(eita mulher prá causar ciúmes...)
Domingou, ensaio geral do Nação
Clara vem com o mundo na palma da mão
vem sorrindo, me dispensa o seu olhar
pois o seu olhar é caro e vale o sem-fim do mar
Quem pensar o amor dessa mulher reter
de carcereiro a prisioneiro vai verter
Clara é a prisão do que você sentir
e dormir com ela é um passo prá se despertar tão só
Clara é sonho e você não vai acordar
Clara é clara e infinita como o mar
Clara diz não choro porque sei ser mulher
mas no fundo o que ela quer é um colo e um solo
prá fincar sua raiz
Descolada, ladra de toda atenção
o seu não tem hierarquia superior
o amor segundo ela é uma contra-mão
e a vida não lhe dá tempo qualquer para uma paixão
Tatuou o seu registro pessoal
bem na nuca (a fronteira entre o bem e o mal)
desesperada, quando chega o carnaval
ela aspira, proibida, e torna a vida como quer
Clara é sonho e você não vai acordar
Clara é clara e infinita como o mar
Clara diz não choro porque sei ser mulher
mas no fundo o que ela quer é um colo e um solo
prá fincar sua raiz
PS (música bobinha, feita aos vinte anos, mas que agrada pelos novos arranjos)
quinta-feira, setembro 22, 2005
Pausa no conto: hoje é equinócio (de primavera)
Para Andréia, que acha meu blog "afrescalhado" : )
A aridez e a flor
Não há primavera nessa terra
por força do clima: ora seco, ora úmido
ora qualquer coisa que entristece a gente
não há uma flor que valha a pena
Mas se naquela menina eu planto esperança
e colho, quem sabe, um olhar de destino
se desatino em prédio, mas sonho com flor
quiçá essa dor, essa ausência floresça
e arremate e me desça ao encontro do chão
Beijando a menina, colhendo-a com calma
Não na palma da mão, ou no canteiro
não por nada, ou por dinheiro que a tenho estação
mas primavera no dia, primavera unção
beijando a menina, colhendo-a com calma
primavera no sim, primavera na alma
A aridez e a flor
Não há primavera nessa terra
por força do clima: ora seco, ora úmido
ora qualquer coisa que entristece a gente
não há uma flor que valha a pena
Mas se naquela menina eu planto esperança
e colho, quem sabe, um olhar de destino
se desatino em prédio, mas sonho com flor
quiçá essa dor, essa ausência floresça
e arremate e me desça ao encontro do chão
Beijando a menina, colhendo-a com calma
Não na palma da mão, ou no canteiro
não por nada, ou por dinheiro que a tenho estação
mas primavera no dia, primavera unção
beijando a menina, colhendo-a com calma
primavera no sim, primavera na alma
quarta-feira, setembro 21, 2005
Segunda Parte
Fantasma (segunda parte)
Anunciado o advogado, esse não se fez de rogado. Sentou-se como se aquele gabinete fosse sua casa e o Desembargador X um amigo do pai ou do avô que lhe pegou nos braços quando em época de calças curtas. Sorria uma lua. Despejava um dicionário. O Desembargador X fez sol na ousadia do advogado que não ousara baixar os olhos ao receber a honra de ser recebido. Encrespou a face franzindo sulcos para mostrar que pública era a função, mas o espaço era privativo. O advogado nem. Disse:
- Desembargador, não vou tomar-lhe o tempo que é precioso. Mas o Senhor tem em mãos um processo muito importante para um cliente meu.
O Desembargador não mudou a face:
- Os autos estão aqui?
- Estão aqui comigo. Pedi à sua assessoria para separa-lo.
- Pois não?
- É um caso delicado. Envolve muito dinheiro.
- Vou ler com cuidado – O Desembargador notou que o advogado ficou nervoso de repente.
- Entenda, Desembargador...há um grande volume de dinheiro envolvido nessa causa. Dinheiro que ajudaria quem precisasse...entende? A liminar...entende?
