sábado, janeiro 14, 2012

Canção de Ninar






No dia em que a morte do meu pai se deixou consumar
Eu passei a procurar o espírito de cada coisa viva e morta
Quando eu dei por mim, já trajando o luto imenso da ausência
Espreitava no vazio do nada qualquer coisa que aplacasse a solidão
Como se algo estivesse prestes a ser revelado antes de cada segundo:
O espírito do meu pai
A cornucópia da matéria escura do universo
A partícula de Deus convidando-me para dançar, ofertando-me a mão
Guiando-me pelo bailado das explicações que não cabem na nossa humanidade
Mas não havia nem um fantasma de Dickens,
Nem o espírito paterno universal, murmurando: “Don Giovanni”
Sequer o diabo a me prometer liberdade da paterna opressão
Apenas a matéria a cuspir areia, tijolo e o papel da missa de domingo
E repetindo a questão formatada por séculos e séculos, até o advento do
Computador: Onde está o teu Deus?
Olho para Deus e contemplo apenas as imagens da televisão.

Mas aí tu vens
Tu, Filipe, carne, osso e músculos
Tua fragilidade gigantesca perante o cosmos, perante os elefantes da África
Tua arquitetura menor que as catedrais góticas de Espanha
E aí, todo o vazio da metafísica é preenchido com a tua saliva
Com as tuas células-tronco que a ciência chama de Deus
Tu congelas o sol e a lua em um único instante perante meus olhos
Tu abres o mar para que eu possa atravessar os meus segredos
Tu, Filipe, tu te tornas meu pai
Um conforto de tudo me batiza do além da cabeça à ponta do pé
E eu durmo em paz no teu colo infinito,
franjado de quasares, estrelas e dos paradoxos do meu beijo na tua fronte
que eu, humildemente, chamo de fé

quarta-feira, janeiro 04, 2012

2012


Em 2005, eu encerrei os posts do Fúria do Mar com o sorriso de Bebel

Em 2012, eu abro os posts do Fúria do Mar com o sorriso de Maria

Porque nele eu vejo o mesmo espírito puro,

O mesmo encantamento frente ao novo

O destemor do inusitado que só faz paragem no peito dos jovens

Eu quero um 2012 assim: infinito como o sorriso de Maria

sábado, dezembro 31, 2011

Ano Novo 3.1

Não, não adianta pular as ondas do mar
Guardar sementes de romã, segredar dentro da carteira
Os caroços da uva verde que você destronou com volúpia
Por entre os dentes sedentos de um futuro bom
Não vai resolver esta roupa branca, estendida ao sabor das espumas
O dourado, o vermelho, o azul traduzidos em desejo de algo
A se mostrar sem nitidez no horizonte messiânico
Nada disso trará a felicidade nesse ano que virá
Você precisa da tristeza
Você precisa dela a descobrir as camadas das tuas retinas
Então é melhor se preparar para chorar


Talvez você se case, talvez perca um grande amor
Quem sabe aquela promoção, quiçá sentirá fome
Mas para além de todas as tentativas de reter o futuro
Na palma da sua mão
Haverá uma noite neste ano indefinido
Uma noite apenas, em que a lua, silenciosamente, invadirá o seu repouso
E brilhará lindamente no seu quarto enquanto você dorme e sorri

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Tombamento e Permanência




Se a mim fosse dado escolher um poder, dentre os poucos possíveis aos homens, escolheria o poder de tombar. Sem processo administrativo, sem as burocracias das adequações históricas, eu salvaria da finitude do tempo aquilo que eu penso amar. Tombaria as árvores imensas do quintal da minha avó, tombaria os nomes de rua, do Recife que quase virou pó. Não o Recife das grandes revoluções, das Igrejas seculares, dos casarões sem fim. Estes já são tombados, já foram, pelo Governador, resguardados; e, de certo modo, eu os conservo em mim. Eu tombaria o Recife das pequenas revoluções: uma mercearia antiga, a padaria da esquina, o vendedor de doces desfilando seus bordões. A Brasília azul do meu pai jamais seria vendida, eu desfilaria com ela aos domingos desafiando com sorrisos o tempo das coisas idas.


