terça-feira, abril 17, 2012

Iniludível



Hoje eu morri
Não fique triste, é um gesto natural
É necessário embrulhar-se a matéria vazia
No frio campo da terra. O húmus
Tornando-se o lugar natural das vísceras e dos sonhos
E eu, dando as mãos para as raízes das árvores, fico
Maior que a crença em todos os deuses

Quer acender uma vela?
Quer compor uma canção?
Não perca seu tempo. Leia um livro imenso.
Eu estarei lá.
Na batalha dos Sertões, nos olhos de Capitu.
Procure-me na descrença de Dimitri Karamázovi, em Diadorim.
Procure-me nos lugares insuspeitados da vida
Pois ao longo de toda a vida, eu nunca estive guardado dentro
de mim.

segunda-feira, abril 02, 2012

América



Lentamente a América profunda a mim se revela:
O vermelho dos seus filhos mortos no Oriente
O branco de sua paz refinanciada nos bancos do Brooklin
O azul de sua esperança perpétua em um deus que não vem


A América, puta imensa, vendida em espetáculos grandiosos
Ainda é menina, mas com peitos flácidos
De tanta boca a sugar-lhe o leite de ouro
Quanto custa meia hora com ela?
Na foto do passaporte eu não rio, nem nada




Um guianês me para: que América é essa? É sua?
Não, aqui não é minha casa
A oferta não me cega: sou velho
É esta a terra dos bravos chineses, vietnamitas
E a mãe liberdade segue defronte, encarcerada

sexta-feira, março 09, 2012


Catorze Anos
(Paulinho da Viola)


(à memória de Josué Mussalem, cujo aniversário foi ontem e que fez de tudo para que eu não virasse sambista)



Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou (quando meu pai me chamou)
Perguntou se eu não queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor

Mas a minha aspiração
Era ter um violão
Para me tornar sambista
Ele então me aconselhou
Sambista não tem valor
Nesta terra de doutor
E seu doutor
O meu pai tinha razão

Vejo um samba ser vendido
E o sambista esquecido,
O seu verdadeiro autor
Eu estou necessitado
Mas meu samba encabulado
Eu não vendo não senhor

terça-feira, março 06, 2012

O Fim da Metafísica



Um dia eu guardei o infinito em uma gaveta
Na mesa do escritório, onde se acumula muito papel
Tempos depois, Dona Mira, que organiza minhas indeterminações
Espanou poeira de estrelas e o vento de muitas ilusões
Abriu a gaveta e me perguntou:
- Para quê tanto infinito, doutor? Só faz juntar teia de tempo e espaço
Acumula muito cansaço e a dor de muitas corações.
Eu não sabia responder
O infinito veio como um documento sem determinações
Eu não assinei nada, guardei-o junto a minha vida cansada
Com esperança de usá-lo para uma coisa qualquer.

A coisa não veio, a gaveta continua fechada
E o infinito – que transbordava em meu peito - hoje cabe
No espaço desqualificado de uma colher

Recanto




Não sou crítico. Não ouço músicas com ouvidos de crítico. Sou parcial com minhas referências, e extremamente desconfiado em relação ao novo. Mas já comentei, neste espaço, obras de artistas (ora compositores, ora cineastas) sem qualquer objetivo pré-definido senão constituir uma memorabilia para consulta futura, talvez eventual.

Uma das obras que comentei foi o disco “Cê” daquele que represente a minha maior influência musical. Lembro que, nos momentos que antecederam o lançamento da obra citada (op. cit.), havia uma expectativa que o Caetano Veloso lançasse um disco de samba. Para mim, seria bastante confortável, já que o samba é minha matéria prima, de um modo intuitivo: não é uma escolha, é um acontecer. Mas, contrariando tais expectativas, e para meu desconforto, Caetano lançou um disco de rock, ou algo bem próximo das experimentações dos seus novos parceiros musicais. Esse desconforto que eu senti foi sagrado. Responsável por vários questionamentos acerca dos caminhos que eu estava trilhando, como compositor.

