Tem virado costume nas manhãs de sábado
No quieto do meu quarto, a presença
Da Musa, da Primavera e da Cotovia
Que na beira do meu leito a repetir
Sempre a mesma ladainha
Convidam o que dorme a domar o mundo
E fazer do mundo desperto uma poesia
Mas eu nem abro o olho e permaneço
Nessa ociosidade permitida pela apatia
Deixem o mundo ser mundo por si mesmo
Não me encham o saco, Musa, Primavera, Cotovia
O mundo não precisa de mim, é isso que penso
Nem o mundo precisa de poesia
Já há poetas demais a serem despertados
Pois no silêncio do meu quarto abandonado
Despovoado de sonhos, de cantos e alegoria
Fecho os meus olhos em direção as minhas pálpebras
E enxoto do sábado, a Musa, a Primavera e a Cotovia
segunda-feira, agosto 20, 2007
ORECIC
Há uma demanda dos que me cercam direta ou indiretamente pelo significado de um boteco perdido no fim de uma rua desapercebida chamado ORECIC. A curiosidade é despertada toda vez que eu tracejo: “Vou ao ORECIC”, ou, de uma maneira mais gostosa, “Vou tomar uma no ORECIC”. A resposta é automática em todos os casos: “o que diabos é o ORECIC?”.
Ao explicar de maneira rápida e sem muitos detalhes que o ORECIC é o bar onde eu me reúno com os meus comparsas nas tardes do sábado, um mito inexplicável é criado. Para tantos e tantos, o ORECIC é um diamante incrustado no alheio dos que buscam os bares da moda; um cantinho familiar onde uma comida com tempero inenarrável é preparada, onde a cerveja é geladíssima, onde, às quintas, Cartola, Paulinho da Viola e Chico Buarque fazem uma roda de samba, e Camila Pitanga pega um avião completamente disfarçada só para sentar ao lado da gente e compartilhar da espuma do chopp geladíssimo vindo diretamente do Capela no Rio de Janeiro.
O ORECIC pode ainda ser um reduto gastronômico para iniciados, onde acepipes conservados em receitas familiares pernambucanas de gerações ancestrais permanecem inalteradas pela mão de ferro de uma grande cozinheira.
Muitos pedem para ir lá. Querem compartilhar do mistério que parece existir nessa palavra incompreensível, nessa mitologia que se alimenta das poucas palavras e do imaginário que rodeia essa instituição universal do ser humano: o bar.
Mas eu mantenho guardado a sete chaves esse meu assento sagrado, ainda que o ORECIC não seja nada disso, mas tão somente um lugar onde nos despimos de todas as convenções, gravatas, letras, gramáticas, físicas, matemáticas, sistemas, engenharias, bancos, automações. Onde somos reis de uma terra inóspita e nos orgulhamos do nossos títulos de digníssimos filhas de uma puta.
Ao explicar de maneira rápida e sem muitos detalhes que o ORECIC é o bar onde eu me reúno com os meus comparsas nas tardes do sábado, um mito inexplicável é criado. Para tantos e tantos, o ORECIC é um diamante incrustado no alheio dos que buscam os bares da moda; um cantinho familiar onde uma comida com tempero inenarrável é preparada, onde a cerveja é geladíssima, onde, às quintas, Cartola, Paulinho da Viola e Chico Buarque fazem uma roda de samba, e Camila Pitanga pega um avião completamente disfarçada só para sentar ao lado da gente e compartilhar da espuma do chopp geladíssimo vindo diretamente do Capela no Rio de Janeiro.
O ORECIC pode ainda ser um reduto gastronômico para iniciados, onde acepipes conservados em receitas familiares pernambucanas de gerações ancestrais permanecem inalteradas pela mão de ferro de uma grande cozinheira.
Muitos pedem para ir lá. Querem compartilhar do mistério que parece existir nessa palavra incompreensível, nessa mitologia que se alimenta das poucas palavras e do imaginário que rodeia essa instituição universal do ser humano: o bar.
Mas eu mantenho guardado a sete chaves esse meu assento sagrado, ainda que o ORECIC não seja nada disso, mas tão somente um lugar onde nos despimos de todas as convenções, gravatas, letras, gramáticas, físicas, matemáticas, sistemas, engenharias, bancos, automações. Onde somos reis de uma terra inóspita e nos orgulhamos do nossos títulos de digníssimos filhas de uma puta.
segunda-feira, agosto 06, 2007
Fazer anos
Deu-se que fiz anos antes da data do meu aniversário.
Padecendo da febre da dengue (e porque não sei ficar fora da moda), sentei-me na poltrona e fiz a única coisa possível para quem sente o corpo como se fosse um estorvo: fiquei imóvel, assistindo televisão. Para minha grata surpresa, a providência teve pena de mim e determinou que o canal “Telecine Cult” passasse “Roma de Fellini” para que eu pudesse esquecer um pouco das minhas fraquezas (eu gosto de pensar assim: a providência olhou para André e...). “Roma” é um filme belíssimo, com uma peculiar indefinição entre o documentário e a ficção, mas totalmente pensado através das percepções de Frederico Fellini sobre Roma, cidade que o contextualiza. Ao longo do filme, Fellini e Roma se misturam como personagens principais dentro da homenagem pintada com tintas impressionistas.
