domingo, maio 29, 2011

Momento Gastronomia: Bar do Luna

"Sexta-Feira à tarde, o Bar do Luna é um problema"

Cantava assim o Suvaca di Prata, mais ou menos na época em que Waldemar (o Tenente Docinho) me levou para conhecer o Bar do Luna, no IPSEP. Estávamos fazendo um tour gastronômico pelos botecos da cidade, e o Tenente veio com essa novidade. Lôas ao Chambaril.

Não perdemos tempo, então: rumamos para os lados da Avenida Recife em busca de mais um ponto de refúgio para o cotidiano estafante de quem milita na advocacia.

O Bar do Luna não tem placa, nem posição privilegiada em relação às demais casas familiares da rua. Mas se você vai pela primeira vez, é só seguir o burburinho na calçada e prestar atenção na quantidade de carros estacionados em frente a uma casa de portão de ferro. Restaurante caseiro, montado em uma casa de família, mas já devidamente estruturado para a quantidade de pessoas que recebe, você está no mundo pernambucano do Bar do Luna. O Seu Luna está sempre no meio dos garçons, checando cada detalhe relativo à satisfação do cliente. Ou melhor, satisfação do freguês.

Sugiro que você comece com o caldinho de dobradinha, inteligentemente acondicionado em uma garrafa térmica, que fica na sua mesa, até você se fartar do início. O Bar do Luna não serve para a fartura de um só. São pratos para serem divididos, compartilhados, pois no pirão, nos miúdos, no sangue coagulado o socialismo é mais que possível: é uma obrigação.

Às vezes a semente da discórdia é plantada por quem disputa o tutano, mas nada que faça esmorecer a beleza do chambaril robusto, a cor sagrada do sarapatel, o ouro fino da dobradinha. O sol vai morrendo dourado e o dia fica da cor da cerveja que sobeja no copo, e a sexta-feira já deixou de ser um problema, virou uma recordação.

segunda-feira, maio 09, 2011

A Arquiteta

Mãe:


A proporção das coisas você tatuou nas minhas retinas
O vermelho tem inúmeras significações nas suas palavras
Eu vejo o belo porque você me ensinou que havia o belo
E me mostrou que as palavras eram limitadas frente ao infinito das maravilhas


Eu escapei do seu compasso e me lancei no mundo
Esse traço de grafite que compõe meu sonho roubado
Quem dera eu pudesse apagar o traço furtivo de cada palavra
Como você bem fazia quando me desenhava uma flor


Eu sou seu projeto imperfeito e inacabado
Constantemente inacabado
Mas perene e extremamente feliz
Estendido na imensa prancheta que é o colo seu

segunda-feira, abril 18, 2011

Poliedro







O amor essa forma indefinida na mão do arquiteto
Poliédrica, inexplicável na superfície mutável
Vê? Já não é mais um quadrado.
Daqui a pouco não será mais um urso
Morrerá sempre projeto por ser incompreendido na forma
E passará desapercebido como vaso no canto da sala



Já foi um bonde, já foi uma canção
Cantada silenciosamente no campo do nada
Já foi uma onça de ouro, uma ação de resgate futuro e um tostão
Na cama silente, no grave arquiteto, toma por si próprio sua outra forma
E daqui a um segundo e mais um pouco não será mais não


O amor essa forma indefinida na mão do arquiteto
O arquiteto esse ser incompleto na mão do amor

sábado, abril 02, 2011

As mãos do meu pai





As mãos pensas de meu pai na sala a murmurar em gestos o cansaço do corpo
Tateiam em busca de outras mãos que já não acenam mais
Quantas guerras, meu Deus, quantos exércitos dizimados
Cabem naquele gesto que desenha sem potência o imponderável?


Maré de sangue e vento e vísceras e um grito pende do tato – mamãe,
O resto é nuvem de pássaros abatidos por tanques de guerra e os meus olhos de menino a não crer na própria história, meu Deus, meu Deus
Quantos deuses mortos, quantas valsas perdidas no meio da sala cabem naquele gesto que firma no espaço o vazio da minha herança?


