Isso, que me repudia, o matrimônio
Não entre a carne e a carne, mas a elegia
entre a carne e o aço, eu diria,
entre o touro e o braço à luz do dia
Isso, que me repudia, ou deveria,
causar ânsia de vômitos ou apatia
Dantes me causa um assombro ou uma alegria
De ver em tal casamento a fidalguia
da união carne a carne à luz do dia
O touro, este esposo em fúria, de si avança
Para abraçar sua morte, febril se lança
Que o casamento na arena não guarda a vida
Mas une em antítese a carne a sua própria ferida
Que a arena é da vida a anti-vida, da parte a contra-parte
Onde há a união, mora o aparte
Onde nasce o homem, Deus encontra a morte
Onde encontras teu executor, eis o teu consorte
segunda-feira, março 26, 2007
O Jogo Handke
Quando eu era criança
No tempo que minha janela dava para um pátio de escola
Meus olhos buscavam se fixar em um jogo de bola
Que se repetia sempre no mesmo horário
E eu admirava
Os jovens heróis que saíam do liceu
Davam as costas à cultura e à civilização
E repetiam o desdém de Esparta para com Atenas
Quando eu era criança
No tempo que minha janela dava para um pátio de escola
Meus olhos viam os jovens transcender suas circunstâncias
O tempo parava para saudar o jogo de bola
Ao nosso redor
uma inflação galopante corroia o tutano dos nossos pais
Não havia carne nos supermercados, nem nos nossos dentes
Homens se lançavam de prédios buscando a paz
Quando eu era criança
No tempo em que minha janela dava para um pátio de escola
José se lançava além de José, e tudo que importava era o gol
E eu admirava
Como quem assiste o extermínio de uma Tróia
Como quem é testemunha ocular de uma civilização esquartejada
Como um historiador que encontra um velho soldado
Como o escudeiro do maior de todos os heróis
Ao nosso redor
O povo clamava por eleições diretas
A língua inglesa colonizava as nossas refeições
As favelas mimetizavam a ousadia das marés
A casa com a janela não existe mais
alguém me disse que eu havia crescido
O que foi feito de José e dos outros heróis senão a realidade?
Eu descobri que as coisas aconteciam ao meu redor
As eleições diretas
O mar de favelas
José morto
É esse entorno de mim que me mata
No tempo que minha janela dava para um pátio de escola
Meus olhos buscavam se fixar em um jogo de bola
Que se repetia sempre no mesmo horário
E eu admirava
Os jovens heróis que saíam do liceu
Davam as costas à cultura e à civilização
E repetiam o desdém de Esparta para com Atenas
Quando eu era criança
No tempo que minha janela dava para um pátio de escola
Meus olhos viam os jovens transcender suas circunstâncias
O tempo parava para saudar o jogo de bola
Ao nosso redor
uma inflação galopante corroia o tutano dos nossos pais
Não havia carne nos supermercados, nem nos nossos dentes
Homens se lançavam de prédios buscando a paz
Quando eu era criança
No tempo em que minha janela dava para um pátio de escola
José se lançava além de José, e tudo que importava era o gol
E eu admirava
Como quem assiste o extermínio de uma Tróia
Como quem é testemunha ocular de uma civilização esquartejada
Como um historiador que encontra um velho soldado
Como o escudeiro do maior de todos os heróis
Ao nosso redor
O povo clamava por eleições diretas
A língua inglesa colonizava as nossas refeições
As favelas mimetizavam a ousadia das marés
A casa com a janela não existe mais
alguém me disse que eu havia crescido
O que foi feito de José e dos outros heróis senão a realidade?
Eu descobri que as coisas aconteciam ao meu redor
As eleições diretas
O mar de favelas
José morto
É esse entorno de mim que me mata
quarta-feira, março 21, 2007
Eu te disse...
Aí o Secretário Ariano Suassuna disse que quem escreveu a letra de uma música do Calypso era um "idiota, um imbecil". Eu tinha escrito anteriormente nesse blog que eleger um símbolo para administração da coisa pública poderia dar em má coisa. Sobremodo se esse símbolo é de um hermetismo em relação a formas de expressão artística que não as eleitas por si ou pelos seus.
Longe de mim lançar loas à música do Calypso. As letras são de uma precariedade simbólica que dispensa qualquer comentário mais aprofundado. A música é pobre dos seus arranjos à estrutura melódica. Mas quem sou eu para questionar a legitimidade dessa expressão musical? Sou versado em música? Sim, mas ainda assim não acho que esse fato em particular possa me dar um argumento de autoridade para questionar a legitimidade de uma música (ou de um gênero musical) quando o subconsciente da população está atrelado ao que eu não concordo como técnico.
Quero que fique claro: a crítica é legítima. O Secretário de cultura poderia dizer que esse gênero musical (se é que podemos algutinar as linhas do brega em um gênero) é pobre musicalmente, que suas letras se afastam da criatividade e da arte poética, ou ainda de manifestos inteligentes seja pela manutenção do status quo, seja pela superação do mesmo. O Secretário de cultura poderia sugerir que a população ouça outros gêneros musicais tecnicamente mais próximos do que seria a "bela-arte".