Eu tombaria o muro de uma casa, onde se deu um primeiro amor. Os anos em que o Sport, sem muitas dificuldades, consagrou-se vencedor. Não haveria necessidade de decreto, de publicação no diário oficial. De parecer dos arquitetos, dos historiadores, de adequação ao fato social. Bastava ser agradável aos sentidos e eu assinaria o ato. Imunizaria a memória da cegueira branca dos homens e o capitalismo que pagasse o pato.


Ninguém construiria arranha-céu onde sorriu o meu avô, na frente do Edifício Caiçara, que por força das retinas e das vontades pequeninas, da força demolidora dos homens se salvou. E defronte ao mar infinito, no lugar em que o tempo é mais bonito, o Edifício Caiçara vai ficando. Graças a união das saudades partidas, um castelo foi salvo, ladeado por outras coisas que, pela cegueira dos homens, vão se perdendo. Quisera eu ter o poder de tombar o mundo e dissipar essa ausência que, lentamente, vai me doendo.


Eu proibiria, sem decretos, tudo que amamos fenecer: pois se é do sonho dos homens que uma cidade se inventa, é pela memória do povo e pela saudade que aumenta que ela vai permanecer.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Relicário





A família Aires de Souza possuía por tradição imemorial – segundo contavam as crônicas genealógicas das famílias do século XIX, hoje arregimentadas no arquivo público – a retirada proposital de uma víscera do corpo para escondê-la encaixotada e além da própria morte ou vida. Esse estranho hábito ensinado por um pai negro, quando a família ainda residia em Lisboa, de acordo com fontes infidedignas, estava ligado à ascendência judia dos Aires de Souza; a um desejo inafastável de guardar o que lhe era mais precioso.

O avô de Gertrudes possuía em uma caixa de madeira, seu estômago. E isso lhe permitia os ganhos com os negócios de açúcar, bem como a falta de qualquer pudor ao chicotear um negro que não se submetesse ao capital branco e doce do Sinhô. Era no estômago que dormia a piedade.

Gertrudes ouvia essas estórias quando pequena. Aos poucos as estórias foram silenciando. O marido foi silenciando. Os filhos foram silenciando. Os netos foram silenciando. E todas as vozes que ouvia em casa eram dirigidas para algo além, nunca para Gerturdes.


Justamente pelo monopólio do silêncio, era tão fácil entrar no quarto desapercebida. Não havia perguntas inconvenientes, nem curiosidades a serem satisfeitas a partir de estórias do passado. Essa solidão resignada era a chave do seu tesouro, que estava escondida atrás do quadro do seu avô. A ansiedade que sentia era um medo do mundo. De que o mundo, de repente, invadisse o seu quarto, com todas aquelas medicinas, bancários, previdências e assaltasse o seu santuário, com mãos multiplicadas a contaminar a fragilidade do que lhe era mais caro nessa vida.


Por isso o exercício eterno de sentinela a checar o cofre atrás do quadro. E dentro do cofre, o conteúdo de sua vida: caixinha adornada a homenagear a riqueza do que estava depositado. Um relicário, igual aos que estão depositados nas paredes de uma das salas da Catedral de Nossa Senhora com os Pés na Lua, em Madrid.

Seu, tão seu. Porque dentro do relicário estava silencioso, pétreo e murcho o seu coração. Retirado conforme as receitas ancestrais do pai negro, em Lisboa.