As mãos pensas de meu pai na sala e as réplicas da França conquistada que lhe pendem dos dedos
ofertam-me a crueldade dos campos de batalha e o sorriso fácil dos diplomatas que dividiam entre si o resto do século
e a oferta já é pouca, por não sobrar a esperança da vitória depois da noite
Quantos cadáveres, meu Deus, quantos tios amputados
Cabem naquele gesto que escava no ar a sepultura dos homens fortes?


João, José, Celina, as armas prontas para um combate que já não existe mais
O resto é guerra invisível travada a partir na terra suja das unhas, na carne restante dos molares
Quanto do meu silêncio, nascido na contramão do combate
cabe no gesto de perplexidade perante a nova cosmogenia do Cais?


Elas chamam por algo, as mãos pensas do meu pai, e esse algo tarda a chegar
Não sei bem se pássaro ou finitude,
se começo da praia para a onda, se início do asfalto para o onde
Os corpos se amontoam no vão do hiato e fica este gosto de pólvora
a sobejar na língua morta e insepulta no horizonte da boca

terça-feira, março 08, 2011

carnaval e herança


Foi pela mão do meu pai que eu conheci o carnaval. Justamente por ele, um dos homens mais anti-carnavalescos que eu conheço. Avesso às multidões, ao calor, ao barulho, apraz-lhe um livro de guerra, um bom filme, um bom almoço nos dias de folia. Eu também sou pacato, dou-me muito bem com meus botões, com meus discos, com minhas pesquisas. Mas nesses dias milagreiros de são-ninguém, tomado por uma inexplicável turba de bichos-carpinteiros, corro para as ruas antigas do Recife e de Olinda, não sei quem sou, nem prá onde vou, só sei que tudo acaba na quarta-feira.


Acuso beneficamente o meu pai dessa imensa responsabilidade. Tomava-me pela mão, ainda bem criança, como salvo-conduto, e me levava para o bloco da Turma da Jaqueira, cria dos funcionários e motoristas da Fundação Joaquim Nabuco, órgão federal em que meu pai, por vários anos, exerceu a função de superintendente sob o comando de Gilberto Freyre (e posteriormente de seu filho, Fernando Freyre). Em meados da década de 80 do século XX, a Turma da Jaqueira (co-denominada de “Segurando o Talo”) era uma troça ainda pequena, que seguia pela Avenida 17 de Agosto, até a casa de Gilberto Freyre (atual Fundação Gilberto Freyre). A troça terminava na Associação dos Servidores do Instituto Joaquim Nabuco. Eu, menino, sob os acordes do frevo, feliz, suado, juntando confetes no chão. Meu pai acompanhava ao longe, sob distância segura.


A Turma da Jaqueira é, hoje, um bloco imenso, que arregimenta mais de sessenta mil pessoas pelas ruas de Casa Forte, por certa ironia do destino, meu atual endereço. Não acompanho mais o bloco, mas decerto que meus passos estão ainda marcados no itinerário seguido pelos foliões mais novos, seguidores antigos, gente que se irmana a mim pelo menos na minha imaginação.


Desde essa época passada, o frevo não saiu mais de mim. Um dia eu hei de morrer, como todo bicho que pula, mas essa alegria há de se perpetuar nos meus filhos. Tomo eu, pela mão, Maria Eduarda e mostro a ela a riqueza dessa festa que desafia toda lógica, como a própria humanidade. Talvez o carnaval seja a mais humana de todas as festas, com as suas contradições. Dou a Maria Eduarda esse quinhão, essa parcela inexplicável da minha conjuntura legada pelo meu pai. Não sei se ela amará o carnaval como eu amo, mas abro a minha mão, como o meu pai o fez, para que ela tenha uma escolha. E possa, quem sabe, escolher o transitório sem abrir mão da permanência.


Hoje, terça-feira gorda, é aniversário do meu pai.

domingo, março 06, 2011

PADARIA IMPERATRIZ


Há mais de cem anos, servindo aos foliões carboidratos e esperança para os outros dias de festa

NA FRENTE DO SAMU

Esperando o amigo que exagerou na dose

O FAMOSO TCHAU-DEDADA


O ENTRUDO


No chão, lugar de bravos e de anônimos

A COLONIZAÇÃO PELO CAMAROTE


“Depois de 33 anos desfilando pela Rua da Concórdia, o Galo da Madrugada estreou na Dantas Barreto. E fez bonito. Seus súditos leais lotaram o Centro do Recife com risos e fantasias. Nos camarotes, autoridades, artistas e muita gente bonita.”

