domingo, fevereiro 08, 2009

Ainda sobre João do Morro

Ano passado, escrevi um artigo sobre João do Morro. Aliás, sobre a censura que queriam fazer às suas músicas. Até hoje esse artigo rende comentários. Ao tentar demonstra que o cadinho marginal (à margem do oficial) que dá origem às letras das músicas de João do Morro é o mesmo que foi nascedouro de tantos sambas (de Noel Rosa à Lamartine Babo) dei espaço a interpretações que levaram meu discurso para um caminho que eu não havia seguido: o da comparação do samba de Noel Rosa com o samba de João do Morro. De vero, nunca quis comparar coisa com outra, até porque, para mim, os critérios de definição do que é arte e do que vale como arte ainda não foram bem definidos. Gosto de ouvir Noel Rosa. Tenho curiosidade pela música do João.
Ontem, no Guaiamum Treloso, tive a oportunidade de escutar novamente João do Morro. A música dele é de uma precariedade gritante. "Balaiagem" (sic) tem uma melodia copiada de tantas outras que seguem uma sequência maior-menor-maior. A letra tem lacunas propositais decorrentes da falta de intimidade com a língua.
Mas a originalidade e a verdade da letra de João do Morro sempre me surpreendem. E não tem teoria musical que me tire o sorriso do rosto.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Nós fechamos os olhos
e já são vinte postagens em 2008.
A vida segue inevitável como a marcha dos pinguins.

Paz para todos.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Feliz Natal

O natal é meia banda de uma aspirina
para aliviar a enxaqueca crônica do mundo
tem as cores da coca-cola
e o gosto da neve que nunca vem.
Cristo não nasceu em dezembro
papai noel não existe e se existisse possivelmente estaria preso
acusado de pedofilia.
Mas só os sórdidos, os terrivelmente solitários
os loucos de todos os gêneros
e os intelectuais, imbecilmente intelectuais
ousam não sorrir mais leve
após tomar meia banda de aspirina

terça-feira, dezembro 16, 2008

Deus há de me compensar
por esses dentes tortos
por causa das lentes na cara
por esse senso de norte
Deus há de me compensar
por causa da morte do gato
porque eu perdi o meu ônibus
pelas mãos que evitam o tesouro
Deus há de me compensar
porque eu choro e eu sonho
pelas horas em que um mudo espanto
transborda da minha face em silêncio
e eu sigo conformado com os pássaros
Deus há de me compensar
ainda que eu faça o diabo
ainda que o mundo arrebente
em tanto rebanho de gente e de medo
Deus há de me confortar
eu cobro com multa e com juros
o preço de não ser ateu

domingo, dezembro 14, 2008

Um homem chamado André sairá hoje de casa

Iniciei um blog novo. Isso não significa o fim da "Fúria do Mar". Mas, já há algum tempo, pretendia sistematizar minhas idéias em algo mais alinhavado. O conceito do "Fúria" é de fluxo de consciência mesmo. Posto o que me dá na telha. Não raras vezes o conteúdo do texto se mistura com minha vida pessoal, o que imprime o tom de diário que eu não gosto muito. O novo blog será mais pensado embora não será raridade haver uma coincidência de textos postados.

Se minha única leitora (foi mal aí, José Teles) quiser dar um passeio por ele, está lá no "Wordpress". O http assusta: www.umhomemchamadoandresairahojedecasa.wordpress.com´

É isso.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

TREM

Se eu andasse sempre de trem, talvez mais feliz seria
pois nunca a volver, nunca a dar ré, é o modo da trilha
A paisagem sempre de uma vez, nunca repetida
pela imagem do retrovisor, invertida
Talvez mais feliz seria, se eu andasse de trem

Ao passo que o homem-automóvel, que vai de Lisboa à Sintra
terá sempre à disposição a marcha ré.
Verá o que perdeu de relance, por ser homem e possuir pouca fé
nos próprios olhos. Invertido no espelho do retrovisor, já não saberá
se veio de Lisboa ou se vai para Sintra
se seguia para vida ou prosseguia para o mar.

Mas o trem não se irmana a essas coisas. Não desperta o quiçá.
despreza o destino, os avisos de abalroamento
“Se eu casasse com a filha da lavadeira..” e, nesse momento, não estarás mais lá.

Atropela os acorrentados nos trilhos, mães, avós, pianos, segredos, a sala de estar.

Tudo de uma vez, como o vômito sincero da madrugada
Como a liberdade sagrada de uma coisa bruta e grega que não se apieda de ninguém
Eu quero ir como quem se lança a um soco
E o meu coração oco mais feliz seria, se eu andasse de trem

domingo, dezembro 07, 2008

Explicação para as fotos abaixo

Eu ainda me deixo surpreender pela tecnologia. As fotos postadas logo abaixo foram tiradas pela câmera do meu celular e enviadas imediatamente para o meu blog, através de um link automático. Isso não deve ser novidade para ninguém (nem para Maria Eduarda), e usualmente o "Blog do Jamildo" utiliza a mesma tecnologia para gerar postagens em tempo real (com filmagem). Eu sou da geração um dia antes do virtual, deixo-me conquistar tanto pelo mistério insondável da flor que não se deixa colher, quanto pela descoberta tecnológica que faço, ainda que tardiamente.


PS - Para minha prima Renata que deixou de ser a menina do sorriso mais gostoso do mundo, para ser a mulher com o sorriso mais gostoso do mundo, junto a José.