Pensei que não sentiria esse desconforto novamente tão cedo. Ledo engano.
Utilizando-se (de forma sadia) daquela que representa parcela significante de sua voz, Caetano lançou “Recanto”, um disco personificado nela, naquela, Gal Costa. Essa minha redundância é justificada na dificuldade de se estabelecer quem é o titular da obra. Para mim, a obra é caetana. Gal Costa funciona como instrumento (imperfeito) desse novo mundo que me aparece como o Melancolia de Lars Von Trier: pronto para destruir os meus paradigmas. Mas Gal Costa não é apenas a voz; ela é a matéria prima que Caetano pegou para formatar sua novidade. Ela é musa e porta-voz.

Assim, “Recanto” é irmã bastarda de “Vaca Profana”. Só Gal poderia cantá-la com legitimidade artística.

Músicas difíceis e belas desafiam as minhas convenções, como o violão de sete cordas inserido nas programações. “Neguinho” processa as modificações pelas quais a música passou e que nos imaginamos imunizados, como se Caetano fosse um senhor contido que vivesse de suas glórias passadas. Não. Ele é tímido e espalhafatoso, ele é uma torre traçada por Gaudi. O menino messiânico de sua música resgatou a nós todos desse conforto malsão.

sábado, março 03, 2012

Hai Kai Metafísico

Deus. A ausência habita no ser,
Na churrascaria do corpo. A alma
É uma metáfora do que não se vê

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

memorabilia

A cidade pega fogo e eu não estou nem aí
Os bancários fazem greve e eu não estou nem aí
Vou parar o tráfego prá ver você passar
o mundo agora gira a roda e eu vou tentar te encontrar


Os terroristas explodem tudo e eu não estou nem aí
A Argentina vira o jogo e eu não estou nem aí
Vou esperar o mar se abrir prá ver você chegar
o mundo agora pega fogo e eu vou queimar, eu vou queimar


Hoje eu só quero você, hoje eu só quero nós dois
Deixa a vida acontecer, deixa o amanhã prá depois
Vem comigo é hora, o frevo já nos deu a mão
Vem com a vida afora entrar no Bloco da Ilusão

domingo, fevereiro 05, 2012

IMAGENS VALEM MAIS QUE PALAVRAS QUANDO AS PALAVRAS ME FALTAM



Leito de flores

Maria do Recife e Maurício de Nassau

São Jorge/Oxóssi "os santos negros fazem maré nos santos da Igreja"

Igreja da Santa Cruz - Recife

domingo, janeiro 15, 2012

Hai-Kai para Filipe


Na montanha inacessível
O imenso palácio de jade devaneia:
O senhor de tudo o que há em mim
É do tamanho de um grão de areia

sábado, janeiro 14, 2012

Canção de Ninar






No dia em que a morte do meu pai se deixou consumar
Eu passei a procurar o espírito de cada coisa viva e morta
Quando eu dei por mim, já trajando o luto imenso da ausência
Espreitava no vazio do nada qualquer coisa que aplacasse a solidão
Como se algo estivesse prestes a ser revelado antes de cada segundo:
O espírito do meu pai
A cornucópia da matéria escura do universo
A partícula de Deus convidando-me para dançar, ofertando-me a mão
Guiando-me pelo bailado das explicações que não cabem na nossa humanidade
Mas não havia nem um fantasma de Dickens,
Nem o espírito paterno universal, murmurando: “Don Giovanni”
Sequer o diabo a me prometer liberdade da paterna opressão
Apenas a matéria a cuspir areia, tijolo e o papel da missa de domingo
E repetindo a questão formatada por séculos e séculos, até o advento do
Computador: Onde está o teu Deus?
Olho para Deus e contemplo apenas as imagens da televisão.