Sentado na minha poltrona pude entender que apenas quem sente o peso dos anos, dentro de um contexto de cidade poderia fazer uma homenagem como aquela. Não apenas uma homenagem à Roma, mas uma homenagem a si mesmo, como homem que compreende a cidade e as circunstâncias histórias que o cercam. Perder-se no seu contexto histórico é uma forma de se eternizar.
Ali, vendo aquela homenagem de Fellini à Roma, lembrei-me de uma viagem que fiz quando ainda tinha dezenove anos de idade. A Europa comemorava o centenário do cinema. Em Roma, entrei em uma exposição sobre Fellini e encontrei-me com o figurino utilizado por ele no filme que comento. Filme que só assistiria mais de uma década depois, padecendo da dengue.
Ao lembrar daquele instante no passado, vendo os mesmos figurinos observados ao vivo tanto tempo atrás, abriu-se uma janela imaginária na minha sala, e eu pude ver aquele jovem que eu era quando possuía vinte anos. Todas as escolhas que eu já fiz hoje ainda sequer eram pensamentos na minha cabeça e tudo estava impregnado de uma flexibilidade que não existe mais. Flexibilidade de moldar a vida de acordo com a vontade.
Como se pudesse perceber minha presença observadora, o jovem que eu fui olhou para mim e deu um sorriso do canto da boca, em respeito ao que sou. A imagem se desfez e o filme prosseguiu. Naquele momento eu havia feito 32 anos de idade.
Padecendo da febre da dengue (e porque não sei ficar fora da moda), sentei-me na poltrona e fiz a única coisa possível para quem sente o corpo como se fosse um estorvo: fiquei imóvel, assistindo televisão. Para minha grata surpresa, a providência teve pena de mim e determinou que o canal “Telecine Cult” passasse “Roma de Fellini” para que eu pudesse esquecer um pouco das minhas fraquezas (eu gosto de pensar assim: a providência olhou para André e...). “Roma” é um filme belíssimo, com uma peculiar indefinição entre o documentário e a ficção, mas totalmente pensado através das percepções de Frederico Fellini sobre Roma, cidade que o contextualiza. Ao longo do filme, Fellini e Roma se misturam como personagens principais dentro da homenagem pintada com tintas impressionistas.
Sentado na minha poltrona pude entender que apenas quem sente o peso dos anos, dentro de um contexto de cidade poderia fazer uma homenagem como aquela. Não apenas uma homenagem à Roma, mas uma homenagem a si mesmo, como homem que compreende a cidade e as circunstâncias histórias que o cercam. Perder-se no seu contexto histórico é uma forma de se eternizar.
Ali, vendo aquela homenagem de Fellini à Roma, lembrei-me de uma viagem que fiz quando ainda tinha dezenove anos de idade. A Europa comemorava o centenário do cinema. Em Roma, entrei em uma exposição sobre Fellini e encontrei-me com o figurino utilizado por ele no filme que comento. Filme que só assistiria mais de uma década depois, padecendo da dengue.
Ao lembrar daquele instante no passado, vendo os mesmos figurinos observados ao vivo tanto tempo atrás, abriu-se uma janela imaginária na minha sala, e eu pude ver aquele jovem que eu era quando possuía vinte anos. Todas as escolhas que eu já fiz hoje ainda sequer eram pensamentos na minha cabeça e tudo estava impregnado de uma flexibilidade que não existe mais. Flexibilidade de moldar a vida de acordo com a vontade.
Como se pudesse perceber minha presença observadora, o jovem que eu fui olhou para mim e deu um sorriso do canto da boca, em respeito ao que sou. A imagem se desfez e o filme prosseguiu. Naquele momento eu havia feito 32 anos de idade.
segunda-feira, julho 23, 2007
Shylock e eu
Compartilho com Shylock essa resignação. Entendemo-nos com os olhos que algo natural mas singelamente revolucionário acomete nós dois. Tal indigesta compreensão se deu na última visita de Shylock à veterinária, quando a sentença foi proferida: “Shylock não é mais um jovem, ele precisa de comida para gatos maduros castrados”. Essa sentença não foi apenas para o meu gato. Foi para mim também. Naquele momento, ao olhar Shylock como um ser vulnerável ao tempo, percebi que estava – do mesmo modo – na metade da vida expectável para uma criatura urbana, que já nasceu, que já cresceu e que não possui novas formas verbais para descrever o percurso da vida até a chegada da indesejada das gentes. Nel mezzo del cammin di nostra vita.
Eu e Shylock somos dois maduros castrados. Shylock é castrado no sexo. Eu sou castrado no transborde da vida. Shylock foi castrado para não destruir a casa em busca de uma fêmea. Eu fui castrado para me tornar exatamente aquilo que a sociedade pede de um macho maduro: provedor, obrigado, circunspeto.
Shylock não consegue mais subir na mesa. Eu ando me esquecendo de compromissos. Shylock não dá três passos sem parar e suspirar. Eu não tomo ações sem pensar nelas cinco a seis vezes (riscos e derivativos). Shylock não tem mais paciência para tomar banho. Eu também não.
