NO BAR DA MIRA
Os santos africanos têm boca. Comem tudo o que a boca come, como Exu. Os santos católicos são pálidos, parecem que nunca viram um prato de pirão na vida. Parece que nunca foram na Mira. O Bar da Mira é uma dessas jóias que já fazem parte do itinerário turístico da cidade, com seus mitos e lendas e uma verdade inquestionável: a qualidade de sua cozinha. Mira é devota de Cosme e Damião, santos católicos. Mas eu acho que são os Iberês que dão as caras por lá, na hora do almoço. A comida de Mira é um ritual de fé e esperança que vai além do pão e do vinho. Coisa para poucos.
Como toda liturgia, começamos do caldinho de feijão, nominado por Edmilson, o baiano, de café. Edmilson é o celebrante desse ato religioso: filho de Mira, sua presença é indispensável para compreensão da beleza que se esconde por detrás de cada prato. Primeiramente, devemos agradecer pelo privilégio de estarmos diante da autêntica comida pernambucana. Sem invencionices de espumas, reduções, salteados. Amém, Senhor. O cabrito precoce. Aleluia. O sarapatel. Hosana. A galinha de cabidela. Saravá. Feijão, pirão, pimenta. I tego arcana dei.
E no fim do ritual, comunguemos todos na mesa em torno do doce de banana, de caju. Misturado e gelado, com o gosto de cravo a afastar qualquer pecha de pecado da gula a pairar sobre nossas cabeças abençoadas pela cerveja gelada. Oremos. A vida vale o peso exato desses momentos de paz.
quarta-feira, agosto 12, 2009
Oxóssi
Eu, bancário, advogado, professor, burocrata
De unhas cortadas, caninos serrados
Cheirando a sabonete, alfazema, boa-fé
Limitado em meus braços por conta das gravatas
Desmatado nas pernas e nas vontades
Pelas motosserras das normas e do beijo conjugal
Hei de morrer sério, católico bucal
Para dar espaço a outro, que carimbará para além de mim
E quem me dera antes da morte
Libertar do meu peito aquele que eu era
Antes de existir civilizações e belas palavras
O meu deus das matas, meu senhor Oxóssi
Abrir a jaula dos lobos e dos vampiros
Morder a carne alheia e beijar a boca furtiva
Desdenhar do rato, do impressionismo e do perdão
Corromper com árvores a sífilis do amor eterno
Destronar dos filmes o final feliz
Andar porque andava e nem me dar por isso
Desculpar a tortura, a angústia e a opressão
Quem me dera morrer apenas como casca
E viver na vida a vida a que sempre disse não
De unhas cortadas, caninos serrados
Cheirando a sabonete, alfazema, boa-fé
Limitado em meus braços por conta das gravatas
Desmatado nas pernas e nas vontades
Pelas motosserras das normas e do beijo conjugal
Hei de morrer sério, católico bucal
Para dar espaço a outro, que carimbará para além de mim
E quem me dera antes da morte
Libertar do meu peito aquele que eu era
Antes de existir civilizações e belas palavras
O meu deus das matas, meu senhor Oxóssi
Abrir a jaula dos lobos e dos vampiros
Morder a carne alheia e beijar a boca furtiva
Desdenhar do rato, do impressionismo e do perdão
Corromper com árvores a sífilis do amor eterno
Destronar dos filmes o final feliz
Andar porque andava e nem me dar por isso
Desculpar a tortura, a angústia e a opressão
Quem me dera morrer apenas como casca
E viver na vida a vida a que sempre disse não
quarta-feira, agosto 05, 2009
Lembranças de mundos encantados
Passei ontem na frente do prédio central dos correios. Veio-me uma lembrança alegre de quando era de poucos anos e lendo uma revista qualquer vi um anúncio de uma coleção de livros que se intitulava "Os Quatro Mundos Encantados de Walt Disney". Corri para minha mãe e disse aquilo que eu ouço repetidamente da boca da minha filha: "eu quero !" Minha mãe não relutou muito, visto que se tratava de uma coleção de livros e que isso me faria bem, afinal de contas, crianças não costumam pedir livros de presente.
A coleção não era vendida em livrarias. Apenas por pedido via correios e pagamento por boleto (visto que naquela época não havia internet e quejandos para facilitar a vida dos consumidores) a coleção quedaria acessível às crianças mais curiosas.
Foi minha primeira lição de paciência. O tempo naquela época corria com mais vagar: estradas velhas, estatismo exagerado dos caminhos que levam às comunicações.
