sábado, abril 02, 2011

As mãos do meu pai





As mãos pensas de meu pai na sala a murmurar em gestos o cansaço do corpo
Tateiam em busca de outras mãos que já não acenam mais
Quantas guerras, meu Deus, quantos exércitos dizimados
Cabem naquele gesto que desenha sem potência o imponderável?


Maré de sangue e vento e vísceras e um grito pende do tato – mamãe,
O resto é nuvem de pássaros abatidos por tanques de guerra e os meus olhos de menino a não crer na própria história, meu Deus, meu Deus
Quantos deuses mortos, quantas valsas perdidas no meio da sala cabem naquele gesto que firma no espaço o vazio da minha herança?


As mãos pensas de meu pai na sala e as réplicas da França conquistada que lhe pendem dos dedos
ofertam-me a crueldade dos campos de batalha e o sorriso fácil dos diplomatas que dividiam entre si o resto do século
e a oferta já é pouca, por não sobrar a esperança da vitória depois da noite
Quantos cadáveres, meu Deus, quantos tios amputados
Cabem naquele gesto que escava no ar a sepultura dos homens fortes?


João, José, Celina, as armas prontas para um combate que já não existe mais
O resto é guerra invisível travada a partir na terra suja das unhas, na carne restante dos molares
Quanto do meu silêncio, nascido na contramão do combate
cabe no gesto de perplexidade perante a nova cosmogenia do Cais?


Elas chamam por algo, as mãos pensas do meu pai, e esse algo tarda a chegar
Não sei bem se pássaro ou finitude,
se começo da praia para a onda, se início do asfalto para o onde
Os corpos se amontoam no vão do hiato e fica este gosto de pólvora
a sobejar na língua morta e insepulta no horizonte da boca

terça-feira, março 08, 2011

carnaval e herança


Foi pela mão do meu pai que eu conheci o carnaval. Justamente por ele, um dos homens mais anti-carnavalescos que eu conheço. Avesso às multidões, ao calor, ao barulho, apraz-lhe um livro de guerra, um bom filme, um bom almoço nos dias de folia. Eu também sou pacato, dou-me muito bem com meus botões, com meus discos, com minhas pesquisas. Mas nesses dias milagreiros de são-ninguém, tomado por uma inexplicável turba de bichos-carpinteiros, corro para as ruas antigas do Recife e de Olinda, não sei quem sou, nem prá onde vou, só sei que tudo acaba na quarta-feira.


Acuso beneficamente o meu pai dessa imensa responsabilidade. Tomava-me pela mão, ainda bem criança, como salvo-conduto, e me levava para o bloco da Turma da Jaqueira, cria dos funcionários e motoristas da Fundação Joaquim Nabuco, órgão federal em que meu pai, por vários anos, exerceu a função de superintendente sob o comando de Gilberto Freyre (e posteriormente de seu filho, Fernando Freyre). Em meados da década de 80 do século XX, a Turma da Jaqueira (co-denominada de “Segurando o Talo”) era uma troça ainda pequena, que seguia pela Avenida 17 de Agosto, até a casa de Gilberto Freyre (atual Fundação Gilberto Freyre). A troça terminava na Associação dos Servidores do Instituto Joaquim Nabuco. Eu, menino, sob os acordes do frevo, feliz, suado, juntando confetes no chão. Meu pai acompanhava ao longe, sob distância segura.


A Turma da Jaqueira é, hoje, um bloco imenso, que arregimenta mais de sessenta mil pessoas pelas ruas de Casa Forte, por certa ironia do destino, meu atual endereço. Não acompanho mais o bloco, mas decerto que meus passos estão ainda marcados no itinerário seguido pelos foliões mais novos, seguidores antigos, gente que se irmana a mim pelo menos na minha imaginação.


Desde essa época passada, o frevo não saiu mais de mim. Um dia eu hei de morrer, como todo bicho que pula, mas essa alegria há de se perpetuar nos meus filhos. Tomo eu, pela mão, Maria Eduarda e mostro a ela a riqueza dessa festa que desafia toda lógica, como a própria humanidade. Talvez o carnaval seja a mais humana de todas as festas, com as suas contradições. Dou a Maria Eduarda esse quinhão, essa parcela inexplicável da minha conjuntura legada pelo meu pai. Não sei se ela amará o carnaval como eu amo, mas abro a minha mão, como o meu pai o fez, para que ela tenha uma escolha. E possa, quem sabe, escolher o transitório sem abrir mão da permanência.


Hoje, terça-feira gorda, é aniversário do meu pai.

domingo, março 06, 2011

PADARIA IMPERATRIZ


Há mais de cem anos, servindo aos foliões carboidratos e esperança para os outros dias de festa

NA FRENTE DO SAMU

Esperando o amigo que exagerou na dose

O FAMOSO TCHAU-DEDADA


O ENTRUDO


No chão, lugar de bravos e de anônimos

A COLONIZAÇÃO PELO CAMAROTE


“Depois de 33 anos desfilando pela Rua da Concórdia, o Galo da Madrugada estreou na Dantas Barreto. E fez bonito. Seus súditos leais lotaram o Centro do Recife com risos e fantasias. Nos camarotes, autoridades, artistas e muita gente bonita.”

Chamada do Jornal do Commercio de 06 de Março de 2011


Eram duas festas no período momesco: o entrudo, de tradição ibérico-portuguesa, era considerado agressivo pela sua permissividade, quando pacatos senhores saiam de suas casas, munidos de limões de cheiro, farinha, ovos e se misturavam à turba, emporcalhando a cidade com sujeira, suor e risos. Havia o entrudo familiar, que designava a brincadeira restrita entre as famílias, mas que, freqüentemente, descambava para a mistura de classes, como atestava Joaquim de Manuel Macedo, autor do livro “A Moreninha”, em 1871.
A outra festa, o carnaval, foi trazida pela corte da Imperatriz D. Teresa Cristina a partir do seu casamento com o Imperador D. Pedro II, em 1843. Trouxe junto com ela músicos italianos que importaram os arlequins, os pierrôs, as colombinas e o carnaval de Veneza, das fantasias elaboradas, restrito aos bailes, aos convites reais. Como tratou Luiz Felipe de Alencastro, no seu ensaio “Vida Privada e Ordem Privada no Império”, “Separou-se a festa da rua, popular e negra, embora de origem portuguesa – o entrudo -, da festa do salão branco e segregado, o carnaval”.
Em algum momento, entretanto, entrudo e carnaval passaram a designar a mesma festa e, por influência da música do século XX, do samba carioca, do frevo pernambucano, da sua variação, o frevo baiano, dos grupos ritualísticos negros e índios, a rua cada vez mais foi vencendo o salão. A festa de rua foi nomeada de carnaval, embora fosse mais próxima do entrudo. Carnaval também era a festa dos clubes (substitutivos dos salões e das sociedades carnavalescas) da alta classe social, mas restrita, ilhada no Sudeste e no Sul do país.
Na década de 80 e 90 do século XX, e principalmente no início do século XXI, o Estado percebeu que o carnaval de rua era uma fonte bastante interessante de captação de recursos, principalmente pelo crescente interesse das grandes empresas (consolidadas pela estabilidade econômica) em investirem no manancial quase infindo da alegria de rua, sempre possível de ser catequizado pelo marketing.
Assim, autoridades, artistas, e pessoas de importância, que evitavam o carnaval de rua, por causa do descontrole de ânimos que caracteriza o entrudo, passaram a olhar com novos olhos a multidão anônima e feliz, que se acotovelava absorta na alegria circunstancial dos dias de folia. Só que a freqüência das pessoas revestidas pela importância do cargo, da mídia, da arte não podia conviver com o anonimato da turba enfurecida pela felicidade: era preciso reinventar o espaço da rua, para que se permitisse uma segregação branda, quase democrática, sub-reptícia, da felicidade. A sua felicidade termina onde a minha começa. Gente bonita junta acotovelando-se refrescada pelo ar-condicionado e olhando de cima a gente sem beleza, sem nome, sem importância.
Os camarotes representam a invasão no animus do carnaval sobre o entrudo. A segregação que antes ocorria nos salões e nos bailes passa a ocorrer na própria rua, no próprio espaço democrático. Invade com tanta força que coloniza até as classes menos abastadas, pois o carnaval de camarote passou a ser um produto industrializado para classe “c” se diferenciar da classe “d”. Mimetizados os pierrôs de academia, as colombinas do reality show, os arlequins da política, importados de um país distante que nunca vingou aqui em baixo, nos tristes trópicos.
O espaço da rua categorizado como se fosse um imenso espaço privado, colonizado por palafitas de luxo, de quase-luxo, de anti-entrudo, de pseudo-carnaval.

sábado, fevereiro 05, 2011

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O Elogio ao Grotesco e o Casal Huck






Para João da Costa, manter o concurso do Rei Momo, que acontecia no Pátio de São Pedro, representa uma falta de coerência numa época que, na avaliação dele, as pessoas estão preocupadas em cultivar práticas saudáveis. ´É um contrassenso hoje você trabalhar a obesidade mórbida como um problema grave de saúde e incentivar um Rei Momo a isso`, defendeu. Para o prefeito, essa é uma discussão que deve estar acima das tradições culturais. ´Essa não é uma tradição boa. As boas a gente preserva`, colocou. A Fundação de Cultura do Recife ainda não definiu os critérios do novo concurso. No entanto, o prefeito já antecipou que os gordinhos não serão impedidos de concorrer. ´Não sei se vai ganhar, mas nós não vamos proibir`, disse.
(Extraído do Diário de Pernambuco, edição de 22 de janeiro de 2011)




Folia de Momo é apenas um dos vários designativos do carnaval brasileiro. Aqui, como em outros lugares do mundo, desde o início do século XX adotou-se o deus grego Momo como o patrono dos dias de carnavália.