Placa de prata com nome gravado: Gertrudes; às vezes, o coração parecia chamar querendo o consolo do peito vazio. Mas o coração permaneceria na caixa até o fim dos dias de Gertrudes e talvez até os dias posteriores. Conservado não por formol, ou química semelhante, mas pela ausência do silêncio, das medicinas, dos bancários e das previdências; conservado para se ver livre das maldades e tentações desse mundo, como um corpo incorrupto de um santo que permanece para além dos vermes.

sábado, dezembro 03, 2011

No peito de um homem feliz bate um jambeiro



Eu tenho o que preciso entre os meus braços
Eu vi o sol nascer no seu olhar
Eu levo a vida construindo laços
Que nem a morte pode desatar

Eu nunca fui o nome de avenida
Mas sinto que sou dono deste mar
A inspiração que trago em vida
Eu colho como fruta no pomar

No peito de um homem feliz bate um jambeiro
Bate um jambeiro
Bate um jambeiro
No peito de um homem feliz bate um jambeiro
Bate um jambeiro a florescer no seu quintal

Quem leva dessa vida o sal da noite
Acorda com o açúcar da manhã
Eu piso com meus pés o chão do hoje
Sem me importar com o abismo do amanhã

Ó meu grande amor, veja a roseira
Rompendo o asfalto para nos saudar
Quem põe a fé na vã beleza
Não vê a verdadeira flor brotar

No peito de um homem feliz bate um jambeiro
Bate um jambeiro
Bate um jambeiro
No peito de um homem feliz bate um jambeiro
Bate um jambeiro a florescer no seu quintal

quinta-feira, novembro 03, 2011

Onde Está Você?




Eu abandono o Mundo aos poucos
Deixo minhas digitais em estratégia descuidada
Para ser lembrado caso tudo, ao final
Transforme-se apenas em um bom livro de mistério

terça-feira, outubro 25, 2011

Os 75 anos do UVA




Apesar de me considerar apenas parcialmente advogado, por tantas outras funções que acabo exercendo, tenho como parâmetro da minha arte advocatícia (sim, porque a advocacia também se constitui em arte) o Escritório Urbano Vitalino Advogados Associados. Fundado em 1937 por Urbano Vitalino, próximo ano, em 2012, o escritório fará 75 anos, dos quais cinco de existência (apenas cinco) eu testemunhei. Posso dizer contudo que foram cinco anos vividos intensamente: acompanhei o fortalecimento do nome de Dr. Urbano Filho no cenário nacional com sua candidatura à presidência nacional da OAB (depois retirada), as eleições para a presidência da nossa seccional, a transformação de uma banca de alguns advogados em uma das maiores estruturas jurídicas da região, a associação momentânea a um dos maiores escritórios do Brasil, o Siqueira Castro, o falecimento precoce de Dr. Urbano Filho que nos deixou um tanto órfãos na advocacia. Lá fiz amigos para toda a vida. Fiz irmãos. Aprendi que a advocacia se exercita com elegância, austeridade e ética. Por tudo isso, após constituir minha própria banca de advogados, Urbano Neto me convidou para escrever um texto para o livro que será editado em meio às comemorações. Pediu-me lembranças. É um ano difícil para lembranças, mas não pude negar esse pedido a quem tanto contribuiu para essa parcela que trago comigo no dia a dia. Não sei se o texto será integralmente reproduzido da forma como transcrevo aqui. São três excertos da minha memória, que dóem como a Itabira de ferro nas veias de Drummond.



Entrei no Escritório Urbano Vitalino em Junho de 2003, vindo de outra experiência da advocacia. O escritório era referência não apenas em Pernambuco e no Nordeste, mas em todo o país, em larga medida pela imensidão da figura de Dr. Urbano Vitalino de Melo Filho, um dos grandes nomes da advocacia brasileira. Ao iniciar meus trabalhos de coordenação do que chamávamos “Grupo Federal”, tive a honra e o prazer de responder diretamente a Dr. Urbano Vitalino Filho, o que potencializou o meu aprendizado na advocacia de uma forma que eu sequer imaginaria naquele momento. Dr. Urbano era muito mais do que um advogado: era um conselheiro, um desses paradigmas humanos que se tornam, no repente do encontro, uma meta. O seu carisma ia além do direito, perpassava as relações humanas, a religião, a própria vida. No mesmo ano em que comecei a advogar no escritório, deu-se o fim do meu primeiro casamento. Era difícil conciliar os novos desafios profissionais com a frustração de um projeto pessoal que chegava ao fim; mas aquele ano era um ano de revoluções para mim. Dr. Urbano notava minha tristeza, nada falava, ensinava-me sobre os processos mais complexos do Escritório. Um dia, na sala dele, Dr. Urbano abandonou seu silêncio e me perguntou: “Professor André, você gostaria que eu conversasse com você e com sua esposa?” Eu sorri, educadamente recusei a gentileza. Eu tinha certeza, dentro de mim, que se ele interviesse, com toda sua sabedoria e ponderação, o casamento teria continuado.