Mas o Secretário de cultura jamais poderia levar sua crítica a um grau de pessoalidade que o faz taxar de imbecil o compositor de uma canção imbecil. Esse discurso não condiz com o discurso de um Secretário de cultura. Condiz com o velho discurso de Ariano Suassuna que sempre elegeu seus requisitos e caminhos para se chegar em um conceito unívoco e válido de "arte". E aqueles que não se filiam a sua ditadura de requisitos e caminhos são idiotas e imbecis.
Longe de mim lançar loas à música do Calypso. As letras são de uma precariedade simbólica que dispensa qualquer comentário mais aprofundado. A música é pobre dos seus arranjos à estrutura melódica. Mas quem sou eu para questionar a legitimidade dessa expressão musical? Sou versado em música? Sim, mas ainda assim não acho que esse fato em particular possa me dar um argumento de autoridade para questionar a legitimidade de uma música (ou de um gênero musical) quando o subconsciente da população está atrelado ao que eu não concordo como técnico.
Quero que fique claro: a crítica é legítima. O Secretário de cultura poderia dizer que esse gênero musical (se é que podemos algutinar as linhas do brega em um gênero) é pobre musicalmente, que suas letras se afastam da criatividade e da arte poética, ou ainda de manifestos inteligentes seja pela manutenção do status quo, seja pela superação do mesmo. O Secretário de cultura poderia sugerir que a população ouça outros gêneros musicais tecnicamente mais próximos do que seria a "bela-arte".
Mas o Secretário de cultura jamais poderia levar sua crítica a um grau de pessoalidade que o faz taxar de imbecil o compositor de uma canção imbecil. Esse discurso não condiz com o discurso de um Secretário de cultura. Condiz com o velho discurso de Ariano Suassuna que sempre elegeu seus requisitos e caminhos para se chegar em um conceito unívoco e válido de "arte". E aqueles que não se filiam a sua ditadura de requisitos e caminhos são idiotas e imbecis.
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
Filie
Trago em mim algo imaculado
Fui justificado perante os séculos
Fui perdoado de todos os meus pecados
Um bom abre meus olhos para quem eu não era:
Pois trago em mim algo imaculado
Parem os bondes, as mortes, o aplauso à criança torturada
Cessem os choros, judias
Cale-se a devastação que sai do útero das máquinas
Desliguem a televisão:
Trago em mim algo imaculado
Abram as portadas da cidade imaginada
Abracem-se os mendigos com os grupos de extermínio
Eu quero uma foto amarelada de magnésio a romper o tempo
Perpetuando essa esperança que se deitou em minha cama:
Trago em mim algo imaculado
Vou despejar a vida como quem segreda a morte
E me farei à imagem de algo que apenas intuo
Adeus palavras, medos, ausências:
Trago em mim algo imaculado
Fui justificado perante os séculos
Fui perdoado de todos os meus pecados
Um bom abre meus olhos para quem eu não era:
Pois trago em mim algo imaculado
Parem os bondes, as mortes, o aplauso à criança torturada
Cessem os choros, judias
Cale-se a devastação que sai do útero das máquinas
Desliguem a televisão:
Trago em mim algo imaculado
Abram as portadas da cidade imaginada
Abracem-se os mendigos com os grupos de extermínio
Eu quero uma foto amarelada de magnésio a romper o tempo
Perpetuando essa esperança que se deitou em minha cama:
Trago em mim algo imaculado
Vou despejar a vida como quem segreda a morte
E me farei à imagem de algo que apenas intuo
Adeus palavras, medos, ausências:
Trago em mim algo imaculado
quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Os animais foram imperfeitos,
compridos de rabo, tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo,
fazendo-se paisagem, adquirindo pintas, graça vôo.
O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro
(Neruda, Ode ao Gato)
terça-feira, janeiro 30, 2007
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Os poemas de Francisco me deixam melancólico, porque traduzem com lâmina exposta a melancolia que habita nele. Esse é o móvel do poema, transcender o particular e alçar a dor alheia sem se dar conta dela. O poema abaixo lembra um poema que eu fiz em circunstâncias que acredito semelhantes as que levaram Francisco ao cinzel tão contundente. E isso sem que houvesse comunicação explícita, apenas porque ele virou letras.
Por descuido cruzei a fronteira.
Vivo estrangeiro em minha casa.
Bagagem revistada.
Íntimo exposto.
Parte impedida de prosseguir.
O peso dos rancores.
As múltiplas máscaras.
Memórias de amor.
Necessário o catálogo da vida.
O inventário de cada item a abandonar.
E lá se vão pedras e mais pedras.
Passos e mais passos.
Estórias.
E lá se vai insensatez. E espera.
E lá se vai tristeza.
No fim, apenas o indispensável.
O retrato do menino de cabelo de milho,
com sua família centenária.
Punhado de lembranças.
Organizadas por épocas.
Convergentes.
Bagagem revisitada.
Caminho exposto.
Parte regressa, parte prossegue.
O estrangeiro de mim se despede.
Fco.
Por descuido cruzei a fronteira.
Vivo estrangeiro em minha casa.
Bagagem revistada.
Íntimo exposto.
Parte impedida de prosseguir.
O peso dos rancores.