Não precisava maiores explicações. Pela primeira vez, desde que havia se revestido no gáudio do título que ostentava, o Desembargador X estava presenciando uma oferta de dinheiro pela sua decisão favorável aos interesses de advogado. Não que isso não acontecesse, e até com uma certa freqüência. Mas não imaginava ele que tão cedo no Tribunal recebesse uma proposta indecorosa. Pelo menos aos olhos da lei, da ética, da justiça e de todas essas coisas inúteis que não tangenciam o mundo da vida.
Anunciado o advogado, esse não se fez de rogado. Sentou-se como se aquele gabinete fosse sua casa e o Desembargador X um amigo do pai ou do avô que lhe pegou nos braços quando em época de calças curtas. Sorria uma lua. Despejava um dicionário. O Desembargador X fez sol na ousadia do advogado que não ousara baixar os olhos ao receber a honra de ser recebido. Encrespou a face franzindo sulcos para mostrar que pública era a função, mas o espaço era privativo. O advogado nem. Disse:
- Desembargador, não vou tomar-lhe o tempo que é precioso. Mas o Senhor tem em mãos um processo muito importante para um cliente meu.
O Desembargador não mudou a face:
- Os autos estão aqui?
- Estão aqui comigo. Pedi à sua assessoria para separa-lo.
- Pois não?
- É um caso delicado. Envolve muito dinheiro.
- Vou ler com cuidado – O Desembargador notou que o advogado ficou nervoso de repente.
- Entenda, Desembargador...há um grande volume de dinheiro envolvido nessa causa. Dinheiro que ajudaria quem precisasse...entende? A liminar...entende?
Não precisava maiores explicações. Pela primeira vez, desde que havia se revestido no gáudio do título que ostentava, o Desembargador X estava presenciando uma oferta de dinheiro pela sua decisão favorável aos interesses de advogado. Não que isso não acontecesse, e até com uma certa freqüência. Mas não imaginava ele que tão cedo no Tribunal recebesse uma proposta indecorosa. Pelo menos aos olhos da lei, da ética, da justiça e de todas essas coisas inúteis que não tangenciam o mundo da vida.
terça-feira, setembro 20, 2005
Comecinho do conto
Fantasma
Ser desembargador é exatamente oposto a ser fantasma. Desembargador procura luzes, sol, gente, multidão. Fantasma vive de sombra, medo, de inexistência intuída. Assim era o Desembargador X, gente pública que como seus pares não pertencia mais a si, mas a consciência coletiva de quem o via passar e apontava-o com dedo em riste: “Desembargador X”. E isso lhe comprazia. Dava-lhe a glória cotidiana conquistada a ferro, fogo e política, no garimpo que lhe tomou os últimos anos da titularidade de uma vara comum escondida no fórum da capital.
Esse árduo trabalho de cativar seus superiores justificava (para si) a vaidade diagnosticada no bem-estar de ser apontado no espaço que era seu: o público. Gente privada é diferenciada pelo sobrenome: o “tal” do “fulano”. Sua diferenciação advinha da titularidade outorgada pelo Tribunal de Justiça “Desembargador fulano”, ou, no caso, “Desembargador X”. Até sua família findou-se titularizada: esposa do Desembargador, filhos do Desembargador. E isso também lhe comprazia.
Havia até um certo prazer perverso em vestir a toga, em calcular a altivez do olhar dispensado aos que assistiam ao seu julgamento. Um gozo não liquefeito, mas etéreo como as luzes que eram atraídas pela sua presença emblemática. “Emblemática”: o Desembargador X gostaria disso.
Definitivamente, os fantasmas são diferentes. Contou-me certa vez Josefina Minha Fé que os fantasmas não gostam de pessoas porque lembram a eles que a vida vivida é aquela vivida na carne. Por isso são agressivos com gente viva, quebram louças, rangem dentes, chamam nomes que não lhes eram permitidos chamar quando eram de carne. Mas como ninguém acredita muito em fantasmas, eles vão resignados para o canto mais escuro da casa e evitam o contato direto com aqueles que um dia serão seus pares. Ficam ensimesmados em seu espaço privado, construído no alívio de sua invisibilidade a olhos comuns.