Acho que exatamente por isso, aquele auxílio, eu recusei.

....

Em outubro de 2003, houve, em Madri, o I Encontro de Advogados do Brasil e Espanha, promovido pelo Itamaraty, em parceria com o Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (CESA) e com a Câmara Oficial Espanhola de Comércio no Brasil. Recém-separado que estava, achei que seria uma excelente oportunidade para representar o Escritório Urbano Vitalino e respirar ares fora da minha cidade e do meu país. Arrumei as malas e segui para Madri. O evento se deu em apenas um dia, onde vários assuntos que interessavam a escritórios brasileiros e espanhóis foram tratados. Lá estavam os grandes escritórios do Brasil: Tozzini, Freire; Pinheiro Neto; Felsberg; Veirano. Do Nordeste, apenas eu representando o Urbano Vitalino Advogados. Um por um, os causídicos foram se apresentando no colóquio. Quando chegou a minha vez, ao pronunciar minha origem e qual escritório representava, notei uma silenciosa curiosidade vinda dos meus pares. Ao final do evento, vários advogados de diversas bancas brasileiras vieram apertar a minha mão, saudando em mim, Dr. Urbano Vitalino. Por fim, o decano do Ilustre Colegio de Abogados de Madrid, Dr. Luiz Martí Migarro, veio à minha pessoa enviar uma carinhosa saudação a Dr. Urbano, que possuía o título de “Dom”, outorgado pelo próprio Rei da Espanha. Pude ver naquele dia, que a pergunta antinominalista de Shakespeare em Romeu e Julieta “O que há em um nome?” não se aplicava àquele tempo e lugar. Havia muita substância e poucas fronteiras no nome de Urbano Vitalino.

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Por fim, recordo-me de um grande trabalho que desenvolvi no escritório, também no ano de 2003. Uma das empresas clientes do escritório era beneficiária do programa de incentivo fiscal do Governo do Estado de Pernambuco, PRODEPE. Por um equívoco da contabilidade da empresa, houve um aparente débito com a Fazenda Estadual (na verdade, a empresa possuía um crédito com o Estado) e, bem por isso, foi descredenciada sumariamente do PRODEPE, com efeitos retroativos, gerando um auto de infração de mais de 40 (quarenta) milhões de Reais, um dos maiores autos de infração já lavrados em Pernambuco. A empresa era uma indústria de peças automotivas e pertencia a um grupo argentino. O auto de infração inviabilizava a permanência da empresa em Pernambuco. Dr. Urbano se reuniu pessoalmente com o Secretário da Fazenda que disse nada poder fazer. Resolvemos acreditar no direito do nosso cliente e ingressamos com a defesa administrativa no TATE (Tribunal Administrativo Tributário do Estado). Varei noites estudando argumentos e submetendo-os aos meus colegas de escritório. No final de Novembro de 2003, o processo 00.313/03-3 foi julgado e o auto de infração quedou improcedente, permitindo a permanência do cliente no Brasil e mantendo as centenas de empregos que ele gerava. Na saída do julgamento, exultante, liguei para Dr. Urbano. Ele riu do outro lado da linha e disse: “Não ligue para mim, ligue para o cliente”. Foi um dos últimos trabalhos que desenvolvi ao lado de Dr. Urbano. No ano seguinte eu fui privado prematuramente de sua presença física e passei a conviver com suas lembranças em fotos, livros, homenagens e nesse porta-retrato infinito que nós chamamos de saudade.