As múltiplas máscaras.
Memórias de amor.
Necessário o catálogo da vida.
O inventário de cada item a abandonar.
E lá se vão pedras e mais pedras.
Passos e mais passos.
Estórias.
E lá se vai insensatez. E espera.
E lá se vai tristeza.
No fim, apenas o indispensável.
O retrato do menino de cabelo de milho,
com sua família centenária.
Punhado de lembranças.
Organizadas por épocas.
Convergentes.
Bagagem revisitada.
Caminho exposto.
Parte regressa, parte prossegue.
O estrangeiro de mim se despede.
Fco.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
O que é o mundo, perguntou-me Bia
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Canção do Exílio, 07-08-1969
Se teus olhos estivessem aqui, Maria, veriam que minhas mãos enfim. Despertaram-se das algemas, e hoje sorriem para mim. Mas eu não rio para ninguém, Maria. Decerto por causa do frio.
Um frio que dá aqui dentro, nas cordilheiras dos meus rins. Que começa cá no Chile e sobe para o vidro dos olhos. Procura, procura e nada. Nem Maria, nem consolo, nem diabos, nem querubins. Maria, se você pudesse, ver as minhas mãos libertas, e deixa-las presas em Maria, lágrimas não haveria, nem nos meus olhos nem nos de ninguém. E as flores não morreriam, Maria, e o inverno não mataria, Maria, quem a gente quer bem. Meu passaporte seria a tua palavra. Dirias o que sabes de mim. E falarias de Maria, dos meus pecados, dos meus querubins. E isso me bastaria, não precisava de mãos libertas que hoje despertam enfim.
Maria, se você pudesse ver Santiago do Chile. Teus olhos procurariam os porquês do sabiá. Que não há garrafada de feira nem roda de se cantar. Segurarias meus dedos, com medo de avançar, dentro dessa língua-palato, Maria, e eu iria te acalmar. Contava estórias de sangue, de um tempo que o mar levou. Em que eu vencia bicho grande, Maria, e liberdade ao vencedor. Depois te ensinava a dar cada passo nesta terra estrangeira, pra gente se perder na gente, mas mantendo a alma brasileira. Faríamos feijoada quando chovesse, Maria, e chamaríamos os nossos pares, esvaziaríamos as revoluções, os quintais dos nossos lares, para relembrar que Chico, Maria, lançou um novo LP. Que em Dezembro chega de contrabando e a gente tentando conter, o deslumbramento perante a palavra, Maria, o choro equivocado, Maria, a dor atravessada, Maria, tudo que eu sinto hoje, Maria, e hoje não há você.
Se teus olhos estivessem aqui, Maria, veriam que minhas mãos enfim. Despertaram das algemas. E hoje sorriem para mim. Mas para quê mãos libertas, Maria, se tu não estás aqui? De que me vale um país livre, sem tua boca para me trancar? Meus olhos já se esqueceram dos porquês do sabiá.
A carta de Augusto Carneiro nunca foi enviada à Maria, sua noiva que ficou em Recife, no ano de 1969. Augusto morreu de câncer no Chile em Outubro de 1972. Maria se casou com Hermano Souza Santos, hoje captador de recursos na Fundação de Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife. O amigo chileno de Augusto Carneiro, Juan Remoz, herdou seus pertences pessoais e seu livro nunca terminado, e publicou a carta transcrita acima no “Diario de la Nación” em 08/07/1982. Os leitores reclamaram que não houve tradução para o espanhol.
Se teus olhos estivessem aqui, Maria, veriam que minhas mãos enfim. Despertaram-se das algemas, e hoje sorriem para mim. Mas eu não rio para ninguém, Maria. Decerto por causa do frio.
Um frio que dá aqui dentro, nas cordilheiras dos meus rins. Que começa cá no Chile e sobe para o vidro dos olhos. Procura, procura e nada. Nem Maria, nem consolo, nem diabos, nem querubins. Maria, se você pudesse, ver as minhas mãos libertas, e deixa-las presas em Maria, lágrimas não haveria, nem nos meus olhos nem nos de ninguém. E as flores não morreriam, Maria, e o inverno não mataria, Maria, quem a gente quer bem. Meu passaporte seria a tua palavra. Dirias o que sabes de mim. E falarias de Maria, dos meus pecados, dos meus querubins. E isso me bastaria, não precisava de mãos libertas que hoje despertam enfim.
Maria, se você pudesse ver Santiago do Chile. Teus olhos procurariam os porquês do sabiá. Que não há garrafada de feira nem roda de se cantar. Segurarias meus dedos, com medo de avançar, dentro dessa língua-palato, Maria, e eu iria te acalmar. Contava estórias de sangue, de um tempo que o mar levou. Em que eu vencia bicho grande, Maria, e liberdade ao vencedor. Depois te ensinava a dar cada passo nesta terra estrangeira, pra gente se perder na gente, mas mantendo a alma brasileira. Faríamos feijoada quando chovesse, Maria, e chamaríamos os nossos pares, esvaziaríamos as revoluções, os quintais dos nossos lares, para relembrar que Chico, Maria, lançou um novo LP. Que em Dezembro chega de contrabando e a gente tentando conter, o deslumbramento perante a palavra, Maria, o choro equivocado, Maria, a dor atravessada, Maria, tudo que eu sinto hoje, Maria, e hoje não há você.