Voltemos, por ora, ao Desembargador X. Seu fim de tarde era sempre sentado no seu gabinete, sala privativa para aliviar as pressões de ser público, tomando um chá de arnica preparado por uma das suas funcionárias mais antigas, uma parenta sua, que tinha a função de filtro: filtrava pessoas de importância das sem-importância quando o Desembargador estava livre para recepções. Filtragem essa não muito eficiente, pois, um dia, apareceu por lá um certo advogado que tinha nas mãos um importante processo, cujo relator era o Desembargador X.
Ser desembargador é exatamente oposto a ser fantasma. Desembargador procura luzes, sol, gente, multidão. Fantasma vive de sombra, medo, de inexistência intuída. Assim era o Desembargador X, gente pública que como seus pares não pertencia mais a si, mas a consciência coletiva de quem o via passar e apontava-o com dedo em riste: “Desembargador X”. E isso lhe comprazia. Dava-lhe a glória cotidiana conquistada a ferro, fogo e política, no garimpo que lhe tomou os últimos anos da titularidade de uma vara comum escondida no fórum da capital.
Esse árduo trabalho de cativar seus superiores justificava (para si) a vaidade diagnosticada no bem-estar de ser apontado no espaço que era seu: o público. Gente privada é diferenciada pelo sobrenome: o “tal” do “fulano”. Sua diferenciação advinha da titularidade outorgada pelo Tribunal de Justiça “Desembargador fulano”, ou, no caso, “Desembargador X”. Até sua família findou-se titularizada: esposa do Desembargador, filhos do Desembargador. E isso também lhe comprazia.
Havia até um certo prazer perverso em vestir a toga, em calcular a altivez do olhar dispensado aos que assistiam ao seu julgamento. Um gozo não liquefeito, mas etéreo como as luzes que eram atraídas pela sua presença emblemática. “Emblemática”: o Desembargador X gostaria disso.
Definitivamente, os fantasmas são diferentes. Contou-me certa vez Josefina Minha Fé que os fantasmas não gostam de pessoas porque lembram a eles que a vida vivida é aquela vivida na carne. Por isso são agressivos com gente viva, quebram louças, rangem dentes, chamam nomes que não lhes eram permitidos chamar quando eram de carne. Mas como ninguém acredita muito em fantasmas, eles vão resignados para o canto mais escuro da casa e evitam o contato direto com aqueles que um dia serão seus pares. Ficam ensimesmados em seu espaço privado, construído no alívio de sua invisibilidade a olhos comuns.
Voltemos, por ora, ao Desembargador X. Seu fim de tarde era sempre sentado no seu gabinete, sala privativa para aliviar as pressões de ser público, tomando um chá de arnica preparado por uma das suas funcionárias mais antigas, uma parenta sua, que tinha a função de filtro: filtrava pessoas de importância das sem-importância quando o Desembargador estava livre para recepções. Filtragem essa não muito eficiente, pois, um dia, apareceu por lá um certo advogado que tinha nas mãos um importante processo, cujo relator era o Desembargador X.
sexta-feira, setembro 09, 2005
E eu canto...
Rosa Negra
Por que será que ele samba
e me deixa bamba assim
e assim, sai varando a madrugada
e me deixa guardada, dentro de mim
Diz que a noite é uma criança
e que o Mundo é seu lar
Diz que não sabe se volta
e nem me pede prá esperar
Por que será que ele samba
e me deixa bamba assim
e assim, sai varando a madrugada
e me deixa guardada, dentro de mim
Diz que a noite é uma criança
e que o Mundo é seu lar
Diz que não sabe se volta
e nem me pede prá esperar
terça-feira, agosto 30, 2005
E eu canto....
Jorge Maravilha
(Chico Buarque)
E nada como um tempo após um contratempo
para o meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
chorando, resmungando, até quando, não, não, não...
E como já dizia Jorge Maravilha
prenhe de razão
mais vale uma filha na mão do que dois pais voando:
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
(Chico Buarque)
E nada como um tempo após um contratempo
para o meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
chorando, resmungando, até quando, não, não, não...