sexta-feira, outubro 21, 2011

O Sexo

Se uma mariposa pousar em seu carro

E isso lhe fizer esquecer a morte dos ditadores

Seja-lhe grato

A mariposa morrerá logo sem saber que parou o Mundo

quarta-feira, setembro 28, 2011

Interlúdio

Silenciosamente madruga e eu espero o espírito do meu pai

Materialista desenganado nos átomos, quase um ateu

É cedo e minha filha ainda não acordou e o mundo,

mais espectro do que forma táctil, finge ainda não existir.

Ouço o barulho das coisas ainda sem o ânimo do homem

As coisas que dialogam a inexistência momentânea do homem que dormiu

Mas o espírito do meu pai não vem, não me dá a mão:

Silêncio, madrugada, abandono

O silêncio não vem dos destinos esmagados no peito, das mágoas

Vem da solidão dos deuses inexistentes e que se chamam automóvel e internet

Chama-se memória esse deus destronado do tempo presente e que dói

E em minha carne com sono fica a espreita da revelação.


Como gostaria de ver para além da matéria

O espírito do meu pai chegando no meio da sala

Com um dedo apontando, grave, os meus pecados, minhas misérias

Enquanto os mundos da minha infância se refariam no súbito do nada:

Uma luz que faria cioso o infinito apagaria o pouco sol dessa manhã

E inundaria os átomos, o quase ateísmo, a ausência

Os olhos do meu pai cansados, as mãos graves, já pensas

O peso de outros mundos nos ombros, embora visível aos meus olhos incrédulos


Mas o espírito do meu pai não vem

E cedo o homem já acorda

Os automóveis começam a ser ligados, os computadores acordam seus donos

como os antigos animais de estimação

Os barulhos da metafísica perdem a chance, vencidos pelos diálogos das coisas

O sino da igreja convoca, na missa da televisão

O pastor maquiado que prega, Deus está chegando

E eu solitário, quase crente e humano

Já posso tocar o abstrato da minha imensa solidão

sábado, setembro 03, 2011

MOMENTO GASTRONOMIA: INFÂNCIA



A infância é um lugar fechado dentro da memória das gentes, uma rua que só existe à noite, sem luz, sob uma chuva fina. Mas existe, está lá, é só querer visitar. Foi em uma visita não programada à minha infância que tive a oportunidade de rever o meu alicerce gastronômico. Colocado ali, por duas pessoas que contribuíram para o meu interesse sobre o gosto que nos invade a língua e adentra pelo sonho.

A primeira delas, minha avó paterna. Acho que toda criança guarda a lembrança da comida da avó. Ela é o lumiar afetivo que nos guiará ao longo da nossa vida em forma de sopas, massas, doces, bolos. Não sou diferente dos outros. Minha avó era o ponto de encontro de diversas nações: a portuguesa, na sua origem, a palestina, pelo seu casamento, a italiana e a judaica pelo convívio bastante comum, nas comunidades pobres imigrantes, na primeira metade do século XX. Dentre tantas coisas que eu devo a ela, devo o cosmopolitanismo que permeia a minha fome. Fome curiosa, que não tem medo de texturas, de cheiros, de origens. Desde muito cedo aprendi a conviver com nascedouros étnicos diversos: o kibe, os legumes e folhas de parreira recheadas com arroz e carne (os famosos charutinhos), o marmaone de trigo e caldo de galinha, pratos de origem palestina, que evocavam o nome do meu bisavô. O varenike judaico que ladeava a comida árabe sem a necessidade de qualquer acordo internacional. O famoso ravióli que levava o molho de três carnes diferentes, aprendido diretamente com os italianos que vieram aportar por aqui. Mas havia o toque que só os netos conhecem, metafísico, sobrenatural a dar sabor e vida a esse mundo redescoberto a cada mordida em flor e gozo. Feliz eu sou, menino criado por vó.