Se teus olhos estivessem aqui, Maria, veriam que minhas mãos enfim. Despertaram das algemas. E hoje sorriem para mim. Mas para quê mãos libertas, Maria, se tu não estás aqui? De que me vale um país livre, sem tua boca para me trancar? Meus olhos já se esqueceram dos porquês do sabiá.
A carta de Augusto Carneiro nunca foi enviada à Maria, sua noiva que ficou em Recife, no ano de 1969. Augusto morreu de câncer no Chile em Outubro de 1972. Maria se casou com Hermano Souza Santos, hoje captador de recursos na Fundação de Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife. O amigo chileno de Augusto Carneiro, Juan Remoz, herdou seus pertences pessoais e seu livro nunca terminado, e publicou a carta transcrita acima no “Diario de la Nación” em 08/07/1982. Os leitores reclamaram que não houve tradução para o espanhol.
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Boca
Que se por um lado, a felicitação de estar nos Brasis, por outro, a dor de estar longe da Bahia. Mas as terras de Pernambuco iam de ser iguais, diziam. Risonha ao cetim e amarga à crítica. Gregório chegou onde o Beberibe e o Capibaribe se juntam para formar o Oceano Atlântico. E o povo já conhecia a fama que lhe valeu a alcunha. Por isso, o olhar de soslaio. As damas não olhavam nos seus olhos, por certo advertidas pela sociedade, do pecado que estariam consubstanciando a partir da cruzadela de olhares.
As putas tampouco lhe davam às vezes, advertidas por certo da enorme plausibilidade de serem transformadas em personagem de poemas escandalosos. De mais a mais, o Governo da Província era de tal modo corrupto, que a Metrópole estava a quinhentos mares de distância, como se o abismo geográfico fosse relativo para cada Governo de Capitania.
Mas o que fazer, se pela língua ferina havia sido degredado? E por não escrever, sentiu-se tão estrangeiro, que percebeu o que era claro diante de cada passo dado em falso: o degredo estava em não sibilar através da pena. Que não existe outra pátria para o homem senão o homem que se é e se compraz em o ser. E farto daquela merda toda, inaugurou a cidade de Recife:
Por entre o Beberibe, e o Oceano
Em uma areia sáfia, e lagadiça
Jaz o Recife povoação mestiça,
Que o Belga edificou ímpio tirano.
O Povo é pouco, e muito pouco urbano,
Que vive à mercê de uma linguiça,
Unha de velha insípida enfermiça,
E camarões de charco em todo o ano.
As Damas cortesãs, e por rasgadas
Olhas podridas, são, e pestilências,
Elas com purgações, nunca purgadas.
Que estava farto daquela cidade. Aumentaram a passagem do ônibus e decerto alguém ganharia com aquilo. Havia sido reprovado no vestibular. Era socialista. Anarquista. Ista, ista, ista. Qualquer coisa assim. As mulheres eram todas putas ( e dele dir-se-ia machista), o país não ia para canto algum (e dele dir-se-ia pessimista), minha mãe vai me matar (e dele dir-se-ia fatalista).
Foi quando descobriu uma revolta na Conde da Boa Vista. Revolta popular como acontecia nos livros de história. Contra o aumento da passagem de ônibus. Rumou para lá, e deixou-se pequeno na multidão que crescia. Um brado que crescia em si, contra o aumento, contra as putas, contra alguém que ganhava, contra o vestibular. O ônibus azul era tudo isso. E um ímpeto ancestral que vinha não se sabe da onde, talvez de mil e seiscentos, transformou a mão em pedra, a pedra em arma, o ônibus em alvo. Purgações nunca purgadas. O soco do policial foi na cabeça, e a língua sibilou contra a farda: - Enfia esse cacetete no cu, polícia filha duma puta.
A turba se evadia.
O policial ficou sem reação, pelas palavras gritadas escandalosas e inesquecíveis como se tivessem saído do inferno.
As putas tampouco lhe davam às vezes, advertidas por certo da enorme plausibilidade de serem transformadas em personagem de poemas escandalosos. De mais a mais, o Governo da Província era de tal modo corrupto, que a Metrópole estava a quinhentos mares de distância, como se o abismo geográfico fosse relativo para cada Governo de Capitania.
Mas o que fazer, se pela língua ferina havia sido degredado? E por não escrever, sentiu-se tão estrangeiro, que percebeu o que era claro diante de cada passo dado em falso: o degredo estava em não sibilar através da pena. Que não existe outra pátria para o homem senão o homem que se é e se compraz em o ser. E farto daquela merda toda, inaugurou a cidade de Recife:
Por entre o Beberibe, e o Oceano
Em uma areia sáfia, e lagadiça
Jaz o Recife povoação mestiça,
Que o Belga edificou ímpio tirano.
O Povo é pouco, e muito pouco urbano,
Que vive à mercê de uma linguiça,
Unha de velha insípida enfermiça,
E camarões de charco em todo o ano.
As Damas cortesãs, e por rasgadas
Olhas podridas, são, e pestilências,
Elas com purgações, nunca purgadas.