E como já dizia Jorge Maravilha
prenhe de razão
mais vale uma filha na mão do que dois pais voando:
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
quarta-feira, agosto 24, 2005
Teoria da Relatividade
Minha gata conversa com o passarinho:
Tudo é relativo do outro lado do muro
Voar é uma questão de saber se desvencilhar do chão
Ser livre é ater-se às responsabilidades para com o outro
O mal é apenas o bem mal-feito:
Vem cá que eu te ensino a flexibilizar perspectivas
O passarinho não caiu nessa
E voou para a segurança dos seus postulados
Tudo é relativo do outro lado do muro
Voar é uma questão de saber se desvencilhar do chão
Ser livre é ater-se às responsabilidades para com o outro
O mal é apenas o bem mal-feito:
Vem cá que eu te ensino a flexibilizar perspectivas
O passarinho não caiu nessa
E voou para a segurança dos seus postulados
segunda-feira, agosto 22, 2005
Sexta-feira prá não sair da lembrança
Sexta-feira à tardinha: primeira garrafa de vinho aberta
Sardela e pesto genovês a deslizar sobre as torradas
Mais um amigo que chega, mais uma garrafa aberta
O queijo reggiano compartilhado, amar o que se faz: isso permanece às dívidas
Mais um amigo que chega, mais uma garrafa aberta
Glívio cozinhando ao fundo: a carne desbota em sange
Pancceta e copa, mais uma garrafa aberta
os ânimos de exaltam, o ânimo habita o vinho
Billie Holliday é escolhida por Glívio, a conversa desbota em música
O disco de Jards Macalé emprestado, a confiança trespassa o clientelismo
Mais uma garrafa de vinho aberta
O título de mestre é compartilhado entre aqueles que bem sabem viver
Ao voltar para casa, a penumbra do meu amor dormindo tranquila
Mais uma garrafa de vinho aberta
O dia teve por cor o rubi.
Sardela e pesto genovês a deslizar sobre as torradas
Mais um amigo que chega, mais uma garrafa aberta
O queijo reggiano compartilhado, amar o que se faz: isso permanece às dívidas
Mais um amigo que chega, mais uma garrafa aberta
Glívio cozinhando ao fundo: a carne desbota em sange
Pancceta e copa, mais uma garrafa aberta
os ânimos de exaltam, o ânimo habita o vinho
Billie Holliday é escolhida por Glívio, a conversa desbota em música
O disco de Jards Macalé emprestado, a confiança trespassa o clientelismo
Mais uma garrafa de vinho aberta
O título de mestre é compartilhado entre aqueles que bem sabem viver
Ao voltar para casa, a penumbra do meu amor dormindo tranquila
Mais uma garrafa de vinho aberta
O dia teve por cor o rubi.
segunda-feira, agosto 08, 2005
30 anos
- Não há tempo, não há tempo...
Disse o coelho branco ao homem que tinha ido fotografar alice.
Ele não se perguntou acerca da esquisitice de um coelho branco segurando um relógio falar, porque mais esquisito era o fato de ele estar fotografando uma garotinha em poses sensuais.
- Não há tempo, não há tempo...
Coelho e relógios bons são coelhos e relógios mortos. E um tiro certeiro tingiu de sangue a adjetivação do coelho. Mas o relógio não parou. E isso era inevitável.
Disse o coelho branco ao homem que tinha ido fotografar alice.
Ele não se perguntou acerca da esquisitice de um coelho branco segurando um relógio falar, porque mais esquisito era o fato de ele estar fotografando uma garotinha em poses sensuais.
- Não há tempo, não há tempo...