Chamada do Jornal do Commercio de 06 de Março de 2011


Eram duas festas no período momesco: o entrudo, de tradição ibérico-portuguesa, era considerado agressivo pela sua permissividade, quando pacatos senhores saiam de suas casas, munidos de limões de cheiro, farinha, ovos e se misturavam à turba, emporcalhando a cidade com sujeira, suor e risos. Havia o entrudo familiar, que designava a brincadeira restrita entre as famílias, mas que, freqüentemente, descambava para a mistura de classes, como atestava Joaquim de Manuel Macedo, autor do livro “A Moreninha”, em 1871.
A outra festa, o carnaval, foi trazida pela corte da Imperatriz D. Teresa Cristina a partir do seu casamento com o Imperador D. Pedro II, em 1843. Trouxe junto com ela músicos italianos que importaram os arlequins, os pierrôs, as colombinas e o carnaval de Veneza, das fantasias elaboradas, restrito aos bailes, aos convites reais. Como tratou Luiz Felipe de Alencastro, no seu ensaio “Vida Privada e Ordem Privada no Império”, “Separou-se a festa da rua, popular e negra, embora de origem portuguesa – o entrudo -, da festa do salão branco e segregado, o carnaval”.
Em algum momento, entretanto, entrudo e carnaval passaram a designar a mesma festa e, por influência da música do século XX, do samba carioca, do frevo pernambucano, da sua variação, o frevo baiano, dos grupos ritualísticos negros e índios, a rua cada vez mais foi vencendo o salão. A festa de rua foi nomeada de carnaval, embora fosse mais próxima do entrudo. Carnaval também era a festa dos clubes (substitutivos dos salões e das sociedades carnavalescas) da alta classe social, mas restrita, ilhada no Sudeste e no Sul do país.
Na década de 80 e 90 do século XX, e principalmente no início do século XXI, o Estado percebeu que o carnaval de rua era uma fonte bastante interessante de captação de recursos, principalmente pelo crescente interesse das grandes empresas (consolidadas pela estabilidade econômica) em investirem no manancial quase infindo da alegria de rua, sempre possível de ser catequizado pelo marketing.
Assim, autoridades, artistas, e pessoas de importância, que evitavam o carnaval de rua, por causa do descontrole de ânimos que caracteriza o entrudo, passaram a olhar com novos olhos a multidão anônima e feliz, que se acotovelava absorta na alegria circunstancial dos dias de folia. Só que a freqüência das pessoas revestidas pela importância do cargo, da mídia, da arte não podia conviver com o anonimato da turba enfurecida pela felicidade: era preciso reinventar o espaço da rua, para que se permitisse uma segregação branda, quase democrática, sub-reptícia, da felicidade. A sua felicidade termina onde a minha começa. Gente bonita junta acotovelando-se refrescada pelo ar-condicionado e olhando de cima a gente sem beleza, sem nome, sem importância.
Os camarotes representam a invasão no animus do carnaval sobre o entrudo. A segregação que antes ocorria nos salões e nos bailes passa a ocorrer na própria rua, no próprio espaço democrático. Invade com tanta força que coloniza até as classes menos abastadas, pois o carnaval de camarote passou a ser um produto industrializado para classe “c” se diferenciar da classe “d”. Mimetizados os pierrôs de academia, as colombinas do reality show, os arlequins da política, importados de um país distante que nunca vingou aqui em baixo, nos tristes trópicos.
O espaço da rua categorizado como se fosse um imenso espaço privado, colonizado por palafitas de luxo, de quase-luxo, de anti-entrudo, de pseudo-carnaval.

sábado, fevereiro 05, 2011

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O Elogio ao Grotesco e o Casal Huck






Para João da Costa, manter o concurso do Rei Momo, que acontecia no Pátio de São Pedro, representa uma falta de coerência numa época que, na avaliação dele, as pessoas estão preocupadas em cultivar práticas saudáveis. ´É um contrassenso hoje você trabalhar a obesidade mórbida como um problema grave de saúde e incentivar um Rei Momo a isso`, defendeu. Para o prefeito, essa é uma discussão que deve estar acima das tradições culturais. ´Essa não é uma tradição boa. As boas a gente preserva`, colocou. A Fundação de Cultura do Recife ainda não definiu os critérios do novo concurso. No entanto, o prefeito já antecipou que os gordinhos não serão impedidos de concorrer. ´Não sei se vai ganhar, mas nós não vamos proibir`, disse.
(Extraído do Diário de Pernambuco, edição de 22 de janeiro de 2011)




Folia de Momo é apenas um dos vários designativos do carnaval brasileiro. Aqui, como em outros lugares do mundo, desde o início do século XX adotou-se o deus grego Momo como o patrono dos dias de carnavália.