Momo é um deus peculiar. Ele está ligado à picardia, à denúncia vexatória dos demais deuses. A tradição greco-romana narra a expulsão de Momo do Olimpo por suas brincadeiras inconvenientes e seu conseqüente envio para o mundo dos mortais. Momo foi bem recebido por aqui e fazia parte da tradição romana a coroação de um centurião que no dia de seu reinado simbólico podia comer e beber livremente. A obesidade de Momo não significava doença, significava fartura e extravagância em uma Roma onde não havia a culpa católica da quaresma.

A partir de 1932, o carnaval brasileiro, mais especificamente o do Rio de Janeiro, adotou a figura do Momo-rei como um dos personagens da corte real do carnaval. Naquele ano, Momo foi personificado em um boneco de papelão. Algum tempo depois, o boneco de papel foi substituído pelo jornalista Morais Cardoso, justamente por causa de sua figura redonda, farta, imensa. Simbolicamente, o Rei Momo aparecia como a imensidão do homem-rei sendo dividida pela massa anônima do povo.

A figura do gordo é o antípoda da forma clássica do belo masculino. Para além das discussões históricas sobre a estética e a modernidade, hoje em dia a figura do gordo é o estereótipo da má saúde, do desleixo, da humanidade que não deveria existir frente aos inúmeros expedientes atuais de se conseguir alçar a significância do belo no corpo.

E justamente por isso, a figura gorda do Rei Momo era tão importante para nós.
Para nos lembrar do quanto somos grotescos na nossa pulsante humanidade. Do quanto há de beleza na fartura livre do corpo, cuja estética não está amarrada a nenhuma pré-determinação convencional. Nisto reside ou residia a democracia do carnaval. Um rei-deus, obeso, simpático, ultrajante, era coroado em meio à felicidade do povo, extirpando a figura do príncipe encantado, belo como nas falsas estórias de Walt Disney.

Mas a voz do politicamente correto gritou no coreto, em nome de uma imagem sadia do folião. O prefeito do Recife, seguindo uma tendência nacional, decretou o fim do reinado de Momo no carnaval. O Rei não poderá ser gordo, e se ele não é gordo, não é Momo.

Há ainda espaço para um afago na cabeça dos desleixados: o gordos ainda poderão concorrer ao reinado, embora já não se possa garantir que a coroa fará suas cabeças mais dignas: “Não sei se vai ganhar, mas nós não vamos proibir”, disse o prefeito do Recife.

Decerto o rei será branco, loiro, e apolíneo. Representando não os brasileiros de carne, osso, gordura, poucos dentes. Mas governando simbolicamente aquela parcela ínfima dos belos e bem-sucedidos empresários, que personificam a bondade e a mão estendida para quem embarcou de cabeça, equivocadamente, na tese da meta-raça. O novo rei representará o casal Luciano e Angélica Huck, eleito pela Veja da semana passada como a meta a ser alcançada por cada um de nós, gordos, pobres, desdentados e sem um deus que nos represente, pois a coroa agora pertence ao divino Apolo.

Este que justamente nunca foi expulso do Olimpo.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

O Movimento dos Barcos









(Jards Macalé e Capinan)

Estou cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais
Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais
Que passa ao largo do nosso corpo

Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo

Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Amar




(Carlos Drummond de Andrade )



Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

O anti-britânico

Eu freqüentemente me atraso para a flor que a vida me ofertará
Como um vício não tão raro, que se cultiva dentro de mim
Por outra mão que não a minha, hei freqüentemente de me atrasar
E sequer hei de chegar ao dia em que se anunciará meu fim

Porque o tempo não negocia comigo,
taciturno como meu pai, não me lança um olhar
E a aurora das coisas, como fruto inalcançável – mas de beleza táctil
irmana-se fácil com o tempo presente
E minha pele ressente saber e não estar lá

Enquanto o mundo faz e se refaz dentro de um avião
Minha preocupação é correr e pegar o bonde
Que por um infortúnio do meu vício, gritou meu nome e já passou
Eu sigo atrasado sei lá, não sei, para onde
Pois o meu século vinte no meu século dezenove caiu e ficou

E assim eu durmo sem ouvir o relógio que deveria me acordar
As catedrais e as cidades vão se construindo para além de mim
Por outra mão que não a minha, hei freqüentemente de me atrasar
E sequer hei de chegar ao dia em que se anunciará meu fim

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Muitos amigos bons



Alguns amigos bons

And you can tell everybody this is your song


PS - É a cara da mãe, mas o espírito...é todinho do papai

terça-feira, janeiro 11, 2011

A valsa da princesa

A princesa que já não dormia,
por, quem sabe, esperar o fim do século
aguardava o homem Ulisses que lhe havia,
prometido ser-lhe contraparte do espéculo


A princesa enquanto paciente aguardava
bordou um imenso tapete de tramas
onde o Mundo era outro e estava
imune a tristezas, feridas e chamas


Bordada em cores, estampava a alegoria
da eterna felicidade da princesa
que perdida entre unicórnio, leão e utopia
mantinha a alegria da esperança acesa


E no tapete só reinava a princesa
que escoltada em ouro pelas suas damas
dançava eterna e infinita com alma tesa
bordada por si mesma nas entrelinhas das tramas


A princesa de fora admirava a princesa de dentro
por reconhecer que do tapete para si, duas havia
uma, bordada por Deus, era carne, dor e vento
a outra, fruto de si, era somente alegria


E eis que, absorvida na sua imagem bordada
surpreendeu-se a princesa com um chamado distante
Ulisses, o homem-deus que ela tanto esperava
apareceu perante seus olhos, em um rompante


E lhe arrebatou e lhe levou para casa
deu-lhe jóias, máquinas e cotidiano
cristais de murano, bichos fantásticos, carros com asas
deu-lhe todos os seus dias do ano


E em uma noite de núpcias e de paz
no instante em que Ulisses dormia
a princesa sorrateiramente por trás
estripou o dormente enquanto sorria


Encarcerada a princesa, questionaram-lhe o ato
“porque, de maneira tão horrenda, rasgaste a lei?”
e ela respondeu tranqüila sobre o ocorrido fato
“porque eu nunca fui feliz como no tapete que bordei”

segunda-feira, janeiro 10, 2011

A Função Social do Amigo Gordo




Ao Gordo (sempre Gordo)
A Filipe (a partir de amanhã, ex gordo)



Todo grupo social que se preze tem um amigo gordo. Ele é a liga que une os demais membros da confraria. Ele é o bonachão, por vezes, é o mal-humorado em outras tantas, é o cara que aceita a berlinda porque sabe que nenhuma reunião regada a cerveja funciona sem uma berlinda. O amigo gordo se sacrifica pelos demais, na sua imensa sabedoria, no santo ofício de beber até a última gota de cerveja, ou de comer o acepipe restante do prato. Morrerá um tanto mais cedo, com as veias entupidas, mas cumprirá, até o final, a sua missão de ligar nas noites de segunda-feira para exigir a presença daquele pai de família na mesa de ferro enferrujada que descansa tantos copos do líquido sagrado translúcido e que será o motor de mais uma discussão conjugal.
O amigo gordo tem uma pança farta, mas possui orelhas imensas. A ele nós confessamos os segredos mais remotos, as transgressões cotidianas, a tristeza de um projeto malfadado. O amigo gordo, por ser quase infinito, é um divã enorme que se oferece à análise do sagrado e do profano.
O amigo gordo sempre aceita um convite para almoçar no sábado. Está sempre disposto a alegrar a tarde de um fim de semana após uma sexta sombria. Ele tem o dom de absorver, em suas camadas adiposas, a tristeza e devolver a alegria que só existe no colesterol. Ele é a vaca mais preciosa do rebanho, o elogio à camaradagem, a irmandade do mundo inteiro personificada em um sujeito.
O amigo gordo nos faz sentir mais leves.

domingo, janeiro 09, 2011

Sobre o brega e outros bichos

Dentro do contexto social denominado “mundo cultural” ou coisa que o valha há uma supervalorização da música extremamente popular que se convencionou a chamar de “brega”. Basta uma pesquisa rápida sobre novas bandas do mercado musical independente para que se comprove a existência de um viés seguido por novatos e que está sustentado na música feita na periferia das grandes cidades do Norte e do Nordeste.

O grupo social que gosta de se afirmar na contramão da cultura de massa, e por tais razões mais culta que as demais, vem ostentando sua presença em festas realizadas fora das circunscrições geográficas da classe média de uma maneira ideologizada, utilizando não apenas como diversão, mas como provocação.