Em um dia de sábado, meu pai me disse: vamos aos correios, seu presente chegou. Meu pai, sempre distante do meu mundo inventado, abriu a porta do carro rumo aos quatro mundos encantados de Walt Disney. Lembro do monumento que era o prédio dos correios. Colunas, mármore, gentes. Tudo me impressionou. Meu pai me pegou pela mão. Caminhou por entre os malotes, cartas. Eu sempre impressionado, de mãos dadas com meu pai. O malote veio em papel marrom. Pesado. Era uma coleção, afinal. Em casa, larguei a mão de meu pai e rasguei com voracidade o papel marrom, adentrando naquele chamado mundo encantado. E quanto de encantamento havia: nomes de bichos, estórias centenárias, segredos científicos, fábulas e mais fábulas. Eu me lembro que, por um instante, eu senti que dominava os segredos do universo. Lembro dos desenhos. Lembro das páginas e das letras. Lembro de quão era grande e belo o prédio dos correios.
Mas disso tudo, em meio a fábulas e bichos, a coisa de que mais me lembro é da força firme da mão de meu pai.
A coleção não era vendida em livrarias. Apenas por pedido via correios e pagamento por boleto (visto que naquela época não havia internet e quejandos para facilitar a vida dos consumidores) a coleção quedaria acessível às crianças mais curiosas.
Foi minha primeira lição de paciência. O tempo naquela época corria com mais vagar: estradas velhas, estatismo exagerado dos caminhos que levam às comunicações.
Em um dia de sábado, meu pai me disse: vamos aos correios, seu presente chegou. Meu pai, sempre distante do meu mundo inventado, abriu a porta do carro rumo aos quatro mundos encantados de Walt Disney. Lembro do monumento que era o prédio dos correios. Colunas, mármore, gentes. Tudo me impressionou. Meu pai me pegou pela mão. Caminhou por entre os malotes, cartas. Eu sempre impressionado, de mãos dadas com meu pai. O malote veio em papel marrom. Pesado. Era uma coleção, afinal. Em casa, larguei a mão de meu pai e rasguei com voracidade o papel marrom, adentrando naquele chamado mundo encantado. E quanto de encantamento havia: nomes de bichos, estórias centenárias, segredos científicos, fábulas e mais fábulas. Eu me lembro que, por um instante, eu senti que dominava os segredos do universo. Lembro dos desenhos. Lembro das páginas e das letras. Lembro de quão era grande e belo o prédio dos correios.
Mas disso tudo, em meio a fábulas e bichos, a coisa de que mais me lembro é da força firme da mão de meu pai.
terça-feira, julho 21, 2009
Ao Orecic, com carinho
Foi justamente na mesa de um bar que ouvi a notícia. Justamente no dia do amigo: o Orecic fechou. Assim, inevitável. Cícero bandeou-se para os lados do Rio Grande do Norte, notícias desencontradas da busca por um grande amor. Ou talvez um câncer. Nunca se sabe. A única certeza disso tudo é esse buraco no peito que chora o fim de uma era. No Orecic, eu vivi, praticamente, todas as minhas dores. E todas as alegrias também. Pelo menos até aqui. A notícia do primeiro amor, o anúncio da chegança de Maria Eduarda. A casa feia e desbotada foi testemunha de laços feitos, desfeitos e refeitos, como se fosse um monólito erigido para acompanhar a história íntima de um grupo de homens.
A comida era ruim, o lugar era feio, a cerveja tantas vezes vinha quente. Cícero não nos atendia, tantas vezes. O nosso garçom foi demitido. Mas acima de tudo era aquele nosso quintal, nossa caixa de areia, onde ternos, batas e aventais não entravam;
No início do ano eu compus um frevo chamado “Orecic Futebol Clube” que diz assim em um trecho:
É fevereiro, vem
A carne queima, bem
No Orecic tem uma mesa pra sentar
Esquece o ano, e vem
Vem no meu passo, bem
A vida à toa está na mesa desse bar
O frevo não tem mais sentido, agora. Não tem mais tempo presente. Foi para o reino das coisas idas, como o próprio Orecic, para quem, nessa manhã chuvosa de terça-feira (o anti-dia), eu dedico esse poema:
ORECIC
Eu nunca estarei em paz com a finitude das coisas
porque eu sei que junto com as coisas idas
deixamos de ser esse pouco que nos restava
largados ao vento que sopra o inevitável
deixamos o tênis, os amores, o hálito
a diferença, o choro, o tormento
e tudo fica da espessura de um fotograma na parede
tudo se resume a esse fotograma na parede
nossa tentativa absurda que reter água e areia
como se pudéssemos negociar com a finitude das coisas
e dar-lhe em troca um copo de cerveja
por, quem sabe, mais um segundo de tangência.
