quarta-feira, setembro 28, 2011

Interlúdio

Silenciosamente madruga e eu espero o espírito do meu pai

Materialista desenganado nos átomos, quase um ateu

É cedo e minha filha ainda não acordou e o mundo,

mais espectro do que forma táctil, finge ainda não existir.

Ouço o barulho das coisas ainda sem o ânimo do homem

As coisas que dialogam a inexistência momentânea do homem que dormiu

Mas o espírito do meu pai não vem, não me dá a mão:

Silêncio, madrugada, abandono

O silêncio não vem dos destinos esmagados no peito, das mágoas

Vem da solidão dos deuses inexistentes e que se chamam automóvel e internet

Chama-se memória esse deus destronado do tempo presente e que dói

E em minha carne com sono fica a espreita da revelação.


Como gostaria de ver para além da matéria

O espírito do meu pai chegando no meio da sala

Com um dedo apontando, grave, os meus pecados, minhas misérias

Enquanto os mundos da minha infância se refariam no súbito do nada:

Uma luz que faria cioso o infinito apagaria o pouco sol dessa manhã

E inundaria os átomos, o quase ateísmo, a ausência

Os olhos do meu pai cansados, as mãos graves, já pensas

O peso de outros mundos nos ombros, embora visível aos meus olhos incrédulos


Mas o espírito do meu pai não vem

E cedo o homem já acorda

Os automóveis começam a ser ligados, os computadores acordam seus donos

como os antigos animais de estimação

Os barulhos da metafísica perdem a chance, vencidos pelos diálogos das coisas

O sino da igreja convoca, na missa da televisão

O pastor maquiado que prega, Deus está chegando

E eu solitário, quase crente e humano

Já posso tocar o abstrato da minha imensa solidão

sábado, setembro 03, 2011

MOMENTO GASTRONOMIA: INFÂNCIA



A infância é um lugar fechado dentro da memória das gentes, uma rua que só existe à noite, sem luz, sob uma chuva fina. Mas existe, está lá, é só querer visitar. Foi em uma visita não programada à minha infância que tive a oportunidade de rever o meu alicerce gastronômico. Colocado ali, por duas pessoas que contribuíram para o meu interesse sobre o gosto que nos invade a língua e adentra pelo sonho.

A primeira delas, minha avó paterna. Acho que toda criança guarda a lembrança da comida da avó. Ela é o lumiar afetivo que nos guiará ao longo da nossa vida em forma de sopas, massas, doces, bolos. Não sou diferente dos outros. Minha avó era o ponto de encontro de diversas nações: a portuguesa, na sua origem, a palestina, pelo seu casamento, a italiana e a judaica pelo convívio bastante comum, nas comunidades pobres imigrantes, na primeira metade do século XX. Dentre tantas coisas que eu devo a ela, devo o cosmopolitanismo que permeia a minha fome. Fome curiosa, que não tem medo de texturas, de cheiros, de origens. Desde muito cedo aprendi a conviver com nascedouros étnicos diversos: o kibe, os legumes e folhas de parreira recheadas com arroz e carne (os famosos charutinhos), o marmaone de trigo e caldo de galinha, pratos de origem palestina, que evocavam o nome do meu bisavô. O varenike judaico que ladeava a comida árabe sem a necessidade de qualquer acordo internacional. O famoso ravióli que levava o molho de três carnes diferentes, aprendido diretamente com os italianos que vieram aportar por aqui. Mas havia o toque que só os netos conhecem, metafísico, sobrenatural a dar sabor e vida a esse mundo redescoberto a cada mordida em flor e gozo. Feliz eu sou, menino criado por vó.

A segunda delas, Edmilson, cozinheiro da minha madrinha Diva, nos confins de uma Caruaru distante, na época que São João não era desfile de moda. Edmilson era egresso do Guanabara, restaurante famoso da Caruaru antiga, de propriedade da minha madrinha e do falecido marido que eu não cheguei a conhecer. Veado tímido, calado, submisso à personalidade forte de Diva Julião, delicadíssimo e sensível como poucas mulheres. Mas era um gênio. Sem qualquer escolaridade, sequer sem saber ler ou escrever, colocava qualquer grande chef no bolso com sua intuição que eu imagino também ser sobrenatural. Fazia um arroz de pimenta amado igualmente por mim e por meu pai. A sua macarronada era esteticamente refinada e de sabor místico. Fazia um carpaccio de carne de charque: fatiada finíssima, crua, temperada com limão. O seu creme catalão era inigualável, mesmo na Espanha nunca comi nada igual. Certa vez, meus pais fizeram um jantar para o cônsul da França e comitiva; dentre os ilustres: Gilberto Freyre. Minha mãe não teve dúvidas, trouxe Edmilson de Caruaru e deixou ele se assenhorear da cozinha e das nossas expectativas. Os franceses, ao final do jantar, queriam levá-lo embora. Mas Edmilson era como o Touro Ferdinando: enorme, forte, genial, mas só queria contemplar as flores no seu cantinho de interior.

Como era bonita a rua da minha infância. O diabo carregue quem me pôs velho no Mundo.

domingo, agosto 14, 2011

PATER FAMILIAS







a Josué, Maria e Filipe


Paternidade é presença e ausência
Palavra silenciada no peito em carne viva
Mil vezes pedra na solidão da coadjuvância
Mil vezes estio na chuva que tarda a chegar
Vocativo afogado na seca dos olhos em lágrimas
De tanta coisa sentida que já não se assemelha a palavra
Lavrada pelo ódio das regências e das normas
Aquecida duramente pelo carinho não confessado dos séculos
A paternidade custa a entrar em nós e é árida
Mas no amor das rochas dorme o que escapa da morte e do nada

sexta-feira, agosto 12, 2011

FDR





Do lugar em que me formei, diz-se Casa de Tobias
Por ter sido, Tobias Barreto, seu aluno melhor
Escreveu grandes obras jurídicas e de filosofia
Concorreu à cátedra na sua Casa e ali se eternizou

A Casa de Tobias nunca foi casa minha
pois nunca soube da vida o que seria meu
Minha filosofia não se alimentaria da poeira do passado
Nem minha poesia nasceria de um fogo que anoiteceu
Eu vivia fora da sala de aula,
Esperando, com um copo, o Mundo que me corrompeu

Mas por lá também estudou Carlos Pena Filho
Que o efeito da vida sobre a poesia preferia estudar
Nas mesas de ferro do extinto Bar Savoy
(que mimetizava o Mundo que dói em forma de bar)
Os homens engarrafavam sonhos em forma de navios
Dando-lhes nomes de mulheres e de heróis vindos do ar

Que maravilha seria estudar ao lado de Carlos
E ver o direito internacional, nos copos de vidro, naufragar
Do direito penal exigir somente a liberdade das gravatas
E do direito privado pedir que apenas nos deixassem público o mar

E proclamar que nenhuma norma é válida
Com tanto desejo preso no coração
Depois da meia-noite seríamos todos réus primários
Buscando no navio do Mundo a nossa consolação

Por isso quando perguntam onde eu estudei
Se é na Casa de Tobias que a saudade me corrói
Eu engarrafo um navio em forma de sonho
E digo que minha Casa é a Casa de Carlos,
O Carlos do Bar Savoy

quinta-feira, julho 28, 2011

Oikos


Na Rua Engenheiro Sampaio, havia uma casa assim
Metade dela era feita de sonhos, a outra, feita de mim
Nela havia mentiras tão belas, de soldados que dançavam no ar
De objetos transmutando em feras, de árvores que sabiam cantar
Havia um piano imaginário e um quintal que não tinha mais fim
Alguns gritos abafados em segredo, apossados como pesadelos
Nas mãos de um homem ruim
As mentiras encantavam meus olhos,
(mentiras que me diziam “sim”)
Na Rua Engenheiro Sampaio, havia uma casa assim


Mas veio a verdade dos homens, e com cimento me soterrou
Levou minha avó, seus segredos, o mistério que meu avô guardou
Os soldados que meu pai enterrava
No quintal que, depois, me acolheu
Eu disse à verdade: “me devolva”, “esse quintal é só meu”
A verdade não perdoa nada
(Nem mesmo o fato que jamais ocorreu)