O questionamento da dicotomia entre a música brega e a chamada MPB já havia sido colocada em xeque desde a década de 70 com Caetano Veloso gravando (e cantando ao vivo no Phono 78) “Eu vou tirar você desse lugar” do Odair José. Posteriormente, Caetando gravou outros cantores tachados de “cafonas”, o adjetivo antecessor do “brega”. Algumas dessas gravações são memoráveis.

Particularmente eu já apresentei minha opinião quando tive a oportunidade de escrever sobre o fenômeno João do Morro (quem tiver curiosidade, ver os comentários http://acertodecontas.blog.br/atualidades/joao-do-morro-um-sambista-de-verdade/).

Gosto bastante de algumas músicas do grupo Calypso e acho “A Vida é Assim” uma música muito bem estruturada, apesar da letra simples e sem pretensão. Qualquer segregação apriorística do que é ou não é arte será sempre o mesmo preconceito que, no início do século XX, recaiu sobre o samba.

O que eu não concordo é o tratamento ideologizado do “brega” e a tentativa de impor qualquer música feita na periferia (geográfica ou cultural) como ponto de resistência à massificação midiática. Para mim, tal atitude esvazia o conteúdo crítico, empobrece o reconhecimento do que é arte popular e desvaloriza a espontaneidade da música que paradoxalmente (e momentaneamente) é louvada.

A boa música se releva por si, independente de posturas guerrilheiras da pseudo-intelectualidade que faz da falta de recursos uma bandeira que se perpetua para legitimar a divisão cultural.

PS – Para fins de fomentar a discussão eu coloco uma versão feita para o novo fenômeno popular “Vou não, posso não”, onde um arranjador preencheu a música com acordes dissonantes não existentes originalmente na música e deu um andamento de bossa nova.
http://www.youtube.com/watch?v=YiPMK6e6bT0&feature=player_embedded

Evidentemente trata-se, aqui, de uma tentativa de demonstrar que qualquer música bem arranjada é boa. O argumento é falacioso por dois motivos: 1) A música tocada é instrumental. A letra é suprimida. 2) A estrutura da música ocidental, desde a Idade Média, segue um padrão de escalas tonais que soa agradavelmente aos ouvidos. De Tom Jobim a DJ Sandro esse padrão é minimamente repetido (não vão sair por aí dizendo que estou a comparar um com o outro). Um arranjo bem feito em cima de acordes seqüenciais sempre vai soar agradavelmente aos ouvidos do auditório. Isso não quer dizer que a música é boa, nem que isso é arte.

Para ver as meninas



(Paulinho da Viola)

Silêncio por favor

Enquanto esqueço um pouco

a dor no peito

Não diga nada

sobre meus defeitos

Eu não me lembro mais

quem me deixou assim

Hoje eu quero apenas

Uma pausa de mil compassos

Para ver as meninas

E nada mais nos braços

Só este amor

assim descontraído

Quem sabe de tudo não fale

Quem não sabe nada se cale

Se for preciso eu repito

Porque hoje eu vou fazer

Ao meu jeito eu vou fazer

Um samba sobre o infinito

Pele Negra


Durante alguns anos, nesse blog, eu expus minha vontade de gravar um disco definitivo que assumiu diversas feições ao longo do tempo. O último disco foi gravado em 2003, há mais de sete anos atrás. Nesse hiato imenso eu compus novas melodias, escrevi novas letras, pensei em discos perfeitos. Mas minha vida não ficou estática e eu assumi muitos compromissos em cada meandro que compõe esse hiato. No ano passado, eu e Rodrigo fomos atrás de um produtor musical que pudesse nos orientar na direção certa, já que ambos guardávamos (e ainda guardamos) tantos projetos possíveis, sem qualquer pretensão mais adolescente de ser um rock (ou samba) star. E descobrimos que o mundo profissional da música não guarda qualquer relação com o universo imaginário da arte do compositor. São coisas completamente diferentes. A dificuldade de se concretizar um projeto findou por lançar ao mar profundo nossos projetos. Mas eis que ainda no mesmo ano de 2010, Chris Nolasco aparece na minha casa dizendo que havia aprovado um projeto no FUNCULTURA e que queria contar com quatro músicas minhas. Qual não foi minha felicidade. Maior felicidade foi acompanhar a feitura do disco, entender cada detalhe de uma gravação, da feitura do projeto, das condições profissionais dos músicos. Sinto que esse hiato valeu a pena. Que eu não estou parado. Que algo de bom me espera nesse ano de 2011. E eu queria dividir isso com vocês. Logo, logo o CD “Pele Negra” estará finalizado e eu poderei postar as minhas músicas gravadas por Chris, e compartilhar um pouco dessa minha arte mexida e remexida pela profissão de fé.

sábado, janeiro 08, 2011

A Corrupção do Mundo

Um rato debaixo da cama é um rato, é um rato, é um rato

é um rato, é um rato, é um rato, é um rato, é um rato,

é um rato

debaixo da cama

sexta-feira, janeiro 07, 2011

O Medo

(Alceu Valença)



Mas eu não quero viver cruzando os braços
Nem ser cristo na tela de um cinema
Nem ser pasto de feras numa arena
Nesse circo eu prefiro ser palhaço
Eu só quero uma cama pro cansaço
Não me causa temor o pesadelo
Tenho mapas e rotas e novelos
Para sair de profundos labirintos
Sou de ferro, de aço de granito
Grito aflito na rua do sossego

Mas na verdade é mentira
Eu sou o resto
Sou a sobra num copo, Sou sobejo
Sou migalhas na mesa
Sou desprezo
Eu não quero estar longe
Nem estou perto
Eu só quero dormir de olho aberto
Minha casa é um cofre sem segredo
O meu quarto é sem portas, tenho medo
Quando falo desdigo, calo e minto

Sou de ferro, aço e de granito
Grito aflito na rua do sossego

sexta-feira, dezembro 31, 2010

A última crônica do ano

O ano de 2001 foi um ano especialmente bom para a uva Cabernet plantada no Chile. As condições climáticas, aliadas à inserção de novas técnicas introduzidas por experts europeus recém empregados em vinícolas chilenas, produziram uvas que atingiram seu grau ótimo para a produção de vinho, resultando em um congraçamento entre enófilos apreciadores da espécie Cabernet, ao redor de todo o mundo.

Nós não somos uvas. Não seremos colhidos. É certo que nos transformaremos em algo, adiante, mas esse algo permanece como coisa impronunciável encoberto pelas limitações da física, da fé e do homem. Por isso, eu não acredito em um ano bom. Eu acredito na sucessão de eventos previsíveis e imprevisíveis que está pautada de maneira fictícia por uma divisão estabelecida pelo homem que se baseou no seu conhecimento imperfeito acerca do movimento da Terra. O ano, do seu começo ao fim, é uma simples e imperfeita ficção.

A cada espaço de tempo pré-determinado nesses doze meses nós choramos, sorrimos, temos explosões de felicidade, sentimentos de solidão infinita, melancolias, achamentos e despedidas. Todo ano é e será assim.

No fundo, para nós, o ano de 2001 não foi muito diferente do ano de 2011. Os marcos mudaram decerto, mas a percepção subjetiva do mundo segue sob a pauta das mesmas emoções que serão renovadas em outros eventos. Em 2011 e me despedirei, eu acharei, sorrirei em explosões de felicidade e me sentirei impotente perante a solidão avassaladora do ser, tal como vem ocorrendo desde o primeiro ano em que me apartei do universo para ser um sujeito único e caminhante sobre a superfície do perceptível.

O engraçado e contraditório disso tudo é que, a despeito dessa racionalidade que antecede o brinde do vindouro, no momento do verso contrário da Tabacaria, vem sempre em mim a esperança da uva: de que o próximo ano seja um bom ano como o de 2001 foi para a uva Cabernet plantada no solo fértil do Chile.