Coelho e relógios bons são coelhos e relógios mortos. E um tiro certeiro tingiu de sangue a adjetivação do coelho. Mas o relógio não parou. E isso era inevitável.
segunda-feira, agosto 01, 2005
Agosto
Vem, Agosto
Com suas nominações de língua perdida
Com seus passos de coisa imaginada depois de algo que se conta
em mistério. Vem como minha mãe vinha para ver se eu havia morrido
E inaugura em mim a marca do tempo, renova as células imaginárias do tempo
A existência imaginária do tempo
Vem
Pai dos meses, feiticeiro de quadro de Goya
bruxedo de gente grande, coisa antecipada que fica em nós
senhor dos ventos, pressuposto de ficar em casa temendo-se o não sabido
Vem
Vem, Agosto
Que o meu corpo é um tronco disposto a ser levado pelo mar
Com suas nominações de língua perdida
Com seus passos de coisa imaginada depois de algo que se conta
em mistério. Vem como minha mãe vinha para ver se eu havia morrido
E inaugura em mim a marca do tempo, renova as células imaginárias do tempo
A existência imaginária do tempo
Vem
Pai dos meses, feiticeiro de quadro de Goya
bruxedo de gente grande, coisa antecipada que fica em nós
senhor dos ventos, pressuposto de ficar em casa temendo-se o não sabido
Vem
Vem, Agosto
Que o meu corpo é um tronco disposto a ser levado pelo mar
terça-feira, julho 19, 2005
A vida sempre segue em frente
Saída de Santo Amaro
Sou um homem pequeno diante da porta
E deixo atrás de mim as circunstâncias e as devoções segredadas na cerâmica
Em cada cômodo fica um fantasma resignado da morte que é lembrança
Eu que nada sou senão esse caminho defronte
Ali, rezei uma reza; acolá, queimei os meus dedos
no canto da cama que ali havia suspeitei que a noite demoraria a passar
pedi paz e a paz não veio
Na parede da sala amalgamaram-se as unhas, a aliança e um poema
na cozinha fui visitado pelo meu avô. E o que é verdade e o que é mentira
foi lançado pela sala pelo vento do ventilador
Eu sou um homem pequeno diante da porta
E calo diante das vozes que tecem mudo ranger de sedas por detrás de mim
As confissões da alcova e o ponto final; a oração calada e o murmúrio do recomeço
Como dialogam bem as coisas que dissemos e o passado não se ressente, apenas o presente
A sala vazia está repleta de esperança, os quartos vazios buscam novos amores tácteis
Uma sede de coisa nova vai se assenhorando da casa
E meu coração resignado queda expulso, transformando a vida em lenda
As marcas dos meus dedos, as lascas de minha pele, os fios dos meus cabelos
A casa se despe de mim como se buscasse uma nova carne
Adeus, esse aceno de mão
Adeus, esse gemido na cama
Adeus, esse pesadelo abraçado com devoção
A casa está nua de mim e eu estou repleto de roupas antigas
Eu sou um homem pequeno diante da porta
Santo Amaro é maior que o Mundo só porque é meu
Eu não compreendo o ato de deixar e não voltar mais
E fico equilibrado neste fio armado entre o terror e a esperança
Sou um homem pequeno diante da porta
E deixo atrás de mim as circunstâncias e as devoções segredadas na cerâmica
Em cada cômodo fica um fantasma resignado da morte que é lembrança
Eu que nada sou senão esse caminho defronte
Ali, rezei uma reza; acolá, queimei os meus dedos
no canto da cama que ali havia suspeitei que a noite demoraria a passar
pedi paz e a paz não veio
Na parede da sala amalgamaram-se as unhas, a aliança e um poema
na cozinha fui visitado pelo meu avô. E o que é verdade e o que é mentira
foi lançado pela sala pelo vento do ventilador
Eu sou um homem pequeno diante da porta
E calo diante das vozes que tecem mudo ranger de sedas por detrás de mim
As confissões da alcova e o ponto final; a oração calada e o murmúrio do recomeço
