sexta-feira, julho 30, 2010

Três excertos do Livro "Eu odeio André Mussalem" que vai sair pela editora Uganir, provavelmente em Setembro. Depoimentos escolhidos por mim e pelo autor, meu amigo Zeferino.


“O que mais me irrita nele é esse adjetivo com que ele sai nomeando todo mundo: ‘querido’; ‘querida’. Ele faz isso por causa de sua incapacidade de decorar os nomes das pessoas e com isso cria uma falsa ternura, como se ele pudesse gostar de todo mundo da mesma maneira. Sempre exigi que ele me chamasse pelo nome. Um dia ele me chamou de ‘querida’ e eu estourei; tive certeza, ali, que eu era apenas mais uma”

Ana Paula – ex-namorada 1997/1998

“Tudo nele é grandioso demais, um projeto grande demais. Mas ele planeja castelos e executa biscoitos; e se você faz parte daquilo acaba se frustrando também, lógico. Quem não se frustraria? É esse negócio mesmo de comprar gato por lebre, como falam por aí. Ele te vende um revolucionário, um artista, um inconformado durante o dia. Quando chega a noite, coloca o pijama e vai dormir”

Mariana – noiva 2003/2004

“Tem uma música de Caetano que define bem ele: ‘mas na hora da cama/nada pintou direito/é minha cara falar/ não sou proveito/sou pura fama’. Acho que é por aí mesmo. Não quero falar mais, porque seria uma puta de uma indiscrição, mesmo sabendo que ele autorizou falar sobre esse assunto. Mas resumiria bem dizendo que ele faz propaganda de um leão e na cama é um gatinho (risos)”

Irma – “negócio mal resolvido” 2001/2002

quinta-feira, julho 29, 2010

Água Doce

Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar

Esse um veio com o Mundo, com navios e canções
no seu peito tatuado, a marca de mil corações
me pegou pelos cabelos, como quem fosse naufragar
mas depois da tempestade, me deixou a ver o mar

(eu não quero amor)

Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar

Esse outro, sorrateiro, com palavras de algodão
sussurradas no ouvido, cravadas no coração
me deu tantos outros nomes, que eu me perdi de mim
fiquei só entre as palavras, por isso hoje canto assim,

(eu não quero amor)

Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar

E quem quiser saber de mim, pode até me encontrar
eu sou aquela que no Mundo, faz do Mundo o seu lugar
me acompanham nessa vida, só meu Deus e a lua cheia
se eu sou a escuridão de mim, eu também sou minha candeia

(eu não quero amor)

Eu não quero amor, eu não me deixo amar
A minha vida é água doce nas águas desse mar

sábado, junho 26, 2010

Seculorum

Quando me falam do século passado,
Frequentemente caio nessa dúvida: de que século falam?

Do século vinte? Com seus hiatos armados entre o terror e o sublime
O século vinte dos ratos que surgiam dos escombros
E me contavam histórias de extermínio e de grandes amores

Do século dezenove? Com sua assepsia imperial a tapar o túmulo de Deus
O século dezenove quando os grandes homens eram possíveis
E pairava no ar uma esperança de curar todas as doenças

O século dezenove sem qualquer contradição
O século vinte que, ao nascer, proclamou: eu morri
Que século passou por mim e me antecedeu?
Que porta se fechou por detrás de mim e não percebi?

Eu aqui no século vinte e um, sinto-me como um sinal neutro em relação a tudo
Nada me pertence, nem agora, nem no futuro
Sou como algo nunca criado ou nunca disposto a se reinventar
E para além de todas as contingências, permaneço alheio ao mundo
Enquanto meus filhos constroem um século para além de mim

Difícil ofício esse, de pertencer a um século.

quinta-feira, junho 17, 2010


segunda-feira, junho 14, 2010

A Morte do Jogo

“O atrativo do jogo, a fascinação que exerce, reside justamente no fato de que o jogo se assenhora do jogador.”

Gadamer, Verdade e Método.