A esperança é sempre maior do que aquilo que eu penso acreditar. E de uma maneira sub-reptícia, a ficção do tempo, criada de modo imperfeito pelo homem, subjuga a realidade corpórea e sem graça da vida desencantada, ao som dos fogos infinitos da fé e ao sabor de um vinho degustado no entreato de uma década que se foi.



ps: Um bom ano aos que desejam o melhor possível de dentro de uma taça ou de uma casca de noz

domingo, dezembro 26, 2010

Feliz Pós-Natal

O natal saiu pela porta e eu fui com ele,
Rodar pelas ruas antigas da cidade
Em tudo havia uma paz extremamente subjetiva
Que só o comércio adormecido pode ofertar
Uma mulher louca falava consigo
A sombra de alguém cambaleava embriagada rumo a nada
Dois policiais faziam uma velha cuspir pedras de crack, na ponte

Não havia anjos, não havia reis
Nenhuma glória a distinguir a pobreza sagrada da profana
A cidade era uma grande manjedoura vazia, sem pastores e vacas
E não havia homem ou deus que desejasse romper um ventre,
E embalar seu sono naquela pouca, magra e recifense paz.

domingo, novembro 07, 2010

Lullaby

Ao Mafuá do Malungo




Nessa rua, nessa rua tinha um bosque,
e tinha um portão de ferro para o passado não sair
tinha a marca dos meus dedos em uma casa
e um bonde imaginário sempre por vir

Dentro do bosque (dentro dele) morou um anjo
Cujas asas a poesia arrancou
Tinha uma dentadura engraçada e proeminente
e não sabia – pobre anjo - falar de amor

(Bosque, rua, anjo e tempo não resistem
Às intempéries que constroem as discussões
são de vento ou de sonho, e não se firmam
duram só o momento das ilusões)

Se essa rua, se essa rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com a pedra que constrói a eternidade
Para o que eu fui nunca mais se acabar

terça-feira, novembro 02, 2010

Notinha Social 02/11

Um vendedor de caranguejos passou em frente à minha casa; bastou isso para aquela melancolia saudosista de Manuel Bandeira tomar conta de mim. Tentei em vão livrar-me do lirismo, da visão idílica de um Recife que já se foi. Qual quê. Prega na gente que nem o piche que não existe mais. Não existe remédio para isso. Pode se empanturrar de água rebelo, elixir paregórico, enfiar aspirina goela abaixo: o saudosismo recifense é um verme que se instala no coração.

quinta-feira, outubro 28, 2010


Uma menina feliz faz cá dentro a felicidade imensa
Flagrada distraída no passado - presente
foram meus olhos que fotografaram, longe, mas perto também
E seis anos jamais se passaram, estão aqui

segunda-feira, outubro 25, 2010

VIRGINDADE





Por que chegaste agora, unicórnio, quando minha mão apedrejou o mundo?
Agora que os meus nós seguraram os barcos, e a vazão do mar não passa minha sala
Por que chegaste agora que meu peito inflamado ora se cala,
e quando meu peito calado é, morto, um mar sem fundo?

Por que chegaste agora, unicórnio, se agora eu uso gravata?
E tudo que há ao redor de mim tem carimbo, duplicata e segunda via
Por que apareces a mim quando tenho sono no final do dia
E o coração rebelde morreu confinado em embalagem de lata?

Por que chegaste agora, unicórnio, quando meus cabelos são mais brancos?
E toda palavra que sai da minha boca tem que ser pensada
Tu chegaste quando o exército do mundo derrubou minha armada
E a areia do moto-contínuo fez brotar todos os meus cancros

Por que chegaste agora, unicórnio, quando meus modos são de fino trato?
E as revoluções da noite não resistem mais ao raiar do dia
Por que olhaste para mim quando em mim plantei essas flores de ironia?
E te sufoquei lentamente até de unicórnio verteres em rato

domingo, outubro 17, 2010

Bastardo

Se eu não escrever hoje esse poema, alguém o escreverá por mim
Na tradição do haiku japonês ou nos longos descritivos latino-americanos
Ou em São Paulo, um poema rápido, certeiro, como a cidade que já se foi

O poema não se atém a mim
Não se dobra
Não se cala
Não diferencia o caráter de quem o empunhará

Talvez o filho de um poeta morra hoje (e a solidão avassaladora do ser
Lance uma rede para o infinito
E roube de mim esse poema, que tanto custa a nascer)

domingo, outubro 10, 2010

Maria Eduarda, meu tempo

O paradigma do meu tempo estava nos fios brancos da minha cabeça, no meu corpo que não corresponde mais às expectativas da plenitude humana. Agora, eu vejo o tempo agir no sorriso de Maria Eduarda. Nas perguntas que ela me faz. O tempo desce nos cachos de saem da cabeça de Maria Eduarda e não se deixa domar apesar dos meus clamores para que ela caiba de maneira perpétua em meus braços. Maria não se importa com a passagem das horas, ela é imune às digitais que o velho imprime dentro da nossa cabeça. Mas eu sou atingido toda vez que uma vela a mais compõe sua idade sobre o bolo de aniversário. Já não preciso me olhar no espelho, contar os dias, dispor dos segundos restantes. Minha medida de tempo está em Maria; é nela que eu envelheço, é por ela que fico cada dia mais novo, renascendo frente ao tempo que, tão perfeitamente, sorri para mim.

terça-feira, setembro 21, 2010

VESTIR O MORTO

Vestir o morto
Cobrir com cotidiano o corpo lasso do morto
Conceder-lhe dignidade com o terno
Humanidade com a gravata
Adoçá-lo com os sapatos caros de pelica

Vestir o morto
Atualizar o tempo ido do morto
Dar razões às lágrimas ao se domar a morte
Com a roupa mais clara que possuía o morto
Conter a decomposição mundana do corpo

Vestir o morto
Emprestar um último suspiro ao morto
Recobrir a pele fina com outra pele mais bela
Congelar a vida extinta enquanto a terra espera
Para despir com morte a vida fictícia, inventada e terna

quinta-feira, agosto 19, 2010

No Zé Corninho

Amanhã eu não irei ao Zé Corninho.

Triste do homem que, às sextas-feiras, não possui um lugar sagrado para preparar sua ressurreição. Nós morremos um pouco da segunda até as onze horas da sexta. Um pouco por vez. Desfazemo-nos, cotidianamente, nas obrigações irremediáveis, na busca pelo conforto, na imagem calculada de homem bom. Isso é a nossa morte, ou a antecipação do sono definitivo. Mas às sextas-feiras, somos chamados a recuperar a nossa vida, nossa matéria perdida no mundo, e nos possibilitam o livramento das gravatas, dos prazos, do homem bom.
Meu marco de ressurreição das sextas-feiras tem sido o Zé Corninho. Esse recinto familiar que não possui placa, propaganda ou reclame na televisão. Um dos muitos meandros da capital que faz a sua fama sob o fogo das panelas quentes de dobradinha e de um bom bacalhau.
O nome do local é “Recanto dos Amigos”. A lenda de um patriarca já ido proveu com a alcunha de “Zé Corninho”. Eu me sinto mais à vontade o nomeando assim. Mas tão folclórico quanto a alcunha do lugar é a cara amarrada do filho Gustavo, a beleza da filha Carol, o gosto inesquecível que vem de uma cozinha pilotada pelo amor familiar, Deus nos permita a pieguice.
Não gosta de dobradinha, nem de bacalhau? Encomende o pernil de carneiro recheado. Também não gosta? Vá prá puta que pariu lá pelos lados do Tacaruna. Acho que seria isso, mais ou menos, o que Gustavo diria a você.
É comida de panela, de gente, de sexta. E após a primeira cerveja, você talvez ouça a voz dos anjos conclamando à ressurreição da carne, dos miúdos, da farinha e da pimenta. Bendito seja o homem que não tem medo de renascer.

...

Amanhã eu não irei ao Zé Corninho.

Da Avenida Agamenon Magalhães, entre na Rua Odorico Mendes (a do Clube das Pás). Depois de cruzar a Estrada de Belém, dobre na segunda rua à direita. Fica no fim da rua, do lado esquerdo.

domingo, agosto 15, 2010

Auto-retrato

André Souto Maior Mussalem, aos trinta e cinco anos de idade

É eficiente bancário de um banco privado onde as moedas são desnecessárias
Foi nomeado servidor público quando o mundo se acabou, e não havia quem requisitasse uma necessidade qualquer
Possui mãos grandes que colocou a serviço do rei da Inglaterra, recentemente decapitado por nunca ter sido um homem fiel

Escritor de célebres romances, foi tomado de um sentimentalismo inexplicado no século XIX,
ficando cego no século XX, quando a primeira bomba estourou
cresceu-lhe um tumor na alma que redundou em seu primeiro casamento
mas dá-se muito bem com as chagas que lhe mandou o Nosso Senhor

Dele diz-se invisível ao meio-dia quando o sol é mais claro
Dorme tranqüilo, às nove, no leito de um grande amor

sábado, agosto 07, 2010


O Homem Velho
(Caetano Veloso)


O homem velho deixa a vida e morte para trás
Cabeça a prumo segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais
A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock'n'roll
As coisas migram e ele serve de farol
A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve trás o olor fulgaz
Do sexo das meninas
Luz fria, seus cabelos têm tristeza de neon
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom
Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval
Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal

sexta-feira, julho 30, 2010

Três excertos do Livro "Eu odeio André Mussalem" que vai sair pela editora Uganir, provavelmente em Setembro. Depoimentos escolhidos por mim e pelo autor, meu amigo Zeferino.