Toda vez que sento no sofá, ele se aninha perto de mim, como se dissesse: “E aí, irmão, vamos fazer o quê nesse primeiro dia do resto de nossas vidas?” Eu olho para ele com alguma esperança e digo: “Ora, Shylock, foi justamente nesse momento que Virgílio apareceu para Dante e o levou para conhecer o infinito; foi justamente nesse momento que a máquina do Mundo se abriu para Carlos Drummond de Andrade. Quem sabe não nos aparece algo que o valha?” Ele suspira meio incrédulo e fica aguardando algo que nos contamine de vida.
Enquanto isso, no silêncio além de nós, Maria Eduarda dorme no ventre da mãe.
Eu e Shylock somos dois maduros castrados. Shylock é castrado no sexo. Eu sou castrado no transborde da vida. Shylock foi castrado para não destruir a casa em busca de uma fêmea. Eu fui castrado para me tornar exatamente aquilo que a sociedade pede de um macho maduro: provedor, obrigado, circunspeto.
Shylock não consegue mais subir na mesa. Eu ando me esquecendo de compromissos. Shylock não dá três passos sem parar e suspirar. Eu não tomo ações sem pensar nelas cinco a seis vezes (riscos e derivativos). Shylock não tem mais paciência para tomar banho. Eu também não.
Toda vez que sento no sofá, ele se aninha perto de mim, como se dissesse: “E aí, irmão, vamos fazer o quê nesse primeiro dia do resto de nossas vidas?” Eu olho para ele com alguma esperança e digo: “Ora, Shylock, foi justamente nesse momento que Virgílio apareceu para Dante e o levou para conhecer o infinito; foi justamente nesse momento que a máquina do Mundo se abriu para Carlos Drummond de Andrade. Quem sabe não nos aparece algo que o valha?” Ele suspira meio incrédulo e fica aguardando algo que nos contamine de vida.
Enquanto isso, no silêncio além de nós, Maria Eduarda dorme no ventre da mãe.
quarta-feira, julho 18, 2007
O poema olha para a vida
Vivo
meu instante final e é como
se vivesse há muitos anos
antes e depois de hoje,
uma contínua vida irrefrável,
onde não houvesse pausas, sonos,
tão macia na noite é esta máquina e tão facilmente ela corta
blocos cade vaz maiores de ar.
Sou vinte na máquina
que suavemente respira,
entre placas estelares e remotos sopros de terra,
sinto-me natural a milhares de metro de altura,
nem ave nem mito,
guardo consciência de meus poderes,
e sem mistificação eu vôo,
sou um corpo voante e conservo bolsos, relógios, unhas,
ligado à terra pela memória e pelo costume dos músculos,
carne em breve explodindo.
Ó brancura, serenidade sob a violência
da morte sem aviso prévio,
cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico
golpe vibrado no ar, lâmina de ventono pescoço, raio
choque estrondo fulguração
rolamos pulverizados
caio verticalmente e me transformo em notícia.
(Morte no Avião - Carlos Drummond de Andrade)
meu instante final e é como
se vivesse há muitos anos
antes e depois de hoje,
uma contínua vida irrefrável,
onde não houvesse pausas, sonos,
tão macia na noite é esta máquina e tão facilmente ela corta
blocos cade vaz maiores de ar.
Sou vinte na máquina
que suavemente respira,
entre placas estelares e remotos sopros de terra,
sinto-me natural a milhares de metro de altura,
nem ave nem mito,
guardo consciência de meus poderes,
e sem mistificação eu vôo,
sou um corpo voante e conservo bolsos, relógios, unhas,
ligado à terra pela memória e pelo costume dos músculos,
carne em breve explodindo.
Ó brancura, serenidade sob a violência
da morte sem aviso prévio,
cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico
golpe vibrado no ar, lâmina de ventono pescoço, raio
choque estrondo fulguração
rolamos pulverizados
caio verticalmente e me transformo em notícia.
(Morte no Avião - Carlos Drummond de Andrade)
quarta-feira, julho 11, 2007
CONCÍLIO VATICANO
Por decreto papal fica assim determinado
que Cristo não pode jamais se transformar em elefante
visitar a Índia e se compadecer das castas
não poderá adotar o nome de Shiva
Por decreto de Sua Santidade, o Papa
fica Cristo proibido de festejar nos terreiros
de aparecer vestido de branco e comer pipoca
com seus pares. Que ele não se chama Oxalá
e Oxalá é coisa dos negros
Que esteja ressaltado, nos termos dessa norma
que estão fora do benefício da piedade
proibidos de comungar da face concedida
apartados do sacrifício final
os protestantes, porque protestam
E assim determinou o Papa, nesse Concílio ensimesmado
que Cristo ande na linha
que seja fiel com seus ministros
nada de sorrir para quem não vai à missa
ou ensinar filosofia nas universidades
Cristo tem que ficar
pendurado no seu lugar por direito
crucificado eternamente
eternamente dolorido
lá na igreja católica, o monopólio do menino
que achava que tinha vindo ao mundo para todos
que Cristo não pode jamais se transformar em elefante
visitar a Índia e se compadecer das castas
não poderá adotar o nome de Shiva
Por decreto de Sua Santidade, o Papa
fica Cristo proibido de festejar nos terreiros
de aparecer vestido de branco e comer pipoca
com seus pares. Que ele não se chama Oxalá
e Oxalá é coisa dos negros
Que esteja ressaltado, nos termos dessa norma
que estão fora do benefício da piedade
proibidos de comungar da face concedida
apartados do sacrifício final
os protestantes, porque protestam
E assim determinou o Papa, nesse Concílio ensimesmado
que Cristo ande na linha
que seja fiel com seus ministros
nada de sorrir para quem não vai à missa
ou ensinar filosofia nas universidades
Cristo tem que ficar
pendurado no seu lugar por direito
crucificado eternamente
eternamente dolorido
lá na igreja católica, o monopólio do menino
que achava que tinha vindo ao mundo para todos
segunda-feira, julho 09, 2007
quarta-feira, julho 04, 2007
O CÍCLOPE
Lanço-me ao mundo como quem
por nada se abate no meio do caminho
mas refaço (na mente, ora sozinho)
a alegria de ser bandeirante
dessa estrada normal, fronte e perene,
como se fosse eu navegante
do navio do mundo, esse rente.