A segunda delas, Edmilson, cozinheiro da minha madrinha Diva, nos confins de uma Caruaru distante, na época que São João não era desfile de moda. Edmilson era egresso do Guanabara, restaurante famoso da Caruaru antiga, de propriedade da minha madrinha e do falecido marido que eu não cheguei a conhecer. Veado tímido, calado, submisso à personalidade forte de Diva Julião, delicadíssimo e sensível como poucas mulheres. Mas era um gênio. Sem qualquer escolaridade, sequer sem saber ler ou escrever, colocava qualquer grande chef no bolso com sua intuição que eu imagino também ser sobrenatural. Fazia um arroz de pimenta amado igualmente por mim e por meu pai. A sua macarronada era esteticamente refinada e de sabor místico. Fazia um carpaccio de carne de charque: fatiada finíssima, crua, temperada com limão. O seu creme catalão era inigualável, mesmo na Espanha nunca comi nada igual. Certa vez, meus pais fizeram um jantar para o cônsul da França e comitiva; dentre os ilustres: Gilberto Freyre. Minha mãe não teve dúvidas, trouxe Edmilson de Caruaru e deixou ele se assenhorear da cozinha e das nossas expectativas. Os franceses, ao final do jantar, queriam levá-lo embora. Mas Edmilson era como o Touro Ferdinando: enorme, forte, genial, mas só queria contemplar as flores no seu cantinho de interior.

Como era bonita a rua da minha infância. O diabo carregue quem me pôs velho no Mundo.

domingo, agosto 14, 2011

PATER FAMILIAS







a Josué, Maria e Filipe


Paternidade é presença e ausência
Palavra silenciada no peito em carne viva
Mil vezes pedra na solidão da coadjuvância
Mil vezes estio na chuva que tarda a chegar
Vocativo afogado na seca dos olhos em lágrimas
De tanta coisa sentida que já não se assemelha a palavra
Lavrada pelo ódio das regências e das normas
Aquecida duramente pelo carinho não confessado dos séculos
A paternidade custa a entrar em nós e é árida
Mas no amor das rochas dorme o que escapa da morte e do nada

sexta-feira, agosto 12, 2011

FDR





Do lugar em que me formei, diz-se Casa de Tobias
Por ter sido, Tobias Barreto, seu aluno melhor
Escreveu grandes obras jurídicas e de filosofia
Concorreu à cátedra na sua Casa e ali se eternizou

A Casa de Tobias nunca foi casa minha
pois nunca soube da vida o que seria meu
Minha filosofia não se alimentaria da poeira do passado
Nem minha poesia nasceria de um fogo que anoiteceu
Eu vivia fora da sala de aula,
Esperando, com um copo, o Mundo que me corrompeu

Mas por lá também estudou Carlos Pena Filho
Que o efeito da vida sobre a poesia preferia estudar
Nas mesas de ferro do extinto Bar Savoy
(que mimetizava o Mundo que dói em forma de bar)
Os homens engarrafavam sonhos em forma de navios
Dando-lhes nomes de mulheres e de heróis vindos do ar

Que maravilha seria estudar ao lado de Carlos
E ver o direito internacional, nos copos de vidro, naufragar
Do direito penal exigir somente a liberdade das gravatas
E do direito privado pedir que apenas nos deixassem público o mar

E proclamar que nenhuma norma é válida
Com tanto desejo preso no coração
Depois da meia-noite seríamos todos réus primários
Buscando no navio do Mundo a nossa consolação

Por isso quando perguntam onde eu estudei
Se é na Casa de Tobias que a saudade me corrói
Eu engarrafo um navio em forma de sonho
E digo que minha Casa é a Casa de Carlos,
O Carlos do Bar Savoy

quinta-feira, julho 28, 2011

Oikos


Na Rua Engenheiro Sampaio, havia uma casa assim
Metade dela era feita de sonhos, a outra, feita de mim
Nela havia mentiras tão belas, de soldados que dançavam no ar
De objetos transmutando em feras, de árvores que sabiam cantar
Havia um piano imaginário e um quintal que não tinha mais fim
Alguns gritos abafados em segredo, apossados como pesadelos
Nas mãos de um homem ruim
As mentiras encantavam meus olhos,
(mentiras que me diziam “sim”)
Na Rua Engenheiro Sampaio, havia uma casa assim