“O que mais me irrita nele é esse adjetivo com que ele sai nomeando todo mundo: ‘querido’; ‘querida’. Ele faz isso por causa de sua incapacidade de decorar os nomes das pessoas e com isso cria uma falsa ternura, como se ele pudesse gostar de todo mundo da mesma maneira. Sempre exigi que ele me chamasse pelo nome. Um dia ele me chamou de ‘querida’ e eu estourei; tive certeza, ali, que eu era apenas mais uma”

Ana Paula – ex-namorada 1997/1998

“Tudo nele é grandioso demais, um projeto grande demais. Mas ele planeja castelos e executa biscoitos; e se você faz parte daquilo acaba se frustrando também, lógico. Quem não se frustraria? É esse negócio mesmo de comprar gato por lebre, como falam por aí. Ele te vende um revolucionário, um artista, um inconformado durante o dia. Quando chega a noite, coloca o pijama e vai dormir”

Mariana – noiva 2003/2004

“Tem uma música de Caetano que define bem ele: ‘mas na hora da cama/nada pintou direito/é minha cara falar/ não sou proveito/sou pura fama’. Acho que é por aí mesmo. Não quero falar mais, porque seria uma puta de uma indiscrição, mesmo sabendo que ele autorizou falar sobre esse assunto. Mas resumiria bem dizendo que ele faz propaganda de um leão e na cama é um gatinho (risos)”

Irma – “negócio mal resolvido” 2001/2002

quinta-feira, julho 29, 2010

Água Doce

Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar

Esse um veio com o Mundo, com navios e canções
no seu peito tatuado, a marca de mil corações
me pegou pelos cabelos, como quem fosse naufragar
mas depois da tempestade, me deixou a ver o mar

(eu não quero amor)

Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar

Esse outro, sorrateiro, com palavras de algodão
sussurradas no ouvido, cravadas no coração
me deu tantos outros nomes, que eu me perdi de mim
fiquei só entre as palavras, por isso hoje canto assim,

(eu não quero amor)

Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar

E quem quiser saber de mim, pode até me encontrar
eu sou aquela que no Mundo, faz do Mundo o seu lugar
me acompanham nessa vida, só meu Deus e a lua cheia
se eu sou a escuridão de mim, eu também sou minha candeia

(eu não quero amor)

Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar

sábado, junho 26, 2010

Seculorum

Quando me falam do século passado,
Frequentemente caio nessa dúvida: de que século falam?

Do século vinte? Com seus hiatos armados entre o terror e o sublime
O século vinte dos ratos que surgiam dos escombros
E me contavam histórias de extermínio e de grandes amores

Do século dezenove? Com sua assepsia imperial a tapar o túmulo de Deus
O século dezenove quando os grandes homens eram possíveis
E pairava no ar uma esperança de curar todas as doenças

O século dezenove sem qualquer contradição
O século vinte que, ao nascer, proclamou: eu morri
Que século passou por mim e me antecedeu?
Que porta se fechou por detrás de mim e não percebi?

Eu aqui no século vinte e um, sinto-me como um sinal neutro em relação a tudo
Nada me pertence, nem agora, nem no futuro
Sou como algo nunca criado ou nunca disposto a se reinventar
E para além de todas as contingências, permaneço alheio ao mundo
Enquanto meus filhos constroem um século para além de mim

Difícil ofício esse, de pertencer a um século.

quinta-feira, junho 17, 2010


segunda-feira, junho 14, 2010

A Morte do Jogo

“O atrativo do jogo, a fascinação que exerce, reside justamente no fato de que o jogo se assenhora do jogador.”

Gadamer, Verdade e Método.

Pour Lucas,

O modo de ser do jogo é sua fluidez. O jogo deve ser jogado. Segurar o jogo, não deixá-lo, é o anti-jogo, o não acontecer. A bola está presa no único esquema tático das seleções e das nações, pasteurizadas na preocupação excessiva com a defesa e exterminando a diversidade dos povos que nos encantava a cada quatro anos de copa. Os times africanos, os sul americanos, os asiáticos: todos são europeus, excessivamente europeus.
Meninos pretos de cabelos loiros e olhos azuis: o capital domesticou a criatividade e o que importa não é mais o jogo em si, mas a forma como se joga o jogo. O esquema tático se sobressai e domina o impulso de furar as barreiras inimigas; o impulso que é um monstro pré-cristão que não se apieda de nada.
O resultado é o descrédito no próprio jogo que se vê órfão de gols e de um deus-herói, um ponta de lança que atravesse o campo e entre como projétil trave adentro, erguendo as mãos para o céu em uma língua desconhecida.
Só um deus pode nos salvar.
Não há meio campo criativo, não existe o atacante imperial, a força física abafa a molecagem, o drible diabólico do menino crescido em várzea ou em rincão distante. É o genocídio dos reis, dos anjos de pernas tortas, das laranjas mecânicas, das tribos de verdadeiros guerreiros. É o elogio das academias, dos computadores, dos tecidos e das malhas criadas após anos de pesquisa. A assepsia venceu a lama. Mas da assepsia não se ergue a vida; da lama sim.
Aos poucos, vamos contentando-nos com essa postura tímida, de recuo, de parede. Ficamos esperando a vinda messiânica desse jogo que fluirá para além dos esquemas táticos excessivamente defensivos que se manifesta como um simulacro do que, um dia, nós chamamos de futebol.

sábado, junho 12, 2010

Fogo do Sol, Carne da Lua (ontem e hoje)




Young hearts run free (Valentine´s day)

No Second Troy (W. B. Yeats)


WHY should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great.
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done, being what she is?
Was there another Troy for her to burn?

terça-feira, maio 18, 2010

ANDOR

O amor nos provém de armadilhas
redondilhas, meandros, discussões
é o toque além do seu sabor
mas se me pedes prá ficar, não vou

O amor é deveras traiçoeiro
põe espada onde primeiro era paixão
põe teu sim no meu não, deserto em flor
e se me pedes prá ficar, não vou

O amor por ser mudo, às vezes cala
por ser cego, na mira, às vezes erra
por ser surdo não ouve o coração

Mas o amor por ser tudo, em nós nos fala
por ser luz, abre seus olhos em quimera
por ser nosso, preenche a amplidão

Meu amor me aceite irrestrito
pois meu grito é a véspera do beijo
eu prometo descer do meu andor
e se me pedes prá ficar, não vou
se me pedes prá ficar, não vou
se me peder prá ficar, não vou

domingo, maio 09, 2010

O Som do Meu Medo

Quando passei quarenta dias no deserto
Sentado à margem dos meus medos e desejos
O diabo não me disse nada
Apenas me olhou e seus olhos eram castanhos
Não me ofereceu banquete, talheres de prata em rara cascata
Animais plenos de sabor e doçura enfileirados na oferta à minha língua
Calado ficou a olhar para mim

Não abriu seus dedos e convocou todas as potestades
Não me prometeu revelar a matéria inexata e imperfeita
Que é cimento e areia da coisa fêmea
Não me assegurou qualquer milagre
Sequer tirou uma moeda por detrás da minha orelha

Entre nós não havia o Mundo, apenas o silêncio

O silêncio que é a maior de todas as tentações

quarta-feira, maio 05, 2010

No dia em que fui mais feliz


D.R.

Preciso esquecer você. Como continuar vivendo se nossa relação é o mais sublime dos gozos e a mais dolorosa das torturas? Que homem foi forjado para suportar essa oscilação de sentimentos, ao sabor do inevitável, da sorte, do fortuito? Eu quero fazer o meu leito na racionalidade, dormir nos ombros da segurança, sem a necessidade de prever o futuro, porque o presente está em minhas mãos. Com você, o futuro a deus pertence. Deus é sempre uma incógnita. O presente não diz nada. Eu brigo com meus irmãos, por sua causa. Eu grito na madrugada palavras que nunca pensei em proferir no secreto dos meus medos. Em vão, eu tateio um conforto, uma paz qualquer que assole meu espírito e me mantenha na calmaria da mediocridade. Em vão. Você vem com todo terror e benção de uma tempestade e me deixa lançado ao hiato armado entre o fio da esperança e a lágrima incontida. Você me deixa nu nas hordas do inimigo e armado no seio do meu exército. Você me faz o homem pleno de felicidade mundana e o mais miserável dos mendigos na noite silenciosa dos fogos alheios. Eu preciso esquecer você. Futebol, eu preciso me desapaixonar por você.

sexta-feira, abril 23, 2010


Ou Isto ou Aquilo

Ou Isto ou Aquilo

Cecília Meireles

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Ou Isto ou Aquilo foi o meu primeiro livro de poesia. Ganhei aos quatro anos de idade, quando recitei, na escola, "A Chácara do Chico Bolacha", poema constante do livro. Não sei bem o porquê, mas esse livro me veio na cabeça, hoje.

sábado, março 06, 2010

O QUE SE SABE ACERCA DO AMOR

Araras são aves monogâmicas, mas muito barulhentas
Alguns animais são hermafroditas, isso os mantêm afastados de problemas
O corpo aumenta até um grau durante o ato sexual, independente da frigidez do outro
Se você encostar um estetoscópio no meu peito, ouvirá o corvo de Edgar Alan Poe:
“nunca mais, nunca mais, nunca mais...”