Que estava farto daquela cidade. Aumentaram a passagem do ônibus e decerto alguém ganharia com aquilo. Havia sido reprovado no vestibular. Era socialista. Anarquista. Ista, ista, ista. Qualquer coisa assim. As mulheres eram todas putas ( e dele dir-se-ia machista), o país não ia para canto algum (e dele dir-se-ia pessimista), minha mãe vai me matar (e dele dir-se-ia fatalista).
Foi quando descobriu uma revolta na Conde da Boa Vista. Revolta popular como acontecia nos livros de história. Contra o aumento da passagem de ônibus. Rumou para lá, e deixou-se pequeno na multidão que crescia. Um brado que crescia em si, contra o aumento, contra as putas, contra alguém que ganhava, contra o vestibular. O ônibus azul era tudo isso. E um ímpeto ancestral que vinha não se sabe da onde, talvez de mil e seiscentos, transformou a mão em pedra, a pedra em arma, o ônibus em alvo. Purgações nunca purgadas. O soco do policial foi na cabeça, e a língua sibilou contra a farda: - Enfia esse cacetete no cu, polícia filha duma puta.
A turba se evadia.
O policial ficou sem reação, pelas palavras gritadas escandalosas e inesquecíveis como se tivessem saído do inferno.
quarta-feira, janeiro 03, 2007
Colo, culto, cultus
Vejo com certa preocupação a indicação de Ariano Suassuna para a pasta da cultura do Governo do Estado de Pernambuco. É de estranhamento essa postura de general que não bota a mão na batalha, mas fica ao longe lançando diretrizes sobre o campo de guerra. Não quer a burocracia, quer linhas gerais. O grande problema do suporte à cultura é a burocracia. Ariano Suassuna tem entrado em choque com algumas das idéias mais interessantes que permearam a cultura pernambucana; Seu confete é em si mesmo, no movimento armorial e nos seus seguidores. Qualquer estética que fuja do padrão do popular/erudito, baseado na junção do medievo ocidental com a cultura da pedra, para ele é sub-cultura, quando muito.
É contra a colonização da cultura, e parece ignorar que culto, cultura e colonização partem da mesma raiz etimológica latina, e que há uma violência necessária na renovação cultural. A exclusão de movimentos como o que se convencionou a chamar de "mangue-beat", do som periférico do rap e de outras formas de expressão cultural surgidas a partir de uma dialética com o mundo (e com os Estados Unidos, porque não dizer...) possui um motor ideológico que não se irmana com uma política pública voltada para a valorização da cultura. Mas esse é o Ariano Suassuna das idéias. Será que o homem público, o gestor da res publica, vai abstrair os pré-conceitos e transcender as exclusões baseadas no seu quixotismo tão engraçado se não levado a sério?
É contra a colonização da cultura, e parece ignorar que culto, cultura e colonização partem da mesma raiz etimológica latina, e que há uma violência necessária na renovação cultural. A exclusão de movimentos como o que se convencionou a chamar de "mangue-beat", do som periférico do rap e de outras formas de expressão cultural surgidas a partir de uma dialética com o mundo (e com os Estados Unidos, porque não dizer...) possui um motor ideológico que não se irmana com uma política pública voltada para a valorização da cultura. Mas esse é o Ariano Suassuna das idéias. Será que o homem público, o gestor da res publica, vai abstrair os pré-conceitos e transcender as exclusões baseadas no seu quixotismo tão engraçado se não levado a sério?
terça-feira, janeiro 02, 2007
Cê
Expectativa de ouvir o Cê de Caetano. Confesso que havia lido algumas coisas antes da audição, o que só aumentava minha expectativa de adentrar em um universo de contestação, que é próprio de Caetano Veloso, e que venho acompanhando com uma certa delícia, desde quando ouvi - pela primeira vez, e tardiamente - o primeiro disco contemporâneo à aquisição, Circuladô (1992).
Caetano foi o responsável pela minha frustração de querer ser músico. Por isso, sempre haverá em mim uma simpatia por ele, o que me impede de escrever algo sobre o novo disco de forma imparcial. Acredito, todavia, que ninguém é imparcial quando fala de Caetano. Ninguém é imune a ele, para o bem ou para o mal.
E falo "mal" porque longe de ser uma unanimidade, como sói ocorrer com Chico Buarque (seu ser antagônico no imaginário do público brasileiro), Caetano é um dos compositores (e, sim, direi pensadores da cultura brasilera) que mais tem recebido tapas na cara dada à tapas. A geração imediatamente posterior à minha tem em Caetano um inimigo do novo, da cultura produzida no Brasil após o ocaso do que se chamava de "MPB". Por isso, Caetano é hoje o mais indie dos indies do Brasil . Ele é independente dos modismos que assolam a música, porque muito do que ele fizer será odiado pelo nicho consumidor do pop que ele mesmo ajudou a trazer para a cultura do país.
E é pelo fato de Caetano ser um índio-indie (perca o texto, mas não perca a piada) e assim ser taxado pelo próprio David Byrne que o Cê se torna um objeto delicioso para uma análise de blog.