Mas antes de cruzar a minha rua
que é porto desse mar inexistente
bem no ápice da glória de ser
homem livre, imortal, transcendente
um gigante me pára e me estanca
com uma carranca de olho-só reluzente
E me olha com o olho bem vermelho
e me diz que o mundo a ser descoberto
é para quem, em si circunspecto,
detém a passividade do que sonha
e não do que se lança ao mar (sob glória)
com velocidade na alma sempre risonha
“Eis que me chamam semáforo ou farol
e eu sou a lembrança sempre presente
de que até mesmo o sol (em seu conseqüente
caminho), ao fim do dia simplesmente
cessa; interrompe-se azul no fim do horizonte
para que se possa dele dizer ‘de si, recomeça’
pare, por isso, e se contenha
espere que o tempo do mundo sobrevenha
e só assim, parado, poderás partir”
Eu, que ao meio do caminho não me abatia
nem por nada parava e prosseguia
com a imensa sede de domar essa nau
o navio do mundo, proa de pau
e gente, vou desfazendo essa alegoria
da velocidade inconseqüente e valentia
Então sob o olho vermelho pude entender
que no meio do caminho haverá sempre
uma parada. Que para poder se lançar
em uma nova nau ou na mesma estrada
a parada é escada nesse mar inexistente
lar do navio que sente essa imensa sede
E o olho do ciclope ficou verde
por nada se abate no meio do caminho
mas refaço (na mente, ora sozinho)
a alegria de ser bandeirante
dessa estrada normal, fronte e perene,
como se fosse eu navegante
do navio do mundo, esse rente.
Mas antes de cruzar a minha rua
que é porto desse mar inexistente
bem no ápice da glória de ser
homem livre, imortal, transcendente
um gigante me pára e me estanca
com uma carranca de olho-só reluzente
E me olha com o olho bem vermelho
e me diz que o mundo a ser descoberto
é para quem, em si circunspecto,
detém a passividade do que sonha
e não do que se lança ao mar (sob glória)
com velocidade na alma sempre risonha
“Eis que me chamam semáforo ou farol
e eu sou a lembrança sempre presente
de que até mesmo o sol (em seu conseqüente
caminho), ao fim do dia simplesmente
cessa; interrompe-se azul no fim do horizonte
para que se possa dele dizer ‘de si, recomeça’
pare, por isso, e se contenha
espere que o tempo do mundo sobrevenha
e só assim, parado, poderás partir”
Eu, que ao meio do caminho não me abatia
nem por nada parava e prosseguia
com a imensa sede de domar essa nau
o navio do mundo, proa de pau
e gente, vou desfazendo essa alegoria
da velocidade inconseqüente e valentia
Então sob o olho vermelho pude entender
que no meio do caminho haverá sempre
uma parada. Que para poder se lançar
em uma nova nau ou na mesma estrada
a parada é escada nesse mar inexistente
lar do navio que sente essa imensa sede
E o olho do ciclope ficou verde
terça-feira, julho 03, 2007
Quase uma crítica de cinema
Assisti extemporâneo a Baixio das Bestas, movido bem pela curiosidade de ver novamente um filme do Cláudio Assis. O diretor havia repercutido bem no meu imaginário a partir de Amarelo Manga. Logicamente as circunstâncias eram outras, e o texto da obra se perfaz com o contexto do auditório: em Amarelo Manga eu via, pela primeira vez, o Recife real pintado nas telas do cinema. Recife sem concessões à beleza decantada nos inúmeros frevos de bloco. Recife sujo, feio, do ventre inchado, amarelo e roxo como o cadáver Boca-de-Ouro das estórias de Gilberto Freyre.
Aqui e ali, alguns defeitos de narrativa e idéias caricatas, mas nada que prejudicasse o promissor caminho que seria trilhado a partir de então pelo diretor Cláudio Assis.
Justificada, portanto, minha curiosidade acerca do filme Baixio das Bestas.