Pour Lucas,

O modo de ser do jogo é sua fluidez. O jogo deve ser jogado. Segurar o jogo, não deixá-lo, é o anti-jogo, o não acontecer. A bola está presa no único esquema tático das seleções e das nações, pasteurizadas na preocupação excessiva com a defesa e exterminando a diversidade dos povos que nos encantava a cada quatro anos de copa. Os times africanos, os sul americanos, os asiáticos: todos são europeus, excessivamente europeus.
Meninos pretos de cabelos loiros e olhos azuis: o capital domesticou a criatividade e o que importa não é mais o jogo em si, mas a forma como se joga o jogo. O esquema tático se sobressai e domina o impulso de furar as barreiras inimigas; o impulso que é um monstro pré-cristão que não se apieda de nada.
O resultado é o descrédito no próprio jogo que se vê órfão de gols e de um deus-herói, um ponta de lança que atravesse o campo e entre como projétil trave adentro, erguendo as mãos para o céu em uma língua desconhecida.
Só um deus pode nos salvar.
Não há meio campo criativo, não existe o atacante imperial, a força física abafa a molecagem, o drible diabólico do menino crescido em várzea ou em rincão distante. É o genocídio dos reis, dos anjos de pernas tortas, das laranjas mecânicas, das tribos de verdadeiros guerreiros. É o elogio das academias, dos computadores, dos tecidos e das malhas criadas após anos de pesquisa. A assepsia venceu a lama. Mas da assepsia não se ergue a vida; da lama sim.
Aos poucos, vamos contentando-nos com essa postura tímida, de recuo, de parede. Ficamos esperando a vinda messiânica desse jogo que fluirá para além dos esquemas táticos excessivamente defensivos que se manifesta como um simulacro do que, um dia, nós chamamos de futebol.

sábado, junho 12, 2010

Fogo do Sol, Carne da Lua (ontem e hoje)




Young hearts run free (Valentine´s day)

No Second Troy (W. B. Yeats)


WHY should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great.
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done, being what she is?
Was there another Troy for her to burn?

terça-feira, maio 18, 2010

ANDOR

O amor nos provém de armadilhas
redondilhas, meandros, discussões
é o toque além do seu sabor
mas se me pedes prá ficar, não vou

O amor é deveras traiçoeiro
põe espada onde primeiro era paixão
põe teu sim no meu não, deserto em flor
e se me pedes prá ficar, não vou

O amor por ser mudo, às vezes cala
por ser cego, na mira, às vezes erra
por ser surdo não ouve o coração

Mas o amor por ser tudo, em nós nos fala
por ser luz, abre seus olhos em quimera
por ser nosso, preenche a amplidão

Meu amor me aceite irrestrito
pois meu grito é a véspera do beijo
eu prometo descer do meu andor
e se me pedes prá ficar, não vou
se me pedes prá ficar, não vou
se me peder prá ficar, não vou

domingo, maio 09, 2010

O Som do Meu Medo

Quando passei quarenta dias no deserto
Sentado à margem dos meus medos e desejos
O diabo não me disse nada
Apenas me olhou e seus olhos eram castanhos
Não me ofereceu banquete, talheres de prata em rara cascata
Animais plenos de sabor e doçura enfileirados na oferta à minha língua
Calado ficou a olhar para mim

Não abriu seus dedos e convocou todas as potestades
Não me prometeu revelar a matéria inexata e imperfeita
Que é cimento e areia da coisa fêmea
Não me assegurou qualquer milagre
Sequer tirou uma moeda por detrás da minha orelha

Entre nós não havia o Mundo, apenas o silêncio

O silêncio que é a maior de todas as tentações

quarta-feira, maio 05, 2010

No dia em que fui mais feliz


D.R.