Caetano se juntou com três meninos. A primeira impressão que se tem do disco é que não houve nenhuma reformulação no jeito de compor ou na estrutura linguística que é usual nas suas composições ("totais", "fatais" - utilizadas com ênfase em Rocks, típicas aliterações como o"Ganesh na coxa" na mesma música ou em "Um Sonho", o tema da absorção do negro da sociedade que foi um dos móveis de "Noites do Norte" disco autoral anterior), mas uma embalagem (não quero usar esse termo...) "antenada" com a música produzida no final da década de 80 pelas bandas que preparam o contexto do movimento independente que assola, atualmente, a cultura de massas. Assim, ecos do REM (principalmente do "New Adventures in Hi-Fi), do Pixies emolduram músicas bastante caetanas, que logo serão reconhecidas por aqueles que militam na obra do agora "Senhorito Veloso".
A segunda impressão tem ligação com o adjetivo lançado na última frase. Caetano repete um padrão que eu já havia observado em "Bicho Solto" do Djavan. Solteiro, pós-Paulinha, Caetano parece buscar o prazer do sexo pelo sexo, do amor adolescente-solar, sem coração e com muita mucosa. Esse "estado de coisas" teria levado à escolha do rock cru e bruto como moldura das suas canções? Ou houve uma escolha racional desse tema a partir da eleição do rock como moldura ainda vazia? Sem respostas para o paradoxo Tostines.
A terceira impressão tem ligações com o roxo da capa, cor que o próprio Caetano havia utilizado para a capa de "Uns". O roxo é ligado tradicionalmente à masculinidade e ao prazer, ou à metáfora da cor da pele mais escura. Tenho em mim que Caetano usou o roxo por ambas significações. As letras das músicas de "Deusa Urbana" e "Outro" sopram nos meus ouvidos essas impressões.
Assim, temos a tríade que Caetano nos imprime: rock-sexo-roxo. Um projeto na contra-mão das expectativas que não deveria nos surpreender vindo de Caetano Veloso, homem-velho-novo-homem que sempre se utilizou do inesperado para se lançar no mundo. Sempre esperamos o inesperado de Caetano Veloso; e isso basta para que ouçamos com atenção a Cê e reconheçamos Caetano quando ele passar por nós.
Expectativa de ouvir o Cê de Caetano. Confesso que havia lido algumas coisas antes da audição, o que só aumentava minha expectativa de adentrar em um universo de contestação, que é próprio de Caetano Veloso, e que venho acompanhando com uma certa delícia, desde quando ouvi - pela primeira vez, e tardiamente - o primeiro disco contemporâneo à aquisição, Circuladô (1992).
Caetano foi o responsável pela minha frustração de querer ser músico. Por isso, sempre haverá em mim uma simpatia por ele, o que me impede de escrever algo sobre o novo disco de forma imparcial. Acredito, todavia, que ninguém é imparcial quando fala de Caetano. Ninguém é imune a ele, para o bem ou para o mal.
E falo "mal" porque longe de ser uma unanimidade, como sói ocorrer com Chico Buarque (seu ser antagônico no imaginário do público brasileiro), Caetano é um dos compositores (e, sim, direi pensadores da cultura brasilera) que mais tem recebido tapas na cara dada à tapas. A geração imediatamente posterior à minha tem em Caetano um inimigo do novo, da cultura produzida no Brasil após o ocaso do que se chamava de "MPB". Por isso, Caetano é hoje o mais indie dos indies do Brasil . Ele é independente dos modismos que assolam a música, porque muito do que ele fizer será odiado pelo nicho consumidor do pop que ele mesmo ajudou a trazer para a cultura do país.
E é pelo fato de Caetano ser um índio-indie (perca o texto, mas não perca a piada) e assim ser taxado pelo próprio David Byrne que o Cê se torna um objeto delicioso para uma análise de blog.
Caetano se juntou com três meninos. A primeira impressão que se tem do disco é que não houve nenhuma reformulação no jeito de compor ou na estrutura linguística que é usual nas suas composições ("totais", "fatais" - utilizadas com ênfase em Rocks, típicas aliterações como o"Ganesh na coxa" na mesma música ou em "Um Sonho", o tema da absorção do negro da sociedade que foi um dos móveis de "Noites do Norte" disco autoral anterior), mas uma embalagem (não quero usar esse termo...) "antenada" com a música produzida no final da década de 80 pelas bandas que preparam o contexto do movimento independente que assola, atualmente, a cultura de massas. Assim, ecos do REM (principalmente do "New Adventures in Hi-Fi), do Pixies emolduram músicas bastante caetanas, que logo serão reconhecidas por aqueles que militam na obra do agora "Senhorito Veloso".
A segunda impressão tem ligação com o adjetivo lançado na última frase. Caetano repete um padrão que eu já havia observado em "Bicho Solto" do Djavan. Solteiro, pós-Paulinha, Caetano parece buscar o prazer do sexo pelo sexo, do amor adolescente-solar, sem coração e com muita mucosa. Esse "estado de coisas" teria levado à escolha do rock cru e bruto como moldura das suas canções? Ou houve uma escolha racional desse tema a partir da eleição do rock como moldura ainda vazia? Sem respostas para o paradoxo Tostines.