O filme se desloca do urbano tratado em Amarelo Manga para a Zona da Mata pernambucana, onde se vê um purgatório situado entre o inferno de concreto da urbis recifense e o paraíso selvagem dos sertões pernambucanos. Novamente, como no filme anterior de Assis, não há foco em um personagem específico, mas o desfile de caricaturas que irão tratar, cada um a seu modo, a tese do filme: sexo e violência em uma sociedade decadente de valores. A tese de Amarelo Manga se repete, a diferença está na geografia que, de uma forma ou outra, irá refletir como elemento singularizador do que já antes foi mostrado.
Das críticas que tenho lido, há sempre o entusiasmo pelo Brasil (ou Nordeste) real retratado sem cores artificiais pelo diretor. A crítica do Sudeste não tem economizado nos elogios à lente real da câmera, lente de carne não de vidro, lente de gente não digital. E confessei que esse mesmo elogio à carne foi que me entusiasmou à época de Amarelo Manga. O contexto era outro, e essa carne exposta hoje não traz tanto entusiasmo a mim, que não sou crítico, mas auditório.
Baixio das Bestas tem o seu valor. Fica fácil de perceber sua importância a partir da câmera segura, da fotografia excelente, e dos atores que demonstram desprendimento na entrega à tese defendida no filme.
O grande problema de Baixio, no entanto, reside na percepção de que é muito fácil chocar a crítica do Sudeste a partir da reprodução da violência que já estamos acostumados. E assim o filme se transforma em um simulacro do jornal cotidiano capaz de gerar o mesmo tipo de discussão que se tenciona a partir do filme. As saídas fáceis continuam na forma caricata dos agroboys, tratados a partir da leniência materna que pode ser interpretada como representação fácil do próprio Estado ausente; a metáfora fácil da fossa interminável, a fala fácil do personagem interpretado por Matheus Nachtergaele, que trata a metalinguagem de maneira fácil.
O filme ficou fácil ao tratar de um tema difícil. E só se choca com ele quem não mora na minha rua.
Aqui e ali, alguns defeitos de narrativa e idéias caricatas, mas nada que prejudicasse o promissor caminho que seria trilhado a partir de então pelo diretor Cláudio Assis.
Justificada, portanto, minha curiosidade acerca do filme Baixio das Bestas.
O filme se desloca do urbano tratado em Amarelo Manga para a Zona da Mata pernambucana, onde se vê um purgatório situado entre o inferno de concreto da urbis recifense e o paraíso selvagem dos sertões pernambucanos. Novamente, como no filme anterior de Assis, não há foco em um personagem específico, mas o desfile de caricaturas que irão tratar, cada um a seu modo, a tese do filme: sexo e violência em uma sociedade decadente de valores. A tese de Amarelo Manga se repete, a diferença está na geografia que, de uma forma ou outra, irá refletir como elemento singularizador do que já antes foi mostrado.
Das críticas que tenho lido, há sempre o entusiasmo pelo Brasil (ou Nordeste) real retratado sem cores artificiais pelo diretor. A crítica do Sudeste não tem economizado nos elogios à lente real da câmera, lente de carne não de vidro, lente de gente não digital. E confessei que esse mesmo elogio à carne foi que me entusiasmou à época de Amarelo Manga. O contexto era outro, e essa carne exposta hoje não traz tanto entusiasmo a mim, que não sou crítico, mas auditório.
Baixio das Bestas tem o seu valor. Fica fácil de perceber sua importância a partir da câmera segura, da fotografia excelente, e dos atores que demonstram desprendimento na entrega à tese defendida no filme.
O grande problema de Baixio, no entanto, reside na percepção de que é muito fácil chocar a crítica do Sudeste a partir da reprodução da violência que já estamos acostumados. E assim o filme se transforma em um simulacro do jornal cotidiano capaz de gerar o mesmo tipo de discussão que se tenciona a partir do filme. As saídas fáceis continuam na forma caricata dos agroboys, tratados a partir da leniência materna que pode ser interpretada como representação fácil do próprio Estado ausente; a metáfora fácil da fossa interminável, a fala fácil do personagem interpretado por Matheus Nachtergaele, que trata a metalinguagem de maneira fácil.
O filme ficou fácil ao tratar de um tema difícil. E só se choca com ele quem não mora na minha rua.
sexta-feira, junho 22, 2007
Na Rua do Sabão
Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!
O que custou arranjar aquêle balãozinho de papel!
Quem fêz foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de sêda, cortou-o com amor, compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.
Ei-lo agora que sobe - pequena coisa tocante na escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de côr.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!
Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente...
Como se o enchesse o soprinho tísico do José.
Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balão!
Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais.
Ele foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar - nas águas puras do mar alto
Manuel Bandeira
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!
O que custou arranjar aquêle balãozinho de papel!
Quem fêz foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de sêda, cortou-o com amor, compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.
Ei-lo agora que sobe - pequena coisa tocante na escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de côr.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!
Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente...
Como se o enchesse o soprinho tísico do José.
Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balão!
Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais.