Como dialogam bem as coisas que dissemos e o passado não se ressente, apenas o presente
A sala vazia está repleta de esperança, os quartos vazios buscam novos amores tácteis
Uma sede de coisa nova vai se assenhorando da casa
E meu coração resignado queda expulso, transformando a vida em lenda
As marcas dos meus dedos, as lascas de minha pele, os fios dos meus cabelos
A casa se despe de mim como se buscasse uma nova carne
Adeus, esse aceno de mão
Adeus, esse gemido na cama
Adeus, esse pesadelo abraçado com devoção
A casa está nua de mim e eu estou repleto de roupas antigas
Eu sou um homem pequeno diante da porta
Santo Amaro é maior que o Mundo só porque é meu
Eu não compreendo o ato de deixar e não voltar mais
E fico equilibrado neste fio armado entre o terror e a esperança
terça-feira, julho 12, 2005
Les trois dames dans rouge
(para ser lida e cantada como Terezinha de Jesus e referenciada à foto acima da direita para esquerda)
A primeira, como o sol
quis derrubar as minhas cortinas
quando eu via em tudo inverno
reinaugurou as minhas retinas
A segunda veio a mim
como uma alegria inesperada
e marcou-me a vida inteira
como uma vida tatuada
A terceira, como um anjo
reinventou minha existência
eu sou dela a carne e a alma
e ela, em mim, é minha essência
A primeira, como o sol
quis derrubar as minhas cortinas
quando eu via em tudo inverno
reinaugurou as minhas retinas
A segunda veio a mim
como uma alegria inesperada
e marcou-me a vida inteira
como uma vida tatuada
A terceira, como um anjo
reinventou minha existência
eu sou dela a carne e a alma
e ela, em mim, é minha essência
sexta-feira, julho 01, 2005
Mais um sambinha para o disco que eu juro que vai sair
Venha, moça, saia da janela
Que a flor mais bela, você não colheu
Estenda os braços para o que lhe agrada
Depois abra a guarda, para os braços meus
E venha como a aurora, destronada e bela
Saia da janela, deixe isso pra lá
Que eu tenho tanto amor pela alforria
Mas guardei meu dia para lhe entregar
E eu quero ver, esse dia acontecer, eu quero ver
Eu quero ver, esse dia amanhecer, eu quero ver
Que a flor mais bela, você não colheu
Estenda os braços para o que lhe agrada
Depois abra a guarda, para os braços meus
E venha como a aurora, destronada e bela
Saia da janela, deixe isso pra lá
Que eu tenho tanto amor pela alforria
Mas guardei meu dia para lhe entregar
E eu quero ver, esse dia acontecer, eu quero ver
Eu quero ver, esse dia amanhecer, eu quero ver
terça-feira, junho 21, 2005
Havia uma Biblioteca naqele Mosteiro
Eu cortei as pontas dos dedos para sentir os livros. Eles traduzem minha angústia e renovam a esperança em um mundo táctil, de coisas para serem sentidas de fora para dentro como no princípio de tudo, quando só havia gente de carne e angústia. Sequer preciso lê-los; basta o cheiro de papel a inundar minhas narinas e um pressentimento de que alguém me conta algo em surdina me atravessa como uma lâmina cega a presentear de cortes inexatos a alma outrora sã e limpa. Quero os papéis amarelos e tantas tipografias quanto houverem línguas espalhadas por obra de um deus cioso da torre de babel que, com certeza, não era de pedras e talhas, mas de livros; porque não se chega a deus sem ler. Por isso esse presente que te ofereço: um mundo embrulhado em algo indescritível, essa sede que só encontra pedra de sal a aumenta-la, esse desejo estancado por uma parede de vidro translúcida, isso, isso, isso, isso. Barulho de página virando. Descoberta de uma nova gramatura. Denúncia de um outro que me espreita através das linotipos. Eu cortei os dedos para abrir meus olhos.