Um pouco mais cedo



Em tempo real



sábado, dezembro 06, 2008

quarta-feira, outubro 29, 2008


No fim daquela estrada

havia uma igrejinha

cinco anjos barrocos

dois dedos de prosa

um quarto de cachaça

o tempo que ali resolveu parar

eu olhei para você

e com todas as dúvidas do homem

perguntei

"ora, vamos nos casar?"

e você a mais bela de todas

com os dedos de flores

as estrelas na fronte

o vestido de infinito

sussurou em meu ouvido

"deus me livre, me guarde"


e, depois, com o sorriso no rosto

espantou o meu gemido

"se é para alegria dos olhos
felicidade geral da inexatidão
fique tranquilo que eu caso "


e o Senhor me disse "amém"

sexta-feira, outubro 24, 2008

No peito de um homem feliz bate um jambeiro
bate um jambeiro, bate um jambeiro

No peito de um homem feliz bate um jambeiro
bate um jambeiro a florescer no seu quintal

domingo, outubro 19, 2008

Ode à Shylock

Excelentíssimo Senhor da minha concentração
Marquês das roupas estiradas na cama, ou em qualquer lugar mínimo que lhe pareça aconchego
Duque da vista da minha varanda, cuidadosamente colocada por Deus, unicamente para o seu deleite
Sire do Mundo todo que presumimos por todo
Milord
permita-me dois dedos de meus poemas, para dizer-lhe o que não precisas ouvir

A tua cauda aponta para a via Láctea, os teus olhos apontam para o que tu queres
És o conquistador terrível das tuas vontades, a polícia desbravadora do que não sabes
O sorriso oculto em Da Vinci, que se equivocou ao pintar uma reles
Quando toda a explicação reside no sorriso que dás e que olhos comuns não percebem

Esticador hábil do próprio corpo, que faz dele a ponte entre o prazer e o deleite
Mestre das próprias unhas, elegantemente dispostas ao ato de apenas dizer-lhes:
“eu as tenho”
e calado mostrar quatro bainhas que, de tão nobres,
faz-te apenas expectar que as aceitem

Cavaleiro do próprio corpo, que não precisa de qualquer outro pra completar o trote
Ser completo em si mesmo, dono do próprio dote
eu quero cantar-te porque só sei de mim se contigo, porque não és meu amigo mas mi lorde

E eu que nada sou, nem poeta, nem gente e nunca serei nobre
curvo-me ao que não entendo: letras, ouro, corvo e sorte
curvo-me então aos teus olhos que reclamam a propriedade
do meu corpo, dos meus bens, de tudo que percebem e colhem
pois é este o ato maior de Deus: de ser senhor de tudo o que se pode

E ainda assim, nesta que é a maior de todas as posses, deitar diante de mim
E ofertar-me. O prazer de ser seu senhor e aplacar a minha sede
De não querer ser gente mas este
Mistério indecifrável que tem a mim e eu a ele.
Quantos mundos existirão entre um homem e seus gatos?
quanta assimetria, segredos, confissões
levaram esse que sou a amar
algo tão alheio, tão diverso e ao mesmo tempo próprio
tornar-me o animal de estimação dessa grande ausência
e deixar-me encoleirar por saudade tão diversa

Quantas cidades, quantas pessoas, quantas antlântidas submersas
existirão entre um homem e seus gatos?
Nesse espaço vazio que se assenhora de mim
fica a capacidade de amar o plural
rendido, inutilmente rendido, a um mundo sem animais
bestialmente humano, com essa dignidade reles e torpe
sem os olhos noturnos que contêm o que ainda há de sagrado:
eu me preparo para morrer sem lenda, sem metafísica
pois os homens são, sabem os bichos
os únicos seres que morrem e mais nada.

segunda-feira, outubro 06, 2008


Can you take me back where I came from
Can you take me back
Can you take me back where I came from
Brother can you take me back
Can you take me back?

quinta-feira, outubro 02, 2008

Da série: eu preciso postar no meu blog antes que o Blogger o extinga

Eu não aguento o cheiro da política. PT com Severino Cavalcanti. Democratas levantando a bandeira da ética. Kátia Teles prometendo congelar o preço dos bens em 'recife'. Vereadores prometendo agir como executivo federal. Só tem doido. Exílio na França, já. Aliás na França não, que lá as coisas andam pretas. Quero ir para Transilvânia. Pelo menos os vampiros de lá só sugam o sangue.
Pedra no Peito

Não adianta não, irmão
que a dor não passa não
em vão você se distrai

A sombra extensa da dor
no peito de quem andou
o avesso do mundo
não se desfaz

E quando a noite descer
e no peito você perceber
a anti-flor que brotou rapaz

Repare com atenção
no oco do coração
uma pedra imensa batendo em paz

Das músicas da década de 90

Duas décadas fazem parte do meu imaginário musical:

A década de 80 foi a descoberta da música pop. A tentativa de ouvir o que os adultos ouviam: A-HA, U2, Pet Shop Boys, Joy Division, Depeche Mode, Madonna, Titãs, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, White Snake, Kraftwerk. As fitas eram gravadas diratamente das rádios através de um som "Magnavox". Interessante ver meninos e meninas ouvindo bandas de hoje que seguem uma linha melódica minimalista e "menor", baseada, em parte, na década de 80.

A década de 90 foi minha adolescência e o início da maturidade. O fim do colégio e o início (a0 fim) da Universidade. Acho que ainda não assentou a poeira do tempo passado para eu racionalizar sobre o som dos 90´s.

Mas algumas frases musicais são lindas e me fazem sentir mais jovem quando as ouço:

"There are many things that I like to say to you, but I don´t know how"

"You know I´m such a fool for you"

(...)