O corpo do meu pai foi embora
A cozinha da minha avó, nunca mais
E as mentiras que encantavam minha história
Agora seguem insepultas na memória
E nos meus olhos que só olham para trás

domingo, julho 17, 2011

Carta ao meu pai



Querido pai, ontem fui à casa onde você nasceu, no Bairro de São José. Um gosto antigo de saudade tomou conta do meu presente. O velho casarão continua lá, caiado de verde, mas gasto pelo descaso cinza dos homens. Aliás, como os políticos têm descuidado das coisas que você amava. A arquitetura da cidade, testemunha do nascimento de tantos grandes homens, é um emaranhado de fios, abandono e ruínas. O trânsito continua um caos, mais carros nas ruas, menos pedestres nas avenidas e a vida vai passando fosca pelo vidro do carro, sempre fechado que a criminalidade não está brincadeira. Tudo no mundo anda financiado, pai: carro, moto, nascimento, casamento e até divórcio. Tenho medo do endividamento do povo. Você que tanto ensinava que comprar à vista é a chave para a paz no travesseiro. Mas parece que o motor da felicidade da nossa gente é a televisão de LCD iluminando a sala, como uma árvore de um natal infinito que se renova dia após dia. Você sempre achou isso curioso, e sabia, como ninguém, que todas as teorias econômicas ficam pequenas diante da alegria do povo, ainda que embalada no papel brilhante do crediário. A corrupção, por sua vez, meu pai, anda grande. Tanto dinheiro público gasto em quilômetros infindos de estradas que eu chego a suspeitar que estão fazendo um viaduto para chegarem por aí no céu (porque, pela porta da frente, “eles” não vão entrar). Você, que sempre lutou contra a malversação do alheio, espumaria de raiva, se a ira não fosse um grande pecado aí no paraíso celeste. Quanto a isso, não se preocupe, a gente vai se irando aqui por baixo e qualquer dia desses, tenho fé, os julgamentos deixarão de absolver os maus políticos e será permitido ao povo o uso do ovo podre e do bagaço da laranja como instrumentos da democracia participativa. Maria Eduarda perguntou a mim como é virar estrelinha no céu. Eu fiquei mudo, sem resposta, pensando que você já era uma grande estrela aqui na terra e que a gente ficou no escuro imenso sem sua luz. Meu time perdeu, pai, pode rir daí de cima. Esse riso de criança, provocador, jocoso, vai matar como pouca coisa a imensa saudade no meu peito. Por aqui a gente vai levando, vai poupando e investindo esse pouquinho da gente que sobra no final do mês.
O rádio está ligado, mas eu só ouço o eco do meu coração.

quinta-feira, julho 14, 2011

ÚLTIMA MANHÃ



Os mercados amanheceram em silêncio
Os bancos estavam de portas fechadas, não havia o que comprar
A ciranda financeira que permeia todas as coisas tácteis
Parou repentinamente como uma brincadeira de criança
Que já não quer mais brincar
Não houve pregão, nem cotação do dólar
As guerras cessaram dentro dos livros de história
Os gritos dos soldados mortos emudecidos pela manhã

Você silenciosamente caminhou por entre nossas ignorâncias
Beijou os olhos dos seus netos que dormiam
Andou pelas ondas das rádios que noticiavam o imponderável
Riu mais uma vez das nossas caricaturas, um apelido para cada um
Naquela manhã a Itália entrava em crise, os homens submergiam em corrupção
E sua crítica que antecipava, nas rádios, a nossa miséria humana
Agora desce em forma de bênçãos, de esperança, de fé e de união

terça-feira, julho 05, 2011

FILIPE

Ele vem como o vento em uma tarde vermelha

Toca a mão no meu rosto, já velho e cansado

Queria falar-lhe, mas não posso, porque já gastei todas as palavras

Ele me beija a face e aeroplanos não construídos descem em suas lágrimas

Um quarto de brinquedos cabe no hiato entre nós, na praia, no deserto

Ele fecha os meus olhos com as mãos

Eu não preciso mais ver nada

quinta-feira, junho 30, 2011

Clara, Chris e eu

http://www.youtube.com/watch?v=oEn2T1dDsB4

Momento Gastronomia: Mocó

Acho que eu sou a primeira pessoa a falar sobre o Mocó. O Mocó é um segredo tão bem escondido que alguns juram que se trata de mais uma lenda urbana. Tratarei deste texto, portanto, como uma dessas fábulas que minha filha consome com os olhos brilhando querendo
em uma vontade tão lúdica que seja a mais pura das verdades.

Dizem que Marcílio de Pádua, chef de cozinha talhado pelas mãos do mundo, depois de tanto andar na contramão da rotação, resolveu aceitar uma paragem e construiu para si um bocadinho de lugar que lhe permitisse alterar a lei do cotidiano. Que lei? A lei que determina as formalidades dos ternos, das gravatas, dos extratos, dos contratos, das notas fiscais. Marcílio deu uma ordem "fiat pax", e tudo aquilo que irrompe como as amarras da modernidade dissolveu-se na entresala do Mocó.

Lá, só existe uma lei: coma como se sua vida existisse para o prazer da gastronomia. Seja um epicurista, pão e vinho. Aceite a cerveja como consequência inasfastável de algo que começou na Suméria há milhares de anos atrás. Coma aquilo que se lhe oferece, cozido a fogo lento, com açúcar, com afeto. Pode ser um joelho de um porco. Pode ser um peixe sob o manto de uma manteiga preta. Pode ser um sarapatel, pode ser um cozido legitimamente madrilenho.

Pode ser tudo que sua imaginação permitir, como nos sonhos.

Onde fica? Perto das terras de São Serapião, no descanso do Cálice Sagrado, à direita da Ilha de Avalon. Talvez fique perto da minha casa, mas sempre encoberto pelo desejo de se mostrar apenas àqueles que carregam na vida a certeza de que a felicidade se mastiga.

Da Solitude (letra Rodrigo Pinto, música André Mussalem)

Está chovendo na cidade
E eu moro nessa cidade há tanto tempo
Mas nunca vi chuva assim
Tão limpa, tão pura, tão mágica
Água benta que carrega todo concreto e a tristeza e a mentira
Da boca dos homens

Homens que se protegem
Da chuva e da dor
E eu quero que essa chuva me molhe
Que me transforme, me purifique, me reanime
Para a realidade seca que vem com o céu lavado

Minha carne pouca e fraca
Teme a tristeza do escuro que me cerca
Meus pés já não tocam o chão
Em vão as mãos suplicam em prece
E é de sonho e de desejo

Soa no peito o eco de apelos
Por breves sorrisos de alento
Meu corpo é um baú escuro
E no fundo, jaz um coração
E eu quero ser limpo e suave
Como a chuva da tarde

Mas ele disse: “não tenho em quem pensar
Volto prá casa vazio”
E ela me disse: “desejo mesmo voar
Que nem passarinho”



PS - Letra escrita em 1994 por Rodrigo e musicada por mim em 2011. Parte do projeto Antology da Banda que poderíamos ter sido mas nunca fomos.

domingo, maio 29, 2011

Momento Gastronomia: Bar do Luna

"Sexta-Feira à tarde, o Bar do Luna é um problema"

Cantava assim o Suvaca di Prata, mais ou menos na época em que Waldemar (o Tenente Docinho) me levou para conhecer o Bar do Luna, no IPSEP. Estávamos fazendo um tour gastronômico pelos botecos da cidade, e o Tenente veio com essa novidade. Lôas ao Chambaril.

Não perdemos tempo, então: rumamos para os lados da Avenida Recife em busca de mais um ponto de refúgio para o cotidiano estafante de quem milita na advocacia.

O Bar do Luna não tem placa, nem posição privilegiada em relação às demais casas familiares da rua. Mas se você vai pela primeira vez, é só seguir o burburinho na calçada e prestar atenção na quantidade de carros estacionados em frente a uma casa de portão de ferro. Restaurante caseiro, montado em uma casa de família, mas já devidamente estruturado para a quantidade de pessoas que recebe, você está no mundo pernambucano do Bar do Luna. O Seu Luna está sempre no meio dos garçons, checando cada detalhe relativo à satisfação do cliente. Ou melhor, satisfação do freguês.

Sugiro que você comece com o caldinho de dobradinha, inteligentemente acondicionado em uma garrafa térmica, que fica na sua mesa, até você se fartar do início. O Bar do Luna não serve para a fartura de um só. São pratos para serem divididos, compartilhados, pois no pirão, nos miúdos, no sangue coagulado o socialismo é mais que possível: é uma obrigação.

Às vezes a semente da discórdia é plantada por quem disputa o tutano, mas nada que faça esmorecer a beleza do chambaril robusto, a cor sagrada do sarapatel, o ouro fino da dobradinha. O sol vai morrendo dourado e o dia fica da cor da cerveja que sobeja no copo, e a sexta-feira já deixou de ser um problema, virou uma recordação.

segunda-feira, maio 09, 2011

A Arquiteta

Mãe:


A proporção das coisas você tatuou nas minhas retinas
O vermelho tem inúmeras significações nas suas palavras
Eu vejo o belo porque você me ensinou que havia o belo
E me mostrou que as palavras eram limitadas frente ao infinito das maravilhas


Eu escapei do seu compasso e me lancei no mundo
Esse traço de grafite que compõe meu sonho roubado
Quem dera eu pudesse apagar o traço furtivo de cada palavra
Como você bem fazia quando me desenhava uma flor


Eu sou seu projeto imperfeito e inacabado
Constantemente inacabado
Mas perene e extremamente feliz
Estendido na imensa prancheta que é o colo seu

segunda-feira, abril 18, 2011

Poliedro







O amor essa forma indefinida na mão do arquiteto
Poliédrica, inexplicável na superfície mutável
Vê? Já não é mais um quadrado.
Daqui a pouco não será mais um urso
Morrerá sempre projeto por ser incompreendido na forma
E passará desapercebido como vaso no canto da sala



Já foi um bonde, já foi uma canção
Cantada silenciosamente no campo do nada
Já foi uma onça de ouro, uma ação de resgate futuro e um tostão
Na cama silente, no grave arquiteto, toma por si próprio sua outra forma
E daqui a um segundo e mais um pouco não será mais não


O amor essa forma indefinida na mão do arquiteto
O arquiteto esse ser incompleto na mão do amor

sábado, abril 02, 2011

As mãos do meu pai





As mãos pensas de meu pai na sala a murmurar em gestos o cansaço do corpo
Tateiam em busca de outras mãos que já não acenam mais
Quantas guerras, meu Deus, quantos exércitos dizimados
Cabem naquele gesto que desenha sem potência o imponderável?