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Despedida


Beijo no dragão

O carnaval no Túmulo do Samba

O carnaval de São Paulo tem peitão. Milhões de litros de silicone espalhados em cada uma das suas musas. O carnaval de São Paulo tem abdômen lipoaspirado, bíceps definido por halteres, botox nas rugas. Tudo nele é falso, é um simulacro do carnaval carioca, construído para dar satisfação aos paulistas e evitar o esvaziamento da cidade no reinado de Momo. Mas o carnaval de São Paulo está na mída que parece acreditar em um mínimo de espontaneidade popular por trás da força da grana que ergue e destrói coisas belas. Não importa para a televisão os folguedos populares dos rincões esquecidos pelas imagens das câmeras. Não importa o maior bloco carnavalesco do mundo. Não importa o samba de roda do recôncavo baiano. Não importa o boi do Maranhão. Os olhos da nação se voltam para a atriz nua que está na novela, para a celebridade imediata que, refletindo o carnaval paulista, construiu-se para aquele segundo de glória, rezando para que a quarta-feira logo chegasse, porque a vocação de máquina traduz o desejo de nunca mais parar.

sábado, fevereiro 13, 2010

Orecic Futebol Clube (2007)

Vamos entrar na Concórdia, quero ver quem vai passar
pois quando o frevo começa, não tem hora prá acabar
me dê a mão que o meu amor não sabe onde estou
e esse cheiro na camisa é o meu motor

No meio da Imperatriz, eu deixei meu coração
no carrossel da avenidas, minha vida vai na contramão
enquanto os homens caem na rua, eu vou me levantar
que a vida não espera o sol raiar

É fevereiro vem, a carne queima, bem
no Orecic tem uma mesa prá sentar

Equece o ano e vem, vem no meu passo, bem
A vida à toa está na mesa desse bar

Vamos entrar na Concórdia, quero ver quem vai passar
pois quando o frevo começa, não tem hora prá acabar
me dê a mão que o meu amor não sabe onde estou
e esse cheiro na camisa é o meu motor

No meio da Imperatriz, eu deixei meu coração
no carrossel da avenidas, minha vida vai na contramão
enquanto os homens caem na rua, eu vou me levantar
que a vida não espera o sol raiar

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

SEGREGAÇÃO NO CARNAVAL E A ALAURSA DE PELÓPIDAS SOARES

Do carnaval de Pernambuco diz-se o mais democrático. Não há cordões de isolamentos como na Bahia, ou arquibancadas como na Marquês de Sapucaí, separando o povo da folia. A tradição pernambucana, noticiam os jornais, está no amálgama de gentes de classes diversas com músicos e bandidos, tudo ao mesmo tempo agora. Quando se erige uma casa patrocínio, um camarote luxuoso, um espaço para poucos, denominado VIP, logo o grito reverso se apresenta clamando pelo carnaval sem preconceito de raça, de credo e, principalmente, de classe social.

Tudo muito falso. Esse carnaval pernambucano tradicionalmente democrático só existe na cabeça de intelectuais e isso a partir da segunda metade do século XX. Que os intelectuais do século XIX, cento matriz da brincadeira moderna, torciam o nariz para o entrudo. O carnaval de rua era o espaço reservado para os forros, para os artesãos que fundavam suas troças homenageando suas funções, como o Vassouras, o Pás, o Carvoeiros, para ficar apenas em alguns.

A elite pernambucana, da aristocracia inventada, ficava nos clubes e nos teatros da capital, imitando o carnaval europeu; em uma Europa, também, inventada.

Os teatros e clubes mimetizaram-se em casas e corsos; os carros do início do século XX faziam as vezes de cordões de isolamento, e o asfalto (ou as pedras portuguesas) nunca chegava a tocar os pés de uma classe média que estava se consolidando. Só com a decadência da classe média e com a casa se aproximando cada vez mais da rua é que vemos surgir um espaço em que convive o saudosismo aristocrático do frevo de bloco com o suor enérgico do frevo de rua. O romantismo intelectual de resistência da segunda metade do século XX fortaleceu a impressão de que o carnaval, em seu nascedouro, é uma festa essencialmente popular.

Para mim, a tradução literária disso que escrevi até aqui: que a segregação (e a negação dela) também faz parte do carnaval está em um belíssimo conto de um dos grandes autores pernambucano (para mim, o maior contista do Brasil), Pelópidas Soares. O conto, denominado Alaursa trata das desventuras de um cortador de cana, feio como o diabo, que supera todas as suas tristezas morais no carnaval, quando se transfigura em uma alaursa e transcende sua triste figura. Paralelamente a esse anti-herói, o autor desenha um quadro aristocrático de uma família natural de Catende, cujo patriarca é um riquíssimo médico, hoje residente no Recife, e que comemora o carnaval em uma fazenda bucólica com uísque escocês e com uma radiola a tocar o frevo mecânico.

Até que um jovem não identificado, mas que deve ser desses jovens românticos da década de sessenta, inflama na aristocracia brincante a idéia de ir até o clube popular da cidade para se misturar com o volksgeist de fevereiro. O patriarca da família acha a idéia horrível, mas é vencido pelo espírito intelectual da juventude. No clube popular, tudo é festa ao redor da alaursa.

A aristocracia bebe e brinca no meio da turba. Entre os aristocratas, está a esposa do médico patriarca, uma jovem senhora educada na Europa, belíssima e moderna; animada com a possibilidade de conhecer, ali, o “verdadeiro” carnaval. Embriagada ela dança com a alaursa. Até que só ficam os dois no meio do salão. O cortador de cana, rejeitado por todas as mulheres, percebe ali uma oportunidade ímpar. Leva-a para um canto longe dos olhos ébrios da multidão e (usarei o termo correto) dá uma senhora trepada com a curiosa cidadã do mundo. Ao cair em si, após o gozo, a esposa do rico médico se depara com a máscara da alaursa e com todo o significado de um carnaval sem amarras, elogio do grotesco. Ela grita e corre desatinada. O cortador de cana dorme como uma criança ao som do frevo a embalar seus sonhos sem amanhã.

Post scriptum 1 – Esse texto não é uma apologia à segregação, mas uma constatação de fato. Pessoalmente, e a partir de uma análise psicossocial do carnaval (ou coisa que o valha), acho que o carnaval só tem sentido na libertação de todas as amarras, incluindo as sociais. Por isso, usamos máscaras. Carnaval com ar condicionado e com garçom será sempre o anti-carnaval.

Post scriptum 2 – Moral da estória: Só brinca carnaval de verdade quem tem coragem de encarar o pau da alaursa

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Por que esse poema sempre encaixa

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

M. Bandeira

terça-feira, janeiro 05, 2010


SAUDAÇÃO A ALVARO DE CAMPOS

Portugal-Desvelado, dezesseis de dezembro de dois mil e nove
Evoé!

Da tua terra eternamente estrangeira, imune à passagem das horas e dos séculos
Saúdo-te, Álvaro, meu torturador feroz, irmanado nas minhas chagas universais
Ó homicida das sensações católicas, engenheiro da obra infinitamente incompleta
Puta de todas as indisposições do sentir
(eu que as sinto nesse grito mudo que dou)
Grande prostituta a dar-se para todos os recôncavos da alma negra
Primeiro de todos os meus mestres que ingressaram a fórceps pelos meus poros

Homem chamado Álvaro ou André, a sair perpetuamente de casa
Repetição homérica de todos os poetas que para o serem
Sangraram as mãos nas cordas firmes das naus sem nomes e se lançaram aos mitos
Ulisses elétrico do século vinte
Predecessor de todas as guerras e ratos que fizeram de cada racionalidade
um impulso elétrico que, em mim, nunca se dissipou.

Eu, com minha face branda e minhas mãos pensas,
Com meu terno roto de tanto porto e navios e pontes e gentes
Venho beijar-te as mãos, como faria com a virgem sempre imaculada
Por reconhecer em ti todas as religiões, mesmo as que foram negadas
E saudar-te como quem saúda um monólito imenso
Que é Deus e carne ao mesmo tempo

Olha, que já vem se prenunciando o grande tempo
E uma orgia de coisas já grita a sua hora: é carnaval, Álvaro, homem de coisas imensas
Vem comigo perder-se na insupeição do homem alheio
Dá-me cá tua mão e teu suor e tua metafísica
Grita, como gritaste do Grande Cais e não sabia onde ias
Que só há verdade em não saber aonde vamos
Deixa-te levar comigo na correnteza dos devaneios
Para que tenhamos mil braços, dezenove mil pernas e nenhum pensamento;
Nenhum, por mais original que seja
Que construiremos nossa identidade na ausência sequer do pensar em nada

Evoé, irmão engenheiro, pelas coisas que sentes
Sou teu irmão porque as sinto também
Roubei-te a coisa real por dentro e a imaginada por fora
(Quantas coisas eu roubo e proclamo-as minhas.
eu mesmo roubado de mim, sou proclamado meu)
Roubei-te mas não faz mal, porque sou o teu irmão
Roubei-te mas não faz mal, porque não sou eu.

Era preciso que eu sofresse dessa febre e cólera
Era preciso que eu estive ciente do meu passo para morte
Para que pudesse cantar este canto como quem rasga o corpo de um inimigo
Um canto trespassado na alma pelos espíritos dos facínoras e dos santos
E já não ser eu mas uma turba logicamente indefinida
A invadir as igrejas e os parlamentos em nome de nada

Ó tu que és nada, homem-Álvaro imenso
És a contracorrente dessa matéria, desse piano de cauda, dessa moça a dar com paus
Estás no meu impulso de lançar-me à transitoriedade
Estás no ponto cego dos retrovisores dos carros a seguir na estrada
Estás na dúvida entre ser Deus e ir à Tabacaria
Estás em mim como uma sífilis que anuncia à cidade os meus pecados

E eu, nu, como as prostitutas rechaçadas dos fins-de-semana
Solitário e circunspeto como cada uma delas
Faço-te festa no universo, irmão Álvaro
Vou buscar-te uma mentira para além da nossa galáxia
A mentira de saber-me aqui a cantar-te isso
De estar sentado em dúvida desse próximo verso
Aguardando minha esposa e ouvindo o banho da minha filha
Eu não sou nada disso
Nunca estive aqui
Esses versos não existem
Como nunca existiu um Álvaro de Campos
E justamente por isso, Evoé!