Preciso esquecer você. Como continuar vivendo se nossa relação é o mais sublime dos gozos e a mais dolorosa das torturas? Que homem foi forjado para suportar essa oscilação de sentimentos, ao sabor do inevitável, da sorte, do fortuito? Eu quero fazer o meu leito na racionalidade, dormir nos ombros da segurança, sem a necessidade de prever o futuro, porque o presente está em minhas mãos. Com você, o futuro a deus pertence. Deus é sempre uma incógnita. O presente não diz nada. Eu brigo com meus irmãos, por sua causa. Eu grito na madrugada palavras que nunca pensei em proferir no secreto dos meus medos. Em vão, eu tateio um conforto, uma paz qualquer que assole meu espírito e me mantenha na calmaria da mediocridade. Em vão. Você vem com todo terror e benção de uma tempestade e me deixa lançado ao hiato armado entre o fio da esperança e a lágrima incontida. Você me deixa nu nas hordas do inimigo e armado no seio do meu exército. Você me faz o homem pleno de felicidade mundana e o mais miserável dos mendigos na noite silenciosa dos fogos alheios. Eu preciso esquecer você. Futebol, eu preciso me desapaixonar por você.

sexta-feira, abril 23, 2010


Ou Isto ou Aquilo

Ou Isto ou Aquilo

Cecília Meireles

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Ou Isto ou Aquilo foi o meu primeiro livro de poesia. Ganhei aos quatro anos de idade, quando recitei, na escola, "A Chácara do Chico Bolacha", poema constante do livro. Não sei bem o porquê, mas esse livro me veio na cabeça, hoje.

sábado, março 06, 2010

O QUE SE SABE ACERCA DO AMOR

Araras são aves monogâmicas, mas muito barulhentas
Alguns animais são hermafroditas, isso os mantêm afastados de problemas
O corpo aumenta até um grau durante o ato sexual, independente da frigidez do outro
Se você encostar um estetoscópio no meu peito, ouvirá o corvo de Edgar Alan Poe:
“nunca mais, nunca mais, nunca mais...”

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Despedida


Beijo no dragão

O carnaval no Túmulo do Samba

O carnaval de São Paulo tem peitão. Milhões de litros de silicone espalhados em cada uma das suas musas. O carnaval de São Paulo tem abdômen lipoaspirado, bíceps definido por halteres, botox nas rugas. Tudo nele é falso, é um simulacro do carnaval carioca, construído para dar satisfação aos paulistas e evitar o esvaziamento da cidade no reinado de Momo. Mas o carnaval de São Paulo está na mída que parece acreditar em um mínimo de espontaneidade popular por trás da força da grana que ergue e destrói coisas belas. Não importa para a televisão os folguedos populares dos rincões esquecidos pelas imagens das câmeras. Não importa o maior bloco carnavalesco do mundo. Não importa o samba de roda do recôncavo baiano. Não importa o boi do Maranhão. Os olhos da nação se voltam para a atriz nua que está na novela, para a celebridade imediata que, refletindo o carnaval paulista, construiu-se para aquele segundo de glória, rezando para que a quarta-feira logo chegasse, porque a vocação de máquina traduz o desejo de nunca mais parar.

sábado, fevereiro 13, 2010

Orecic Futebol Clube (2007)

Vamos entrar na Concórdia, quero ver quem vai passar
pois quando o frevo começa, não tem hora prá acabar
me dê a mão que o meu amor não sabe onde estou
e esse cheiro na camisa é o meu motor

No meio da Imperatriz, eu deixei meu coração
no carrossel da avenidas, minha vida vai na contramão
enquanto os homens caem na rua, eu vou me levantar
que a vida não espera o sol raiar

É fevereiro vem, a carne queima, bem
no Orecic tem uma mesa prá sentar

Equece o ano e vem, vem no meu passo, bem
A vida à toa está na mesa desse bar

Vamos entrar na Concórdia, quero ver quem vai passar
pois quando o frevo começa, não tem hora prá acabar
me dê a mão que o meu amor não sabe onde estou
e esse cheiro na camisa é o meu motor

No meio da Imperatriz, eu deixei meu coração
no carrossel da avenidas, minha vida vai na contramão
enquanto os homens caem na rua, eu vou me levantar
que a vida não espera o sol raiar