Maré de sangue e vento e vísceras e um grito pende do tato – mamãe,
O resto é nuvem de pássaros abatidos por tanques de guerra e os meus olhos de menino a não crer na própria história, meu Deus, meu Deus
Quantos deuses mortos, quantas valsas perdidas no meio da sala cabem naquele gesto que firma no espaço o vazio da minha herança?


As mãos pensas de meu pai na sala e as réplicas da França conquistada que lhe pendem dos dedos
ofertam-me a crueldade dos campos de batalha e o sorriso fácil dos diplomatas que dividiam entre si o resto do século
e a oferta já é pouca, por não sobrar a esperança da vitória depois da noite
Quantos cadáveres, meu Deus, quantos tios amputados
Cabem naquele gesto que escava no ar a sepultura dos homens fortes?


João, José, Celina, as armas prontas para um combate que já não existe mais
O resto é guerra invisível travada a partir na terra suja das unhas, na carne restante dos molares
Quanto do meu silêncio, nascido na contramão do combate
cabe no gesto de perplexidade perante a nova cosmogenia do Cais?


Elas chamam por algo, as mãos pensas do meu pai, e esse algo tarda a chegar
Não sei bem se pássaro ou finitude,
se começo da praia para a onda, se início do asfalto para o onde
Os corpos se amontoam no vão do hiato e fica este gosto de pólvora
a sobejar na língua morta e insepulta no horizonte da boca

terça-feira, março 08, 2011

carnaval e herança


Foi pela mão do meu pai que eu conheci o carnaval. Justamente por ele, um dos homens mais anti-carnavalescos que eu conheço. Avesso às multidões, ao calor, ao barulho, apraz-lhe um livro de guerra, um bom filme, um bom almoço nos dias de folia. Eu também sou pacato, dou-me muito bem com meus botões, com meus discos, com minhas pesquisas. Mas nesses dias milagreiros de são-ninguém, tomado por uma inexplicável turba de bichos-carpinteiros, corro para as ruas antigas do Recife e de Olinda, não sei quem sou, nem prá onde vou, só sei que tudo acaba na quarta-feira.


Acuso beneficamente o meu pai dessa imensa responsabilidade. Tomava-me pela mão, ainda bem criança, como salvo-conduto, e me levava para o bloco da Turma da Jaqueira, cria dos funcionários e motoristas da Fundação Joaquim Nabuco, órgão federal em que meu pai, por vários anos, exerceu a função de superintendente sob o comando de Gilberto Freyre (e posteriormente de seu filho, Fernando Freyre). Em meados da década de 80 do século XX, a Turma da Jaqueira (co-denominada de “Segurando o Talo”) era uma troça ainda pequena, que seguia pela Avenida 17 de Agosto, até a casa de Gilberto Freyre (atual Fundação Gilberto Freyre). A troça terminava na Associação dos Servidores do Instituto Joaquim Nabuco. Eu, menino, sob os acordes do frevo, feliz, suado, juntando confetes no chão. Meu pai acompanhava ao longe, sob distância segura.


A Turma da Jaqueira é, hoje, um bloco imenso, que arregimenta mais de sessenta mil pessoas pelas ruas de Casa Forte, por certa ironia do destino, meu atual endereço. Não acompanho mais o bloco, mas decerto que meus passos estão ainda marcados no itinerário seguido pelos foliões mais novos, seguidores antigos, gente que se irmana a mim pelo menos na minha imaginação.


Desde essa época passada, o frevo não saiu mais de mim. Um dia eu hei de morrer, como todo bicho que pula, mas essa alegria há de se perpetuar nos meus filhos. Tomo eu, pela mão, Maria Eduarda e mostro a ela a riqueza dessa festa que desafia toda lógica, como a própria humanidade. Talvez o carnaval seja a mais humana de todas as festas, com as suas contradições. Dou a Maria Eduarda esse quinhão, essa parcela inexplicável da minha conjuntura legada pelo meu pai. Não sei se ela amará o carnaval como eu amo, mas abro a minha mão, como o meu pai o fez, para que ela tenha uma escolha. E possa, quem sabe, escolher o transitório sem abrir mão da permanência.


Hoje, terça-feira gorda, é aniversário do meu pai.

domingo, março 06, 2011

PADARIA IMPERATRIZ


Há mais de cem anos, servindo aos foliões carboidratos e esperança para os outros dias de festa

NA FRENTE DO SAMU

Esperando o amigo que exagerou na dose

O FAMOSO TCHAU-DEDADA


O ENTRUDO


No chão, lugar de bravos e de anônimos

A COLONIZAÇÃO PELO CAMAROTE


“Depois de 33 anos desfilando pela Rua da Concórdia, o Galo da Madrugada estreou na Dantas Barreto. E fez bonito. Seus súditos leais lotaram o Centro do Recife com risos e fantasias. Nos camarotes, autoridades, artistas e muita gente bonita.”

Chamada do Jornal do Commercio de 06 de Março de 2011


Eram duas festas no período momesco: o entrudo, de tradição ibérico-portuguesa, era considerado agressivo pela sua permissividade, quando pacatos senhores saiam de suas casas, munidos de limões de cheiro, farinha, ovos e se misturavam à turba, emporcalhando a cidade com sujeira, suor e risos. Havia o entrudo familiar, que designava a brincadeira restrita entre as famílias, mas que, freqüentemente, descambava para a mistura de classes, como atestava Joaquim de Manuel Macedo, autor do livro “A Moreninha”, em 1871.
A outra festa, o carnaval, foi trazida pela corte da Imperatriz D. Teresa Cristina a partir do seu casamento com o Imperador D. Pedro II, em 1843. Trouxe junto com ela músicos italianos que importaram os arlequins, os pierrôs, as colombinas e o carnaval de Veneza, das fantasias elaboradas, restrito aos bailes, aos convites reais. Como tratou Luiz Felipe de Alencastro, no seu ensaio “Vida Privada e Ordem Privada no Império”, “Separou-se a festa da rua, popular e negra, embora de origem portuguesa – o entrudo -, da festa do salão branco e segregado, o carnaval”.
Em algum momento, entretanto, entrudo e carnaval passaram a designar a mesma festa e, por influência da música do século XX, do samba carioca, do frevo pernambucano, da sua variação, o frevo baiano, dos grupos ritualísticos negros e índios, a rua cada vez mais foi vencendo o salão. A festa de rua foi nomeada de carnaval, embora fosse mais próxima do entrudo. Carnaval também era a festa dos clubes (substitutivos dos salões e das sociedades carnavalescas) da alta classe social, mas restrita, ilhada no Sudeste e no Sul do país.
Na década de 80 e 90 do século XX, e principalmente no início do século XXI, o Estado percebeu que o carnaval de rua era uma fonte bastante interessante de captação de recursos, principalmente pelo crescente interesse das grandes empresas (consolidadas pela estabilidade econômica) em investirem no manancial quase infindo da alegria de rua, sempre possível de ser catequizado pelo marketing.
Assim, autoridades, artistas, e pessoas de importância, que evitavam o carnaval de rua, por causa do descontrole de ânimos que caracteriza o entrudo, passaram a olhar com novos olhos a multidão anônima e feliz, que se acotovelava absorta na alegria circunstancial dos dias de folia. Só que a freqüência das pessoas revestidas pela importância do cargo, da mídia, da arte não podia conviver com o anonimato da turba enfurecida pela felicidade: era preciso reinventar o espaço da rua, para que se permitisse uma segregação branda, quase democrática, sub-reptícia, da felicidade. A sua felicidade termina onde a minha começa. Gente bonita junta acotovelando-se refrescada pelo ar-condicionado e olhando de cima a gente sem beleza, sem nome, sem importância.
Os camarotes representam a invasão no animus do carnaval sobre o entrudo. A segregação que antes ocorria nos salões e nos bailes passa a ocorrer na própria rua, no próprio espaço democrático. Invade com tanta força que coloniza até as classes menos abastadas, pois o carnaval de camarote passou a ser um produto industrializado para classe “c” se diferenciar da classe “d”. Mimetizados os pierrôs de academia, as colombinas do reality show, os arlequins da política, importados de um país distante que nunca vingou aqui em baixo, nos tristes trópicos.
O espaço da rua categorizado como se fosse um imenso espaço privado, colonizado por palafitas de luxo, de quase-luxo, de anti-entrudo, de pseudo-carnaval.

sábado, fevereiro 05, 2011

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O Elogio ao Grotesco e o Casal Huck






Para João da Costa, manter o concurso do Rei Momo, que acontecia no Pátio de São Pedro, representa uma falta de coerência numa época que, na avaliação dele, as pessoas estão preocupadas em cultivar práticas saudáveis. ´É um contrassenso hoje você trabalhar a obesidade mórbida como um problema grave de saúde e incentivar um Rei Momo a isso`, defendeu. Para o prefeito, essa é uma discussão que deve estar acima das tradições culturais. ´Essa não é uma tradição boa. As boas a gente preserva`, colocou. A Fundação de Cultura do Recife ainda não definiu os critérios do novo concurso. No entanto, o prefeito já antecipou que os gordinhos não serão impedidos de concorrer. ´Não sei se vai ganhar, mas nós não vamos proibir`, disse.
(Extraído do Diário de Pernambuco, edição de 22 de janeiro de 2011)




Folia de Momo é apenas um dos vários designativos do carnaval brasileiro. Aqui, como em outros lugares do mundo, desde o início do século XX adotou-se o deus grego Momo como o patrono dos dias de carnavália.