A terceira impressão tem ligações com o roxo da capa, cor que o próprio Caetano havia utilizado para a capa de "Uns". O roxo é ligado tradicionalmente à masculinidade e ao prazer, ou à metáfora da cor da pele mais escura. Tenho em mim que Caetano usou o roxo por ambas significações. As letras das músicas de "Deusa Urbana" e "Outro" sopram nos meus ouvidos essas impressões.
Assim, temos a tríade que Caetano nos imprime: rock-sexo-roxo. Um projeto na contra-mão das expectativas que não deveria nos surpreender vindo de Caetano Veloso, homem-velho-novo-homem que sempre se utilizou do inesperado para se lançar no mundo. Sempre esperamos o inesperado de Caetano Veloso; e isso basta para que ouçamos com atenção a Cê e reconheçamos Caetano quando ele passar por nós.
Feliz Ano Novo
Enfant Tèrrible
Esse ano-menino
me roubou um beijo
abriu a porta da geladeira
para ver o que lá havia
Desdenhou do que eu havia escrito:
“Está tudo velho”
e soprou um rock em meus ouvidos
Esse ano-menino
passou a mão em meus cabelos
me chamou de pai, de tio, de avô
Em meu colo chorou
o choro dos que nascem para o mundo
e que deixam a vida inflamar os pulmões
Esse ano-menino
dormiu cansado no sofá da sala
ainda do primeiro dia do ano
Aguardando que eu vá mima-lo,
contar-lhe histórias do futuro
para que ele possa se sonhar um ano bom
Esse ano-menino
me roubou um beijo
abriu a porta da geladeira
para ver o que lá havia
Desdenhou do que eu havia escrito:
“Está tudo velho”
e soprou um rock em meus ouvidos
Esse ano-menino
passou a mão em meus cabelos
me chamou de pai, de tio, de avô
Em meu colo chorou
o choro dos que nascem para o mundo
e que deixam a vida inflamar os pulmões
Esse ano-menino
dormiu cansado no sofá da sala
ainda do primeiro dia do ano
Aguardando que eu vá mima-lo,
contar-lhe histórias do futuro
para que ele possa se sonhar um ano bom
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Feliz Natal
Qualquer coisa que se escreva sobre o natal
vira um enorme clichê
então, fala o Rei David:
"Bendito seja o Senhor que de dia em dia nos carrega de benefícios
O Deus da nossa salvação"
(salmo 68)
Ps - não virei evagangélico :)
vira um enorme clichê
então, fala o Rei David:
"Bendito seja o Senhor que de dia em dia nos carrega de benefícios
O Deus da nossa salvação"
(salmo 68)
Ps - não virei evagangélico :)
quinta-feira, dezembro 14, 2006
O Jovem Gilberto Freyre ou A Invenção do Brasil (chorinho)
Essa mulata, quando pisa no terreiro
ilumina um povo inteiro
dentro do meu coração
E vou traçando - em suas pernas - novas rotas
como quem suave aporta
em um porto em formação
Essa cabrocha de gostinho brasileiro
me concede o corpo inteiro
para eu entender a minha mãe
Vai tatuando em minha pele um novo Estado
que emerge inventado
na ante-sala das manhãs
Se ela vive entre as estrelas
Se ela é meu grande amor
Ah, minha cabrocha,
Flor do mundo, minha flor
Ela vem me dar um beijo
reconstrói minha raiz
abro os meus braços
e abraço o meu País.
ilumina um povo inteiro
dentro do meu coração
E vou traçando - em suas pernas - novas rotas
como quem suave aporta
em um porto em formação
Essa cabrocha de gostinho brasileiro
me concede o corpo inteiro
para eu entender a minha mãe
Vai tatuando em minha pele um novo Estado
que emerge inventado
na ante-sala das manhãs
Se ela vive entre as estrelas
Se ela é meu grande amor
Ah, minha cabrocha,
Flor do mundo, minha flor
Ela vem me dar um beijo
reconstrói minha raiz
abro os meus braços
e abraço o meu País.
terça-feira, dezembro 12, 2006
Estorinha para Bia :)
De um a oito estava tudo dominado. O mundo estava ali. Fechava os olhos e colocava os braços no muro: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito; e os mistérios do mundo, a matriz dos anjos, o porquê da lesma: estava tudo ali, no oito.
Mas chegou sua mãe. Depois do oito tem o quê, Bia? Bia não sabia responder.Existia algo mais para saber? Algo além do que tudo aquilo que ela sabia? Era assim, de um ao oito. Mas não era, sorria sua mãe. Com uma singeleza cruel dos emissários do Misterioso disse: depois do oito, vem o nove.
Nove? O que é o nove que eu não conheço? E se depois do nove vier algo novo? De repente, os anjos voaram, o mundo alargou, a lesma virou algo indefinidamente complexo. No nove, Bia havia crescido.
Mas chegou sua mãe. Depois do oito tem o quê, Bia? Bia não sabia responder.Existia algo mais para saber? Algo além do que tudo aquilo que ela sabia? Era assim, de um ao oito. Mas não era, sorria sua mãe. Com uma singeleza cruel dos emissários do Misterioso disse: depois do oito, vem o nove.