Mas veio a verdade dos homens, e com cimento me soterrou
Levou minha avó, seus segredos, o mistério que meu avô guardou
Os soldados que meu pai enterrava
No quintal que, depois, me acolheu
Eu disse à verdade: “me devolva”, “esse quintal é só meu”
A verdade não perdoa nada
(Nem mesmo o fato que jamais ocorreu)


O corpo do meu pai foi embora
A cozinha da minha avó, nunca mais
E as mentiras que encantavam minha história
Agora seguem insepultas na memória
E nos meus olhos que só olham para trás

domingo, julho 17, 2011

Carta ao meu pai



Querido pai, ontem fui à casa onde você nasceu, no Bairro de São José. Um gosto antigo de saudade tomou conta do meu presente. O velho casarão continua lá, caiado de verde, mas gasto pelo descaso cinza dos homens. Aliás, como os políticos têm descuidado das coisas que você amava. A arquitetura da cidade, testemunha do nascimento de tantos grandes homens, é um emaranhado de fios, abandono e ruínas. O trânsito continua um caos, mais carros nas ruas, menos pedestres nas avenidas e a vida vai passando fosca pelo vidro do carro, sempre fechado que a criminalidade não está brincadeira. Tudo no mundo anda financiado, pai: carro, moto, nascimento, casamento e até divórcio. Tenho medo do endividamento do povo. Você que tanto ensinava que comprar à vista é a chave para a paz no travesseiro. Mas parece que o motor da felicidade da nossa gente é a televisão de LCD iluminando a sala, como uma árvore de um natal infinito que se renova dia após dia. Você sempre achou isso curioso, e sabia, como ninguém, que todas as teorias econômicas ficam pequenas diante da alegria do povo, ainda que embalada no papel brilhante do crediário. A corrupção, por sua vez, meu pai, anda grande. Tanto dinheiro público gasto em quilômetros infindos de estradas que eu chego a suspeitar que estão fazendo um viaduto para chegarem por aí no céu (porque, pela porta da frente, “eles” não vão entrar). Você, que sempre lutou contra a malversação do alheio, espumaria de raiva, se a ira não fosse um grande pecado aí no paraíso celeste. Quanto a isso, não se preocupe, a gente vai se irando aqui por baixo e qualquer dia desses, tenho fé, os julgamentos deixarão de absolver os maus políticos e será permitido ao povo o uso do ovo podre e do bagaço da laranja como instrumentos da democracia participativa. Maria Eduarda perguntou a mim como é virar estrelinha no céu. Eu fiquei mudo, sem resposta, pensando que você já era uma grande estrela aqui na terra e que a gente ficou no escuro imenso sem sua luz. Meu time perdeu, pai, pode rir daí de cima. Esse riso de criança, provocador, jocoso, vai matar como pouca coisa a imensa saudade no meu peito. Por aqui a gente vai levando, vai poupando e investindo esse pouquinho da gente que sobra no final do mês.
O rádio está ligado, mas eu só ouço o eco do meu coração.

quinta-feira, julho 14, 2011

ÚLTIMA MANHÃ



Os mercados amanheceram em silêncio
Os bancos estavam de portas fechadas, não havia o que comprar
A ciranda financeira que permeia todas as coisas tácteis
Parou repentinamente como uma brincadeira de criança
Que já não quer mais brincar
Não houve pregão, nem cotação do dólar
As guerras cessaram dentro dos livros de história
Os gritos dos soldados mortos emudecidos pela manhã