Momo é um deus peculiar. Ele está ligado à picardia, à denúncia vexatória dos demais deuses. A tradição greco-romana narra a expulsão de Momo do Olimpo por suas brincadeiras inconvenientes e seu conseqüente envio para o mundo dos mortais. Momo foi bem recebido por aqui e fazia parte da tradição romana a coroação de um centurião que no dia de seu reinado simbólico podia comer e beber livremente. A obesidade de Momo não significava doença, significava fartura e extravagância em uma Roma onde não havia a culpa católica da quaresma.

A partir de 1932, o carnaval brasileiro, mais especificamente o do Rio de Janeiro, adotou a figura do Momo-rei como um dos personagens da corte real do carnaval. Naquele ano, Momo foi personificado em um boneco de papelão. Algum tempo depois, o boneco de papel foi substituído pelo jornalista Morais Cardoso, justamente por causa de sua figura redonda, farta, imensa. Simbolicamente, o Rei Momo aparecia como a imensidão do homem-rei sendo dividida pela massa anônima do povo.

A figura do gordo é o antípoda da forma clássica do belo masculino. Para além das discussões históricas sobre a estética e a modernidade, hoje em dia a figura do gordo é o estereótipo da má saúde, do desleixo, da humanidade que não deveria existir frente aos inúmeros expedientes atuais de se conseguir alçar a significância do belo no corpo.

E justamente por isso, a figura gorda do Rei Momo era tão importante para nós.
Para nos lembrar do quanto somos grotescos na nossa pulsante humanidade. Do quanto há de beleza na fartura livre do corpo, cuja estética não está amarrada a nenhuma pré-determinação convencional. Nisto reside ou residia a democracia do carnaval. Um rei-deus, obeso, simpático, ultrajante, era coroado em meio à felicidade do povo, extirpando a figura do príncipe encantado, belo como nas falsas estórias de Walt Disney.

Mas a voz do politicamente correto gritou no coreto, em nome de uma imagem sadia do folião. O prefeito do Recife, seguindo uma tendência nacional, decretou o fim do reinado de Momo no carnaval. O Rei não poderá ser gordo, e se ele não é gordo, não é Momo.

Há ainda espaço para um afago na cabeça dos desleixados: o gordos ainda poderão concorrer ao reinado, embora já não se possa garantir que a coroa fará suas cabeças mais dignas: “Não sei se vai ganhar, mas nós não vamos proibir”, disse o prefeito do Recife.

Decerto o rei será branco, loiro, e apolíneo. Representando não os brasileiros de carne, osso, gordura, poucos dentes. Mas governando simbolicamente aquela parcela ínfima dos belos e bem-sucedidos empresários, que personificam a bondade e a mão estendida para quem embarcou de cabeça, equivocadamente, na tese da meta-raça. O novo rei representará o casal Luciano e Angélica Huck, eleito pela Veja da semana passada como a meta a ser alcançada por cada um de nós, gordos, pobres, desdentados e sem um deus que nos represente, pois a coroa agora pertence ao divino Apolo.

Este que justamente nunca foi expulso do Olimpo.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

O Movimento dos Barcos









(Jards Macalé e Capinan)

Estou cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais
Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais
Que passa ao largo do nosso corpo

Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo

Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Amar




(Carlos Drummond de Andrade )



Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

O anti-britânico

Eu freqüentemente me atraso para a flor que a vida me ofertará
Como um vício não tão raro, que se cultiva dentro de mim
Por outra mão que não a minha, hei freqüentemente de me atrasar
E sequer hei de chegar ao dia em que se anunciará meu fim

Porque o tempo não negocia comigo,
taciturno como meu pai, não me lança um olhar
E a aurora das coisas, como fruto inalcançável – mas de beleza táctil
irmana-se fácil com o tempo presente
E minha pele ressente saber e não estar lá

Enquanto o mundo faz e se refaz dentro de um avião
Minha preocupação é correr e pegar o bonde
Que por um infortúnio do meu vício, gritou meu nome e já passou
Eu sigo atrasado sei lá, não sei, para onde
Pois o meu século vinte no meu século dezenove caiu e ficou

E assim eu durmo sem ouvir o relógio que deveria me acordar
As catedrais e as cidades vão se construindo para além de mim
Por outra mão que não a minha, hei freqüentemente de me atrasar
E sequer hei de chegar ao dia em que se anunciará meu fim

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Muitos amigos bons



Alguns amigos bons

And you can tell everybody this is your song


PS - É a cara da mãe, mas o espírito...é todinho do papai

terça-feira, janeiro 11, 2011

A valsa da princesa

A princesa que já não dormia,
por, quem sabe, esperar o fim do século
aguardava o homem Ulisses que lhe havia,
prometido ser-lhe contraparte do espéculo


A princesa enquanto paciente aguardava
bordou um imenso tapete de tramas
onde o Mundo era outro e estava
imune a tristezas, feridas e chamas


Bordada em cores, estampava a alegoria
da eterna felicidade da princesa
que perdida entre unicórnio, leão e utopia
mantinha a alegria da esperança acesa


E no tapete só reinava a princesa
que escoltada em ouro pelas suas damas
dançava eterna e infinita com alma tesa
bordada por si mesma nas entrelinhas das tramas


A princesa de fora admirava a princesa de dentro
por reconhecer que do tapete para si, duas havia
uma, bordada por Deus, era carne, dor e vento
a outra, fruto de si, era somente alegria


E eis que, absorvida na sua imagem bordada
surpreendeu-se a princesa com um chamado distante
Ulisses, o homem-deus que ela tanto esperava
apareceu perante seus olhos, em um rompante


E lhe arrebatou e lhe levou para casa
deu-lhe jóias, máquinas e cotidiano
cristais de murano, bichos fantásticos, carros com asas
deu-lhe todos os seus dias do ano


E em uma noite de núpcias e de paz
no instante em que Ulisses dormia
a princesa sorrateiramente por trás
estripou o dormente enquanto sorria


Encarcerada a princesa, questionaram-lhe o ato
“porque, de maneira tão horrenda, rasgaste a lei?”
e ela respondeu tranqüila sobre o ocorrido fato
“porque eu nunca fui feliz como no tapete que bordei”

segunda-feira, janeiro 10, 2011

A Função Social do Amigo Gordo




Ao Gordo (sempre Gordo)
A Filipe (a partir de amanhã, ex gordo)



Todo grupo social que se preze tem um amigo gordo. Ele é a liga que une os demais membros da confraria. Ele é o bonachão, por vezes, é o mal-humorado em outras tantas, é o cara que aceita a berlinda porque sabe que nenhuma reunião regada a cerveja funciona sem uma berlinda. O amigo gordo se sacrifica pelos demais, na sua imensa sabedoria, no santo ofício de beber até a última gota de cerveja, ou de comer o acepipe restante do prato. Morrerá um tanto mais cedo, com as veias entupidas, mas cumprirá, até o final, a sua missão de ligar nas noites de segunda-feira para exigir a presença daquele pai de família na mesa de ferro enferrujada que descansa tantos copos do líquido sagrado translúcido e que será o motor de mais uma discussão conjugal.
O amigo gordo tem uma pança farta, mas possui orelhas imensas. A ele nós confessamos os segredos mais remotos, as transgressões cotidianas, a tristeza de um projeto malfadado. O amigo gordo, por ser quase infinito, é um divã enorme que se oferece à análise do sagrado e do profano.
O amigo gordo sempre aceita um convite para almoçar no sábado. Está sempre disposto a alegrar a tarde de um fim de semana após uma sexta sombria. Ele tem o dom de absorver, em suas camadas adiposas, a tristeza e devolver a alegria que só existe no colesterol. Ele é a vaca mais preciosa do rebanho, o elogio à camaradagem, a irmandade do mundo inteiro personificada em um sujeito.
O amigo gordo nos faz sentir mais leves.

domingo, janeiro 09, 2011

Sobre o brega e outros bichos

Dentro do contexto social denominado “mundo cultural” ou coisa que o valha há uma supervalorização da música extremamente popular que se convencionou a chamar de “brega”. Basta uma pesquisa rápida sobre novas bandas do mercado musical independente para que se comprove a existência de um viés seguido por novatos e que está sustentado na música feita na periferia das grandes cidades do Norte e do Nordeste.

O grupo social que gosta de se afirmar na contramão da cultura de massa, e por tais razões mais culta que as demais, vem ostentando sua presença em festas realizadas fora das circunscrições geográficas da classe média de uma maneira ideologizada, utilizando não apenas como diversão, mas como provocação.