A comida era ruim, o lugar era feio, a cerveja tantas vezes vinha quente. Cícero não nos atendia, tantas vezes. O nosso garçom foi demitido. Mas acima de tudo era aquele nosso quintal, nossa caixa de areia, onde ternos, batas e aventais não entravam;
No início do ano eu compus um frevo chamado “Orecic Futebol Clube” que diz assim em um trecho:
É fevereiro, vem
A carne queima, bem
No Orecic tem uma mesa pra sentar
Esquece o ano, e vem
Vem no meu passo, bem
A vida à toa está na mesa desse bar
O frevo não tem mais sentido, agora. Não tem mais tempo presente. Foi para o reino das coisas idas, como o próprio Orecic, para quem, nessa manhã chuvosa de terça-feira (o anti-dia), eu dedico esse poema:
ORECIC
Eu nunca estarei em paz com a finitude das coisas
porque eu sei que junto com as coisas idas
deixamos de ser esse pouco que nos restava
largados ao vento que sopra o inevitável
deixamos o tênis, os amores, o hálito
a diferença, o choro, o tormento
e tudo fica da espessura de um fotograma na parede
tudo se resume a esse fotograma na parede
nossa tentativa absurda que reter água e areia
como se pudéssemos negociar com a finitude das coisas
e dar-lhe em troca um copo de cerveja
por, quem sabe, mais um segundo de tangência.
segunda-feira, julho 13, 2009
The times, they are a-changing
Come gather 'round peopleWherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin
'Then you better start swimmin
'Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'.
Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won't come again
And don't speak too soon
For the wheel's still in spin
And there's no tellin' who
That it's namin'.
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin'.
Come senators, congressmen
Please heed the call
Don't stand in the doorway
Don't block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There's a battle outside
And it is ragin'.
It'll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin'.
Come mothers and fathers
Throughout the land
And don't criticize
What you can't understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin'.
Please get out of the new one
If you can't lend your hand
For the times they are a-changin'.
The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin'.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin'.
sábado, junho 20, 2009
VALSA PARA AMOR, GUERRA E CIRCO
Ouço rumores de guerra
sangue, dor, desterro, vindos pelo mar
ela beija a minha boca com fúria e pouca
vontade de largar
Homens tomam a cidade, queimam fortalezas
Escravizam mães
Ela arranha a minha pele, diz que está com febre
E me pede mais
Tropas invadem por mar
Ela me morde sem fim
Enquanto eu sonho com a verdade
Ela tem saudade e me sussurra assim:
Acorda, amor
Acorda, amor
Vem ver o mar
Ver o mar
Ver o mar
Ver....
O mar, maré de gente e medo
de tanto segredo que a guerra tem
ela diz que não importa, que a vida é torta
e que eu sou seu bem
E assim a guerra adentra a noite, como um açoite
no corpo da paz
Ela puxa o meu cabelo, com terror e zelo
E me pede mais
Tropas invadem por mar
Ela me morde por fim
Enquanto eu sonho com a verdade
Ela tem saudade e me sussurra assim:
Acorda, amor
Acorda, amor
Vem ver o mar
Ver o mar
Ver o mar
Ver....
Ouço rumores de guerra
sangue, dor, desterro, vindos pelo mar
ela beija a minha boca com fúria e pouca
vontade de largar
Homens tomam a cidade, queimam fortalezas
Escravizam mães
Ela arranha a minha pele, diz que está com febre
E me pede mais
Tropas invadem por mar
Ela me morde sem fim
Enquanto eu sonho com a verdade
Ela tem saudade e me sussurra assim:
Acorda, amor
Acorda, amor
Vem ver o mar
Ver o mar
Ver o mar
Ver....