Mas aí tu vens
Tu, Filipe, carne, osso e músculos
Tua fragilidade gigantesca perante o cosmos, perante os elefantes da África
Tua arquitetura menor que as catedrais góticas de Espanha
E aí, todo o vazio da metafísica é preenchido com a tua saliva
Com as tuas células-tronco que a ciência chama de Deus
Tu congelas o sol e a lua em um único instante perante meus olhos
Tu abres o mar para que eu possa atravessar os meus segredos
Tu, Filipe, tu te tornas meu pai
Um conforto de tudo me batiza do além da cabeça à ponta do pé
E eu durmo em paz no teu colo infinito,
franjado de quasares, estrelas e dos paradoxos do meu beijo na tua fronte
que eu, humildemente, chamo de fé

quarta-feira, janeiro 04, 2012

2012


Em 2005, eu encerrei os posts do Fúria do Mar com o sorriso de Bebel

Em 2012, eu abro os posts do Fúria do Mar com o sorriso de Maria

Porque nele eu vejo o mesmo espírito puro,

O mesmo encantamento frente ao novo

O destemor do inusitado que só faz paragem no peito dos jovens

Eu quero um 2012 assim: infinito como o sorriso de Maria

sábado, dezembro 31, 2011

Ano Novo 3.1

Não, não adianta pular as ondas do mar
Guardar sementes de romã, segredar dentro da carteira
Os caroços da uva verde que você destronou com volúpia
Por entre os dentes sedentos de um futuro bom
Não vai resolver esta roupa branca, estendida ao sabor das espumas
O dourado, o vermelho, o azul traduzidos em desejo de algo
A se mostrar sem nitidez no horizonte messiânico
Nada disso trará a felicidade nesse ano que virá
Você precisa da tristeza
Você precisa dela a descobrir as camadas das tuas retinas
Então é melhor se preparar para chorar


Talvez você se case, talvez perca um grande amor
Quem sabe aquela promoção, quiçá sentirá fome
Mas para além de todas as tentativas de reter o futuro
Na palma da sua mão
Haverá uma noite neste ano indefinido
Uma noite apenas, em que a lua, silenciosamente, invadirá o seu repouso
E brilhará lindamente no seu quarto enquanto você dorme e sorri

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Tombamento e Permanência




Se a mim fosse dado escolher um poder, dentre os poucos possíveis aos homens, escolheria o poder de tombar. Sem processo administrativo, sem as burocracias das adequações históricas, eu salvaria da finitude do tempo aquilo que eu penso amar. Tombaria as árvores imensas do quintal da minha avó, tombaria os nomes de rua, do Recife que quase virou pó. Não o Recife das grandes revoluções, das Igrejas seculares, dos casarões sem fim. Estes já são tombados, já foram, pelo Governador, resguardados; e, de certo modo, eu os conservo em mim. Eu tombaria o Recife das pequenas revoluções: uma mercearia antiga, a padaria da esquina, o vendedor de doces desfilando seus bordões. A Brasília azul do meu pai jamais seria vendida, eu desfilaria com ela aos domingos desafiando com sorrisos o tempo das coisas idas.


Eu tombaria o muro de uma casa, onde se deu um primeiro amor. Os anos em que o Sport, sem muitas dificuldades, consagrou-se vencedor. Não haveria necessidade de decreto, de publicação no diário oficial. De parecer dos arquitetos, dos historiadores, de adequação ao fato social. Bastava ser agradável aos sentidos e eu assinaria o ato. Imunizaria a memória da cegueira branca dos homens e o capitalismo que pagasse o pato.


Ninguém construiria arranha-céu onde sorriu o meu avô, na frente do Edifício Caiçara, que por força das retinas e das vontades pequeninas, da força demolidora dos homens se salvou. E defronte ao mar infinito, no lugar em que o tempo é mais bonito, o Edifício Caiçara vai ficando. Graças a união das saudades partidas, um castelo foi salvo, ladeado por outras coisas que, pela cegueira dos homens, vão se perdendo. Quisera eu ter o poder de tombar o mundo e dissipar essa ausência que, lentamente, vai me doendo.