O questionamento da dicotomia entre a música brega e a chamada MPB já havia sido colocada em xeque desde a década de 70 com Caetano Veloso gravando (e cantando ao vivo no Phono 78) “Eu vou tirar você desse lugar” do Odair José. Posteriormente, Caetando gravou outros cantores tachados de “cafonas”, o adjetivo antecessor do “brega”. Algumas dessas gravações são memoráveis.

Particularmente eu já apresentei minha opinião quando tive a oportunidade de escrever sobre o fenômeno João do Morro (quem tiver curiosidade, ver os comentários http://acertodecontas.blog.br/atualidades/joao-do-morro-um-sambista-de-verdade/).

Gosto bastante de algumas músicas do grupo Calypso e acho “A Vida é Assim” uma música muito bem estruturada, apesar da letra simples e sem pretensão. Qualquer segregação apriorística do que é ou não é arte será sempre o mesmo preconceito que, no início do século XX, recaiu sobre o samba.

O que eu não concordo é o tratamento ideologizado do “brega” e a tentativa de impor qualquer música feita na periferia (geográfica ou cultural) como ponto de resistência à massificação midiática. Para mim, tal atitude esvazia o conteúdo crítico, empobrece o reconhecimento do que é arte popular e desvaloriza a espontaneidade da música que paradoxalmente (e momentaneamente) é louvada.

A boa música se releva por si, independente de posturas guerrilheiras da pseudo-intelectualidade que faz da falta de recursos uma bandeira que se perpetua para legitimar a divisão cultural.

PS – Para fins de fomentar a discussão eu coloco uma versão feita para o novo fenômeno popular “Vou não, posso não”, onde um arranjador preencheu a música com acordes dissonantes não existentes originalmente na música e deu um andamento de bossa nova.
http://www.youtube.com/watch?v=YiPMK6e6bT0&feature=player_embedded

Evidentemente trata-se, aqui, de uma tentativa de demonstrar que qualquer música bem arranjada é boa. O argumento é falacioso por dois motivos: 1) A música tocada é instrumental. A letra é suprimida. 2) A estrutura da música ocidental, desde a Idade Média, segue um padrão de escalas tonais que soa agradavelmente aos ouvidos. De Tom Jobim a DJ Sandro esse padrão é minimamente repetido (não vão sair por aí dizendo que estou a comparar um com o outro). Um arranjo bem feito em cima de acordes seqüenciais sempre vai soar agradavelmente aos ouvidos do auditório. Isso não quer dizer que a música é boa, nem que isso é arte.

Para ver as meninas



(Paulinho da Viola)

Silêncio por favor

Enquanto esqueço um pouco

a dor no peito

Não diga nada

sobre meus defeitos

Eu não me lembro mais

quem me deixou assim

Hoje eu quero apenas

Uma pausa de mil compassos

Para ver as meninas

E nada mais nos braços

Só este amor

assim descontraído

Quem sabe de tudo não fale

Quem não sabe nada se cale

Se for preciso eu repito

Porque hoje eu vou fazer

Ao meu jeito eu vou fazer

Um samba sobre o infinito

Pele Negra


Durante alguns anos, nesse blog, eu expus minha vontade de gravar um disco definitivo que assumiu diversas feições ao longo do tempo. O último disco foi gravado em 2003, há mais de sete anos atrás. Nesse hiato imenso eu compus novas melodias, escrevi novas letras, pensei em discos perfeitos. Mas minha vida não ficou estática e eu assumi muitos compromissos em cada meandro que compõe esse hiato. No ano passado, eu e Rodrigo fomos atrás de um produtor musical que pudesse nos orientar na direção certa, já que ambos guardávamos (e ainda guardamos) tantos projetos possíveis, sem qualquer pretensão mais adolescente de ser um rock (ou samba) star. E descobrimos que o mundo profissional da música não guarda qualquer relação com o universo imaginário da arte do compositor. São coisas completamente diferentes. A dificuldade de se concretizar um projeto findou por lançar ao mar profundo nossos projetos. Mas eis que ainda no mesmo ano de 2010, Chris Nolasco aparece na minha casa dizendo que havia aprovado um projeto no FUNCULTURA e que queria contar com quatro músicas minhas. Qual não foi minha felicidade. Maior felicidade foi acompanhar a feitura do disco, entender cada detalhe de uma gravação, da feitura do projeto, das condições profissionais dos músicos. Sinto que esse hiato valeu a pena. Que eu não estou parado. Que algo de bom me espera nesse ano de 2011. E eu queria dividir isso com vocês. Logo, logo o CD “Pele Negra” estará finalizado e eu poderei postar as minhas músicas gravadas por Chris, e compartilhar um pouco dessa minha arte mexida e remexida pela profissão de fé.

sábado, janeiro 08, 2011

A Corrupção do Mundo

Um rato debaixo da cama é um rato, é um rato, é um rato

é um rato, é um rato, é um rato, é um rato, é um rato,

é um rato

debaixo da cama

sexta-feira, janeiro 07, 2011

O Medo

(Alceu Valença)



Mas eu não quero viver cruzando os braços
Nem ser cristo na tela de um cinema
Nem ser pasto de feras numa arena
Nesse circo eu prefiro ser palhaço
Eu só quero uma cama pro cansaço
Não me causa temor o pesadelo
Tenho mapas e rotas e novelos
Para sair de profundos labirintos
Sou de ferro, de aço de granito
Grito aflito na rua do sossego

Mas na verdade é mentira
Eu sou o resto
Sou a sobra num copo, Sou sobejo
Sou migalhas na mesa
Sou desprezo
Eu não quero estar longe
Nem estou perto
Eu só quero dormir de olho aberto
Minha casa é um cofre sem segredo
O meu quarto é sem portas, tenho medo
Quando falo desdigo, calo e minto

Sou de ferro, aço e de granito
Grito aflito na rua do sossego

sexta-feira, dezembro 31, 2010

A última crônica do ano

O ano de 2001 foi um ano especialmente bom para a uva Cabernet plantada no Chile. As condições climáticas, aliadas à inserção de novas técnicas introduzidas por experts europeus recém empregados em vinícolas chilenas, produziram uvas que atingiram seu grau ótimo para a produção de vinho, resultando em um congraçamento entre enófilos apreciadores da espécie Cabernet, ao redor de todo o mundo.

Nós não somos uvas. Não seremos colhidos. É certo que nos transformaremos em algo, adiante, mas esse algo permanece como coisa impronunciável encoberto pelas limitações da física, da fé e do homem. Por isso, eu não acredito em um ano bom. Eu acredito na sucessão de eventos previsíveis e imprevisíveis que está pautada de maneira fictícia por uma divisão estabelecida pelo homem que se baseou no seu conhecimento imperfeito acerca do movimento da Terra. O ano, do seu começo ao fim, é uma simples e imperfeita ficção.

A cada espaço de tempo pré-determinado nesses doze meses nós choramos, sorrimos, temos explosões de felicidade, sentimentos de solidão infinita, melancolias, achamentos e despedidas. Todo ano é e será assim.

No fundo, para nós, o ano de 2001 não foi muito diferente do ano de 2011. Os marcos mudaram decerto, mas a percepção subjetiva do mundo segue sob a pauta das mesmas emoções que serão renovadas em outros eventos. Em 2011 e me despedirei, eu acharei, sorrirei em explosões de felicidade e me sentirei impotente perante a solidão avassaladora do ser, tal como vem ocorrendo desde o primeiro ano em que me apartei do universo para ser um sujeito único e caminhante sobre a superfície do perceptível.

O engraçado e contraditório disso tudo é que, a despeito dessa racionalidade que antecede o brinde do vindouro, no momento do verso contrário da Tabacaria, vem sempre em mim a esperança da uva: de que o próximo ano seja um bom ano como o de 2001 foi para a uva Cabernet plantada no solo fértil do Chile.

A esperança é sempre maior do que aquilo que eu penso acreditar. E de uma maneira sub-reptícia, a ficção do tempo, criada de modo imperfeito pelo homem, subjuga a realidade corpórea e sem graça da vida desencantada, ao som dos fogos infinitos da fé e ao sabor de um vinho degustado no entreato de uma década que se foi.



ps: Um bom ano aos que desejam o melhor possível de dentro de uma taça ou de uma casca de noz

domingo, dezembro 26, 2010

Feliz Pós-Natal

O natal saiu pela porta e eu fui com ele,
Rodar pelas ruas antigas da cidade
Em tudo havia uma paz extremamente subjetiva
Que só o comércio adormecido pode ofertar
Uma mulher louca falava consigo
A sombra de alguém cambaleava embriagada rumo a nada
Dois policiais faziam uma velha cuspir pedras de crack, na ponte

Não havia anjos, não havia reis
Nenhuma glória a distinguir a pobreza sagrada da profana
A cidade era uma grande manjedoura vazia, sem pastores e vacas
E não havia homem ou deus que desejasse romper um ventre,
E embalar seu sono naquela pouca, magra e recifense paz.

domingo, novembro 07, 2010

Lullaby

Ao Mafuá do Malungo




Nessa rua, nessa rua tinha um bosque,
e tinha um portão de ferro para o passado não sair
tinha a marca dos meus dedos em uma casa
e um bonde imaginário sempre por vir