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Tradicional como Roberto Carlos

Quando a noite era prévia ao romper do ano
Sempre escolhia uma roupa nova para a novidade do ano por vir
Para que o passado ficasse alheio a mim, e eu, novo, para o mistério do futuro
Que besteira
Hoje eu visto a mesma roupa do ano passado
A mesma roupa que eu vestirei no ano que vem
Porque eu quero o passado comigo
E os anos que se foram estarão ao meu lado no ano que é novo
Não há novidade maior que estar vivo a cada novo segundo
E em cada segundo do passado eu experimento o ano vindouro



Feliz ano novo aos neus três leitores e à infinidade dos que não me lêem
Sem promessas, mas com esperanças
armadas sempre entre o temor e a maravilha

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Feliz Natal







Pela simbologia e tradição



Pela boca dos falsos anjos e profetas



Mas pela verdade das crianças



Que seja essa a nossa oração

Momento Gastronomia - Lisboa


Depois de uns dias pela Península Ibérica, voltei à minha terra e deparei-me com um amontoado de jornais. Todos eles ficaram quietinhos, esperando meu retorno para serem lidos. Dentre tantos assuntos que me apareciam como velhas novidades, supreendeu-me a quantidade de novos restaurantes que surgiram nesses treze dias de minha ausência. Em tão pouco tempo, tantos restaurantes. A maioria deles era objeto de crítica gastronômica que tecia loas (aqui, a crítica gastronômica sempre tece loas) à profusão de "reduções", "espumas" e outras invencionices modernas que se sustentam, na maior parte das vezes, na cozinha espanhola.

Como já deixei bastante claro nesses meus escritos extemporâneos, sou adepto da cozinha verdadeira. Daquela feita com base na tradição. Na cocção lenta dos sulcos orgânicos a ponto de nos refletir no prato feito artesanalmente para nós. Olho com desconfiança, mas não com preconceito, para essa moderna cozinha molecular ou atômica ou coisa que o valha.

Ao refletir sobre o significado da "tradição" fiz um poema, há alguns anos atrás. Dediquei a um restaurante do Recife, o Leite, de matriz portuguesa, que conserva em seu cardápio e em seu ambiente o elogio ao status quo, o que lhe permite, paradoxalmente, ser revolucionário em meio à constante auto-paráfrase do mundo.

Eu havia feito, em uma das versões do poema, uma crítica à contra-tradição, representada, arquetipicamente, pela "desconstrução" gastronômica, moda já citada, de raiz catalã. O trecho do poema foi vetado na versão definitiva do mesmo, mas transcrevo aqui por entender que ele traduz o sentimento que introduz esse meu escrito:


Coisa que sabe à coisa, como eu te desejo !
Carne que tem gosto de carne, vinho que tem gosto de vinho
Mas é apenas artifício isso que vejo

(e o vinho tem gosto de carne e a carne tem gosto de queijo)
Serei eu artifício do meu original? O Mundo se modificou e não sei mais o que me é natural


Introduzo assim meu amor pela comida portuguesa. Pela comida feita com aquilo que se é: alho, azeite, pão. A trama é tecida artesanalmente como se a mesma mão centenária estivesse a guiar os cozinheiros de hoje; e nesse encontro de mãos presentes e pretéritas a tradição se transmuta atemporal e se torna muito mais que a permanência de nós.


Para homenagear a comida portuguesa, apresento "O Pinóquio".


Há treze anos atrás, quando fui a Portugal pela primeira vez, meu pai levou-me ao Pinóquio. Ficou na minha memória o gosto das azeitonas temperadas com alho, o pão de milho com manteiga, as vagens portuguesas refogadas no azeite extra-virgem. Era um mundo novo, mas, de igual modo, familiar, pois ali, no meu prato, estava também a permanência da nossa colonização.

O Pinóquio fica no centro de Lisboa, na Praça dos Restauradores, Baixa. Destaca-se em meio aos prédios históricos pelo seu verde dominante e pelos seus aquários de lagostas, sapateiras e outros frutos do mar, que aguardam o freguês (não consumidor - invenção da modernidade) guloso. Os garçons são verdadeiros malabaristas e contorcionistas, lançando seus corpos nos limites estreitos das mesas, e atendendo com precisão aos reclamos dos gourmets. O preço é acima da média dos restaurantes informais da cidade; mas vale à pena se tua alma não é sovina.

Lá, como sempre o Pica-pau: nacos de filé banhados em azeite e alho, acompanhados de batatas que, ritualisticamente, banhamos nesse bálsamo gordo e benfazejo da tradição portuguesa. Os frutos d´água são igualmente famosos: deixei-os à minha esposa que sonha mais com o mar do que com a terra. Aliás, é nos sonhos que o Pinóquio permanece como memorial da tradição: nessa metade sonhada da gente que não quer mudar.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

O nome do texto abaixo é a "Sombra de Príamo". Escrevi pensando no drama pessoal de um homem público, o político Sílvio Costa, que, diante das acusações de improbidade que recaíram sobre seu filho, foi a uma rádio e disparou verborragicamente contra tudo e contra todos, em uma clara atitude antipolítica, mas perfeitamente compreensível sob o signo da paternidade.

O que fará um pai pelo filho? Não pude responder esta questão ao longo de trinta e dois anos da minha vida. Apesar de ter em minha imaginação até então a amplitude do se doar para a descendência, logicamente não sentia na carne a possibilidade da anulação completa em nome de quem mais se ama. A maior prova de amor imposta pela divindade a um homem, nos relatos religiosos da tradição judaico-cristã, foi o sacrifício daquele que procede: o filho. E o mesmo filho seria sacrificado, posteriormente, pela divindade, fechando o ciclo do amor infinito.
Para além da metafísica, só hoje acho que posso compreender o momento mais doloroso da Ilíada, quando Príamo vai a Aquiles reclamar o cadáver de Heitor que dorme insepulto, por capricho do vencedor da batalha. É no momento em que Príamo se ajoelha perante Aquiles, e beija sua mão, que se dá toda a anulação do pai por amor ao filho. No texto traduzido, o canto de Homero ficou assim: “Por teu bom pai de um velho te apiedes/ Mais infeliz do que ele, estou fazendo/ o que nunca mortal fez sobre a terra/Esta mão beijo que matou meus filhos”.
Com um beijo o rei deixa de existir para reclamar não o seu corpo morto, mas o de seu filho, porque ao passar pela morte de sua descendência não existirá coroa ou trono capaz de deixar o rei satisfeito. A Ilíada trata da cólera de Aquiles. Mas é a cólera disfarçada de submissão de Príamo que vence o orgulho do guerreiro. Cólera que o leva, desarmado, a adentrar na tenda do inimigo para mostrar a sua dor. E quem poderia julgar a atitude de Príamo? Quem tem a paternidade no peito sabe da cólera dormente que nos levaria a nossa própria anulação por amor ao nosso filho.
Por ele invadiríamos as rádios, romperíamos alianças, lançaríamos as lanças sobre quem estivesse na frente; beijaríamos a mão do assassino. Faríamos o sacrifício imenso do corpo físico ou do corpo político para resgatar o filho que dorme, justa ou injustamente, insepulto no coração do pai que tudo agüenta, tudo suporta. A despeito de toda política que envolveu a cólera do deputado Sílvio Costa, ao ver seu filho alvo de acusações envolvendo a Secretaria de Turismo do Estado, havia ali, no momento do seu desespero perante a imensa platéia que lhe ouvia, a sombra trágica de Príamo tentando resgatar o corpo filial enterrado por palavras. Só hoje, ao olhar o sono tranqüilo da minha filha, posso entender o beijo resignado do rei Príamo e a cólera paterna do político Sílvio Costa.

domingo, novembro 29, 2009

para o infinito e além


Para onde a gente vai, pai?
Para 2010, filha
E o que tem lá?
Não faço a menor idéia
Mas você não sabe tudo?
De jeito nenhum; papai seria infeliz se de tudo soubesse
...
O bonito é isso, filha, é não ver o horizonte, mas saber que ele existe
Então me dá a mão, pai
Tem medo não, filha, a gente anda sobre as águas
É milagre, pai?
É amor, filha

sábado, novembro 28, 2009

Fratelli



Só os olhos treinados podem ver os espíritos que caminham entre nós. Entender que mais do que uma manifestação da metafísica, os espíritos são a permanência do nosso passado, destroçado, diminuído, mas ainda assim lá, a sussurrar sua teimosia em ficar no tempo que não mais lhes pertence. São unicórnios silenciosos a atestar que fomos feitos para a única certeza que trazemos na carne: que nada fica para sempre.