O mar, maré de gente e medo
de tanto segredo que a guerra tem
ela diz que não importa, que a vida é torta
e que eu sou seu bem
E assim a guerra adentra a noite, como um açoite
no corpo da paz
Ela puxa o meu cabelo, com terror e zelo
E me pede mais
Tropas invadem por mar
Ela me morde por fim
Enquanto eu sonho com a verdade
Ela tem saudade e me sussurra assim:
Acorda, amor
Acorda, amor
Vem ver o mar
Ver o mar
Ver o mar
Ver....
sábado, maio 02, 2009
O mundo precisa de mães
segunda-feira, abril 27, 2009
Botões e ratos
Quando me casei, pela segunda vez, minha ex-esposa escreveu o texto abaixo. Agora, minha ex-esposa está casada também. Encontrou o seu caminho, como eu encontrei o meu. E quão melhor o mundo seria, se fôssemos capazes de abrir nossos braços para o futuro sem os cotovelos do passado. Deve ter sido um casamento muito bonito, como são os espíritos de Aline e Edgar.
Gostaria de dizer palavras de brinde, como nos casamentos anglo-saxões. Mas as palavras de Aline, quando eu me casei, representam tudo o que eu gostaria de dizer, na mais verdadeira recíproca que pode haver entre um ex-casal:
"Fui hoje comprar um presente para o casamento de meu ex marido. Rodei a loja um tempão, tentando encontrar algo que, ao mesmo tempo, dissesse o quanto de alegria eu desejo para sua nova vida e o quanto lhe sou grata pelo seu apoio incondicional.André me ensinou que a amizade verdadeira (que é amor, no fim das contas), não precisa de um bando de coisas; só precisa de doação. Que erros podem ser reparados. Quer é possível perdoar, e, assim, curar dores terríveis. Que o rio da vida sempre continua.Nesse meu ano tão atribulado, André me deu ombro nos momentos mais difíceis. Quando me desesperei, ele mostrou que eu não precisava me sentir desamparada. Quando tive medo, ele me fez rir para espantar os demônios. Quando eu fui vítima de maledicência, ele me defendeu.Gosto de pensar que pouca gente no mundo consegue ter o que temos, depois de um divórcio. O respeito que construímos depois que nos refizemos. As "piadas internas" que mantemos. Fico muito feliz que ele tenha encontrado alguém como Fátima, que o faz enxergar o futuro sempre com olhos otimistas. E não digo isso pra parecer boazinha não, que eu nem carrego essa fama, nem dela preciso. Estou mesmo, genuinamente, feliz por ele ter encontrado seu caminho. Desejo aos dois toda a sorte que houver nessa vida. Encontrar um amor é muito difícil, e quando acontece... bem... quando acontece nunca mais a vida é a mesma.Acabei escolhendo um presentinho bobo, mas alegre. Tão alegre quanto desejo que a vida seja: para Fátima e André, para os bebês, e para mim também; por que não?"
Gostaria de dizer palavras de brinde, como nos casamentos anglo-saxões. Mas as palavras de Aline, quando eu me casei, representam tudo o que eu gostaria de dizer, na mais verdadeira recíproca que pode haver entre um ex-casal:
"Fui hoje comprar um presente para o casamento de meu ex marido. Rodei a loja um tempão, tentando encontrar algo que, ao mesmo tempo, dissesse o quanto de alegria eu desejo para sua nova vida e o quanto lhe sou grata pelo seu apoio incondicional.André me ensinou que a amizade verdadeira (que é amor, no fim das contas), não precisa de um bando de coisas; só precisa de doação. Que erros podem ser reparados. Quer é possível perdoar, e, assim, curar dores terríveis. Que o rio da vida sempre continua.Nesse meu ano tão atribulado, André me deu ombro nos momentos mais difíceis. Quando me desesperei, ele mostrou que eu não precisava me sentir desamparada. Quando tive medo, ele me fez rir para espantar os demônios. Quando eu fui vítima de maledicência, ele me defendeu.Gosto de pensar que pouca gente no mundo consegue ter o que temos, depois de um divórcio. O respeito que construímos depois que nos refizemos. As "piadas internas" que mantemos. Fico muito feliz que ele tenha encontrado alguém como Fátima, que o faz enxergar o futuro sempre com olhos otimistas. E não digo isso pra parecer boazinha não, que eu nem carrego essa fama, nem dela preciso. Estou mesmo, genuinamente, feliz por ele ter encontrado seu caminho. Desejo aos dois toda a sorte que houver nessa vida. Encontrar um amor é muito difícil, e quando acontece... bem... quando acontece nunca mais a vida é a mesma.Acabei escolhendo um presentinho bobo, mas alegre. Tão alegre quanto desejo que a vida seja: para Fátima e André, para os bebês, e para mim também; por que não?"
sábado, abril 18, 2009
Maria´s song

Escuta, Maria, eu andei toda vida para te encontrar
Maria, Maria, duas linhas perfeitas não podem se tocar
E os meus sóis,
que se horizontam além de nós
brilharão sagrados
se tua noite antiga com eles se casar
Escuta Maria, pé no chão, fé na lida é que posso te dar
Maria, Maria, e o som da poesia que me trouxe pra cá
E quem de nós
poderá dizer que sós
seguiremos todos
se as nossas linhas querem se eninhar
Quando a noite nos chegar
Para a vida nos casar
Pé na reta e mira o mar
Maria....