Dentro do bosque (dentro dele) morou um anjo
Cujas asas a poesia arrancou
Tinha uma dentadura engraçada e proeminente
e não sabia – pobre anjo - falar de amor

(Bosque, rua, anjo e tempo não resistem
Às intempéries que constroem as discussões
são de vento ou de sonho, e não se firmam
duram só o momento das ilusões)

Se essa rua, se essa rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com a pedra que constrói a eternidade
Para o que eu fui nunca mais se acabar

terça-feira, novembro 02, 2010

Notinha Social 02/11

Um vendedor de caranguejos passou em frente à minha casa; bastou isso para aquela melancolia saudosista de Manuel Bandeira tomar conta de mim. Tentei em vão livrar-me do lirismo, da visão idílica de um Recife que já se foi. Qual quê. Prega na gente que nem o piche que não existe mais. Não existe remédio para isso. Pode se empanturrar de água rebelo, elixir paregórico, enfiar aspirina goela abaixo: o saudosismo recifense é um verme que se instala no coração.

quinta-feira, outubro 28, 2010


Uma menina feliz faz cá dentro a felicidade imensa
Flagrada distraída no passado - presente
foram meus olhos que fotografaram, longe, mas perto também
E seis anos jamais se passaram, estão aqui

segunda-feira, outubro 25, 2010

VIRGINDADE





Por que chegaste agora, unicórnio, quando minha mão apedrejou o mundo?
Agora que os meus nós seguraram os barcos, e a vazão do mar não passa minha sala
Por que chegaste agora que meu peito inflamado ora se cala,
e quando meu peito calado é, morto, um mar sem fundo?

Por que chegaste agora, unicórnio, se agora eu uso gravata?
E tudo que há ao redor de mim tem carimbo, duplicata e segunda via
Por que apareces a mim quando tenho sono no final do dia
E o coração rebelde morreu confinado em embalagem de lata?

Por que chegaste agora, unicórnio, quando meus cabelos são mais brancos?
E toda palavra que sai da minha boca tem que ser pensada
Tu chegaste quando o exército do mundo derrubou minha armada
E a areia do moto-contínuo fez brotar todos os meus cancros

Por que chegaste agora, unicórnio, quando meus modos são de fino trato?
E as revoluções da noite não resistem mais ao raiar do dia
Por que olhaste para mim quando em mim plantei essas flores de ironia?
E te sufoquei lentamente até de unicórnio verteres em rato

domingo, outubro 17, 2010

Bastardo

Se eu não escrever hoje esse poema, alguém o escreverá por mim
Na tradição do haiku japonês ou nos longos descritivos latino-americanos
Ou em São Paulo, um poema rápido, certeiro, como a cidade que já se foi

O poema não se atém a mim
Não se dobra
Não se cala
Não diferencia o caráter de quem o empunhará

Talvez o filho de um poeta morra hoje (e a solidão avassaladora do ser
Lance uma rede para o infinito
E roube de mim esse poema, que tanto custa a nascer)

domingo, outubro 10, 2010

Maria Eduarda, meu tempo

O paradigma do meu tempo estava nos fios brancos da minha cabeça, no meu corpo que não corresponde mais às expectativas da plenitude humana. Agora, eu vejo o tempo agir no sorriso de Maria Eduarda. Nas perguntas que ela me faz. O tempo desce nos cachos de saem da cabeça de Maria Eduarda e não se deixa domar apesar dos meus clamores para que ela caiba de maneira perpétua em meus braços. Maria não se importa com a passagem das horas, ela é imune às digitais que o velho imprime dentro da nossa cabeça. Mas eu sou atingido toda vez que uma vela a mais compõe sua idade sobre o bolo de aniversário. Já não preciso me olhar no espelho, contar os dias, dispor dos segundos restantes. Minha medida de tempo está em Maria; é nela que eu envelheço, é por ela que fico cada dia mais novo, renascendo frente ao tempo que, tão perfeitamente, sorri para mim.

terça-feira, setembro 21, 2010

VESTIR O MORTO

Vestir o morto
Cobrir com cotidiano o corpo lasso do morto
Conceder-lhe dignidade com o terno
Humanidade com a gravata
Adoçá-lo com os sapatos caros de pelica

Vestir o morto
Atualizar o tempo ido do morto
Dar razões às lágrimas ao se domar a morte
Com a roupa mais clara que possuía o morto
Conter a decomposição mundana do corpo

Vestir o morto
Emprestar um último suspiro ao morto
Recobrir a pele fina com outra pele mais bela
Congelar a vida extinta enquanto a terra espera
Para despir com morte a vida fictícia, inventada e terna

quinta-feira, agosto 19, 2010

No Zé Corninho

Amanhã eu não irei ao Zé Corninho.

Triste do homem que, às sextas-feiras, não possui um lugar sagrado para preparar sua ressurreição. Nós morremos um pouco da segunda até as onze horas da sexta. Um pouco por vez. Desfazemo-nos, cotidianamente, nas obrigações irremediáveis, na busca pelo conforto, na imagem calculada de homem bom. Isso é a nossa morte, ou a antecipação do sono definitivo. Mas às sextas-feiras, somos chamados a recuperar a nossa vida, nossa matéria perdida no mundo, e nos possibilitam o livramento das gravatas, dos prazos, do homem bom.
Meu marco de ressurreição das sextas-feiras tem sido o Zé Corninho. Esse recinto familiar que não possui placa, propaganda ou reclame na televisão. Um dos muitos meandros da capital que faz a sua fama sob o fogo das panelas quentes de dobradinha e de um bom bacalhau.
O nome do local é “Recanto dos Amigos”. A lenda de um patriarca já ido proveu com a alcunha de “Zé Corninho”. Eu me sinto mais à vontade o nomeando assim. Mas tão folclórico quanto a alcunha do lugar é a cara amarrada do filho Gustavo, a beleza da filha Carol, o gosto inesquecível que vem de uma cozinha pilotada pelo amor familiar, Deus nos permita a pieguice.
Não gosta de dobradinha, nem de bacalhau? Encomende o pernil de carneiro recheado. Também não gosta? Vá prá puta que pariu lá pelos lados do Tacaruna. Acho que seria isso, mais ou menos, o que Gustavo diria a você.
É comida de panela, de gente, de sexta. E após a primeira cerveja, você talvez ouça a voz dos anjos conclamando à ressurreição da carne, dos miúdos, da farinha e da pimenta. Bendito seja o homem que não tem medo de renascer.

...

Amanhã eu não irei ao Zé Corninho.

Da Avenida Agamenon Magalhães, entre na Rua Odorico Mendes (a do Clube das Pás). Depois de cruzar a Estrada de Belém, dobre na segunda rua à direita. Fica no fim da rua, do lado esquerdo.

domingo, agosto 15, 2010

Auto-retrato

André Souto Maior Mussalem, aos trinta e cinco anos de idade

É eficiente bancário de um banco privado onde as moedas são desnecessárias
Foi nomeado servidor público quando o mundo se acabou, e não havia quem requisitasse uma necessidade qualquer
Possui mãos grandes que colocou a serviço do rei da Inglaterra, recentemente decapitado por nunca ter sido um homem fiel

Escritor de célebres romances, foi tomado de um sentimentalismo inexplicado no século XIX,
ficando cego no século XX, quando a primeira bomba estourou
cresceu-lhe um tumor na alma que redundou em seu primeiro casamento
mas dá-se muito bem com as chagas que lhe mandou o Nosso Senhor

Dele diz-se invisível ao meio-dia quando o sol é mais claro
Dorme tranqüilo, às nove, no leito de um grande amor

sábado, agosto 07, 2010


O Homem Velho
(Caetano Veloso)


O homem velho deixa a vida e morte para trás
Cabeça a prumo segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais
A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock'n'roll
As coisas migram e ele serve de farol
A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve trás o olor fulgaz
Do sexo das meninas
Luz fria, seus cabelos têm tristeza de neon
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom
Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval
Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal

sexta-feira, julho 30, 2010

Três excertos do Livro "Eu odeio André Mussalem" que vai sair pela editora Uganir, provavelmente em Setembro. Depoimentos escolhidos por mim e pelo autor, meu amigo Zeferino.


