abraços, Edvaldo, ó cabeça branca.
Bode Dourado
Rua Dr. José Maria, 217, lojas 09 e 10.
Encruzilhada
Recife
domingo, fevereiro 08, 2009
Gastronomia - daqui para frente
Logicamente não vou publicar receitas. Não tenho competência para isso. O que eu quero é desvelar caminhos que acabei conhecendo, por tanto amar me perder entre os sabores. É uma forma de tornar esse blog mais útil também. Poesia não enche barriga de ninguém. (rimou).
Ainda sobre João do Morro
Ontem, no Guaiamum Treloso, tive a oportunidade de escutar novamente João do Morro. A música dele é de uma precariedade gritante. "Balaiagem" (sic) tem uma melodia copiada de tantas outras que seguem uma sequência maior-menor-maior. A letra tem lacunas propositais decorrentes da falta de intimidade com a língua.
Mas a originalidade e a verdade da letra de João do Morro sempre me surpreendem. E não tem teoria musical que me tire o sorriso do rosto.
quinta-feira, janeiro 01, 2009
quarta-feira, dezembro 31, 2008
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Feliz Natal
para aliviar a enxaqueca crônica do mundo
tem as cores da coca-cola
e o gosto da neve que nunca vem.
Cristo não nasceu em dezembro
papai noel não existe e se existisse possivelmente estaria preso
acusado de pedofilia.
Mas só os sórdidos, os terrivelmente solitários
os loucos de todos os gêneros
e os intelectuais, imbecilmente intelectuais
ousam não sorrir mais leve
após tomar meia banda de aspirina
terça-feira, dezembro 16, 2008
por esses dentes tortos
por causa das lentes na cara
por esse senso de norte
Deus há de me compensar
por causa da morte do gato
porque eu perdi o meu ônibus
pelas mãos que evitam o tesouro
Deus há de me compensar
porque eu choro e eu sonho
pelas horas em que um mudo espanto
transborda da minha face em silêncio
e eu sigo conformado com os pássaros
Deus há de me compensar
ainda que eu faça o diabo
ainda que o mundo arrebente
em tanto rebanho de gente e de medo
Deus há de me confortar
eu cobro com multa e com juros
o preço de não ser ateu
domingo, dezembro 14, 2008
Um homem chamado André sairá hoje de casa
Se minha única leitora (foi mal aí, José Teles) quiser dar um passeio por ele, está lá no "Wordpress". O http assusta: www.umhomemchamadoandresairahojedecasa.wordpress.com´
É isso.
segunda-feira, dezembro 08, 2008
TREM
pois nunca a volver, nunca a dar ré, é o modo da trilha
A paisagem sempre de uma vez, nunca repetida
pela imagem do retrovisor, invertida
Talvez mais feliz seria, se eu andasse de trem
Ao passo que o homem-automóvel, que vai de Lisboa à Sintra
terá sempre à disposição a marcha ré.
Verá o que perdeu de relance, por ser homem e possuir pouca fé
nos próprios olhos. Invertido no espelho do retrovisor, já não saberá
se veio de Lisboa ou se vai para Sintra
se seguia para vida ou prosseguia para o mar.
Mas o trem não se irmana a essas coisas. Não desperta o quiçá.
despreza o destino, os avisos de abalroamento
“Se eu casasse com a filha da lavadeira..” e, nesse momento, não estarás mais lá.
Atropela os acorrentados nos trilhos, mães, avós, pianos, segredos, a sala de estar.
Tudo de uma vez, como o vômito sincero da madrugada
Como a liberdade sagrada de uma coisa bruta e grega que não se apieda de ninguém
Eu quero ir como quem se lança a um soco
E o meu coração oco mais feliz seria, se eu andasse de trem
domingo, dezembro 07, 2008
Explicação para as fotos abaixo
PS - Para minha prima Renata que deixou de ser a menina do sorriso mais gostoso do mundo, para ser a mulher com o sorriso mais gostoso do mundo, junto a José.


.jpg)