Ele foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar - nas águas puras do mar alto
Manuel Bandeira
segunda-feira, junho 18, 2007
Ster, Pernambuco na imensidão
quinta-feira, junho 14, 2007
O FANTASMA DA REPARTIÇÃO
Quando o corpo esfriou de matéria
E o caixão era tudo que se mostrava restar
Sr. José Antônio levantou-se do seu túmulo
E objetivando a repartição pôs-se a andar
Anda que anda: “será que não há descanso
para a alma concursada?”
Enquanto algumas almas seguiam para o inferno
Enquanto outras tantos para o céu rumavam
O Sr. José atravessa a Rua do Imperador
Como se os formulários públicos fossem sua estrada
E o vigia da repartição por vezes e outras
No fim da noite jurava que ouvia
Uma máquina de escrever batendo sozinha
Escrevendo em papel nenhum a mesma melancolia:
“É da eternidade da alma que nasce o suspiro
É da eternidade da alma que nasce a burocracia”
E o caixão era tudo que se mostrava restar
Sr. José Antônio levantou-se do seu túmulo
E objetivando a repartição pôs-se a andar
Anda que anda: “será que não há descanso
para a alma concursada?”
Enquanto algumas almas seguiam para o inferno
Enquanto outras tantos para o céu rumavam
O Sr. José atravessa a Rua do Imperador
Como se os formulários públicos fossem sua estrada
E o vigia da repartição por vezes e outras
No fim da noite jurava que ouvia
Uma máquina de escrever batendo sozinha
Escrevendo em papel nenhum a mesma melancolia:
“É da eternidade da alma que nasce o suspiro
É da eternidade da alma que nasce a burocracia”
terça-feira, junho 12, 2007
“Quando teu não-olhar encontra meu olhar
é mentira
é o desejo querendo concretizar-se
teu ícone paralisado bebendo meu movimento
o que poderia ser e o que não é”
( Poema extraído do Diário de um Médico de Rubens Aires)
“ Então eu vi Rubens pela primeira vez. A princípio o achei parecido com Fabrício. Deus meu, como estava enganada. Do segundo relance, quando meu noivo chamou a atenção, vi uma beleza que não era comum a tantos homens com quem tenho cruzado por este mundo. Seus olhos escuros, sua face lisa, sem barba, sua boca bem feita. Não era alto, não era baixo, mas quando gesticulava, parecia tornar-se enorme frente a pequenez da nossa pluralidade campestre. Rubens era singular, diferente da introspeção destas terras que se parece muito com a introspeção dos suíços e dos belgas. Naquele momento em que ele beijou a minha mão, senti o hálito terrível do destino baforando em minha nuca e o suspiro de Fabrício se afastando de minha boca”
( Texto extraído do diário pessoal de Ariel Souza d’Alencar, publicado com a permissão da família Souza d’Alencar).
é mentira
é o desejo querendo concretizar-se
teu ícone paralisado bebendo meu movimento
o que poderia ser e o que não é”
( Poema extraído do Diário de um Médico de Rubens Aires)
“ Então eu vi Rubens pela primeira vez. A princípio o achei parecido com Fabrício. Deus meu, como estava enganada. Do segundo relance, quando meu noivo chamou a atenção, vi uma beleza que não era comum a tantos homens com quem tenho cruzado por este mundo. Seus olhos escuros, sua face lisa, sem barba, sua boca bem feita. Não era alto, não era baixo, mas quando gesticulava, parecia tornar-se enorme frente a pequenez da nossa pluralidade campestre. Rubens era singular, diferente da introspeção destas terras que se parece muito com a introspeção dos suíços e dos belgas. Naquele momento em que ele beijou a minha mão, senti o hálito terrível do destino baforando em minha nuca e o suspiro de Fabrício se afastando de minha boca”
( Texto extraído do diário pessoal de Ariel Souza d’Alencar, publicado com a permissão da família Souza d’Alencar).
sexta-feira, junho 01, 2007
As Músicas do Disco (será que sai :( ?)