“O que mais me irrita nele é esse adjetivo com que ele sai nomeando todo mundo: ‘querido’; ‘querida’. Ele faz isso por causa de sua incapacidade de decorar os nomes das pessoas e com isso cria uma falsa ternura, como se ele pudesse gostar de todo mundo da mesma maneira. Sempre exigi que ele me chamasse pelo nome. Um dia ele me chamou de ‘querida’ e eu estourei; tive certeza, ali, que eu era apenas mais uma”

Ana Paula – ex-namorada 1997/1998

“Tudo nele é grandioso demais, um projeto grande demais. Mas ele planeja castelos e executa biscoitos; e se você faz parte daquilo acaba se frustrando também, lógico. Quem não se frustraria? É esse negócio mesmo de comprar gato por lebre, como falam por aí. Ele te vende um revolucionário, um artista, um inconformado durante o dia. Quando chega a noite, coloca o pijama e vai dormir”

Mariana – noiva 2003/2004

“Tem uma música de Caetano que define bem ele: ‘mas na hora da cama/nada pintou direito/é minha cara falar/ não sou proveito/sou pura fama’. Acho que é por aí mesmo. Não quero falar mais, porque seria uma puta de uma indiscrição, mesmo sabendo que ele autorizou falar sobre esse assunto. Mas resumiria bem dizendo que ele faz propaganda de um leão e na cama é um gatinho (risos)”

Irma – “negócio mal resolvido” 2001/2002

quinta-feira, julho 29, 2010

Água Doce

Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar

Esse um veio com o Mundo, com navios e canções
no seu peito tatuado, a marca de mil corações
me pegou pelos cabelos, como quem fosse naufragar
mas depois da tempestade, me deixou a ver o mar

(eu não quero amor)

Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar

Esse outro, sorrateiro, com palavras de algodão
sussurradas no ouvido, cravadas no coração
me deu tantos outros nomes, que eu me perdi de mim
fiquei só entre as palavras, por isso hoje canto assim,

(eu não quero amor)

Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar

E quem quiser saber de mim, pode até me encontrar
eu sou aquela que no Mundo, faz do Mundo o seu lugar
me acompanham nessa vida, só meu Deus e a lua cheia
se eu sou a escuridão de mim, eu também sou minha candeia

(eu não quero amor)

Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar

sábado, junho 26, 2010

Seculorum

Quando me falam do século passado,
Frequentemente caio nessa dúvida: de que século falam?

Do século vinte? Com seus hiatos armados entre o terror e o sublime
O século vinte dos ratos que surgiam dos escombros
E me contavam histórias de extermínio e de grandes amores

Do século dezenove? Com sua assepsia imperial a tapar o túmulo de Deus
O século dezenove quando os grandes homens eram possíveis
E pairava no ar uma esperança de curar todas as doenças

O século dezenove sem qualquer contradição
O século vinte que, ao nascer, proclamou: eu morri
Que século passou por mim e me antecedeu?
Que porta se fechou por detrás de mim e não percebi?

Eu aqui no século vinte e um, sinto-me como um sinal neutro em relação a tudo
Nada me pertence, nem agora, nem no futuro
Sou como algo nunca criado ou nunca disposto a se reinventar
E para além de todas as contingências, permaneço alheio ao mundo
Enquanto meus filhos constroem um século para além de mim

Difícil ofício esse, de pertencer a um século.

quinta-feira, junho 17, 2010


segunda-feira, junho 14, 2010

A Morte do Jogo

“O atrativo do jogo, a fascinação que exerce, reside justamente no fato de que o jogo se assenhora do jogador.”

Gadamer, Verdade e Método.

Pour Lucas,

O modo de ser do jogo é sua fluidez. O jogo deve ser jogado. Segurar o jogo, não deixá-lo, é o anti-jogo, o não acontecer. A bola está presa no único esquema tático das seleções e das nações, pasteurizadas na preocupação excessiva com a defesa e exterminando a diversidade dos povos que nos encantava a cada quatro anos de copa. Os times africanos, os sul americanos, os asiáticos: todos são europeus, excessivamente europeus.
Meninos pretos de cabelos loiros e olhos azuis: o capital domesticou a criatividade e o que importa não é mais o jogo em si, mas a forma como se joga o jogo. O esquema tático se sobressai e domina o impulso de furar as barreiras inimigas; o impulso que é um monstro pré-cristão que não se apieda de nada.
O resultado é o descrédito no próprio jogo que se vê órfão de gols e de um deus-herói, um ponta de lança que atravesse o campo e entre como projétil trave adentro, erguendo as mãos para o céu em uma língua desconhecida.
Só um deus pode nos salvar.
Não há meio campo criativo, não existe o atacante imperial, a força física abafa a molecagem, o drible diabólico do menino crescido em várzea ou em rincão distante. É o genocídio dos reis, dos anjos de pernas tortas, das laranjas mecânicas, das tribos de verdadeiros guerreiros. É o elogio das academias, dos computadores, dos tecidos e das malhas criadas após anos de pesquisa. A assepsia venceu a lama. Mas da assepsia não se ergue a vida; da lama sim.
Aos poucos, vamos contentando-nos com essa postura tímida, de recuo, de parede. Ficamos esperando a vinda messiânica desse jogo que fluirá para além dos esquemas táticos excessivamente defensivos que se manifesta como um simulacro do que, um dia, nós chamamos de futebol.

sábado, junho 12, 2010

Fogo do Sol, Carne da Lua (ontem e hoje)




Young hearts run free (Valentine´s day)

No Second Troy (W. B. Yeats)


WHY should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great.
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done, being what she is?
Was there another Troy for her to burn?

terça-feira, maio 18, 2010

ANDOR

O amor nos provém de armadilhas
redondilhas, meandros, discussões
é o toque além do seu sabor
mas se me pedes prá ficar, não vou

O amor é deveras traiçoeiro
põe espada onde primeiro era paixão
põe teu sim no meu não, deserto em flor
e se me pedes prá ficar, não vou

O amor por ser mudo, às vezes cala
por ser cego, na mira, às vezes erra
por ser surdo não ouve o coração

Mas o amor por ser tudo, em nós nos fala
por ser luz, abre seus olhos em quimera
por ser nosso, preenche a amplidão

Meu amor me aceite irrestrito
pois meu grito é a véspera do beijo
eu prometo descer do meu andor
e se me pedes prá ficar, não vou
se me pedes prá ficar, não vou
se me peder prá ficar, não vou

domingo, maio 09, 2010

O Som do Meu Medo

Quando passei quarenta dias no deserto
Sentado à margem dos meus medos e desejos
O diabo não me disse nada
Apenas me olhou e seus olhos eram castanhos
Não me ofereceu banquete, talheres de prata em rara cascata
Animais plenos de sabor e doçura enfileirados na oferta à minha língua
Calado ficou a olhar para mim

Não abriu seus dedos e convocou todas as potestades
Não me prometeu revelar a matéria inexata e imperfeita
Que é cimento e areia da coisa fêmea
Não me assegurou qualquer milagre
Sequer tirou uma moeda por detrás da minha orelha

Entre nós não havia o Mundo, apenas o silêncio

O silêncio que é a maior de todas as tentações

quarta-feira, maio 05, 2010

No dia em que fui mais feliz


D.R.

Preciso esquecer você. Como continuar vivendo se nossa relação é o mais sublime dos gozos e a mais dolorosa das torturas? Que homem foi forjado para suportar essa oscilação de sentimentos, ao sabor do inevitável, da sorte, do fortuito? Eu quero fazer o meu leito na racionalidade, dormir nos ombros da segurança, sem a necessidade de prever o futuro, porque o presente está em minhas mãos. Com você, o futuro a deus pertence. Deus é sempre uma incógnita. O presente não diz nada. Eu brigo com meus irmãos, por sua causa. Eu grito na madrugada palavras que nunca pensei em proferir no secreto dos meus medos. Em vão, eu tateio um conforto, uma paz qualquer que assole meu espírito e me mantenha na calmaria da mediocridade. Em vão. Você vem com todo terror e benção de uma tempestade e me deixa lançado ao hiato armado entre o fio da esperança e a lágrima incontida. Você me deixa nu nas hordas do inimigo e armado no seio do meu exército. Você me faz o homem pleno de felicidade mundana e o mais miserável dos mendigos na noite silenciosa dos fogos alheios. Eu preciso esquecer você. Futebol, eu preciso me desapaixonar por você.

sexta-feira, abril 23, 2010


Ou Isto ou Aquilo

Ou Isto ou Aquilo

Cecília Meireles

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Ou Isto ou Aquilo foi o meu primeiro livro de poesia. Ganhei aos quatro anos de idade, quando recitei, na escola, "A Chácara do Chico Bolacha", poema constante do livro. Não sei bem o porquê, mas esse livro me veio na cabeça, hoje.

sábado, março 06, 2010

O QUE SE SABE ACERCA DO AMOR

Araras são aves monogâmicas, mas muito barulhentas
Alguns animais são hermafroditas, isso os mantêm afastados de problemas
O corpo aumenta até um grau durante o ato sexual, independente da frigidez do outro
Se você encostar um estetoscópio no meu peito, ouvirá o corvo de Edgar Alan Poe:
“nunca mais, nunca mais, nunca mais...”