Você silenciosamente caminhou por entre nossas ignorâncias
Beijou os olhos dos seus netos que dormiam
Andou pelas ondas das rádios que noticiavam o imponderável
Riu mais uma vez das nossas caricaturas, um apelido para cada um
Naquela manhã a Itália entrava em crise, os homens submergiam em corrupção
E sua crítica que antecipava, nas rádios, a nossa miséria humana
Agora desce em forma de bênçãos, de esperança, de fé e de união

terça-feira, julho 05, 2011

FILIPE

Ele vem como o vento em uma tarde vermelha

Toca a mão no meu rosto, já velho e cansado

Queria falar-lhe, mas não posso, porque já gastei todas as palavras

Ele me beija a face e aeroplanos não construídos descem em suas lágrimas

Um quarto de brinquedos cabe no hiato entre nós, na praia, no deserto

Ele fecha os meus olhos com as mãos

Eu não preciso mais ver nada

quinta-feira, junho 30, 2011

Clara, Chris e eu

http://www.youtube.com/watch?v=oEn2T1dDsB4

Momento Gastronomia: Mocó

Acho que eu sou a primeira pessoa a falar sobre o Mocó. O Mocó é um segredo tão bem escondido que alguns juram que se trata de mais uma lenda urbana. Tratarei deste texto, portanto, como uma dessas fábulas que minha filha consome com os olhos brilhando querendo
em uma vontade tão lúdica que seja a mais pura das verdades.

Dizem que Marcílio de Pádua, chef de cozinha talhado pelas mãos do mundo, depois de tanto andar na contramão da rotação, resolveu aceitar uma paragem e construiu para si um bocadinho de lugar que lhe permitisse alterar a lei do cotidiano. Que lei? A lei que determina as formalidades dos ternos, das gravatas, dos extratos, dos contratos, das notas fiscais. Marcílio deu uma ordem "fiat pax", e tudo aquilo que irrompe como as amarras da modernidade dissolveu-se na entresala do Mocó.

Lá, só existe uma lei: coma como se sua vida existisse para o prazer da gastronomia. Seja um epicurista, pão e vinho. Aceite a cerveja como consequência inasfastável de algo que começou na Suméria há milhares de anos atrás. Coma aquilo que se lhe oferece, cozido a fogo lento, com açúcar, com afeto. Pode ser um joelho de um porco. Pode ser um peixe sob o manto de uma manteiga preta. Pode ser um sarapatel, pode ser um cozido legitimamente madrilenho.

Pode ser tudo que sua imaginação permitir, como nos sonhos.

Onde fica? Perto das terras de São Serapião, no descanso do Cálice Sagrado, à direita da Ilha de Avalon. Talvez fique perto da minha casa, mas sempre encoberto pelo desejo de se mostrar apenas àqueles que carregam na vida a certeza de que a felicidade se mastiga.

Da Solitude (letra Rodrigo Pinto, música André Mussalem)

Está chovendo na cidade
E eu moro nessa cidade há tanto tempo
Mas nunca vi chuva assim
Tão limpa, tão pura, tão mágica
Água benta que carrega todo concreto e a tristeza e a mentira
Da boca dos homens

Homens que se protegem
Da chuva e da dor
E eu quero que essa chuva me molhe
Que me transforme, me purifique, me reanime
Para a realidade seca que vem com o céu lavado

Minha carne pouca e fraca
Teme a tristeza do escuro que me cerca
Meus pés já não tocam o chão
Em vão as mãos suplicam em prece
E é de sonho e de desejo

Soa no peito o eco de apelos
Por breves sorrisos de alento
Meu corpo é um baú escuro
E no fundo, jaz um coração
E eu quero ser limpo e suave
Como a chuva da tarde

Mas ele disse: “não tenho em quem pensar
Volto prá casa vazio”
E ela me disse: “desejo mesmo voar
Que nem passarinho”



PS - Letra escrita em 1994 por Rodrigo e musicada por mim em 2011. Parte do projeto Antology da Banda que poderíamos ter sido mas nunca fomos.