The Outsider´s Samba Soundtrack
Chegou atrasada e demente
Com marcas que possivelmente
São feitas sob os lençóis
Bebeu do meu copo na mesa
E me disse “é apenas cerveja,
Então não faça caso irmão
Que hoje eu não estou pra não”
Beijou a boca da Rosa
Enfiou-me um dedo de prosa
Pedindo pra eu não me afastar
“Que trago cocada boa
e outras coisas à toa
enquanto o Mundo vai dormir
vamos fazer o samba cantar”
Ela é minha rota desvia
A noite sangrando em meu dia
Canonizada por beberrões
Santa de pecados e de ladrões
Agora eu estou sem ela
E a vida me vê na janela
Olhando a vida passar
Agora eu estou na janela
E a vida que se faz sem ela:
Café, almoço e jantar
(esperando a vida passar)
(lá fora o samba vai cantar)
O Jovem Gilberto Freyre ou a Invenção do Brasil
Essa multa quando pisa no terreiro
Ilumina um povo inteiro
Dentro do meu coração
Eu vou traçando em suas pernas novas rotas
Como quem suave aporta
Em um porto em formação
Essa cabrocha do gostinho brasileiro
Me concede o corpo inteiro
Pra eu entender a minha mãe
Vai tatuando em minha pele um novo Estado
Que emerge inventado
Na ante-sala das manhãs
Se ela vive entre as estrelas
Se ela é meu grande amor
Ai minha cabrocha
Flor do mundo
Minha flor
Ela vem me dar um beijo
Reconstrói minha raiz
Abro os meus braços
E abraço o meu país
Eu ouço os passos de um país se costurando
Nas alcovas se formando
Entre desejos e tendões
Eu ouço as vozes de um país que é sussurrado
Como quem faz um pecado
E não se arrepende depois
Eu vejo os passos da morena brasileira
Se chegando sorrateira e presidindo minha nação
E na delícia dos seus passos mais bonitos
Vou convencer os mais aflitos
Que isso é evolução
Valsa para Angenor
Entre a carne e a cruz
Onde mora a dor
Onde o meu samba fez morada
E a semente nunca vira flor
Nesse grande mar
Solitário e vão
Fico porta-voz da alvorada
Cubro de verde e rosa o meu chão
A noite quando me vem é madrugada
E o mundo já se tarda dentro de mim
O samba é quem me mostra
A flor a ser exposta
Na valsa da solidão de quem diz sim
Samba Muderno
Esse samba de roda é muderno
É pra quem tem sandália no pé
Descobri que o samba é a força
Que põe força na minha fé
Vou deixar minha guitarra de lado
Vou deixa minha barba crescer
Pedir bença pra Mãe Clementina
E fincar minha raiz num bangüê
Você pode ser emo ou Hermano
Você pode ser do Mombojó
O meu samba de roda é muderno
Mas é levado na palma da mão
Sampleando a voz do passado
Vou cantar a glória nacional
Onde quer que se faça um barraco
Vai ser lá minha Lapa pessoal
Burburinho (to lá...)
No Cafofa (tô lá)
No Quintal (to lá)
Lá na Toca....
Chegou atrasada e demente
Com marcas que possivelmente
São feitas sob os lençóis
Bebeu do meu copo na mesa
E me disse “é apenas cerveja,
Então não faça caso irmão
Que hoje eu não estou pra não”
Beijou a boca da Rosa
Enfiou-me um dedo de prosa
Pedindo pra eu não me afastar
“Que trago cocada boa
e outras coisas à toa
enquanto o Mundo vai dormir
vamos fazer o samba cantar”
Ela é minha rota desvia
A noite sangrando em meu dia
Canonizada por beberrões
Santa de pecados e de ladrões
Agora eu estou sem ela
E a vida me vê na janela
Olhando a vida passar
Agora eu estou na janela
E a vida que se faz sem ela:
Café, almoço e jantar
(esperando a vida passar)
(lá fora o samba vai cantar)
O Jovem Gilberto Freyre ou a Invenção do Brasil
Essa multa quando pisa no terreiro
Ilumina um povo inteiro
Dentro do meu coração
Eu vou traçando em suas pernas novas rotas
Como quem suave aporta
Em um porto em formação
Essa cabrocha do gostinho brasileiro
Me concede o corpo inteiro
Pra eu entender a minha mãe
Vai tatuando em minha pele um novo Estado
Que emerge inventado
Na ante-sala das manhãs
Se ela vive entre as estrelas
Se ela é meu grande amor
Ai minha cabrocha
Flor do mundo
Minha flor
Ela vem me dar um beijo
Reconstrói minha raiz
Abro os meus braços
E abraço o meu país
Eu ouço os passos de um país se costurando
Nas alcovas se formando
Entre desejos e tendões
Eu ouço as vozes de um país que é sussurrado
Como quem faz um pecado
E não se arrepende depois
Eu vejo os passos da morena brasileira
Se chegando sorrateira e presidindo minha nação
E na delícia dos seus passos mais bonitos
Vou convencer os mais aflitos
Que isso é evolução
Valsa para Angenor
Entre a carne e a cruz
Onde mora a dor
Onde o meu samba fez morada
E a semente nunca vira flor
Nesse grande mar
Solitário e vão
Fico porta-voz da alvorada
Cubro de verde e rosa o meu chão
A noite quando me vem é madrugada
E o mundo já se tarda dentro de mim
O samba é quem me mostra
A flor a ser exposta
Na valsa da solidão de quem diz sim
Samba Muderno
Esse samba de roda é muderno
É pra quem tem sandália no pé
Descobri que o samba é a força
Que põe força na minha fé
Vou deixar minha guitarra de lado
Vou deixa minha barba crescer
Pedir bença pra Mãe Clementina
E fincar minha raiz num bangüê
Você pode ser emo ou Hermano
Você pode ser do Mombojó
O meu samba de roda é muderno
Mas é levado na palma da mão
Sampleando a voz do passado
Vou cantar a glória nacional
Onde quer que se faça um barraco
Vai ser lá minha Lapa pessoal
Burburinho (to lá...)
No Cafofa (tô lá)
No Quintal (to lá)
Lá na Toca....
Estorinha de Luciana
Luciana nunca atende o celular. Sempre nos momentos mais ordinários da vida, quando realmente precisamos de mais do que um eco no outro lado da linha, a chamada segue seu tom até o fim sem que me reste um “alô” por conforto. Luciana nunca atende o celular. O seu número gravado na memória digital do meu aparelho é um memorial à esperança de que um dia, quando o céu de agosto tocar o horizonte, Luciana consubstanciar-se-á em impulsos elétricos, em lembranças de cheiros, em um corpo que um dia confrontou o meu. Mas só esperança. Duvidam eles de mim: Luciana não existe. Como crianças amorais de um pré-escolar imaginário: Luciana não existe.