sexta-feira, junho 17, 2005
Tratado Filosófico sobre a arte do efêmero
Eu sou o choque inevitável entre a permanência
E a efemeridade que nunca tive
O que não temos nos é necessário tanto quanto a água
Ou elemento que valha nossa conformação
Aquilo que não temos nos é coisa-única (e quem pisa no ar deseja o chão)
Tenho eu dois braços ? mas não me bastam eles para reconstruir o mundo
Tenho eu dois olhos ? e ainda assim a mim mesmo não verão
Se permaneço pela alma, e assim reconhecem
Preciso olhar-me no espelho, sorrir-me e me decompor
Pois ai daquele que tem a dor de ter tudo e nada tem
E ai daquele que tem tudo mas lhe falta a dor
Solitariamente tentei preencher essa vaga com água do mar
Mas a água seca e deixa apenas o seu rastro de sal
Abri meu peito para tantos escritores
Mas eles só podem somar dores e ratificar minha cicatriz
Estudei, criei gado, teci filosofias
Mas um ponto (ainda que minúsculo) de incompletude
Doía como se a mim mesmo eu ainda tivesse que construir
É só na efemeridade que somos completos
É só na passagem que nos vemos enfim
É só no espelho que vive a alma gêmea
É apenas no outro que repouso em mim
Esta é a beleza que me falta (ou que não retive)
Pois eu sou o choque inevitável entre a permanência
E a efemeridade que nunca tive
E a efemeridade que nunca tive
O que não temos nos é necessário tanto quanto a água
Ou elemento que valha nossa conformação
Aquilo que não temos nos é coisa-única (e quem pisa no ar deseja o chão)
Tenho eu dois braços ? mas não me bastam eles para reconstruir o mundo
Tenho eu dois olhos ? e ainda assim a mim mesmo não verão
Se permaneço pela alma, e assim reconhecem
Preciso olhar-me no espelho, sorrir-me e me decompor
Pois ai daquele que tem a dor de ter tudo e nada tem
E ai daquele que tem tudo mas lhe falta a dor
Solitariamente tentei preencher essa vaga com água do mar
Mas a água seca e deixa apenas o seu rastro de sal
Abri meu peito para tantos escritores
Mas eles só podem somar dores e ratificar minha cicatriz
Estudei, criei gado, teci filosofias
Mas um ponto (ainda que minúsculo) de incompletude
Doía como se a mim mesmo eu ainda tivesse que construir
É só na efemeridade que somos completos
É só na passagem que nos vemos enfim
É só no espelho que vive a alma gêmea
É apenas no outro que repouso em mim
Esta é a beleza que me falta (ou que não retive)
Pois eu sou o choque inevitável entre a permanência
E a efemeridade que nunca tive
sexta-feira, junho 10, 2005
Afogado
A Terra Seca me perguntou
Se eu só sabia falar do mar
disse que poesia boa era carne pouca
e o osso a mostra no alguidar
Triste de mim, Terra Seca
Que falo pelos cotovelos
e só abro a boca para transbordar
Por isso levo o mar em minha garganta
E quem não gosta, vá se afogar...
Se eu só sabia falar do mar
disse que poesia boa era carne pouca
e o osso a mostra no alguidar
Triste de mim, Terra Seca
Que falo pelos cotovelos
e só abro a boca para transbordar
Por isso levo o mar em minha garganta
E quem não gosta, vá se afogar...
quarta-feira, junho 08, 2005
O OUTRO
Sentado, sob a sombra dos visgueiros
Penso e vislumbro, por não ter onde ir, o mar
E penso que pensar não é a ausência de uma ação
Mas a ação invertida das coisas de fora para as coisas de dentro
Quando e onde não sou eu o referencial de mim,
mas as coisas comigo referenciam o que sou
E isso é pensar no mar, essa coisa comigo mais corpórea do que liquefeita
Ao reverso do meu pensamento, mais liquefeito do que meu corpo
Penso e vislumbro: adiante, o mar
E penso que o mar é calmo, sob uma réstia iluminada
Um campo tranqüilo que se adequa ao que penso dele
E nessa subsunção fumo um cigarro e dou-me por satisfeito por não ter aonde ir
(e se houvesse aonde ir, não iria,
para não correr o risco de inadequar meu pensamento à vida)
Mas de repente, (nesse átimo de tempo em que ocorrem os poemas)
A vida queda a conspirar contra mim
E longe, vejo uma nuvem negra a perturbar o que penso eu do mar
É apenas um ponto negro, como de resto principiam-se as coisas todas
Mas o mar torna-se outro, não o que eu penso, mas outro e meu cigarro se apaga.
Um revolver-se de tudo se assenhora de mim e meu pensamento fica como rastro dele mesmo
Que mar é esse sob uma nuvem negra que surge e destitui o que eu penso?
Mar do Deus hebreu que pôs fim em tudo e em água
Mar que engoliu a carne de povos mais civilizados do que o meu
Mar das embarcações que naufragaram em busca do que não conheciam
Mar da incerteza da terra, do mar, da vida: outro mar, esse que não conheço
Mas cheguei a conhecer algum dia o mar?