Momo é um deus peculiar. Ele está ligado à picardia, à denúncia vexatória dos demais deuses. A tradição greco-romana narra a expulsão de Momo do Olimpo por suas brincadeiras inconvenientes e seu conseqüente envio para o mundo dos mortais. Momo foi bem recebido por aqui e fazia parte da tradição romana a coroação de um centurião que no dia de seu reinado simbólico podia comer e beber livremente. A obesidade de Momo não significava doença, significava fartura e extravagância em uma Roma onde não havia a culpa católica da quaresma.

A partir de 1932, o carnaval brasileiro, mais especificamente o do Rio de Janeiro, adotou a figura do Momo-rei como um dos personagens da corte real do carnaval. Naquele ano, Momo foi personificado em um boneco de papelão. Algum tempo depois, o boneco de papel foi substituído pelo jornalista Morais Cardoso, justamente por causa de sua figura redonda, farta, imensa. Simbolicamente, o Rei Momo aparecia como a imensidão do homem-rei sendo dividida pela massa anônima do povo.

A figura do gordo é o antípoda da forma clássica do belo masculino. Para além das discussões históricas sobre a estética e a modernidade, hoje em dia a figura do gordo é o estereótipo da má saúde, do desleixo, da humanidade que não deveria existir frente aos inúmeros expedientes atuais de se conseguir alçar a significância do belo no corpo.

E justamente por isso, a figura gorda do Rei Momo era tão importante para nós.
Para nos lembrar do quanto somos grotescos na nossa pulsante humanidade. Do quanto há de beleza na fartura livre do corpo, cuja estética não está amarrada a nenhuma pré-determinação convencional. Nisto reside ou residia a democracia do carnaval. Um rei-deus, obeso, simpático, ultrajante, era coroado em meio à felicidade do povo, extirpando a figura do príncipe encantado, belo como nas falsas estórias de Walt Disney.

Mas a voz do politicamente correto gritou no coreto, em nome de uma imagem sadia do folião. O prefeito do Recife, seguindo uma tendência nacional, decretou o fim do reinado de Momo no carnaval. O Rei não poderá ser gordo, e se ele não é gordo, não é Momo.

Há ainda espaço para um afago na cabeça dos desleixados: o gordos ainda poderão concorrer ao reinado, embora já não se possa garantir que a coroa fará suas cabeças mais dignas: “Não sei se vai ganhar, mas nós não vamos proibir”, disse o prefeito do Recife.

Decerto o rei será branco, loiro, e apolíneo. Representando não os brasileiros de carne, osso, gordura, poucos dentes. Mas governando simbolicamente aquela parcela ínfima dos belos e bem-sucedidos empresários, que personificam a bondade e a mão estendida para quem embarcou de cabeça, equivocadamente, na tese da meta-raça. O novo rei representará o casal Luciano e Angélica Huck, eleito pela Veja da semana passada como a meta a ser alcançada por cada um de nós, gordos, pobres, desdentados e sem um deus que nos represente, pois a coroa agora pertence ao divino Apolo.

Este que justamente nunca foi expulso do Olimpo.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

O Movimento dos Barcos









(Jards Macalé e Capinan)

Estou cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais
Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais
Que passa ao largo do nosso corpo

Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo

Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Amar




(Carlos Drummond de Andrade )



Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

O anti-britânico

Eu freqüentemente me atraso para a flor que a vida me ofertará
Como um vício não tão raro, que se cultiva dentro de mim
Por outra mão que não a minha, hei freqüentemente de me atrasar
E sequer hei de chegar ao dia em que se anunciará meu fim