Eu proibiria, sem decretos, tudo que amamos fenecer: pois se é do sonho dos homens que uma cidade se inventa, é pela memória do povo e pela saudade que aumenta que ela vai permanecer.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Relicário





A família Aires de Souza possuía por tradição imemorial – segundo contavam as crônicas genealógicas das famílias do século XIX, hoje arregimentadas no arquivo público – a retirada proposital de uma víscera do corpo para escondê-la encaixotada e além da própria morte ou vida. Esse estranho hábito ensinado por um pai negro, quando a família ainda residia em Lisboa, de acordo com fontes infidedignas, estava ligado à ascendência judia dos Aires de Souza; a um desejo inafastável de guardar o que lhe era mais precioso.

O avô de Gertrudes possuía em uma caixa de madeira, seu estômago. E isso lhe permitia os ganhos com os negócios de açúcar, bem como a falta de qualquer pudor ao chicotear um negro que não se submetesse ao capital branco e doce do Sinhô. Era no estômago que dormia a piedade.

Gertrudes ouvia essas estórias quando pequena. Aos poucos as estórias foram silenciando. O marido foi silenciando. Os filhos foram silenciando. Os netos foram silenciando. E todas as vozes que ouvia em casa eram dirigidas para algo além, nunca para Gerturdes.


Justamente pelo monopólio do silêncio, era tão fácil entrar no quarto desapercebida. Não havia perguntas inconvenientes, nem curiosidades a serem satisfeitas a partir de estórias do passado. Essa solidão resignada era a chave do seu tesouro, que estava escondida atrás do quadro do seu avô. A ansiedade que sentia era um medo do mundo. De que o mundo, de repente, invadisse o seu quarto, com todas aquelas medicinas, bancários, previdências e assaltasse o seu santuário, com mãos multiplicadas a contaminar a fragilidade do que lhe era mais caro nessa vida.


Por isso o exercício eterno de sentinela a checar o cofre atrás do quadro. E dentro do cofre, o conteúdo de sua vida: caixinha adornada a homenagear a riqueza do que estava depositado. Um relicário, igual aos que estão depositados nas paredes de uma das salas da Catedral de Nossa Senhora com os Pés na Lua, em Madrid.

Seu, tão seu. Porque dentro do relicário estava silencioso, pétreo e murcho o seu coração. Retirado conforme as receitas ancestrais do pai negro, em Lisboa.

Placa de prata com nome gravado: Gertrudes; às vezes, o coração parecia chamar querendo o consolo do peito vazio. Mas o coração permaneceria na caixa até o fim dos dias de Gertrudes e talvez até os dias posteriores. Conservado não por formol, ou química semelhante, mas pela ausência do silêncio, das medicinas, dos bancários e das previdências; conservado para se ver livre das maldades e tentações desse mundo, como um corpo incorrupto de um santo que permanece para além dos vermes.

sábado, dezembro 03, 2011

No peito de um homem feliz bate um jambeiro



Eu tenho o que preciso entre os meus braços
Eu vi o sol nascer no seu olhar
Eu levo a vida construindo laços
Que nem a morte pode desatar

Eu nunca fui o nome de avenida
Mas sinto que sou dono deste mar
A inspiração que trago em vida
Eu colho como fruta no pomar

No peito de um homem feliz bate um jambeiro
Bate um jambeiro
Bate um jambeiro
No peito de um homem feliz bate um jambeiro
Bate um jambeiro a florescer no seu quintal

Quem leva dessa vida o sal da noite
Acorda com o açúcar da manhã
Eu piso com meus pés o chão do hoje
Sem me importar com o abismo do amanhã

Ó meu grande amor, veja a roseira
Rompendo o asfalto para nos saudar
Quem põe a fé na vã beleza
Não vê a verdadeira flor brotar

No peito de um homem feliz bate um jambeiro
Bate um jambeiro
Bate um jambeiro
No peito de um homem feliz bate um jambeiro
Bate um jambeiro a florescer no seu quintal

quinta-feira, novembro 03, 2011

Onde Está Você?




Eu abandono o Mundo aos poucos
Deixo minhas digitais em estratégia descuidada
Para ser lembrado caso tudo, ao final
Transforme-se apenas em um bom livro de mistério