Nove? O que é o nove que eu não conheço? E se depois do nove vier algo novo? De repente, os anjos voaram, o mundo alargou, a lesma virou algo indefinidamente complexo. No nove, Bia havia crescido.
segunda-feira, dezembro 04, 2006
Crítica de documentário e poema
Aí, deu-se que ontem eu estava assistindo a um documentário sobre João Cabral de Melo que abordava sua relação com a Espanha. Com Sevilha. Um cheiro de taco subiu pela sala e eu fiquei vermelho. Via por causa do poeta ou era Sevilha que prendia meus olhos dormentes pelo domingo que ia? Mas era possível separar João Cabral de Melo Neto de Sevilha?
Enchemos a boca para adjetivá-lo pernambucano, com os orgulhos que prezamos desde nossa gênese, mas João Cabral de Melo Neto não era pernambucano. Era de Sevilha.
De Sevilha porque não somos de onde nascemos, somos (pertença) de onde somos (existência). De onde nos descobrimos. Há uma pátria oculta em nós, que se aparta - tanta vezes - da nossa geografia e que irrompe quando a inexatidão do solo se equaliza em uma viagem e aí dizemos: é aqui que eu sou.
Eu sou de Recife. E já estive em tantos lugares. Mas em qualquer lugar do Mundo, eu trajo esse mar de mortes e esse povo mambembe que come caju. Acontece que minha pátria oculta coincide com a geografia plantada sob meus pés, para o bem ou para o mal.
Mas do documentário, deixai que o diga: a parte que me fez rir à beça é essa. Quando João Cabral - em depoimento - rememoria um acontecido na casa do embaixador na Suíça, quando do auge da Bossa Nova. O amigo Vinícius de Moraes cantava baixinhos coisas lindas: "o coração, o coração, ah, o coração..." E João Cabral lá do fundo: "Vinícius, você não tem outra víscera para cantar não? Se não for de amor tu não sabes né?..."Para gargalhada geral, inclusive a minha.
E aí entra a filha de João Cabral lembrando do que o pai dizia: "minha filha, devemos fazer poemas sobre o copo d´água". Ofício difícil esse. Belo documentário.
POEMA DE COISA POUCA
Um copo d´água:
paz da carne que suor transpira
sossego da saliva
que irmanada nas líquidas víceras da coisa translúcida
adentra infinita na seca da boca
e renova a vida
Enchemos a boca para adjetivá-lo pernambucano, com os orgulhos que prezamos desde nossa gênese, mas João Cabral de Melo Neto não era pernambucano. Era de Sevilha.
De Sevilha porque não somos de onde nascemos, somos (pertença) de onde somos (existência). De onde nos descobrimos. Há uma pátria oculta em nós, que se aparta - tanta vezes - da nossa geografia e que irrompe quando a inexatidão do solo se equaliza em uma viagem e aí dizemos: é aqui que eu sou.
Eu sou de Recife. E já estive em tantos lugares. Mas em qualquer lugar do Mundo, eu trajo esse mar de mortes e esse povo mambembe que come caju. Acontece que minha pátria oculta coincide com a geografia plantada sob meus pés, para o bem ou para o mal.
Mas do documentário, deixai que o diga: a parte que me fez rir à beça é essa. Quando João Cabral - em depoimento - rememoria um acontecido na casa do embaixador na Suíça, quando do auge da Bossa Nova. O amigo Vinícius de Moraes cantava baixinhos coisas lindas: "o coração, o coração, ah, o coração..." E João Cabral lá do fundo: "Vinícius, você não tem outra víscera para cantar não? Se não for de amor tu não sabes né?..."Para gargalhada geral, inclusive a minha.
E aí entra a filha de João Cabral lembrando do que o pai dizia: "minha filha, devemos fazer poemas sobre o copo d´água". Ofício difícil esse. Belo documentário.
POEMA DE COISA POUCA
Um copo d´água:
paz da carne que suor transpira
sossego da saliva
que irmanada nas líquidas víceras da coisa translúcida
adentra infinita na seca da boca
e renova a vida
terça-feira, novembro 21, 2006
O Homem Casado
Quando eu era pequeno, habitava em mim um Deus grande
E eu pedia ao Deus grande, grandes coisas:
Aeroplanos, eternidades, consolo quase sempre para as coisas inconsoláveis
Diamantes incrustados nas coisas que eu fazia e farei
Mas eu cresci, e esse Deus foi ficando pequenininho
Deus de coisas pequenas
Nem notei esse fato e pedi a ele a solução de todas as coisas
E Deus respondeu:
- De que lhe adianta a resolução de todas as coisas se tua sala não tem sofá?
Bendito seja o Senhor que se me fez pequenininho
E eu pedia ao Deus grande, grandes coisas:
Aeroplanos, eternidades, consolo quase sempre para as coisas inconsoláveis
Diamantes incrustados nas coisas que eu fazia e farei
Mas eu cresci, e esse Deus foi ficando pequenininho
Deus de coisas pequenas
Nem notei esse fato e pedi a ele a solução de todas as coisas
E Deus respondeu:
- De que lhe adianta a resolução de todas as coisas se tua sala não tem sofá?
Bendito seja o Senhor que se me fez pequenininho
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