Foi ele algum dia o campo tranqüilo que se adequava ao que pensava dele?
Eu que penso tantas coisas de mim, constantemente visitado por nuvens negras
Sequer sei se sou esse sentado à sombra dos visgueiros
Eu que me sabia subsumido no que pensava de mim penso que posso ser outro como o mar
E que o mar talvez nunca tenha sido o campo tranqüilo ou o sob a nuvem negra
Mas outro, indefinidamente, inconscientemente, sorrateiro e misterioso outro
Oculto por pensamentos inexatos, incertos como a vida, a terra, o mar
Penso e vislumbro, por não ter onde ir, o mar
E penso que pensar não é a ausência de uma ação
Mas a ação invertida das coisas de fora para as coisas de dentro
Quando e onde não sou eu o referencial de mim,
mas as coisas comigo referenciam o que sou
E isso é pensar no mar, essa coisa comigo mais corpórea do que liquefeita
Ao reverso do meu pensamento, mais liquefeito do que meu corpo
Penso e vislumbro: adiante, o mar
E penso que o mar é calmo, sob uma réstia iluminada
Um campo tranqüilo que se adequa ao que penso dele
E nessa subsunção fumo um cigarro e dou-me por satisfeito por não ter aonde ir
(e se houvesse aonde ir, não iria,
para não correr o risco de inadequar meu pensamento à vida)
Mas de repente, (nesse átimo de tempo em que ocorrem os poemas)
A vida queda a conspirar contra mim
E longe, vejo uma nuvem negra a perturbar o que penso eu do mar
É apenas um ponto negro, como de resto principiam-se as coisas todas
Mas o mar torna-se outro, não o que eu penso, mas outro e meu cigarro se apaga.
Um revolver-se de tudo se assenhora de mim e meu pensamento fica como rastro dele mesmo
Que mar é esse sob uma nuvem negra que surge e destitui o que eu penso?
Mar do Deus hebreu que pôs fim em tudo e em água
Mar que engoliu a carne de povos mais civilizados do que o meu
Mar das embarcações que naufragaram em busca do que não conheciam
Mar da incerteza da terra, do mar, da vida: outro mar, esse que não conheço
Mas cheguei a conhecer algum dia o mar?
Foi ele algum dia o campo tranqüilo que se adequava ao que pensava dele?
Eu que penso tantas coisas de mim, constantemente visitado por nuvens negras
Sequer sei se sou esse sentado à sombra dos visgueiros
Eu que me sabia subsumido no que pensava de mim penso que posso ser outro como o mar
E que o mar talvez nunca tenha sido o campo tranqüilo ou o sob a nuvem negra
Mas outro, indefinidamente, inconscientemente, sorrateiro e misterioso outro
Oculto por pensamentos inexatos, incertos como a vida, a terra, o mar
quarta-feira, maio 25, 2005
O Quarto em Desordem
Esse é o poema que me perturba o sono. Não há escapatória dele...mas cedo ou mais tarde, na tranquilidade de nós mesmos, nos deparamos com o quarto em desordem; como Drummond se deparou:
O Quarto em desordem
Na curva perigosa dos cinqüenta derrapei neste amor.
Que dor!que pétala sensível e secreta me atormenta e me provoca à síntese da flor
que não sabe como é feita: amor na quinta-essência da palavra,
e mudo de natural silêncio já não cabe em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui nesse objeto mais vago
do que nuvem e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo
verdade tão final, sede tão vária
e esse cavalo solto pela cama a passear o peito de quem ama.
O Quarto em desordem
Na curva perigosa dos cinqüenta derrapei neste amor.
Que dor!que pétala sensível e secreta me atormenta e me provoca à síntese da flor
que não sabe como é feita: amor na quinta-essência da palavra,
e mudo de natural silêncio já não cabe em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui nesse objeto mais vago
do que nuvem e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo
verdade tão final, sede tão vária
e esse cavalo solto pela cama a passear o peito de quem ama.
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