Existirá Luciana? Somos algo mais do que esses impulsos elétricos que enviamos para os nossos? Além desse número digital, há alguém que se conforta com sua pele, seus olhos, seu cabelo? Chego a duvidar de Luciana, e tomo por testemunha esse tom de chamada nunca atendida que me diz: Luciana nunca atende o celular.
E Luciana, que nunca atende o celular, vai migrando para a casta das figuras mitológicas, dos deuses esquecidos, das nossas senhoras da moda que passou. E lá do outro lado da cidade, mora uma menina chamada Luciana que por nunca atender o celular virou lenda.
Existirá Luciana? Somos algo mais do que esses impulsos elétricos que enviamos para os nossos? Além desse número digital, há alguém que se conforta com sua pele, seus olhos, seu cabelo? Chego a duvidar de Luciana, e tomo por testemunha esse tom de chamada nunca atendida que me diz: Luciana nunca atende o celular.
E Luciana, que nunca atende o celular, vai migrando para a casta das figuras mitológicas, dos deuses esquecidos, das nossas senhoras da moda que passou. E lá do outro lado da cidade, mora uma menina chamada Luciana que por nunca atender o celular virou lenda.
quinta-feira, maio 31, 2007
Pour Rodrigo
Polly Nichols
(Rodrigo Pinto)
Quase seis, a tarde morta.
A noite dobra a esquina.
A chuva deu uma trégua,
Mas deixou uma bruma fina.
Esse ar enevoado,
Embaçando minhas retinas,
Lembra o fog tão fleumático
Das tais vielas londrinas
Perto da branca capela,
Onde Jack, o Estripador,
Imolava as suas vítimas:
Mariposas muito brancas
E vermelhas, viciadas
Em gim vagabundo, tísicas.
Certa feita uma delas
Me apareceu em sonho
E falou no meu ouvido
O nome do seu algoz.
“A morte é imponderável
Como uma rosa desmaiada”,
Disse, num fatal suspiro,
A paloma malsinada,
Dirigindo-se à janela
Que mantenho sempre aberta,
Mesmo quando o frio lá fora
É um açoite (afinal
Nunca se sabe quem po-
derá do meio da escu-
ridão sair para di-
zer-me o seu boa-noite).
(Rodrigo Pinto)
Quase seis, a tarde morta.
A noite dobra a esquina.
A chuva deu uma trégua,
Mas deixou uma bruma fina.
Esse ar enevoado,
Embaçando minhas retinas,
Lembra o fog tão fleumático
Das tais vielas londrinas
Perto da branca capela,
Onde Jack, o Estripador,
Imolava as suas vítimas:
Mariposas muito brancas
E vermelhas, viciadas
Em gim vagabundo, tísicas.
Certa feita uma delas
Me apareceu em sonho
E falou no meu ouvido
O nome do seu algoz.
“A morte é imponderável
Como uma rosa desmaiada”,
Disse, num fatal suspiro,
A paloma malsinada,
Dirigindo-se à janela
Que mantenho sempre aberta,
Mesmo quando o frio lá fora
É um açoite (afinal
Nunca se sabe quem po-
derá do meio da escu-
ridão sair para di-
zer-me o seu boa-noite).
quarta-feira, maio 23, 2007
REVEL
Trago sempre comigo essa impressão de revelia
De que as coisas acontecem no ponto cego do meu retrovisor
Desapercebidas de mim que me preocupo com a rua defronte
E não consigo enxerga-las no ponto cego do meu retrovisor:
Um unicórnio negro, Ulisses se preparando para sair de casa
Um ciclope, uma bruxa, Jesus Cristo
Quando dou por mim, eles já não estão mais lá
E só me sobra esta estrada de concreto
Com pessoas preocupadas se vão morrer
Homens consertando os postes de luz
O vapor da vida a despejar-se dos seus suportes vãos
Mas a beleza sobrevivente dos contos de fada
O mistério do divino para o ateu e para o crente
A máquina do mundo a abrir-se para quem nela crê:
Sempre no ponto cego do meu retrovisor
À revelia de mim, o mundo vira poema
De que as coisas acontecem no ponto cego do meu retrovisor
Desapercebidas de mim que me preocupo com a rua defronte
E não consigo enxerga-las no ponto cego do meu retrovisor:
Um unicórnio negro, Ulisses se preparando para sair de casa
Um ciclope, uma bruxa, Jesus Cristo
Quando dou por mim, eles já não estão mais lá
E só me sobra esta estrada de concreto
Com pessoas preocupadas se vão morrer
Homens consertando os postes de luz
O vapor da vida a despejar-se dos seus suportes vãos
Mas a beleza sobrevivente dos contos de fada
O mistério do divino para o ateu e para o crente
A máquina do mundo a abrir-se para quem nela crê:
Sempre no ponto cego do meu retrovisor
À revelia de mim, o mundo vira poema
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