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Despedida


Beijo no dragão

O carnaval no Túmulo do Samba

O carnaval de São Paulo tem peitão. Milhões de litros de silicone espalhados em cada uma das suas musas. O carnaval de São Paulo tem abdômen lipoaspirado, bíceps definido por halteres, botox nas rugas. Tudo nele é falso, é um simulacro do carnaval carioca, construído para dar satisfação aos paulistas e evitar o esvaziamento da cidade no reinado de Momo. Mas o carnaval de São Paulo está na mída que parece acreditar em um mínimo de espontaneidade popular por trás da força da grana que ergue e destrói coisas belas. Não importa para a televisão os folguedos populares dos rincões esquecidos pelas imagens das câmeras. Não importa o maior bloco carnavalesco do mundo. Não importa o samba de roda do recôncavo baiano. Não importa o boi do Maranhão. Os olhos da nação se voltam para a atriz nua que está na novela, para a celebridade imediata que, refletindo o carnaval paulista, construiu-se para aquele segundo de glória, rezando para que a quarta-feira logo chegasse, porque a vocação de máquina traduz o desejo de nunca mais parar.

sábado, fevereiro 13, 2010

Orecic Futebol Clube (2007)

Vamos entrar na Concórdia, quero ver quem vai passar
pois quando o frevo começa, não tem hora prá acabar
me dê a mão que o meu amor não sabe onde estou
e esse cheiro na camisa é o meu motor

No meio da Imperatriz, eu deixei meu coração
no carrossel da avenidas, minha vida vai na contramão
enquanto os homens caem na rua, eu vou me levantar
que a vida não espera o sol raiar

É fevereiro vem, a carne queima, bem
no Orecic tem uma mesa prá sentar

Equece o ano e vem, vem no meu passo, bem
A vida à toa está na mesa desse bar

Vamos entrar na Concórdia, quero ver quem vai passar
pois quando o frevo começa, não tem hora prá acabar
me dê a mão que o meu amor não sabe onde estou
e esse cheiro na camisa é o meu motor

No meio da Imperatriz, eu deixei meu coração
no carrossel da avenidas, minha vida vai na contramão
enquanto os homens caem na rua, eu vou me levantar
que a vida não espera o sol raiar

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

SEGREGAÇÃO NO CARNAVAL E A ALAURSA DE PELÓPIDAS SOARES

Do carnaval de Pernambuco diz-se o mais democrático. Não há cordões de isolamentos como na Bahia, ou arquibancadas como na Marquês de Sapucaí, separando o povo da folia. A tradição pernambucana, noticiam os jornais, está no amálgama de gentes de classes diversas com músicos e bandidos, tudo ao mesmo tempo agora. Quando se erige uma casa patrocínio, um camarote luxuoso, um espaço para poucos, denominado VIP, logo o grito reverso se apresenta clamando pelo carnaval sem preconceito de raça, de credo e, principalmente, de classe social.

Tudo muito falso. Esse carnaval pernambucano tradicionalmente democrático só existe na cabeça de intelectuais e isso a partir da segunda metade do século XX. Que os intelectuais do século XIX, cento matriz da brincadeira moderna, torciam o nariz para o entrudo. O carnaval de rua era o espaço reservado para os forros, para os artesãos que fundavam suas troças homenageando suas funções, como o Vassouras, o Pás, o Carvoeiros, para ficar apenas em alguns.

A elite pernambucana, da aristocracia inventada, ficava nos clubes e nos teatros da capital, imitando o carnaval europeu; em uma Europa, também, inventada.

Os teatros e clubes mimetizaram-se em casas e corsos; os carros do início do século XX faziam as vezes de cordões de isolamento, e o asfalto (ou as pedras portuguesas) nunca chegava a tocar os pés de uma classe média que estava se consolidando. Só com a decadência da classe média e com a casa se aproximando cada vez mais da rua é que vemos surgir um espaço em que convive o saudosismo aristocrático do frevo de bloco com o suor enérgico do frevo de rua. O romantismo intelectual de resistência da segunda metade do século XX fortaleceu a impressão de que o carnaval, em seu nascedouro, é uma festa essencialmente popular.

Para mim, a tradução literária disso que escrevi até aqui: que a segregação (e a negação dela) também faz parte do carnaval está em um belíssimo conto de um dos grandes autores pernambucano (para mim, o maior contista do Brasil), Pelópidas Soares. O conto, denominado Alaursa trata das desventuras de um cortador de cana, feio como o diabo, que supera todas as suas tristezas morais no carnaval, quando se transfigura em uma alaursa e transcende sua triste figura. Paralelamente a esse anti-herói, o autor desenha um quadro aristocrático de uma família natural de Catende, cujo patriarca é um riquíssimo médico, hoje residente no Recife, e que comemora o carnaval em uma fazenda bucólica com uísque escocês e com uma radiola a tocar o frevo mecânico.

Até que um jovem não identificado, mas que deve ser desses jovens românticos da década de sessenta, inflama na aristocracia brincante a idéia de ir até o clube popular da cidade para se misturar com o volksgeist de fevereiro. O patriarca da família acha a idéia horrível, mas é vencido pelo espírito intelectual da juventude. No clube popular, tudo é festa ao redor da alaursa.

A aristocracia bebe e brinca no meio da turba. Entre os aristocratas, está a esposa do médico patriarca, uma jovem senhora educada na Europa, belíssima e moderna; animada com a possibilidade de conhecer, ali, o “verdadeiro” carnaval. Embriagada ela dança com a alaursa. Até que só ficam os dois no meio do salão. O cortador de cana, rejeitado por todas as mulheres, percebe ali uma oportunidade ímpar. Leva-a para um canto longe dos olhos ébrios da multidão e (usarei o termo correto) dá uma senhora trepada com a curiosa cidadã do mundo. Ao cair em si, após o gozo, a esposa do rico médico se depara com a máscara da alaursa e com todo o significado de um carnaval sem amarras, elogio do grotesco. Ela grita e corre desatinada. O cortador de cana dorme como uma criança ao som do frevo a embalar seus sonhos sem amanhã.

Post scriptum 1 – Esse texto não é uma apologia à segregação, mas uma constatação de fato. Pessoalmente, e a partir de uma análise psicossocial do carnaval (ou coisa que o valha), acho que o carnaval só tem sentido na libertação de todas as amarras, incluindo as sociais. Por isso, usamos máscaras. Carnaval com ar condicionado e com garçom será sempre o anti-carnaval.

Post scriptum 2 – Moral da estória: Só brinca carnaval de verdade quem tem coragem de encarar o pau da alaursa

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Por que esse poema sempre encaixa

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

M. Bandeira

terça-feira, janeiro 05, 2010


SAUDAÇÃO A ALVARO DE CAMPOS

Portugal-Desvelado, dezesseis de dezembro de dois mil e nove
Evoé!

Da tua terra eternamente estrangeira, imune à passagem das horas e dos séculos
Saúdo-te, Álvaro, meu torturador feroz, irmanado nas minhas chagas universais
Ó homicida das sensações católicas, engenheiro da obra infinitamente incompleta
Puta de todas as indisposições do sentir
(eu que as sinto nesse grito mudo que dou)
Grande prostituta a dar-se para todos os recôncavos da alma negra
Primeiro de todos os meus mestres que ingressaram a fórceps pelos meus poros

Homem chamado Álvaro ou André, a sair perpetuamente de casa
Repetição homérica de todos os poetas que para o serem
Sangraram as mãos nas cordas firmes das naus sem nomes e se lançaram aos mitos
Ulisses elétrico do século vinte
Predecessor de todas as guerras e ratos que fizeram de cada racionalidade
um impulso elétrico que, em mim, nunca se dissipou.

Eu, com minha face branda e minhas mãos pensas,
Com meu terno roto de tanto porto e navios e pontes e gentes
Venho beijar-te as mãos, como faria com a virgem sempre imaculada
Por reconhecer em ti todas as religiões, mesmo as que foram negadas
E saudar-te como quem saúda um monólito imenso
Que é Deus e carne ao mesmo tempo

Olha, que já vem se prenunciando o grande tempo
E uma orgia de coisas já grita a sua hora: é carnaval, Álvaro, homem de coisas imensas
Vem comigo perder-se na insupeição do homem alheio
Dá-me cá tua mão e teu suor e tua metafísica
Grita, como gritaste do Grande Cais e não sabia onde ias
Que só há verdade em não saber aonde vamos
Deixa-te levar comigo na correnteza dos devaneios
Para que tenhamos mil braços, dezenove mil pernas e nenhum pensamento;
Nenhum, por mais original que seja
Que construiremos nossa identidade na ausência sequer do pensar em nada

Evoé, irmão engenheiro, pelas coisas que sentes
Sou teu irmão porque as sinto também
Roubei-te a coisa real por dentro e a imaginada por fora
(Quantas coisas eu roubo e proclamo-as minhas.
eu mesmo roubado de mim, sou proclamado meu)
Roubei-te mas não faz mal, porque sou o teu irmão
Roubei-te mas não faz mal, porque não sou eu.

Era preciso que eu sofresse dessa febre e cólera
Era preciso que eu estive ciente do meu passo para morte
Para que pudesse cantar este canto como quem rasga o corpo de um inimigo
Um canto trespassado na alma pelos espíritos dos facínoras e dos santos
E já não ser eu mas uma turba logicamente indefinida
A invadir as igrejas e os parlamentos em nome de nada

Ó tu que és nada, homem-Álvaro imenso
És a contracorrente dessa matéria, desse piano de cauda, dessa moça a dar com paus
Estás no meu impulso de lançar-me à transitoriedade
Estás no ponto cego dos retrovisores dos carros a seguir na estrada
Estás na dúvida entre ser Deus e ir à Tabacaria
Estás em mim como uma sífilis que anuncia à cidade os meus pecados

E eu, nu, como as prostitutas rechaçadas dos fins-de-semana
Solitário e circunspeto como cada uma delas
Faço-te festa no universo, irmão Álvaro
Vou buscar-te uma mentira para além da nossa galáxia
A mentira de saber-me aqui a cantar-te isso
De estar sentado em dúvida desse próximo verso
Aguardando minha esposa e ouvindo o banho da minha filha
Eu não sou nada disso
Nunca estive aqui
Esses versos não existem
Como nunca existiu um Álvaro de Campos
E justamente por isso, Evoé!