Maria, Maria, duas linhas perfeitas não podem se tocar
E os meus sóis,
que se horizontam além de nós
brilharão sagrados
se tua noite antiga com eles se casar
Escuta Maria, pé no chão, fé na lida é que posso te dar
Maria, Maria, e o som da poesia que me trouxe pra cá
E quem de nós
poderá dizer que sós
seguiremos todos
se as nossas linhas querem se eninhar
Quando a noite nos chegar
Para a vida nos casar
Pé na reta e mira o mar
Maria....
quinta-feira, abril 09, 2009

Quantos nomes você terá?
Lê, Lelê, Amor, Meu Raio de Sol
Mas o que há em um nome?
Se o que interrompe a madrugada são seus olhos
Se o que deixa ansioso é não poder ser como o vento
e soprar nos seus ouvidos
Todo o amor que haverá por aqui afora
E nem sei se esse sopro será em Raquel ou em ti
porque ambas, imensas
são, sem nome, a extensão de mim
quarta-feira, março 11, 2009
ponto final
"Se viessem os ciganos
Com teu coração fariam
Anéis e colares brancos.
Oh, foge lua, lua, lua.
Quando vierem os ciganos,
Te acharão sobre a bigorna
Com teus olhinhos fechados.
Foge lua, lua, lua,
Que já sinto os seus cavalos
Deixa-me, filho, e não pises
O meu alvor engomado."
(tradução de Flaviola, sobre poema de Lorca, musicado pelo Flaviola, magistralmente gravado pro Amelinha, sentida por mim)
Com teu coração fariam
Anéis e colares brancos.
Oh, foge lua, lua, lua.
Quando vierem os ciganos,
Te acharão sobre a bigorna
Com teus olhinhos fechados.
Foge lua, lua, lua,
Que já sinto os seus cavalos
Deixa-me, filho, e não pises
O meu alvor engomado."
(tradução de Flaviola, sobre poema de Lorca, musicado pelo Flaviola, magistralmente gravado pro Amelinha, sentida por mim)
quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Haverá sempre uma quarta-feira a nos lembrar do final
que a felicidade não é desse mundo,
que essa cidade é um vale de sangue e de sombras
que a alegria é um pecado,
que o martírio é nossa bandeira
Mas o nosso peito que não se entrega à confissão
o nosso peito pagão
lançará confetes sobre nossas cabeças
no dia de se lavarem as cinzas
a esperança sagrada será substituída
pela terça-feira gorda
que será então a última a morrer
que a felicidade não é desse mundo,
que essa cidade é um vale de sangue e de sombras
que a alegria é um pecado,
que o martírio é nossa bandeira
Mas o nosso peito que não se entrega à confissão
o nosso peito pagão
lançará confetes sobre nossas cabeças
no dia de se lavarem as cinzas
a esperança sagrada será substituída
pela terça-feira gorda
que será então a última a morrer
segunda-feira, fevereiro 23, 2009
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
sábado, fevereiro 14, 2009
O Bode Dourado
Cabeça Branca é o nome do sujeito. Só o dedo de prosa vale o calor da Encruzilhada. Mas o percurso não termina nas palavras, o Bode Dourado tem e merece a fama do melhor bode de Recife. Comer bode é uma arte para poucos. O sabor não agrada a todos. Mas a base do sertão vem ali, no prato, dourado como diz o nome. Acompanhado do pirão. Da vinagrete. Da farofa. O dourado do nome está na capa que protege a maciez da carne, dourada, resultado de algum tempo no forno depois de ter sido amaciada na cocção.
Quando servido, o bode é crocante, com o sabor característico preservado, seja no pernil, seja na costela. Os ossos se acumulam no prato, que mimetiza um cemitério dos prazeres passageiros, sem nos dizer "nós, que aqui estamos, por vós esperamos". Não, é antes um cemitério da boa lembrança, do gosto da carne minuciosamente preparada.