Um dia, as ruínas da fábrica da Fratelli Vita não existirão mais. Mas enquanto elas estão aqui, eu me sinto mais próximo dos que me antecederam, fico irmanado aos meus fantasmas, em vida; e o gosto do guaraná doce na boca transforma toda saudade em sentido.

quinta-feira, novembro 19, 2009

No Alarms and no surprises

Esse inverno em pleno dezembro,
Impede que o sol ao sol se repita
Desobedece aos simples conceitos da física
Como um anti-deus não semita

Sopra o frio nos meus ossos da face
E o que era sorriso reconstrói-se em angústia
Enquanto o mar (azul) se descobre em vidas
A minha vida se encobre em minúcias

E quedo antítese do caju e do garbo
Nevando nos dias de sol de dezembro
Pois em vão tento conter esse inverno
Que me esfria o futuro até onde me lembro

terça-feira, outubro 06, 2009


MEU BRASIL PROFUNDO

No corpo de minha filha há um trânsito infinito de gentes
Dos sertões mais longínquos do seu avô, passagem de homens e gado
Aquela foto de casal pintada à mão, sussurrando o inconfessável para além do sangue
Essa bisavó negra que deitou com tantos homens, cujos filhos legitimam meu estado de coisas

No corpo de minha filha dorme o amálgama das nações
A travessia do mar pelos árabes, o gosto pelo cobre, o nome da pataca
Meu sangue quente e insuportável que se torna palavra na boca e morre cólera
Um gosto de flor de laranjeira e de doce amarelo a dar suporte às pálpebras

No corpo de minha filha gritam os entreatos do amanhã
nossa criança portuguesa a ter esperanças de novamente ser grande
Um colar de contas, uma ousadia de cruzar a porta aberta
E o mar infinito a se tornar braços, mãos, olhos e pernas

Na cama da minha filha, repousa insone o mapa dessa anti-guerra

sexta-feira, setembro 04, 2009

NO BAR DA MIRA

Os santos africanos têm boca. Comem tudo o que a boca come, como Exu. Os santos católicos são pálidos, parecem que nunca viram um prato de pirão na vida. Parece que nunca foram na Mira. O Bar da Mira é uma dessas jóias que já fazem parte do itinerário turístico da cidade, com seus mitos e lendas e uma verdade inquestionável: a qualidade de sua cozinha. Mira é devota de Cosme e Damião, santos católicos. Mas eu acho que são os Iberês que dão as caras por lá, na hora do almoço. A comida de Mira é um ritual de fé e esperança que vai além do pão e do vinho. Coisa para poucos.
Como toda liturgia, começamos do caldinho de feijão, nominado por Edmilson, o baiano, de café. Edmilson é o celebrante desse ato religioso: filho de Mira, sua presença é indispensável para compreensão da beleza que se esconde por detrás de cada prato. Primeiramente, devemos agradecer pelo privilégio de estarmos diante da autêntica comida pernambucana. Sem invencionices de espumas, reduções, salteados. Amém, Senhor. O cabrito precoce. Aleluia. O sarapatel. Hosana. A galinha de cabidela. Saravá. Feijão, pirão, pimenta. I tego arcana dei.
E no fim do ritual, comunguemos todos na mesa em torno do doce de banana, de caju. Misturado e gelado, com o gosto de cravo a afastar qualquer pecha de pecado da gula a pairar sobre nossas cabeças abençoadas pela cerveja gelada. Oremos. A vida vale o peso exato desses momentos de paz.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Oxóssi

Eu, bancário, advogado, professor, burocrata
De unhas cortadas, caninos serrados
Cheirando a sabonete, alfazema, boa-fé
Limitado em meus braços por conta das gravatas
Desmatado nas pernas e nas vontades
Pelas motosserras das normas e do beijo conjugal
Hei de morrer sério, católico bucal
Para dar espaço a outro, que carimbará para além de mim

E quem me dera antes da morte
Libertar do meu peito aquele que eu era
Antes de existir civilizações e belas palavras
O meu deus das matas, meu senhor Oxóssi
Abrir a jaula dos lobos e dos vampiros
Morder a carne alheia e beijar a boca furtiva
Desdenhar do rato, do impressionismo e do perdão

Corromper com árvores a sífilis do amor eterno
Destronar dos filmes o final feliz
Andar porque andava e nem me dar por isso
Desculpar a tortura, a angústia e a opressão

Quem me dera morrer apenas como casca
E viver na vida a vida a que sempre disse não

quarta-feira, agosto 05, 2009

Lembranças de mundos encantados

Passei ontem na frente do prédio central dos correios. Veio-me uma lembrança alegre de quando era de poucos anos e lendo uma revista qualquer vi um anúncio de uma coleção de livros que se intitulava "Os Quatro Mundos Encantados de Walt Disney". Corri para minha mãe e disse aquilo que eu ouço repetidamente da boca da minha filha: "eu quero !" Minha mãe não relutou muito, visto que se tratava de uma coleção de livros e que isso me faria bem, afinal de contas, crianças não costumam pedir livros de presente.
A coleção não era vendida em livrarias. Apenas por pedido via correios e pagamento por boleto (visto que naquela época não havia internet e quejandos para facilitar a vida dos consumidores) a coleção quedaria acessível às crianças mais curiosas.
Foi minha primeira lição de paciência. O tempo naquela época corria com mais vagar: estradas velhas, estatismo exagerado dos caminhos que levam às comunicações.
Em um dia de sábado, meu pai me disse: vamos aos correios, seu presente chegou. Meu pai, sempre distante do meu mundo inventado, abriu a porta do carro rumo aos quatro mundos encantados de Walt Disney. Lembro do monumento que era o prédio dos correios. Colunas, mármore, gentes. Tudo me impressionou. Meu pai me pegou pela mão. Caminhou por entre os malotes, cartas. Eu sempre impressionado, de mãos dadas com meu pai. O malote veio em papel marrom. Pesado. Era uma coleção, afinal. Em casa, larguei a mão de meu pai e rasguei com voracidade o papel marrom, adentrando naquele chamado mundo encantado. E quanto de encantamento havia: nomes de bichos, estórias centenárias, segredos científicos, fábulas e mais fábulas. Eu me lembro que, por um instante, eu senti que dominava os segredos do universo. Lembro dos desenhos. Lembro das páginas e das letras. Lembro de quão era grande e belo o prédio dos correios.
Mas disso tudo, em meio a fábulas e bichos, a coisa de que mais me lembro é da força firme da mão de meu pai.

terça-feira, julho 21, 2009

Ao Orecic, com carinho

Foi justamente na mesa de um bar que ouvi a notícia. Justamente no dia do amigo: o Orecic fechou. Assim, inevitável. Cícero bandeou-se para os lados do Rio Grande do Norte, notícias desencontradas da busca por um grande amor. Ou talvez um câncer. Nunca se sabe. A única certeza disso tudo é esse buraco no peito que chora o fim de uma era. No Orecic, eu vivi, praticamente, todas as minhas dores. E todas as alegrias também. Pelo menos até aqui. A notícia do primeiro amor, o anúncio da chegança de Maria Eduarda. A casa feia e desbotada foi testemunha de laços feitos, desfeitos e refeitos, como se fosse um monólito erigido para acompanhar a história íntima de um grupo de homens.
A comida era ruim, o lugar era feio, a cerveja tantas vezes vinha quente. Cícero não nos atendia, tantas vezes. O nosso garçom foi demitido. Mas acima de tudo era aquele nosso quintal, nossa caixa de areia, onde ternos, batas e aventais não entravam;
No início do ano eu compus um frevo chamado “Orecic Futebol Clube” que diz assim em um trecho:

É fevereiro, vem
A carne queima, bem
No Orecic tem uma mesa pra sentar

Esquece o ano, e vem
Vem no meu passo, bem
A vida à toa está na mesa desse bar

O frevo não tem mais sentido, agora. Não tem mais tempo presente. Foi para o reino das coisas idas, como o próprio Orecic, para quem, nessa manhã chuvosa de terça-feira (o anti-dia), eu dedico esse poema:

ORECIC

Eu nunca estarei em paz com a finitude das coisas
porque eu sei que junto com as coisas idas
deixamos de ser esse pouco que nos restava
largados ao vento que sopra o inevitável
deixamos o tênis, os amores, o hálito
a diferença, o choro, o tormento
e tudo fica da espessura de um fotograma na parede
tudo se resume a esse fotograma na parede
nossa tentativa absurda que reter água e areia
como se pudéssemos negociar com a finitude das coisas
e dar-lhe em troca um copo de cerveja
por, quem sabe, mais um segundo de tangência.

segunda-feira, julho 13, 2009

The times, they are a-changing

Come gather 'round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin
'Then you better start swimmin
'Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'.

Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won't come again
And don't speak too soon
For the wheel's still in spin
And there's no tellin' who
That it's namin'.
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin'.

Come senators, congressmen
Please heed the call
Don't stand in the doorway
Don't block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There's a battle outside
And it is ragin'.
It'll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin'.

Come mothers and fathers
Throughout the land
And don't criticize
What you can't understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin'.
Please get out of the new one
If you can't lend your hand
For the times they are a-changin'.

The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin'.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin'.