Porque o tempo não negocia comigo,
taciturno como meu pai, não me lança um olhar
E a aurora das coisas, como fruto inalcançável – mas de beleza táctil
irmana-se fácil com o tempo presente
E minha pele ressente saber e não estar lá

Enquanto o mundo faz e se refaz dentro de um avião
Minha preocupação é correr e pegar o bonde
Que por um infortúnio do meu vício, gritou meu nome e já passou
Eu sigo atrasado sei lá, não sei, para onde
Pois o meu século vinte no meu século dezenove caiu e ficou

E assim eu durmo sem ouvir o relógio que deveria me acordar
As catedrais e as cidades vão se construindo para além de mim
Por outra mão que não a minha, hei freqüentemente de me atrasar
E sequer hei de chegar ao dia em que se anunciará meu fim

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Muitos amigos bons



Alguns amigos bons

And you can tell everybody this is your song


PS - É a cara da mãe, mas o espírito...é todinho do papai

terça-feira, janeiro 11, 2011

A valsa da princesa

A princesa que já não dormia,
por, quem sabe, esperar o fim do século
aguardava o homem Ulisses que lhe havia,
prometido ser-lhe contraparte do espéculo


A princesa enquanto paciente aguardava
bordou um imenso tapete de tramas
onde o Mundo era outro e estava
imune a tristezas, feridas e chamas


Bordada em cores, estampava a alegoria
da eterna felicidade da princesa
que perdida entre unicórnio, leão e utopia
mantinha a alegria da esperança acesa


E no tapete só reinava a princesa
que escoltada em ouro pelas suas damas
dançava eterna e infinita com alma tesa
bordada por si mesma nas entrelinhas das tramas


A princesa de fora admirava a princesa de dentro
por reconhecer que do tapete para si, duas havia
uma, bordada por Deus, era carne, dor e vento
a outra, fruto de si, era somente alegria


E eis que, absorvida na sua imagem bordada
surpreendeu-se a princesa com um chamado distante
Ulisses, o homem-deus que ela tanto esperava
apareceu perante seus olhos, em um rompante


E lhe arrebatou e lhe levou para casa
deu-lhe jóias, máquinas e cotidiano
cristais de murano, bichos fantásticos, carros com asas
deu-lhe todos os seus dias do ano


E em uma noite de núpcias e de paz
no instante em que Ulisses dormia
a princesa sorrateiramente por trás
estripou o dormente enquanto sorria


Encarcerada a princesa, questionaram-lhe o ato
“porque, de maneira tão horrenda, rasgaste a lei?”
e ela respondeu tranqüila sobre o ocorrido fato
“porque eu nunca fui feliz como no tapete que bordei”

segunda-feira, janeiro 10, 2011

A Função Social do Amigo Gordo




Ao Gordo (sempre Gordo)
A Filipe (a partir de amanhã, ex gordo)



Todo grupo social que se preze tem um amigo gordo. Ele é a liga que une os demais membros da confraria. Ele é o bonachão, por vezes, é o mal-humorado em outras tantas, é o cara que aceita a berlinda porque sabe que nenhuma reunião regada a cerveja funciona sem uma berlinda. O amigo gordo se sacrifica pelos demais, na sua imensa sabedoria, no santo ofício de beber até a última gota de cerveja, ou de comer o acepipe restante do prato. Morrerá um tanto mais cedo, com as veias entupidas, mas cumprirá, até o final, a sua missão de ligar nas noites de segunda-feira para exigir a presença daquele pai de família na mesa de ferro enferrujada que descansa tantos copos do líquido sagrado translúcido e que será o motor de mais uma discussão conjugal.
O amigo gordo tem uma pança farta, mas possui orelhas imensas. A ele nós confessamos os segredos mais remotos, as transgressões cotidianas, a tristeza de um projeto malfadado. O amigo gordo, por ser quase infinito, é um divã enorme que se oferece à análise do sagrado e do profano.
O amigo gordo sempre aceita um convite para almoçar no sábado. Está sempre disposto a alegrar a tarde de um fim de semana após uma sexta sombria. Ele tem o dom de absorver, em suas camadas adiposas, a tristeza e devolver a alegria que só existe no colesterol. Ele é a vaca mais preciosa do rebanho, o elogio à camaradagem, a irmandade do mundo inteiro personificada em um sujeito.
O amigo gordo nos faz sentir mais leves.