A simplicidade do lugar é inversamente proporcional a grandeza do preparo do bode. Esse animal que resiste às intepéries da vida, do solo seco, a palo duro, mas felizmente domado pela nossa fome, pois triste do bicho que o homem come.
(PS - Depois do bode, sugiro o licor de cana de açúcar de Triunfo, gelado, doce, perigosíssimo).
Abraços, Edvaldo, ó cabeça branca.
Bode Dourado
Rua Dr. José Maria, 217, lojas 09 e 10.
Encruzilhada
Recife
Quando servido, o bode é crocante, com o sabor característico preservado, seja no pernil, seja na costela. Os ossos se acumulam no prato, que mimetiza um cemitério dos prazeres passageiros, sem nos dizer "nós, que aqui estamos, por vós esperamos". Não, é antes um cemitério da boa lembrança, do gosto da carne minuciosamente preparada.
A simplicidade do lugar é inversamente proporcional a grandeza do preparo do bode. Esse animal que resiste às intepéries da vida, do solo seco, a palo duro, mas felizmente domado pela nossa fome, pois triste do bicho que o homem come.
(PS - Depois do bode, sugiro o licor de cana de açúcar de Triunfo, gelado, doce, perigosíssimo).
Abraços, Edvaldo, ó cabeça branca.
Bode Dourado
Rua Dr. José Maria, 217, lojas 09 e 10.
Encruzilhada
Recife
domingo, fevereiro 08, 2009
Gastronomia - daqui para frente
Desde que eu abri o blog tenho escrito várias poesias, publicado coisas alheias, tentado escrever na net, o que eu não escrevo em livros, papéis. Sempre guardei em mim um assunto que gostaria de falar porque me toca de maneira especial e mui profunda. A gastronomia da minha cidade. Mas a gastronomia acessível. Que me faz acreditar que a comida na mesa revela o tanto de gente e bicho que há em nós. Que eleva à alma até a carne, porque alma pela alma não tem gosto de nada, nem de hóstia.
Logicamente não vou publicar receitas. Não tenho competência para isso. O que eu quero é desvelar caminhos que acabei conhecendo, por tanto amar me perder entre os sabores. É uma forma de tornar esse blog mais útil também. Poesia não enche barriga de ninguém. (rimou).
Logicamente não vou publicar receitas. Não tenho competência para isso. O que eu quero é desvelar caminhos que acabei conhecendo, por tanto amar me perder entre os sabores. É uma forma de tornar esse blog mais útil também. Poesia não enche barriga de ninguém. (rimou).
Ainda sobre João do Morro
Ano passado, escrevi um artigo sobre João do Morro. Aliás, sobre a censura que queriam fazer às suas músicas. Até hoje esse artigo rende comentários. Ao tentar demonstra que o cadinho marginal (à margem do oficial) que dá origem às letras das músicas de João do Morro é o mesmo que foi nascedouro de tantos sambas (de Noel Rosa à Lamartine Babo) dei espaço a interpretações que levaram meu discurso para um caminho que eu não havia seguido: o da comparação do samba de Noel Rosa com o samba de João do Morro. De vero, nunca quis comparar coisa com outra, até porque, para mim, os critérios de definição do que é arte e do que vale como arte ainda não foram bem definidos. Gosto de ouvir Noel Rosa. Tenho curiosidade pela música do João.
Ontem, no Guaiamum Treloso, tive a oportunidade de escutar novamente João do Morro. A música dele é de uma precariedade gritante. "Balaiagem" (sic) tem uma melodia copiada de tantas outras que seguem uma sequência maior-menor-maior. A letra tem lacunas propositais decorrentes da falta de intimidade com a língua.
Mas a originalidade e a verdade da letra de João do Morro sempre me surpreendem. E não tem teoria musical que me tire o sorriso do rosto.
Ontem, no Guaiamum Treloso, tive a oportunidade de escutar novamente João do Morro. A música dele é de uma precariedade gritante. "Balaiagem" (sic) tem uma melodia copiada de tantas outras que seguem uma sequência maior-menor-maior. A letra tem lacunas propositais decorrentes da falta de intimidade com a língua.
Mas a originalidade e a verdade da letra de João do Morro sempre me surpreendem. E não tem teoria musical que me tire o sorriso do rosto.
quinta-feira, janeiro 01, 2009
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